

Sobre a psicopatologia da vida cotidiana















VOLUME VI
(1901)















Dr. Sigmund Freud




       SOBRE A PSICOPATOLOGIA DA VIDA COTIDIANA (1901)
         
         
         ESQUECIMENTOS, LAPSOS DA FALA,EQUVOCOS NA AO, SUPERSTIES E ERROS
         
         Nun ist die Luft von solchem Spuk so voll,
         Dass niemand weiss, wie er ihn meiden soll.
         Fausto, Parte II, Ato V, Cena 5
         
         Desses fantasmas tanto se enche o ar,
         Que ningum sabe como os evitar.
         
         
         INTRODUO DO EDITOR INGLS
         ZUR PSYCHOPATHOLOGIE DES ALLTAGSLEBEN (ber Vergessen, Versprechen, Vergreifen, Aberglaube und Irrtum)
         
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1901 Monatsschr. Psychiat. Neurolog. 10 (1) [Julho], 1-32, e (2) [Agosto], 95-143.
         1904 Em forma de livro, Berlim: Karger. 92 pgs. (Reimpresso revista.)
         1907 2 ed. (Ampliada.) Mesmos editores. 132 pgs.
         1910 3 ed. (Ampliada.) Mesmos editores. 149 pgs.
         1912 4 ed. (Ampliada.) Mesmos editores. 198 pgs.
         1917 5 ed. (Ampliada.) Mesmos editores, iv + 232 pgs.
         1919 6 ed. (Ampliada.) Leipzig e Viena: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. iv + 312 pgs.
         1920 7 ed. (Ampliada.) Leipzig, Viena e Zurique: Mesmos editores. iv + 334 pgs.
         1922 8 ed. Mesmos editores. (Reimpresso da anterior.)
         1923 9 ed. Mesmos editores. (Reimpresso da anterior.)
         1924 10. ed. (Ampliada.) Mesmos editores. 310 pgs.
         1924 G.S., 4, 11-310.
         1929 11 ed. Mesmos editores. (Reimpresso da 10 ed.)
         1941 G.W., 4. iv + 322 pgs.
         
         (a) TRADUO INGLESA:
         Psychopathology of Everyday Life
         1914 Londres: Fisher Unwin; Nova Iorque: Macmillan. vii + 342 pgs. (Traduo e Introduo de A. A. Brill.)
         1938 Londres: Penguin Books. (Nova Iorque, 1939.) 218 pgs. (Mesmo trad.)
         1938 Em The Basic Writings of Sigmund Freud, Nova Iorque: Modern Library. Pgs. 35-178. (Mesmo trad.)
         1949 Londres: Ernest Benn. vii + 239 pgs. (Mesmo trad.)
         1958 Londres: Collins. viii + 180 pgs. (Mesmo trad.) 
         
         A presente traduo inglesa, inteiramente nova,  da autoria de Alan Tyson.
         
         Das outras obras de Freud, apenas uma, as Conferncias Introdutrias (1916-17), rivaliza com esta em termos da grande quantidade de edies que teve em 
alemo e do nmero de lnguas estrangeiras para as quais foi traduzida. Em quase cada uma das numerosas edies incluiu-se novo material no livro e, nesse aspecto, 
poder-se-ia pensar em semelhana com A Interpretao dos Sonhos e os Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, aos quais Freud fez constantes acrscimos durante 
toda sua vida. Na verdade, contudo, os casos no se assemelham. Nesses dois outros livros, o material novo, em sua maior parte, consistiu em ampliaes importantes 
ou em correes dos dados clnicos e das concluses tericas. Em Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, a quase totalidade das explicaes e teorias bsicas j 
estava presente nas primeiras edies; a grande massa dos acrscimos posteriores consistiu meramente em exemplos e ilustraes adicionais (parcialmente fornecidos 
pelo prprio Freud, mas sobretudo por seus amigos e discpulos), destinados a esclarecer melhor o que ele j havia examinado. Sem dvida, a Freud compraziam particularmente 
tanto as prprias anedotas quanto a fato de ele receber uma confirmao to ampla de seus pontos de vista. Mas o leitor no consegue deixar de sentir, vez por outra, 
que a profuso de novos exemplos interrompe e at confunde o fio central da argumentao subjacente. (Ver, por exemplo, em [1]-[2] e [3])
         Aqui, como no caso dos livros de Freud sobre os sonhos e os chistes, porm talvez em maior escala, o tradutor tem de enfrentar o fato de que uma grande 
parcela do material com que ir lidar depende de jogos de palavras totalmente intraduzveis. Na verso anterior, Brill deu ao problema uma soluo drstica; omitiu 
todos os exemplos que continham termos impossveis de traduzir para o ingls e inseriu diversos exemplos prprios que ilustravam pontos semelhantes aos omitidos. 
Esse foi, sem dvida, um procedimento inteiramente justificvel naquelas circunstncias. Na poca da verso de Brill, a obra de Freud era quase desconhecida nos 
pases de lngua inglesa e era importante no criar obstculos desnecessrios  divulgao deste livro, expressamente projetado pelo prprio Freud para o leitor 
comum (em [1], nota de rodap). O xito com que Bill logrou esse objetivoevidencia-se pelo fato de que, em 1935, sua traduo j tivera dezesseis edies e muitas 
outras iriam seguir-se a elas. Ademais, os exemplos de Brill eram excelentes em sua maioria e, com efeito, dois ou trs foram includos por Freud em edies posteriores 
do original alemo. Ainda assim, existem objees bvias a que se perpetue essa situao, especialmente numa edio que vise aos estudiosos mais aplicados dos textos 
de Freud. Em alguns casos, por exemplo, a omisso de parte do material ilustrativo de Freud inevitavelmente acarretava a omisso de algum comentrio terico importante 
ou interessante. Alm disso, embora Brill anunciasse em seu prefcio a inteno de "modificar ou substituir alguns dos casos do autor", essas substituies, no texto, 
em geral no so explicitamente indicadas, e o leitor fica s vezes sem saber ao certo se est lendo Freud ou Brill. A traduo de Brill, convm acrescentar, foi 
feita a partir da edio alem de 1912 e permaneceu inalterada em todas as reimpresses posteriores. Desse modo, ela passa ao largo do imenso nmero de acrscimos 
feitos ao texto por Freud nos dez ou mais anos subseqentes. O efeito total das omisses devidas a essas diferentes causas  estarrecedor. Das 305 pginas de texto 
da ltima edio, tal como impressas nas Gesammelte Werke, cerca de 90 a 100 pginas (isto , quase um tero do livro) at hoje nunca foram publicadas em ingls. 
O carter integral da presente traduo, por conseguinte,  contrabalanado pela perda indubitvel de facilidade de leitura, em virtude da poltica da Edio Standard 
de lidar com os jogos de palavras pelo mtodo prosaico de fornecer as expresses originais em alemo e explic-las com o auxlio de colchetes e notas de rodap.
         Encontramos a primeira meno feita por Freud a um ato falho na carta enviada a Fliess em 26 de agosto de 1809 (Freud, 1950a, Carta 94). Ali ele diz: "finalmente 
compreendi uma coisinha de que suspeitava h muito tempo" - o modo como um nome s vezes nos escapa e em seu lugar nos ocorre um substituto completamente errado. 
Um ms depois, a 22 desetembro (ibid., Carta 96), ele d outro exemplo a Fliess, dessa vez o conhecido exemplo de "Signorelli", publicado naquele mesmo ano em forma 
preliminar na Monatsschrift fr Psychiatrie und Neurologie (1898b) e depois usado no primeiro captulo da presente obra. No ano seguinte, a mesma revista publicou 
um artigo de Freud sobre as lembranas encobridoras (1899a), tema que ele tornou a examinar de modo bem diferente no Captulo IV, adiante. No entanto, seu tempo 
estava inteiramente tomado pelo trabalho de terminar A Interpretao dos Sonhos e preparar seu estudo mais breve, Sobre os Sonhos (1901a), e ele s se dedicou seriamente 
a Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana no fim do ano de 1900. Em outubro daquele ano (Freud, 1950a, Carta 139), ele pede a anuncia de Fliess para a utilizao, 
como epgrafe da obra, da citao do Fausto, que de fato veio a ser impressa na pgina de rosto. A 30 de janeiro de 1901 (Carta 141) ele informa que a obra est 
"em ponto morto, semi-acabada, mas logo ter prosseguimento", e a 15 de fevereiro (Carta 142), anuncia que terminar a obra dentro de mais alguns dias. Na verdade, 
ela surgiu em julho e agosto, em duas edies do mesmo peridico de Berlim que havia publicado os estudos preliminares.
         Trs anos depois, em 1904, a obra foi publicada pela primeira vez em volume separado, praticamente sem nenhuma alterao, mas, da por diante, fizeram-se 
acrscimos quase contnuos no decorrer dos vinte anos seguintes. Em 1901 e 1904 o livro tinha dez captulos. Dois outros (que agora constituem os Captulos III e 
XI) foram acrescentados pela primeira vez em 1907. Na biblioteca de Freud foi encontrado um exemplar da edio de 1904 com folhas de anotaes inseridas, nas quais 
ele anotara sucintamente outros exemplos. A maioria destes foi incorporada s edies posteriores: outros, desde que parecessem interessantes, foram aqui includos 
em notas de rodap nos lugares apropriados.
         
         A especial simpatia com que Freud encarava os atos falhos se devia, sem dvida, ao fato de eles serem, juntamente com os sonhos, o que lhe permitiu estender 
 vida psquica normal as descobertas que antes fizera em relao s neuroses. Pela mesma razo ele os empregava regularmente como o melhor material preliminar para 
introduzir nas descobertas da psicanlise os estudiosos que no eram mdicos. Esse material era simples e, pelo menos  primeira vista, imune a objees, alm de 
se referir a fenmenos experimentados por qualquer pessoa normal. Em seus textos expositivos, Freud s vezes preferia os atos falhos aos sonhos, que envolviam mecanismos 
mais complicados e tendiam a conduzir rapidamente para guas mais profundas. Eis por que inaugurou sua grande srie de Conferncias Introdutrias de 1916-17 dedicando 
aos atos falhos as trs primeiras - nas quais, por sinal, reaparecem muitos dos exemplos das pginas seguintes; e deu aos atos falhos prioridade semelhante em suas 
contribuies  revista Scientia (1913j) e  enciclopdia de Marcuse (1923a). Apesar de esses fenmenos serem simples e facilmente explicveis, Freud pde com eles 
demonstrar aquilo que, afinal, foi a tese fundamental estabelecida em A Interpretao dos Sonhos; a existncia de dois modos distintos de funcionamento psquico, 
por ele descritos como os processos primrio e secundrio. Ademais, outra crena bsica de Freud encontrava apoio convincente no exame dos atos falhos - sua crena 
na aplicao universal do determinismo aos eventos psquicos.  nessa verdade que ele insiste no ltimo captulo do livro: teoricamente, seria possvel descobrir 
os determinantes psquicos de cada um dos menores detalhes dos processos anmicos. E talvez o fato de esse objetivo parecer mais fcil de atingir no caso dos atos 
falhos tenha sido outra razo para que exercessem sobre Freud uma atrao especial. De fato, ele tornou a referir-se exatamente a esse ponto em seu breve artigo 
"As Sutilezas de um Ato Falho" (1935b), um de seus ltimos escritos.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
       
       
       CAPTULO I - O ESQUECIMENTO DE NOMES PRPRIOS
         
         
         Na edio da Monatsschrift fr Psychiatrie und Neurologie de 1898 publiquei um pequeno artigo, sob o ttulo "O Mecanismo Psquico do Esquecimento" [Freud, 
1898b], cujo contedo recapitularei aqui e tomarei como ponto de partida para discusso mais ampla. Nele apliquei a anlise psicolgica ao freqente caso do esquecimento 
temporrio de nomes prprios, explorando um exemplo altamente sugestivo extrado de minha auto-observao; e cheguei  concluso de que essa situao especfica 
(reconhecidamente comum e sem muita importncia prtica) em que uma funo psquica - a memria - se recusa a funcionar admite uma explicao de muito maior alcance 
do que a valorizao usual que se d ao fenmeno.
         A menos que eu esteja muito enganado, um psiclogo a quem se pedisse para explicar a razo por que, em tantas ocasies, deixa de nos ocorrer um nome prprio 
que pensamos conhecer perfeitamente se contentaria em responder que os nomes prprios sucumbem mais facilmente ao processo do esquecimento do que outros contedos 
da memria. Ele a
         presentaria razes plausveis para essa preferncia dada aos nomes prprios, mas no suspeitaria que quaisquer outras condies desempenhassem um papel 
em tais ocorrncias.
         Minha preocupao com o fenmeno do esquecimento temporrio de nomes nasceu da observao de certas caractersticas que podem ser reconhecidas com bastante 
clareza em alguns casos individuais, embora, na verdade, no em todos. Trata-se dos casos em que o nome no s  esquecido, como tambm erroneamente lembrado. Em 
nosso af de recuperar o nome perdido, outros - nomes substitutos - nos vm  conscincia; reconhecemos de imediato que so incorretos, mas eles insistem em retornar 
e se impem com grande persistncia. O processo que deveria levar  reproduo do nome perdido foi, por assim dizer, deslocado, e por isso conduziu a um substituto 
incorreto. Minha hiptese  que esse deslocamento no est entregue a uma escolha psquica arbitrria, mas segue vias previsveis que obedecem a leis. Em outras 
palavras, suspeito que o nome ou os nomes substitutos ligam-se demaneira averiguvel com o nome perdido: e espero, se tiver xito em demonstrar essa ligao, poder 
esclarecer as circunstncias em que ocorre o esquecimento de nomes.
         O nome que tentei lembrar em vo, no exemplo escolhido para anlise em 1898, foi o do artista que pintou os afrescos magnficos das "Quatro ltimas Coisas" 
na catedral de Orvieto. Em vez do nome que eu procurava - Signorelli -, impunham-se a mim os nomes de dois outros pintores - Botticelli e Boltraffio - embora fossem 
imediata e decisivamente rejeitados por meu juzo como incorretos. Ao ser informado por outra pessoa do nome correto, reconheci-o prontamente sem hesitao. A investigao 
das influncias e das vias associativas pelas quais a reproduo do nome assim se havia deslocado de Signorelli para Botticelli e Boltraffio levou aos seguintes 
resultados:
         (a) A razo por que o nome Signorelli foi esquecido no deve ser procurada numa peculiaridade do prprio nome, nem em qualquer caracterstica psicolgica 
do contexto em que ele se inseriu. O nome esquecido era-me to familiar quanto um dos nomes substitutos - Botticelli - e muito mais familiar do que o outro nome 
substituto - Boltraffio -, sobre cujo portador eu mal sabia dar outra informao seno a de que pertencia  escola de Milo. Alm disso, o contexto em que o nome 
fora esquecido me parecia inofensivo e no me trouxe maiores esclarecimentos. Eu viajava em companhia de um estranho, indo de Ragusa, na Dalmcia, para um lugar 
na Herzegovina: nossa conversa voltou-se para o assunto das viagens pela Itlia, e perguntei a meu companheiro de viagem se ele j estivera em Orvieto e se vira 
ali os famosos afrescos pintados por...
         (b) O esquecimento do nome s foi esclarecido quando me lembrei do assunto que estvamos discutindo pouco antes, e revelou ser um caso de perturbao do 
novo tema emergente pelo tema que o antecedeu. Pouco antes de perguntar a meu companheiro de viagem se ele j estivera em Orvieto, conversvamos sobre os costumes 
dos turcos que vivem na Bsnia e na Herzegovina. Eu lhe havia contado o que ouvira de um colega que trabalhou em meio a essas pessoas - que elas costumam ter grande 
confiana no mdico e total resignao ao destino. Quando se  obrigado a lhes dizer que nada pode ser feito por um doente, respondem: "Herr [Senhor], o que se h 
de dizer? Se fosse possvel salv-lo, sei que o senhor o teria salvo." Nessas frases encontramos pela primeira vez as palavras e nomes Bsnia, Herzegovinae Herr, 
que podem ser inseridas numa seqncia associativa entre Signorelli e Botticelli - Boltraffio.
         (c) Suponho que essa seqncia de pensamentos sobre os costumes dos turcos na Bsnia etc. adquiriu a capacidade de perturbar o pensamento subseqente por 
eu ter afastado a ateno dela antes que fosse concluda. De fato, lembro-me de ter querido contar uma segunda anedota, que em minha memria estava prxima da primeira. 
Esses turcos conferem ao gozo sexual um valor maior que o de qualquer outra coisa, e, na eventualidade de distrbios sexuais, caem num desespero que contrasta estranhamente 
com sua resignao ante a ameaa de morte. Certa vez, um dos pacientes de meu colega lhe disse: "Sabe Herr, quando isso acaba, a vida no tem nenhum valor." Suprimi 
a comunicao desse trao caracterstico por no querer tocar nesse tema numa conversa com um estranho. Mas fiz algo mais: tambm desviei minha ateno da continuao 
dos pensamentos que poderiam ter-me surgido a partir do tema "morte e sexualidade". Naquela ocasio, eu ainda estava sob a influncia de uma notcia que me chegara 
algumas semanas antes, durante uma breve estada em Trafoi. Um paciente a quem eu me havia dedicado muito pusera fim a sua vida por causa de um distrbio sexual incurvel. 
Tenho certeza de que esse triste acontecimento e tudo o que se relacionava com ele no me vieram  lembrana consciente durante essa viagem a Herzegovina. Mas a 
semelhana entre "Trafoi" e "Boltraffio" fora-me a supor que essa reminiscncia, apesar de minha ateno ter sido de liberadamente desviada disso, passou a atuar 
em mim na poca [da conversa].
         (d) J no me  possvel considerar o esquecimento do nome Signorelli como um evento casual. Sou forado a reconhecer a influncia de um motivo nesse processo. 
Foi um motivo que fez com que eu me interrompesse na comunicao de meus pensamentos (a respeito dos costumes dos turcos etc.), e foi um motivo que, alm disso, 
influenciou-me a impedir que se conscientizassem em mim os pensamentos ligados a eles, que tinham levado  notcia recebida em Trafoi. Eu queria, portanto, esquecer 
algo; havia recalcado algo.  verdade que no queria esquecer o nome do artista de Orvieto, mas sim outra coisa - essa outra coisa, contudo, conseguiu situar-se 
numa conexo associativa com seu nome, tanto que meu ato de vontade errou o alvo e esqueci uma coisa contra minha vontade, quando queria esquecer intencionalmente 
a outra. A averso ao recordar dirigia-se contra um dos contedos;esqueci uma coisa contra minha vontade, quando queria esquecer intencionalmente a outra. A averso 
ao recordar dirigia-se contra um dos contedos; a incapacidade de lembrar surgiu no outro. Obviamente, o caso seria mais simples se a averso e a incapacidade de 
lembrar estivessem com o mesmo contedo. Alm disso, os nomes substitutos j no me parecem to inteiramente injustificados como antes da elucidao do assunto: 
por uma espcie de compromisso, eles me lembram tanto aquilo que eu queria esquecer quanto o que queria recordar e me indicam que minha inteno de esquecer algo 
no foi nem um xito completo nem um fracasso total.
         (e) Muito notvel  a natureza do enlace que se estabeleceu entre o nome perdido e o tema recalcado (o tema da morte e sexualidade etc., em que apareceram 
os nomes Bsnia, Herzegovina e Trafoi). O diagrama esquemtico que agora intercalo, e que foi extrado do artigo de 1898 [Fig. 1], visa a dar uma imagem clara desse 
enlace:
         O nome Signorelli foi dividido em duas partes. Um dos pares de slabas (elli) ressurge inalterado num dos nomes substitutos, enquanto o outro, atravs da 
traduo de Signor para Herr, adquiriu numerosas 
         
         Fig. 1
         e variadas relaes com os nomes contidos no tema recalcado, mas, por esse motivo,no ficou disponvel para a reproduo [consciente]. Seu substituto [para 
Signor] foi criado como se tivesse havido um deslocamento ao longo da conexo de nomes "Herzegovina e Bsnia'', sem qualquer considerao ao sentido ou aos limites 
acsticos das slabas. Assim, os nomes foram tratados nesse processo como os pictogramas de uma frase destinada a se transformar num enigma figurado (ou rbus). 
De todo o curso de acontecimentos que por tais caminhos produziu, em vez do nome Signorelli, os nomes substitutos, nenhuma informao foi dada  conscincia.  primeira 
vista parece impossvel descobrir qualquer relao entre o tema em que ocorreu o nome Signorelli e o tema recalcado que o precedeu no tempo, salvo por esse retorno 
das mesmas slabas (ou melhor, seqncias de letras).
         Talvez no seja demais assinalar que as condies que os psiclogos presumem ser necessrias para reproduzir e para esquecer, por eles buscadas em certas 
relaes e predisposies, no so incompatveis com a explicao precedente. Tudo o que fizemos, em certos casos, foi acrescentar um motivo aos fatores reconhecidos 
desde longa data como capazes de promover o esquecimento de um nome; ademais, elucidamos o mecanismo da iluso de memria. Tambm em nosso caso essas predisposies 
so indispensveis para possibilitar ao elemento recalcado apoderar-se, por associao, do nome esquecido, arrastando-o consigo para o recalcamento. No caso de outro 
nome com condies mais favorveis de reproduo, isso talvez no acontecesse. Com efeito,  provvel que o elemento suprimido sempre lute por prevalecer em algum 
outro lugar, mas s tenha xito quando depara com condies favorveis. Em outras ocasies, a supresso sobrevm sem qualquer perturbao funcional, ou, como podemos 
dizer com razo, sem qualquer sintoma.
         As condies necessrias para se esquecer um nome, quando o esquecimento  acompanhado de iluso de memria, podem ser resumidas da seguinte maneira: (1) 
certa predisposio para esquecer o nome, (2) um processo de supresso realizado pouco antes, (3) a possibilidade de se estabelecer uma associao externa entre 
o nome em questo e o elemento previamente suprimido.  provvel que no devamos superestimar a dificuldade de satisfazer esta ltima condio, de vez que, levando 
em conta os requisitos mnimos esperados desse tipo de associao,  possvel estabelec-la na grande maioria dos casos. Entretanto, existe a questo maisprofunda 
da saber se tal associao externa pode realmente ser condio suficiente para que o elemento recalcado perturbe a reproduo do nome perdido - se no haveria necessidade 
de alguma ligao mais ntima entre os dois temas. Numa considerao superficial, tenderamos a rejeitar esta ltima exigncia e a aceitar como suficiente a contigidade 
temporal entre ambos, mesmo com contedos completamente diferentes. Numa investigao aprofundada, porm, descobre-se com freqncia cada vez maior que os dois elementos 
enlaados por uma associao externa (o elemento recalcado e o novo) possuem tambm alguma ligao de contedo; com efeito, tal ligao  demonstrvel no exemplo 
de Signorelli.
         O valor do conhecimento que adquirimos ao analisar o exemplo de Signorelli depende,  claro, de querermos declar-lo um caso tpico ou uma ocorrncia isolada. 
Devo pois afirmar que o esquecimento de nomes, acompanhado por uma iluso de memria [Epinnerungstnschung], ocorre com freqncia incomum tal como o esclarecemos 
no caso de Signorelli. Quase todas as vezes em que pude observar esse fenmeno em mim mesmo, pude tambm explic-lo da maneira descrita acima, ou seja, como motivado 
pelo recalcamento. Devo ainda chamar a ateno para outra considerao que confirma a natureza tpica de nossa anlise. Penso no haver justificativa para se fazer 
uma separao terica entre os casos em que o esquecimento de nomes  acompanhado por iluso de memria e os outros em que no ocorrem nomes substitutos incorretos. 
Esses nomes substitutos surgem espontaneamente em alguns casos; noutros, nos quais no afloraram espontaneamente, pode-se obrig-los a emergir mediante um esforo 
da ateno, e eles exibem ento com o elemento recalcado e com o nome ausente a mesma relao que teriam caso tivessem aparecido espontaneamente. Dois fatores parecem 
decisivos para trazer  conscincia os nomes substitutos: primeiro, o esforo da ateno e, segundo, uma condio interna ligada ao material psquico. Poderamos 
buscar esta ltima na maior ou menor facilidade com que se estabelece a necessria associao externa entre os dois elementos. Assim, boa parte dos casos de esquecimento 
de nomes sem iluso de memria pode ser acrescentada aos casos em que se formam nomes substitutos, aosquais se aplica o mecanismo do exemplo de Signorelli. No entanto, 
certamente no ousarei afirmar que todos os casos de esquecimento de nomes devem ser classificados no mesmo grupo. No h dvida de que existem exemplos muito mais 
simples. Penso que teremos enunciado os fatos com suficiente cautela se afirmarmos: junto aos casos simples de esquecimento de nomes prprios, existe tambm um tipo 
de esquecimento motivado pelo recalque.
         
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       CAPTULO II - O ESQUECIMENTO DE PALAVRAS ESTRANGEIRAS
         
         
         O vocabulrio corrente de nossa prpria lngua, quando confinado s dimenses do uso normal, parece protegido contra o esquecimento, Notoriamente, o mesmo 
no acontece com o vocabulrio de uma lngua estrangeira. A predisposio para esquec-la estende-se a todas as partes da fala, e um primeiro estgio de perturbao 
funcional revela-se na medida desigual com que dispomos do vocabulrio estrangeiro, conforme nosso estado geral de sade e o grau de nosso cansao. Numa srie de 
casos, esse tipo de esquecimento exibe o mesmo mecanismo que nos foi revelado pelo exemplo de Signorelli. Para provar isso, apresentarei uma nica anlise, mas que 
se distingue por algumas caractersticas teis: trata-se do esquecimento de uma palavra que no era um substantivo numa citao latina. Peo permisso para fazer 
um relato amplo e explcito desse pequeno incidente.
         No vero passado - tambm durante uma viagem de frias -. renovei meu contato com um jovem de formao acadmica, que logo constatei estar familiarizado 
com algumas de minhas publicaes psicolgicas. Nossa conversa recaiu - j no me lembro como - sobre a situao social da raa a que ambos pertencemos, e ele, impelido 
pela ambio, passou a lamentar-se por sua gerao estar condenada  atrofia (segundo sua expresso), no podendo desenvolver seus talentos ou satisfazer suas necessidades. 
Concluiu seu discurso, de tom apaixonado, com o clebre verso de Virglio em que ainfeliz Dido confia  posteridade sua vingana de Enias: "Exoriare..." Melhor 
dizendo, ele quis conclu-lo desse modo, pois no conseguiu fazer a citao e tentou esconder uma evidente lacuna em sua lembrana trocando a ordem das palavras: 
"Exoriar(e) ex nostris ossibus ultor.'' Por fim, disse, irritado: "Por favor, no me faa essa cara to zombeteira, como se se estivesse comprazendo com meu embarao, 
mas antes me ajude! Falta alguma coisa no verso. Como  mesmo que diz, completo?"
         "Ajudarei com prazer", respondi, e dei-lhe a citao correta: "Exoriar(e) ALIQUIS nostris ex ossibus ultor."
         "Que tolice, esquecer essa palavra! Por falar nisso, o senhor diz que nunca se esquece nada sem uma razo. Gostaria muito de saber como foi que esqueci 
esse pronome indefinido, 'aliquis'."
         Aceitei o desafio prontamente, na esperana de conseguir uma contribuio para minha coleo. Disse-lhe, pois:
         -Isso no nos deve tomar muito tempo. S tenho que lhe pedir que me diga, sinceramente e sem nenhuma crtica, tudo o que lhe ocorre enquanto estiver dirigindo, 
sem nenhuma inteno definida, sua ateno para a palavra esquecida.
         -"Certo; ento me ocorre a idia ridcula de dividir a palavra assim: a e liquis."
         -O que quer dizer isso?
         -"No sei." - E o que mais lhe ocorre? - "Isso continua assim: Reliquien [relquias], liquefazer, fluidez, fluido. O senhor j descobriu alguma coisa?"
         -No, ainda no. Mas continue.
         -"Estou pensando" - prosseguiu ele com um sorriso irnico - "em Simo de Trento, cujas relquias vi h dois anos numa igreja de Trento. Estou pensando na 
acusao de sacrifcios de sangue que agora est sendo lanada de novo contra os judeus, e no livro de Kleinpaul [1892], que v em todas essas supostas vtimas reencarnaes, 
reedies, por assim dizer, do Salvador."
         -Essa idia no est inteiramente desligada do tema de nossa conversa antes que lhe escapasse da memria a palavra latina.
         
         -"Exato. Estou pensando ainda num artigo que li recentemente num jornal italiano. Acho que o ttulo era 'O que diz Santo Agostinho sobre as mulheres'. Que 
entende o senhor com isso?"
         -Estou esperando.
         -"Pois agora vem algo que por certo no tem nenhuma ligao com o nosso tema."
         -Por favor, peo-lhe que se abstenha de qualquer crtica e...
         -"Sim, j sei. Lembro-me de um magnfico senhor idoso que encontrei numa de minhas viagens na semana passada. Ele era realmente original. Parecia uma enorme 
ave de rapina. Chamava-se Benedito, se isso lhe interessa."
         -Bem, pelo menos temos uma seqncia de santos e padres da Igreja: So Simo, Santo Agostinho, So Benedito. Acho que havia um padre da Igreja chamado Orgenes. 
Alm disso, trs desses nomes so tambm prenomes, como Paul [Paulo] em Kleinpaul.
         -"Agora o que me ocorre  So Janurio e o milagre de seu sangue - parece que meus pensamentos avanam mecanicamente."
         -Deixe estar; So Janurio e Santo Agostinho tm a ver, ambos, com o calendrio. Mas que tal me ajudar a lembrar do milagre do sangue?
         -"O senhor com certeza j ouviu falar nisso! O sangue de So Janurio fica guardado num pequeno frasco, numa igreja de Npoles, e num determinado dia santo 
ele se liquefaz milagrosamente. O povo d muita importncia a esse milagre e fica muito agitado quando h algum atraso, como aconteceu, certa vez, na poca em que 
os franceses ocupavam a cidade. Ento, o general comandante - ou ser que estou enganado? ser que foi Garibaldi? - chamou o padre de lado e, com um gesto inequvoco 
na direo dos soldados a postos do lado de fora, deu-lhe a entender que esperava que o milagre acontecesse bem depressa. E, de fato, o milagre ocorreu..."
         -Bem, continue. Por que est hesitando?
         -" que agora realmente me ocorreu uma coisa... mas  ntima demais para ser comunicada... Alm disso, no vejo nenhuma ligao nem qualquer necessidade 
de cont-lo".
         -Pode deixar a ligao por minha conta.  claro que no posso for-lo a falar sobre uma coisa que lhe seja desagradvel; mas ento no queira saber de 
mim como foi que se esqueceu da palavra aliquis.
         -"Realmente? O senhor acha? Pois bem,  que de repente pensei numa dama de quem eu poderia receber uma notcia que seria bastante desagradvel para ns 
dois."
         -Que as regras dela no vieram?
         -"Como conseguiu adivinhar isso?"
         
         -J no  difcil. Voc preparou bem o terreno. Pense nos santos do calendrio, no sangue que comea a fluir num dia determinado, na perturbao quando 
esse acontecimento no se d, na clara ameaa de que o milagre tem que se realizar, se no... Na verdade, voc usou o milagre de So Janurio para criar uma esplndida 
aluso s regras das mulheres.
         -"Sem me dar conta disso. E o senhor realmente acha que foi essa expectativa angustiada que me deixou impossibilitado de reproduzir uma palavra to insignificante 
como aliquis?"
         -Parece-me inegvel. Basta lembrar sua diviso em a-liquis, e suas associaes: relquias, liquefazer, fluido. So Simo foi sacrificado quando criana; 
devo continuar, e mostrar como ele entra nesse contexto? O senhor pensou nele partindo do tema das relquias.
         -''No, prefiro que no faa isso. Espero que o senhor no leve muito a srio esses meus pensamentos, se  que realmente os tive. Em troca, quero confessar 
que a dama  italiana e que estive em Npoles com ela. Mas ser que tudo isso no  apenas obra do acaso?"
         -Tenho que deixar a seu critrio decidir se todas essas relaes podem ser explicadas pela suposio de que so obra do acaso. Posso dizer-lhe, no entanto, 
que qualquer caso semelhante que voc queira analisar ir lev-lo a "acasos" igualmente notveis.
         Tenho diversas razes para dar valor a essa pequena anlise e sou grato a meu ex-companheiro de viagem por ter-me presenteado. Em primeiro lugar, porque, 
nesse caso, pude recorrer a uma fonte que habitualmente me  negada. Para os exemplos aqui reunidos de perturbaes de uma funo psquica na vida cotidiana, tenho 
de recorrer principalmente  auto-observao. Empenho-me em evitar o material muito mais rico fornecido por meus pacientes neurticos, j que, de outro modo, poder-se-ia 
objetar que os fenmenos em questo so meras conseqncias e manifestaes da neurose. Por isso,  particularmente valiosopara meus objetivos que uma outra pessoa 
que no sofra de doena nervosa se oferea como objeto de tal investigao. Essa anlise  significativa em outro aspecto: ela esclarece o caso do esquecimento de 
uma palavra sem que aparea um substituto na memria. Confirma, portanto, minha afirmao anterior [em [1]] de que o surgimento ou no-surgimento de substitutos 
incorretos na memria no pode ser usado como base para qualquer distino radical.
         Entretanto, a grande importncia do exemplo do aliquis reside em outro dos aspectos em que ele difere do caso de Signorelli. Neste ltimo, a reproduo 
do nome foi perturbada pelo efeito prolongado de uma seqncia de pensamentos iniciada e interrompida pouco antes, mas cujo contedo no tinha nenhuma relao clara 
com o novo tema em que se inclua o nome de Signorelli. A contigidade temporal forneceu a nica relao entre o tema recalcado e o temado nome esquecido, mas isso 
bastou para que eles fossem concatenados numa associao externa. Por outro lado, no exemplo do aliquis, nada indica a existncia de um tema assim, recalcado e independente, 
que tivesse ocupado pouco antes o pensamento consciente e deixado seus ecos numa perturbao. Nesse exemplo, a reproduo foi perturbada em virtude da prpria natureza 
do tema abordado pela citao, por erguer-se inconscientemente um protesto contra a idia desejante nela expressa. A situao dever ser interpretada da seguinte 
maneira: o falante vinha deplorando o fato de a gerao atual de seu povo estar privada de seus plenos direitos; uma nova gerao - profetizou ele, como Dido - haveria 
de vingar-se dos opressores. Nisso ele expressara seu desejo de ter descendentes. Nesse momento intrometeu-se um pensamento contraditrio: "Voc realmente deseja 
descendentes com tanta intensidade? Isso no  verdade. Quanto no lhe seria embaraoso receber agora a notcia de que espera descen-dentes do lugar que voc sabe? 
No: nada de descendentes... por mais que precisemos deles para a vingana." Essa contradio ento se afirma exatamente pelos mesmos meios que no exemplo de Signorelli 
- estabelecendo uma associao externa entre um de seus elementos de representao e um dos elementos do desejo repudiado; e dessa vez, de fato, ela o faz de maneira 
extremamente arbitrria, valendo-se de uma via associativa indireta que tem toda a aparncia de artificialidade. Uma segunda coincidncia essencial entre esse caso 
e o exemplo de Signorelli est em que a contradio se enraza em fontes recalcadas e decorre de pensamentos que acarretariam um desvio da ateno.
         Isto  o que tenho a dizer sobre as diferenas e a afinidade interna entre esses dois modelos tpicos do esquecimento de palavras. Ficamos conhecendo um 
segundo mecanismo do esquecimento - a perturbao de um pensamento por uma contradio interna proveniente do recalcado. Dentre os dois processos, penso ser este 
o mais fcil de se entender; e tornaremos a encontr-lo vrias vezes no decorrer desta discusso.
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       CAPTULO III - O ESQUECIMENTO DE NOMES E SEQNCIAS DE PALAVRAS
         
         
         Observaes como as anteriores [Captulo II] sobre o processo de esquecimento de parte de uma seqncia de palavras numa lngua estrangeira despertam nossa 
curiosidade de saber se o esquecimento de seqncias de palavras em nossa prpria lngua exige uma explicao essencialmente diversa. Com efeito, no costumamos 
surpreender-nos quando uma frmula ou um poema sabidos de cor s conseguem ser reproduzidos sem fidelidade depois de algum tempo, com alteraes e lacunas. Entretanto, 
de vez que esse esquecimento no atua uniformemente sobre a totalidade do que foi aprendido, parecendo, ao contrrio desarticular partes isoladas, talvez valha a 
pena submeter  investigao analtica alguns exemplos de tal reproduo falha.
         Conversando comigo, um colega mais jovem disse achar provvel que o esquecimento de poemas em nossa prpria lngua bem poderia ter motivos semelhantes aos 
do esquecimento de elementos singulares de uma seqncia de palavras em lngua estrangeira. Ao mesmo tempo, ele se ofereceu para ser objeto de uma experincia. Perguntei-lhe 
com que poema gostaria de fazer o teste, e ele escolheu "Die Braut von Korinth", poema de que gostava muito e do qual acreditava saber pelo menos algumas estrofes 
de cor. No comeo da reproduo ele foi tomado de uma incerteza realmente notvel. "O texto  'Viajando de Corinto para Atenas'", perguntou, "ou 'Viajando para Corinto 
desde Atenas'?" Tambm eu hesitei por um momento, at observar, rindo, que o ttulo do poema, "A Noiva de Corinto", no deixava nenhuma dvida sobre a direo em 
que viajava o rapaz. A reproduo da primeira estrofe sobreveio ento sem dificuldade ou, pelo menos, sem qualquer falsificao marcante. Por algum tempo meu colega 
pareceu buscar o primeiro verso da segunda estrofe; logo continuou, recitando:
         
         Aber wird er auch willkommen scheinen,
         Jetzt, wo jeder Tag was Neues bringt?
         Denn er ist noch Heide mit den Seinen
         Und sie sind Christen und - getauft.
         
         Antes que ele chegasse a esse ponto, eu j estranhara, aguando os ouvidos, e uma vez terminado o ltimo verso, ambos concordamos em que alguma distoro 
havia ocorrido. Mas, como no conseguimos corrigi-la, corremos  biblioteca para consultar os poemas de Goethe e descobrimos, surpresos, que o segundo verso da estrofe 
tinha um teor completamente diferente, que fora, por assim dizer, expulso da memria do meu colega e substitudo por algo aparentemente estranho. A verso correta 
dizia:
         Aber wird er auch willkommen scheinen,
         Wenn er teuer nicht die Gunst erkauft?
         "Erkauft" rima com "getauft" ["batizado" no quarto verso], e pareceu-me curioso que a constelao "pago", "cristo", e "batizado" o tivesse ajudado to 
pouco a recompor o texto.
         "Voc pode me explicar", perguntei a meu colega, "como foi que eliminou to completamente um verso de um poema que diz conhecer to bem, e ser que tem 
alguma idia do contexto de onde retirou o substituto?"
         Ele pde dar uma explicao, embora, obviamente, com alguma relutncia. "O verso 'Jetzt, wo jeder Tag was Neues bringt' me parece familiar; devo ter usado 
essas palavras h pouco tempo ao me referir a minha prtica profissional, com cuja prosperidade, como o senhor sabe, estou agora muito satisfeito. Mas como se encaixou 
a essa frase? Poderia indicar uma relao. 
         
         Evidentemente, o verso 'Wenn er teuer nicht die Gunst erkauft' me desagradou. Ele se relaciona com uma proposta de casamento que foi rejeitada da primeira 
vez e que, tendo em vista a grande melhoria em minha situao material, penso agora em repetir. No lhe posso dizer mais nada, mas, se for aceito agora, por certo 
no me ser agradvel pensar que, tanto antes quanto hoje, uma espcie de clculo pesou na balana."
         Isso me pareceu esclarecedor, mesmo sem que eu pudesse conhecer maiores detalhes. Continuei, porm, com minhas perguntas: "De qualquer modo, como foi que 
voc e seus assuntos particulares se mesclaram com o texto da 'Noiva de Corinto'? Ser que existem em seu caso diferenas de credo religioso como as que desempenham 
um papel importante no poema?"
         
         (Keimt ein Glaube neu,
         Wird oft Lieb' und Treu
         Wie ein bses Unkraut ausgerauft.)
         
         Errei na suposio, mas foi curioso observar como uma nica pergunta bem-dirigida deu-lhe uma sbita perspiccia, de modo que ele pde dar como resposta 
algo de que certamente no tinha conhecimento at ento. Lanou-me um olhar aflito e contrariado, murmurando para si uma passagem posterior do poema.
         
         Sieh sie an genau!
         Morgen ist sie grau.
         
         e acrescentou resumidamente: "Ela  um pouco mais velha do que eu." Para evitar mago-lo mais, interrompi a indagao. A explicao pareceu-me suficiente. 
Mas foi sem dvida surpreendente que a tentativa de localizar a causa de uma falha inofensiva na memria esbarrasse em assuntos to remotos e ntimos da vida particular 
do sujeito, investidos de um afeto to penoso.
         Eis aqui outro exemplo, fornecido por Jung (1907, 64), em que h esquecimento de uma seqncia de palavra num poema famoso. Citarei as palavras do prprio 
autor.
         "Um homem tentava recitar o famoso poema que comea com 'Ein Fichtenbaum steht einsam.' No verso que comea por 'Ihn schlfert',ele estancou irremediavelmente, 
pois se esquecera por completo das palavras 'mit weisser Decke [com um lenol branco]'. O esquecimento de algo num verso to conhecido pareceu-me surpreendente, 
e por isso o fiz reproduzir o que lhe ocorria em relao a 'mit weisser Decke'. Surgiu-lhe a seguinte srie de associaes: 'Um lenol branco faz pensar numa mortalha 
- um lenol de linho para se cobrir um morto' - (pausa) - 'agora me ocorre um amigo ntimo - seu irmo teve h pouco morte repentina - dizem que morreu de um ataque 
cardaco - ele tambm era muito corpulento - meu amigo tambm  corpulento, e j me ocorreu que isso tambm poderia acontecer com ele - provavelmente, ele faz muito 
pouco exerccio - quando soube da morte de seu irmo, fiquei de repente angustiado com a idia de que isso tambm poderia acontecer comigo;  que temos em nossa 
famlia uma tendncia a engordar, e meu av tambm morreu de ataque cardaco; reparei que tambm estou gordo demais, e por isso comecei recentemente um regime para 
emagrecer.'
         "Assim," comenta Jung, "o homem se havia identificado de imediato, inconscientemente, com o pinheiro envolto na mortalha branca."
         
         O prximo exemplo [1] de esquecimento de uma seqncia de palavras, que devo a meu amigo Sndor Ferenczi, de Budapeste, difere dos precedentes por se referir 
a uma expresso cunhada pelo prprio sujeito, e no a uma frase tomada de um autor. O exemplo tambm nos apresenta o caso no muito comum em que o esquecimento se 
pe a servio de nosso bom senso, quando este ameaa sucumbir a um desejo momentneo. Por conseguinte, o ato falho adquire uma funo til. Uma vez recobrada nossa 
sobriedade, damos valor  correo dessa corrente interna, que antes s se pudera exprimir atravs de uma falha - um esquecimento, uma impotncia psquica.
         "Numa reunio social algum citou 'Tout comprende c'est tout pardonner'. Comentei que a primeira parte da sentena bastava; o 'perdoar' era uma arrogncia 
que deveria ser deixada a Deus e aos sacerdotes. Uma das pessoas presentes achou muito boa essa observao, o que me animou a dizer - provavelmente com a inteno 
de garantir a opinio favorvel do crtico benevolente - que eu pensara recentemente em algo ainda melhor. Mas quando tentei repeti-lo, constatei que me havia escapado. 
Afastei-me imediatamente do grupo e anotei as associaes encobridoras [ou seja, as representaes substitutivas]. Primeiro me ocorreram o nome do amigo e o da rua 
de Budapest que haviam testemunhado o nascimento da idia que eu estava procurando; a seguir veio o nome do outro amigo, Max, a quem costumamos chamar de Maxi. Isso 
me levou  palavra 'mxima' e  lembrana de que dessa vez (como em meu comentrio original) tratava-se de uma variao de uma mxima famosa. Curiosamente, meu pensamento 
seguinte no foi uma mxima, mas esta frase: 'Deus criou o homem  sua imagem', e depois a mesma idia, ao contrrio: 'O homem criou Deus  sua imagem.' Ato contnuo, 
surgiu a lembrana daquilo que eu procurava. Naquela poca, na rua Andrssy, meu amigo me dissera: 'Nada humano me  estranho', ao que eu retrucara, aludindo s 
descobertas da psicanlise: 'Voc deveria ir mais longe e admitir que nada animal lhe  estranho.'
         "Entretanto, depois de finalmente recordar o que procurava, foi-me ainda menos possvel repeti-lo na roda social em que me encontrava. Entre as pessoas 
presentes estava a jovem esposa do amigo a quem eu relembrara a animalidade do inconsciente, e tive de reconhecer que ela de modo algum estava preparada para acolher 
essas verdades to desagradveis. Meu esquecimento poupou-me uma srie de perguntas incmodas por parte dela e uma discusso improfcua. Esse deve ter sido precisamente 
o motivo de minha 'amnsia temporria'.
         " interessante que me ocorresse como associao encobridora uma frase em que a divindade  rebaixada  condio de uma inveno humana, ao passo que, na 
frase esquecida, havia uma aluso ao animal no homem. Capitis deminutio [isto , a privao da condio que se possua] , portanto, o elemento comum a ambas. Evidentemente, 
todo o assunto no passa de uma continuao da cadeia de idias sobre compreender e perdoar, instigada pela conversa.
         "Nesse caso, a ocorrncia to rpida daquilo que eu buscava talvez tambm se tenha devido a minha retirada imediata para um aposento vazio, saindo da roda 
social em que isso era censurado."
         Empreendi desde ento vrias outras anlises de casos de esquecimento ou reproduo errnea de uma seqncia de palavras, e o coincidente resultado dessas 
investigaes inclinou-me a supor que o mecanismo de esquecimento acima demonstrado, nos exemplos do "aliquis" [em [1]] e de "A Noiva de Corinto", [em [1]] tem validade 
quase universal. Geralmente  um pouco embaraoso comunicar essas anlises, de vez que, tal como as que acabo de citar, elas levam constantemente a assuntos ntimos 
e desagradveis para a pessoa analisada. Por isso no pretendo aumentar o nmero desse exemplos. O comum a todos esses casos, independentemente do material,  o 
fato de o esquecido ou distorcido estabelecer uma ligao, por alguma via associativa, com um contedo de pensamento inconsciente - um contedo de pensamento que 
 fonte do efeito manifestado no esquecimento.
         Volto agora ao esquecimento de nomes. At aqui, no esgotamos o exame nem da casustica nem dos motivos subjacentes. Como esse  exatamente o tipo de ato 
falho que s vezes observo abundantemente em mim mesmo, no me  difcil apresentar exemplos. Os leves ataques de enxaqueca de que ainda padeo costumam anunciar-se 
horas antes por um esquecimento de nomes, e, no auge desses ataques, durante os quais no sou forado a abandonar meu trabalho,  freqente desaparecerem de minha 
memria todos os nomes prprios. Ora, so exatamente os casos como o meuque poderiam dar motivos para uma objeo de princpio aos nossos esforos analticos. Acaso 
no se deveria concluir dessas observaes, necessariamente, que a causa do esquecimento, em particular do esquecimento de nomes, est em distrbios da circulao 
e da funo cerebrais em geral, e no deveramos, portanto, poupar-nos a busca de explicaes psicolgicas para esses fenmenos? De maneira alguma, no meu entender; 
isso seria confundir o mecanismo de um processo, que  idntico em todos os casos, com os fatores favorecedores do processo, que so variveis e no necessrios. 
Em vez de uma discusso detalhada, porm, apresentarei uma analogia para lidar com essa objeo.
         Suponhamos que eu tenha sido imprudente o bastante para passear de noite num bairro deserto da cidade, onde me hajam assaltado e roubado meu relgio e minha 
carteira. No posto policial mais prximo, comunico a ocorrncia com as seguintes palavras: "Eu estava na rua tal e tal, e l o isolamento e a escurido tiraram meu 
relgio e minha carteira." Embora, com essa afirmao, eu no dissesse nada de inverdico, o texto de minha comunicao me exporia ao risco de pensarem que no estou 
muito certo da cabea. Esse estado de coisas s poderia ser corretamente descrito dizendo que, favorecidos pelo isolamento do lugar e protegidos pela escurido, 
malfeitores desconhecidos roubaram meus objetos de valor. Ora, a situao no esquecimento de nomes no tem por que ser diferente; favorecida pelo cansao, por distrbios 
circulatrios e por uma intoxicao, uma fora psquica desconhecida rouba-me o acesso aos nomes prprios pertencentes  minha memria - uma fora que, em outros 
casos, pode ocasionar a mesma falha da memria quando se est com sade e eficincia plenas.
         Quando analiso os casos de esquecimento de nomes que observo em mim mesmo, quase sempre descubro que o nome retido se relaciona com um tema que me  de 
grande importncia pessoal e que  capaz de evocar em mim afetos intensos e quase sempre penosos. Segundo a praxe conveniente e louvvel da escola de Zurique (Bleuler, 
Jung, Riklin), tambm posso formular esse fato da seguinte maneira: o nome perdido tocou num "complexo pessoal" em mim. A relao do nome comigo me  inesperada 
e em geral se estabelece atravs de associaes superficiais (tais como a ambigidade verbal ou a homofonia); em termos genricos, ela pode ser caracterizada como 
uma relao colateral. Alguns exemplos simples esclarecero melhor sua natureza:
         (1)Um paciente pediu que eu lhe recomendasse uma estao de guas na Riviera. Eu conhecia um lugar assim bem perto de Gnova e tambm me lembrava do nome 
de um colega alemo que ali trabalhava, mas o nome do lugar em si me escapou, por mais que eu achasse conhec-lo tambm. No me restou outro recurso seno pedir 
ao paciente que esperasse, enquanto eu consultava apressadamente as mulheres de minha famlia. "Como  mesmo o nome do lugar perto de Gnova onde o Dr. N. tem seu 
pequeno sanatrio, aquele em que fulana esteve em tratamento por tanto tempo?" "Claro, justamente voc  que havia de esquecer esse nome. O lugar se chama Nervi." 
Devo admitir que j tenho um bocado de trabalho com os nervos.
         (2)Outro paciente falava sobre uma estao de veraneio prxima e declarou que, alm das duas hospedarias famosas de l, havia uma terceira relacionada com 
certa lembrana dele; no tardaria em me dizer o nome. Contestei a existncia dessa terceira hospedaria e apelei para o fato de ter passado sete veres ali, donde 
deveria conhecer o lugar melhor do que ele. Mas, estimulado por minha contradio, ele j se havia lembrado do nome. A hospedaria chamava-se "Hochwartner". Tive 
ento que ceder e at confessar-lhe que, por sete veres, eu morara bem perto dessa hospedaria cuja existncia havia negado. Nesse caso, por que teria eu esquecido 
tanto o nome quanto a coisa? Creio que foi porque o som desse nome era parecido demais com o de um colega meu, especialista em Viena, e como no caso anterior, tocou 
em mim no "complexo profissional".
         (3)Noutra ocasio, quando estava prestes a comprar uma passagem na estao ferroviria de Reichenhall, no houve meio de me ocorrer o nome da estao principal 
seguinte, que era perfeitamente familiar e por onde eu j havia passado com muita freqncia. Fui at forado a procurar o nome no guia dos horrios. Era "Rosenheim". 
Soube ento de imediato em virtude de que associao o nome me havia escapado. Uma hora antes eu visitara minha irm em sua casa, perto de Reichenhall; como o nome 
da minha irm  Rosa, sua casa era tambm um "Rosenheim" ["lar de Rosa"]. O "complexo familiar" me havia roubado esse nome.
         
         (4)Tenho uma multiplicidade de exemplos para ilustrar as atividades francamente bandidescas do "complexo familiar".
         Um dia veio a meu consultrio um rapaz que era irmo mais moo de uma paciente. Eu o vira inmeras vezes e costumava referir-me a ele pelo nome de batismo. 
Depois, quando quis falar sobre sua visita, percebi que havia esquecido seu nome (que eu sabia no ser nada incomum), e no houve meio que me ajudasse a recuper-lo. 
Sa ento para a rua e, pela leitura dos letreiros sobre as lojas, reconheci seu nome to logo deparei com ele. A anlise do episdio mostrou-me que eu traara um 
paralelo entre o visitante e meu prprio irmo, paralelo este que tentava culminar na pergunta recalcada: "Ter-se-ia meu irmo comportado de maneira semelhante nessas 
mesmas circunstncias, ou teria ele feito o contrrio?" O vnculo externo entre os pensamentos concernentes a minha prpria famlia e  outra foi possibilitado pela 
situao fortuita de que, em ambos os casos, as mes tinham o mesmo nome: Amalia. Entendi tambm, posteriormente [nachtrglich], os nomes substitutos, Daniel e Franz, 
que se haviam impostos a mim sem me fornecer nenhum esclarecimento. Estes, bem como Amalia, so nomes da [pea] Die Ruber [Os Ladres], de Schiller, e foram alvo 
de uma piada feita por Daniel Spitzer, o "caminhante vienense".
         (5)Numa outra ocasio, eu no conseguia achar o nome de um paciente que pertencia a relaes da minha juventude. Minha anlise seguiu um caminho muito tortuoso 
antes de fornecer o nome que eu procurava. O paciente expressara um medo de perder a viso, o que despertou a lembrana de um rapaz que ficara cego com um tiro; 
e, por sua vez, isso se relacionava com a figura de mais outro jovem que se ferira com um tiro. Este ltimo tinha o mesmo sobrenome do primeiro paciente, apesar 
de no ter com ele nenhum parentesco. Entretanto, s encontrei o nome depois de me conscientizar de minha transferncia de uma expectativa angustiada desses dois 
casos juvenis para uma pessoa da minha prpria famlia.
         Portanto, meus pensamentos so perpassados por uma corrente contnua de "auto-referncia" da qual, em geral, no tenho nenhum indcio, mas que se denuncia 
atravs desses exemplos de esquecimentos de nomes.  como se eu estivesse obrigado a comparar comigo tudo o que ouo a respeito de outra pessoas; como se meus complexos 
pessoais fossem postos em alerta todas as vezes que tenho notcia de outra pessoa.  impossvel que isso seja uma peculiaridade individual minha; deve conter, antes, 
uma indicao da maneira como entendemos o "outro" em geral. Tenho razes para supor que, nesse aspecto, as outras pessoas sejam bem parecidas comigo.
         O mais belo desses exemplos foi-me contado por um Sr. Lederer, que passara por essa experincia pessoalmente. Durante sua lua-de-mel em Veneza, ele encontrou 
um senhor a quem conhecia superficialmente e teve de apresent-lo  jovem esposa. No entanto, como havia esquecido o nome desse estranho, socorreu-se na primeira 
vez com um murmrio ininteligvel. Ao esbarrar no cavalheiro pela segunda vez, como era inevitvel em Veneza, ele o afastou para um lado e lhe pediu que o tirasse 
de seu embarao dizendo-lhe seu nome, que ele lamentava ter esquecido. A resposta do estranho atestou um conhecimento incomum da natureza humana. "Bem posso acreditar 
que tenha esquecido meu nome.  o mesmo que o seu; Lederer!" No se pode evitar uma ligeira sensao de desagrado quando se esbarra no prprio nome numa pessoa desconhecida. 
H pouco tempo senti isso claramente quando se apresentou em meu consultrio um Sr. S. Freud. (Contudo, devo registrar a garantia de um de meus crticos de que, 
nesse aspecto, seus sentimentos so o oposto dos meus.)
         (6)Os efeitos produzidos pela "auto-referncia" tambm podem ser vistos no seguinte exemplo relatado por Jung (1907, 52):
         "Um certo Sr. Y. apaixonou-se infrutiferamente por uma dama que pouco depois se casou com um Sr. X. A partir da, apesar de conhecer o Sr. X h muito tempo 
e at manter relaes comerciais com ele, o Sr. Y. passou a esquecer seu nome repetidamente, tanto que em vrias ocasies teve de indagar a outras pessoas qual era, 
quando queria corresponder-se com o Sr. X."
         
         Mas a motivao do esquecimento nesse caso  mais transparente do que nos anteriores, enquadrados na constelao da auto-referncia. Aqui, o esquecimento 
parece ser conseqncia direta da antipatia do Sr. Y. por seu rival mais afortunado; no quer saber nada do rival: "nunca saber de sua existncia".
         (7)O motivo do esquecimento de um nome tambm pode ser mais sutil, consistir no que se poderia chamar de um ressentimento "sublimado" contra seu portador. 
Assim, de Budapest, escreve a Srta. I. von K.:
         "Formulei para mim uma pequena teoria. Tenho observado que as pessoas com talento para a pintura no tm sensibilidade musical e vice-versa. Faz algum tempo, 
conversando com algum a esse respeito, comentei: 'At agora minhas observaes sempre foram confirmadas, com a exceo de uma nica pessoa.' Quando quis lembrar 
o nome dessa pessoa, constatei que o havia esquecido irremediavelmente, apesar de saber que seu portador era um de meus amigos mais chegados. Passados alguns dias, 
ao ouvir por acaso mencionarem o nome, logo entendi que estavam falando do destruidor de minha teoria. O ressentimento que eu nutria inconscientemente contra ele 
se expressara pelo esquecimento de seu nome, costumeiramente to familiar para mim."
         (8) O caso que se segue, relatado por Ferenczi, mostra uma maneira um pouco diferente de a auto-referncia levar ao esquecimento de um nome. Sua anlise 
 particularmente instrutiva pela explicao dada s associaes substitutas (como Botticelli e Boltraffio, substitutos de Signorelli [em [1]]).
         "Uma dama que ouvira falar de psicanlise no conseguia lembrar-se do nome do psiquiatra Jung.
         "Em vez deste, ocorreram-lhe os seguintes nomes: K1 - (um sobrenome), Wilde, Nietzsche, Hauptmann.
         "No lhe forneci o nome e convidei-a a associar livremente o que lhe ocorre em relao a cada um desses nomes.
         "A partir de K1, ela pensou imediatamente na Sra. K1 - e em como era uma pessoa cerimoniosa e afetada, mas com muito boa aparncia para sua idade. 'Ela 
no envelhece.' Como caracterizao comum para Wilde e Nietzsche, falou em 'doena mental'. Depois, disse em tom zombeteiro: 'Vocs, freudianos, vo continuar procurando 
as causas da doena mental at vocs mesmos ficarem loucos.' Depois: 'No suporto Wilde e Nietzsche. No os entendo. Ouvi dizer que ambos eram homossexuais; Wilde 
se relacionava com gente jovem.' (Apesar de j ter enunciado nessa frase o nome correto - em hngaro,  verdade -, ela ainda assim no conseguiu lembr-lo.)
         "Sobre Hauptmann ocorreu-lhe primeiro 'Halbe' e, depois, 'Jugend'; e s ento, depois que lhe chamei a ateno para a palavra 'Jugend', foi que ela entendeu 
que estivera em busca do nome Jung.
         "Essa dama, que perdera o marido aos trinta e nove anos e no tinha perspectiva de voltar a casar-se, decerto tinha razes suficientes para evitar tudo 
o que a fizesse lembrar da juventude ou da idade.  digno de nota que as ocorrncias encobridoras do nome buscado estivessem exclusivamente associadas com o contedo, 
no havendo associaes sonoras."
         (9) Eis um exemplo de esquecimento de nome com outra motivao muito sutil, explicado pelo prprio sujeito afetado:
         "Quando eu fazia uma prova de filosofia como matria complementar, o examinador interrogou-me sobre a doutrina de Epicuro e, depois disso, perguntou se 
eu sabia quem a havia retomado em sculos posteriores. Respondi com o nome de Pierre Gassendi, que eu ouvira descreverem como discpulo de Epicuro dois dias antes, 
num caf. Ante a pergunta surpresa sobre como eu sabia disso, respondi atrevidamente que h muito me interessava por Gassendi. A conseqncia foi um magna cum laude 
[com louvor] no diploma, porm, infelizmente, tambm uma obstinada tendncia posterior a esquecer o nome de Gassendi. Creio que minha conscincia pesada  culpada 
de minha impossibilidade de lembrar esse nome, apesar de todos os meus esforos.  que, na verdade, tambm naquela ocasio eu no deveria t-lo sabido."
         Para que se avalie a intensidade da averso de nosso informante  recordao desse episdio do exame,  preciso que se saiba do grande valor que ele confere 
a seu doutorado e das inmeras outras coisas s quais este tem que servir de substituto.
         (10) Intercalo aqui outro exemplo de esquecimento do nome de uma cidade. Talvez no seja to simples quanto os j citados [em [1] e [2]] mas,para qualquer 
um que esteja algo familiarizado com essas investigaes, parecer digno de crdito e valioso. O nome de uma cidade da Itlia escapou  memria do sujeito em conseqncia 
de sua grande semelhana fontica com um prenome de mulher a que se ligavam muitas lembranas carregadas de afeto, que sem dvida no so integralmente relatadas 
aqui. Sndor Ferenczi, de Budapeste, que observou em si mesmo esse caso de esquecimento, tratou-o da maneira como se analisa um sonho ou uma idia neurtica - por 
certo, com toda a razo.
         "Estive hoje visitando uma famlia amiga e a conversa se voltou para as cidades do norte da Itlia. Algum observou que elas ainda exibem traos da influncia 
austraca. Algumas dessas cidades foram mencionadas e tambm eu quis citar uma delas, mas seu nome no me ocorreu, embora eu soubesse que ali havia passado dois 
dias muito agradveis - um fato que no combinava muito com a teoria de Freud sobre o esquecimento. Em vez do nome buscado, as seguintes associaes impuseram-se 
a mim: Capua - Brescia - O Leo de Brescia.
         "Visualizei esse 'Leo' sob a forma de uma esttua de mrmore postada diante de mim como um objeto concreto, mas logo reparei que ele se parecia menos com 
o leo do Monumento  Liberdade em Brescia (que s vi numa ilustrao) do que com o outro famoso leo de mrmore que vi no monumento aos mortos em Lucerna - o monumento 
aos guardas suos tombados nas Tulherias, do qual tenho um rplica em miniatura na minha estante. E ento me ocorre finalmente o nome buscado: era Verona.
         "Ao mesmo tempo, entendi prontamente quem era a culpada dessa minha amnsia. Ningum seno uma antiga empregada da famlia de quem eu era convidado nessa 
ocasio. Seu nome era Veronika (Verona, em hngaro) e eu tinha por ela uma intensa antipatia, por causa de sua fisionomia repulsiva, de sua voz esganiada e rouca 
e sua confiana insuportvel, a que ela achava ter direito por longo tempo de servio. Tambm a maneira tirnica com que, em sua poca, ela costumava tratar as crianas 
da casa me era intolervel. E ento compreendi tambm o sentido das associaes substitutas.
         "Minha associao imediata com Capua foi caput mortuum [cabea de morto]. Muitas vezes comparei a cabea de Veronika a uma cabea de defunto. A palavra 
hngara "kapzsi" (avaro) sem dvida forneceu mais um determinante para o deslocamento. Descobri tambm,  claro, as vias associativas muito mais diretas que ligam 
Capua e Verona como idias geogrficas e como palavras italianas que tm o mesmo ritmo.
         
         "O mesmo vale para Brescia, mas tambm aqui encontram-se vias colaterais entrelaadas na associao de idias.
         "Naquela poca minha antipatia era to violenta que eu achava Veronika decididamente asquerosa, e mais de uma vez manifestei meu assombro de que, apesar 
disso, ela pudesse ter uma vida amorosa e ser amada por algum. 'Beij-la', dizia eu, 'deve provocar nuseas!' E por certo fazia muito tempo que se poderia vincul-la 
 idia dos guardas suos tombados.
         " muito freqente se mencionar Brescia, pelo menos aqui na Hungria, no em conexo com o leo, mas com outro animal selvagem. O nome mais odiado neste 
pas, como tambm no norte da Itlia,  o do general Haynau, comumente conhecido como a 'Hiena de Brescia'. Assim, um fio de meu pensamento levava do odiado tirano 
Haynau, via Brescia, para a cidade de Verona, enquanto o outro levava, atravs da idia do animal de voz rouca que freqenta os tmulos dos mortos (o que contribui 
para determinar a emergncia de um monumento aos mortos), para a cabea de defunto e a voz desagradvel de Veronika, to grosseiramente insultada por meu inconsciente, 
pessoa que em sua poca agira naquela casa de maneira quase to tirnica quanto o general austraco depois das lutas dos hngaros e italianos pela liberdade.
         "A Lucerna liga-se a idia do vero que Veronika passou com os patres nas cercanias da cidade de Lucerna, junto ao lago do mesmo nome. A Guarda Sua, 
por sua vez, lembra que ela sabia tiranizar no s as crianas, mas tambm os adultos da famlia, e se comprazia [sich gefallen] no papel de 'Garde-Dame' [governanta, 
dama de companhia, literalmente 'guarda de senhoras'].
         "Devo assinalar expressamente que essa minha antipatia por Veronika  - conscientemente - um coisa h muito superada. Desde aquela poca, tanto sua aparncia 
quanto suas maneiras mudaram muito, para melhor, e posso trat-la (embora para isso tenha raras oportunidades) com sentimentos sinceramente amistosos. Como de hbito, 
meu inconsciente se aferra com mais tenacidade a minhas impresses [anteriores]: ele  "de efeito posterior" e rancoroso.
         
         "As Tulherias so uma aluso a outra pessoa, uma dama francesa idosa que, em muitas ocasies, realmente 'guardava' as mulheres da casa; era respeitada por 
todos, jovens e velhos - e sem dvida um pouco temida tambm. Por algum tempo fui seu lve [aluno] de conversao em francs. A palavra lve recorda-me ainda que, 
estando em visita ao cunhado de meu atual anfitrio, no norte da Bomia, achei muita graa ao saber que os camponeses do lugar chamavam os lves da escola florestal 
de 'Lwen' [lees]. Tambm essa lembrana divertida pode ter desempenhado um papel no deslocamento da hiena para o leo."
         (11) Tambm o exemplo seguinte mostra como um complexo pessoal que domine a pessoa num dado momento provoca o esquecimento de um nome com base numa ligao 
muito remota.
         "Dois homens, um mais velho e um mais moo, que seis meses antes haviam feito juntos uma viagem  Siclia, trocavam lembranas daqueles dias bonitos e memorveis. 
'Vejamos', disse o mais jovem, 'como se chamava o lugar onde pernoitamos antes de nossa excurso a Selinunte? Calatafimi, no ?' O mais velho discordou: 'No, tenho 
certeza de que no era isso, mas tambm esqueci o nome, embora me lembre muito bem de todos os detalhes de nossa estada l. Basta eu saber que algum esqueceu um 
nome para que isso logo me faa esquec-lo tambm. [Cf. adiante, em [1]] Quer que procuremos o nome? O nico que me ocorre  Caltanisetta, que com certeza no  
o correto.' - 'No', disse o mais jovem, 'o nome comea com w ou ento contm w.' - 'Mas no existe w em italiano', objetou o mais velho. 'Eu quis dizer v, e s 
falei w por estar muito acostumado com ele em minha lngua.' O homem mais velho manteve sua objeo ao v. 'Alis', declarou, 'acho que j esqueci uma poro de nomes 
sicilianos, e essa  uma boa hora para fazermos algumas experincias. Por exemplo, qual era o nome daquele lugar elevado que na Antigidade se chamava Enna? Ah, 
j sei - Castrogiovanni.' No instante seguinte o homem mais moo recuperou o nome perdido. 'Castelvetrano', exclamou, satisfeito por poder apontar o v em que havia 
insistido. Durante algum tempo, o mais velho no teve nenhuma sensao de reconhecimento, mas depois de ter aceito o nome, coube-lheexplicar por que o havia esquecido 
'Evidentemente', disse, 'porque a segunda metade, "-vetrano", soa como "veterano". 'Sei que no gosto muito de pensar em envelhecer e tenho reaes estranhas quando 
me lembram disso. Por exemplo, recentemente usei os mais curiosos disfarces para acusar um amigo muito estimado de ter perdido a juventude h muito tempo, e isso 
porque, numa ocasio anterior, em meio s observaes mais lisonjeiras a meu respeito, esse amigo havia acrescentado que eu "j no era um homem jovem". Outro indcio 
de que minha resistncia estava voltada contra a segunda metade do nome Castelvetrano  que seu som inicial ressurgiu no nome substituto Caltanisetta.' 'E quanto 
ao prprio nome Caltanisetta?', perguntou o mais jovem. 'Esse', confessou o mais velho, 'sempre me pareceu ser um apelido carinhoso para uma mulher jovem.'
         "Algum tempo depois, acrescentou: 'Evidentemente, o nome para Enna tambm era um nome substituto. E agora me ocorre que Castrogiovanni - o nome que se imps 
ao primeiro plano com a ajuda de uma racionalizao - soa como "giovane", jovem, assim como o nome perdido, Castelvetrano, soa como "veterano", velho.'
         "O homem mais velho acreditou ter assim esclarecido seu esquecimento do nome. No foram investigados os motivos da mesma falha de memria no mais moo."
         No s os motivos, mas tambm o mecanismo que rege o esquecimento de nomes merecem nosso interesse. Num grande nmero de casos um nome  esquecido, no 
porque ele prprio desperte esses motivos, mas porque - graas  semelhana fontica e  homofonia - ele toca em outro nome contra o qual se voltam esses motivos. 
Como  compreensvel, esse relaxamento das condies facilita extraordinariamente a ocorrncia do fenmeno.  o que mostram os seguintes exemplos:
         (12)Relatado pelo Dr. Eduardo Hitschmann (1913a): "O senhor N. queria dar a algum o nome da livraria Gilhofer e Ranschburg [de Viena]. Por mais que pensasse, 
entretanto, s lhe ocorria o nome Ranschburg, embora ele conhecesse muito bem a firma. Voltou para casa meio insatisfeito e achou o assunto suficientemente importante 
para perguntar a seu irmo (que aparentemente j estava dormindo) qual era a primeira metade do nome. O irmo o forneceu sem hesitao. Nisto ocorreu ao Sr. N. a 
palavra 'Gallhof', como associao a 'Gillhofer'. Gallhof era o lugar onde, alguns meses antes, ele dera um memorvel passeio com uma jovem atraente. Como lembrana, 
a moa o presenteara com um objeto que trazia a inscrio 'Recordao da horas felizes em Gallhof ["Gallhoerf Stunden", literalmente "horas de Galhof"]'. Dias antes 
do esquecimento do nome, esse presente fora seriamente danificado, aparentemente de modo acidental, quando N. fechou uma gaveta depressa demais. N. reparou nisso 
com um certo sentimento de culpa, familiarizado que estava com o sentido dos atos sintomticos. [Ver Captulo IX.] Na poca, seus sentimentos em relao  jovem 
eram algo ambivalentes: por certo a amava, mas estava hesitante frente ao desejo dela de se casarem."
         (13)Relatado pelo Dr. Hanns Sachs: "Ao conversar sobre Gnova e seus arredores, um rapaz quis mencionar o lugar chamado Pegli, mas s com esforo conseguiu 
lembrar o nome, depois de muito refletir. A caminho de casa, ia meditando sobre o modo desagradvel como lhe escapara um nome to familiar e, ao faz-lo, foi conduzido 
a uma palavra de som muito semelhante: Peli. Ele sabia haver uma ilha com esse nome nos Mares do Sul, cujos habitantes ainda conservaram alguns hbitos notveis. 
Lera sobre eles recentemente, numa obra de etnologia, e decidira nesse momento usar as informaes para apoiar uma hiptese prpria. Ocorreu-lhe ento que Peli era 
tambm o cenrio de um romance que ele havia lido com interesse e prazer - o Van Zantens glcklichste Zeit [A poca mais Feliz de Van Zanten], de Laurids Bruun. 
Os pensamentos que o haviam ocupado quase incessantemente durante o dia centralizavam-se numa carta, recebida naquela mesma manh, de uma dama que lhe era muito 
querida. Essa carta o fizera temer que tivesse de renunciar a um encontro marcado. Depois de passar o dia inteiro com um pssimo humor, ele sara  noite, decidido 
a no se atormentar mais com esses pensamentos irritantes, e sim a desfrutar, com a maior serenidade possvel, da reunio social que tinha  frente e que lhe era 
de extremo valor.  claro que essa sua resoluo poderia ser gravemente posta em risco pela palavra Pegli, por ser to estreita a sua semelhana sonora com Peli; 
Peli, por sua vez, por ter adquirido um vnculo pessoal com ele atravs do interesse etnolgico, corporificava no s a 'poca mais feliz' de Van Zanten, mas tambm 
a sua, e portanto tambm os medos e angstias que ele alimentara o dia inteiro.  caracterstico que essa simples interpretao s lhe chegasse assim que uma segunda 
carta transformou suas dvidas na certeza feliz de rev-la em breve."
         
         Se esse exemplo faz lembrar um outro que lhe , por assim dizer, vizinho, no qual no se conseguia recordar o topnimo Nervi (Exemplo 1 [em [1]]), verifica-se 
como o duplo sentido de uma palavra pode ser substitudo por duas palavras de som semelhante.
         (14)Ao deflagrar-se a guerra contra a Itlia, em 1915, pude fazer em mim mesmo a observao de que toda uma srie de nomes de lugares italianos, que de 
hbito me eram prontamente acessveis, subtraiu-se de repente de minha memria. Como muitos outros alemes, eu havia criado o hbito de passar parte das minhas frias 
em solo italiano, e no pude duvidar de que esse macio esquecimento de nomes era a expresso de uma compreensvel animosidade pela Itlia, substituindo agora minha 
predileo anterior. Mas, alm desse esquecimento de nomes diretamente motivado, tambm se identificou uma amnsia indireta com origem na mesma influncia. Mostrei 
tambm uma tendncia a esquecer topnimos no-italianos e, investigando esses incidentes, descobri que tai nomes tinham alguma ligao, por meio de vagas semelhanas 
de som, com os nomes inimigos proscritos. Assim, um dia me atormentei tentando lembrar o nome da cidade de Bisenz, na Morvia. Quando ele finalmente me ocorreu, 
reconheci de imediato que esse esquecimento devia ser posto na conta do Palazzo Bisenzi, em Orvieto. O Hotel Belle Arti, onde eu me hospedara em todas as minhas 
visitas a Orvieto, situa-se nesse "palazzo". As lembranas mais preciosas,  claro, tinham sido as mais prejudicadas pela mudana em minha atitude emocional.
         Alguns exemplos ajudaro tambm a nos lembrar da diversidade de propsito a cujo servio pode colocar-se o ato falho do esquecimento de nomes.
         (15)Relatado por A. J. Storfer (1914): ''Certa manh, uma dama residente em Basilia recebeu a notcia de que sua amiga de infncia, Selma X., de Berlim, 
ento em viagem de lua-de-mel, estava de passagem por Basilia, mas ali permaneceria apenas um dia; por isso a dama de Basilia apressou-se a chegar logo ao hotel. 
Quando as amigas se separaram, combinaram reencontrar-se  tarde e permanecer juntas at a hora da partida da dama berlinense.
         " tarde, a dama de Basilia esqueceu o encontro marcado. Desconheo os determinantes desse esquecimento, mas, nessa situao (encontro com uma amiga de 
infncia recm-casada), so possveis diversas constelaes tpicas capazes de determinar uma inibio contra a repetio do encontro. O ponto de interesse nesse 
caso est em outro ato falho, que representa uma proteo inconsciente para o primeiro. Na hora em que deveria estar-se reencontrando com a amiga de Berlim, a dama 
de Basilia se achava numa roda social em outro lugar. Ali, a conversa recaiu sobre o casamento recente da cantora vienense de pera de sobrenome Kurz. A dama de 
Basilia teceu alguns comentrios crticos (!) sobre esse casamento, mas, ao querer referir-se  cantora pelo nome, descobriu com enorme embarao que no conseguia 
lembrar-se de seu nome de batismo. (Como se sabe, h uma tendncia especial a se mencionar tambm o prenome, nos casos em que o sobrenome  monossilbico.) A dama 
de Basilia irritou-se ainda mais com seu lapso de memria porque j ouvira a Kurz cantar muitas vezes e, comumente, sabia muito bem seu nome (completo). Antes que 
algum mencionasse o prenome desaparecido, a conversa tomou outro rumo.
         "Na noite desse mesmo dia, nossa dama de Basilia estava entre algumas pessoas que, em parte, eram as mesmas daquela tarde. Por coincidncia, a conversa 
tornou a recair no casamento da cantora vienense e, sem qualquer dificuldade, a dama citou o nome 'Selma Kurz'. E nesse instante exclamou: 'Oh! Acabo de me lembrar: 
esqueci por completo que hoje  tarde tinha um encontro com minha amiga Selma!' Uma olhadela no relgio mostrou que a amiga j devia ter partido."
         Talvez ainda no estejamos preparados para apreciar esse belo exemplo em todos os seus aspectos.  mais simples o caso seguinte, embora no se tratasse 
do esquecimento de um nome e sim de uma palavra estrangeira, por um motivo criado pela situao. (J podemos notar que estamos lidando com os mesmos processos, quer 
eles se apliquem a nomes prprios, prenomes, palavras estrangeiras ou seqncias de palavras.) Foi o caso de um jovem que esqueceu a palavra inglesa correspondente 
a "ouro" - que  idntica  palavra alem ("Gold") - para, desse modo, ter oportunidade de praticar uma ao que desejava.
         (16)Relatado pelo Dr. Hanns Sachs: "Um rapaz travou conhecimento numa penso com uma moa inglesa que lhe agradou. Na primeira noite aps se conhecerem, 
ele conversava com a moa na lngua materna desta, que conhecia razoavelmente bem, e quis empregar a palavra ingls para 'ouro'. Apesar de seus imensos esforos, 
o vocbulo no lhe ocorreu. Em vez dele, a palavra francesa or, a latina aurum e a grega chrysos impuseram-se obstinadamente como substitutas, tanto que ele s conseguiu 
rejeit-las a muito custo, embora soubesse com certeza que no tinham parentesco algum com a palavra procurada. Por fim, o nico caminho que encontrou para se fazer 
entender foi tocar num anel de ouro na mo da moa, ficando muito envergonhado ao saber por ela que a palavra to procurada para denotar ouro era exatamente idntica 
 alem, ou seja, 'gold'. O grande valor desse contato, propiciado pelo esquecimento, no estava meramente na satisfao inobjetvel da pulso de pegar ou tocar 
- pois para isso existem outras oportunidades avidamente exploradas pelos enamorados -, porm, muito mais, no modo como contribuiu para esclarecer as perspectivas 
do flerte. O inconsciente da dama, sobretudo se sentisse simpatia pelo homem com quem ela conversava, adivinharia o objetivo ertico do esquecimento, oculto por 
sua mscara de inocncia. A maneira de ela corresponder ao contato e aceitar sua motivao poderia, assim, tornar-se um meio - inconsciente para ambos, mas muito 
significativo - de chegarem a um entendimento sobre as possibilidades do flerte iniciado pouco antes."
         (17)Narro ainda, segundo J. Strcke (1916), outra observao interessante que concerne ao esquecimento e  recuperao de um nome prprio. Esse caso se 
distingue pela ligao entre o esquecimento do nome e um equvoco na citao de algumas palavras de um poema, como no exemplo da "Noiva de Corinto" [em [1]].
         "Z., um velho jurista e fillogo, contava numa roda como, em seus tempos de estudantes na Alemanha, conhecera um aluno excepcionalmente estpido, e teve 
muitas anedotas a contar sobre essa estupidez. Mas no conseguiu lembrar o nome do estudante; achou que comeava com W, mas depois reconsiderou essa idia. Lembrou-se 
de que esse aluno estpido mais tarde se tornara comerciante de vinhos. Depois, ao contar outra anedota sobre a estupidez do rapaz, tornou a exprimir seu espanto 
pelo fato de seu nome no lhe ocorrer, e disse: 'Ele era to burro que at hoje no entendo como consegui martelar-lhe o latim na cabea.' No momento seguinte, lembrou-se 
de que o nome procurado terminava em '. man'. Nesse ponto, perguntamos se lhe ocorria algum outro nome terminado em 'man' e ele disse: 'Erdmann' [homem da terra].'- 
'Quem  esse?' - 'Um outro estudante daquela poca.' - Sua filha, porm, observou que havia tambm um professor Erdmann. Uma averiguao mais rigorosa revelou que 
esse professor Erdmann era editor de uma revista e, recentemente, s aceitara publicar em forma abreviada um trabalho apresentado por Z., do qual discordava em parte 
etc., e Z. ficara bastante aborrecido com isso. (Ademais, descobri posteriormente que, anos antes, Z. provavelmente tivera expectativas de se tornar professor da 
mesma disciplina agora lecionada pelo professor Erdmann, e tambm nesse aspecto o nome talvez tivesse tocado num ponto sensvel.)
         "E ento, de repente, ocorreu-lhe o nome do estudante estpido: 'Lindeman!' Como j se lembrara de que o nome terminava em 'man', 'Linde [tlia]', era o 
que permanecera recalcado por mais tempo. Ao se perguntar o que lhe ocorria ao pensar em 'Linde', ele disse a princpio: 'Absolutamente nada.' Quando insisti em 
que sem dvida lhe ocorreria alguma coisa relacionada com essa palavra, ele respondeu, erguendo os olhos e fazendo um gesto com a mo no ar: 'Ora, uma tlia ['Linde'] 
 uma rvore bonita.' Nada mais lhe ocorreu. Todos ficaram calados e cada um prosseguiu em suas leituras ou outros afazeres, at que, passados alguns momentos, Z. 
fez a seguinte citao em tom sonhador:
         
         Steht er mit festen 
         Gefgigen Knochen
         Auf der Erde,
         So reicht er nicht auf
         Nur mit der Linde
         Oder der Rebe
         Sich zu vergleichen.
         
         "Dei um grito de triunfo: 'A est o nosso Erdmann [homem da terra]!' E disse: 'O homem que "se ergue sobre a terra", ou seja, o homem da terra ou Erdmann, 
no  suficientemente grande para se comparar nem com a tlia (Lindeman) nem com a videira (o comerciante de vinhos). Em outras palavras, nosso Lindeman, o estudante 
estpido que mais tarde se tornou comerciante de vinhos, certamente era um asno, mas nosso Erdmann,  ainda muito mais burro e nem sequer se pode comparar ao Lindeman.' 
No inconsciente, essa linguagem irnica ou insultuosa  bastante comum; por isso, pareceu-me que agora se havia encontrado a causa principal do esquecimento do nome.
         "Perguntei, ento, de que poema provinham os versos citados. Z. disse que era um poema de Goethe, que ele achava comear assim:
         
         Edel sei der Mensch
         Hilfreich und gut!
         
         e que continha tambm os versos:
         
         Und hebt er sich aufwrts,
         So spielen mit ihm die Winde.
         
         "No dia seguinte, verifiquei esse poema de Goethe e viu-se que o caso era ainda mais belo (apesar de ser tambm mais complexo) do que parecera a princpio.
         "(a)Os primeiros versos citados dizem (cf. a citao acima):
         
         Steht er mit festen
         Markigen Knochen.
         
         "'Gefgige Knochen [ossos flexveis]' seria uma combinao muito estranha, mas no quero ir mais a fundo nesse ponto.
         "(b)Os versos seguintes dessa estrofe dizem (cf. a citao acima):
         
         ...Auf der wohlgegrndeten
         Dauernden Erde,
         Reicht er nicht auf,
         Nur mit der Eiche
         Oder der Rebe
         Sich zu vergleichen.
         Portanto, em todo o poema no h meno a tlia alguma! A troca de 'carvalho' por 'tlia' (em seu inconsciente) ocorreu apenas para possibilitar o jogo 
de palavras 'terra - tlia - videira'.
         "(c)Esse poema se chama 'Grenzen der Menschheit [Os Limites da Humanidade]' e compara a onipotncia dos deuses com o poder insignificante do homem. Mas 
o poema que comea por
         
         Edel sei der Mensch
         Hilfreich und gut!
         
          outro e se encontra algumas pginas adiante [no livro]. Seu ttulo  'Das Gottliche. [A Natureza Divina]', e tambm ele contm pensamentos sobre os deuses 
e os homens. Como no se examinou a questo mais a fundo, posso no mximo supor que certos pensamentos sobre a vida e a morte, o temporal e o eterno, e a vida frgil 
e a morte futura do prprio sujeito tambm tenham desempenhado um papel na gnese desse caso."
         Em alguns desses exemplos  preciso recorrer a todas as sutilezas da tcnica psicanaltica para explicar o esquecimento de um nome. Quem quiser conhecer 
melhor essa tarefa poder consultar um artigo de Ernest Jones, de Londres (1911a), j traduzido para o alemo.
         (18)Ferenczi observou que o esquecimento de nomes tambm pode aparecer como um sintoma histrico. Nessa situao, ele mostra um mecanismo muito diferente 
do que  prprio dos atos falhos. A natureza dessa diferena  esclarecida por suas prprias palavras:
         "Tenho agora em tratamento uma paciente, uma solteirona j envelhecida, a quem deixam de ocorrer os nomes prprios mais usuais e mais conhecidos dela, se 
bem que, afora isso, sua memria seja boa. No decorrer da anlise, ficou claro que mediante esse sintoma ela visa a documentar sua ignorncia. Essa exibio ostensiva 
de sua ignorncia, contudo, , na verdade, uma censura a seus pais, que no lhe permitiram receber instruo superior. Tambm sua torturante compulso a fazer limpeza 
('psicose da dona de casa') provm, em parte, da mesma fonte. Com isso ela quer dizer algo como: 'Vocs me transformaram numa empregada.'"
         Eu poderia citar outros exemplos do esquecimento de nomes e levar seu exame muito mais longe, no fosse por querer evitar, neste primeiro estgio, a antecipao 
de quase todos os pontos de vista destinados  discusso de temas posteriores. Entretanto, talvez possa permitir-me resumir em algumas frases as concluses extradas 
das anlises aqui relatadas:
         O mecanismo do esquecimento de nomes (mais corretamente, de os nomes escaparem da memria, serem temporariamente esquecidos) consisteem que a pretendida 
reproduo do nome sofre a interferncia de uma cadeia de pensamentos estranha, no consciente no momento. Entre o nome assim perturbado e o complexo perturbador 
existe uma conexo preexistente; ou essa conexo se estabelece, quase sempre de maneiras aparentemente artificiais, atravs de associaes superficiais (externas).
         Entre os complexos perturbadores, os mais eficazes mostram ser os auto-referentes (ou seja, os complexos pessoal, familiar e profissional).
         Um nome com mais de um sentido e, portanto, pertencente a mais de um grupo de pensamentos (complexos)  muitas vezes perturbado em sua relao com uma seqncia 
de pensamentos, em virtude de sua participao em outro complexo mais forte.
         Entre os motivos para essas interferncias destaca-se o propsito de evitar que as lembranas despertem desprazer.
         Em geral, podem-se distinguir dois tipos principais de esquecimento de nomes: os casos em que o prprio nome toca em algo desagradvel e aqueles em que 
ele se liga a outro nome que tem esse efeito. Assim, os nomes podem ter sua reproduo perturbada por sua prpria causa, ou por causa de seus vnculos ou associativos 
mais prximos ou mais distantes.
         Um exame dessas proposies gerais nos mostra por que o esquecimento temporrio de nomes , dentre todos os nossos atos falhos, o que se observa com maior 
freqncia.
         (19)Estamos, porm, muito longe de haver delineado todas as peculiaridades desse fenmeno. Outro ponto que quero assinalar  que o esquecimento de nomes 
 altamente contagioso. Numa conversa entre duas pessoas, muitas vezes basta que uma delas mencione ter esquecido tal ou qual nome para que este escape tambm  
memria da outra. Nesses casos de esquecimento induzido, porm, o nome esquecido retorna mais facilmente. Esse esquecimento "coletivo" - a rigor, um fenmeno da 
psicologia das massas - ainda no se tornou objeto da investigao psicanaltica. Apenas em um caso, mas que  especialmente belo, Reik (1920) pde dar uma boa explicao 
para esse curioso fenmeno.
         "Num pequeno grupo de universitrios em que tambm havia duas estudantes de filosofia, discutiam-se as numerosas questes suscitadas no campo dos estudos 
religiosos e no da histria da civilizao pela origemdo cristianismo. Uma das moas que participava da conversa lembrou-se de que, num romance ingls que lera recentemente, 
encontrara um quadro interessante das mltiplas correntes religiosas que haviam agitado aquela poca. Acrescentou que o romance retratava toda a vida de Cristo, 
desde seu nascimento at sua morte; mas o nome da obra se recusava a ocorrer-lhe. (Sua lembrana visual da capa de livro e da apresentao grfica do ttulo era 
ultraclara [ver em [1]].) Trs dos homens presentes tambm afirmaram conhecer o romance e notaram que, curiosamente, tampouco eles eram capazes de reproduzir o nome."
         A moa foi a nica a se submeter  anlise para esclarecer o esquecimento desse nome. O ttulo do livro era Ben-Hur, de Lewis Wallace. As idias que lhe 
ocorreram como substitutas foram: "Ecce homo - Homo sum - Quo vadis?". A prpria jovem se apercebeu de haver esquecido o nome "porque ele contm uma expresso que 
nem eu nem nenhuma outra moa - especialmente na companhia de rapazes - gostamos de usar.  luz da interessantssima anlise, essa explicao assumiu um significado 
ainda mais profundo. Uma vez feita uma aluso a esse contexto, a traduo de "homo" (homem) adquire tambm um sentido pouco recomendvel. A concluso de Reik  a 
seguinte. "A moa tratou a palavra como se, ao pronunciar o ttulo dbio na presena de rapazes, estivesse reconhecendo desejos que havia rechaado por lhe serem 
penosos e incompatveis com sua personalidade. Em suma: dizer as palavras 'Ben-Hur' foi inconscientemente identificado por ela com uma proposta sexual e, por conseguinte, 
o esquecimento correspondeu ao rechao dessa tentao inconsciente. Temos razes para supor que processos inconscientes semelhantes tenham determinado o esquecimento 
dos rapazes. O inconsciente deles apreendeu o sentido real do esquecimento da jovem e, por assim dizer, interpretou-o. O esquecimento dos homens mostra respeito 
por esse comportamento recatado. (.)  como se sua interlocutora, por seu repentino lapso de memria, tivesse dado um sinal claro que os homens, inconscientemente, 
entenderam muito bem."
         H tambm [1] um esquecimento sucessivo de nomes em que toda uma cadeia deles  retirada da memria. Quando, na tentativa de reencontrar umnome perdido, 
buscam-se outros estreitamente ligados a ele, no  raro desaparecerem tambm esses novos nomes, que deveriam servir de pontos de apoio. Assim, o esquecimento salta 
de um nome para outro, como que para provar a existncia de um obstculo que no  facilmente supervel.
         
         
         
       
       
       
       
       CAPTULO IV - LEMBRANAS DA INFNCIA E LEMBRANAS ENCOBRIDORAS
         
         
         Num segundo artigo, publicado na Monatsschrift fr Psychiatrie und Neurologie (1899a), pude demonstrar, num ponto inesperado, a natureza tendenciosa do 
funcionamento de nossa memria. Parti do fato notvel de que, nas mais remotas lembranas da infncia de uma pessoa, freqentemente parece preservar-se aquilo que 
 indiferente e sem importncia, ao passo que (amide, mas no universalmente), na memria dos adultos, no se encontra nenhum vestgio de impresses importantes, 
muito intensas e plenas de afeto daquela poca. Disso se poderia presumir, j que  sabido que a memria faz uma seleo entre as impresses que lhe so oferecidas, 
que tal seleo se d, na infncia, com base em princpios inteiramente diferentes dos que vigoram na poca da maturidade intelectual. Uma investigao atenta, contudo, 
mostra que tal suposio  desnecessria. As lembranas indiferentes da infncia devem sua existncia a um processo de deslocamento: so substitutas, na reproduo 
[mnmica], de outras impresses realmente significativas cuja recordao pode desenvolver-se a partir delas atravs da anlise psquica, mas cuja reproduo direta 
 impedida por uma resistncia. De vez que as lembranas indiferentes devem sua preservao, no a seu prprio contedo, mas a um vnculo associativo entre seu contedo 
e outro que est recalcado, elas podem fazer jus ao nome de "lembranas encobridoras" com que foram por mim designadas.
         No artigo mencionado, apenas tangenciei, sem esgot-la de modo algum, a multiplicidade dos vnculos e sentidos das lembranas encobridoras. No exemplo que 
ali analisei detalhadamente, enfatizei sobretudo a peculiaridade da relao temporal entre a lembrana encobridora e o contedo encoberto por ela. Naquele exemplo, 
o contedo da lembrana encobridora pertencia a um dos primeiros anos da infncia, ao passo que as vivncias depensamento por ela substitudas na memria, que haviam 
permanecido quase inconscientes, correspondiam a pocas posteriores na vida do sujeito. Designei esse tipo de deslocamento de retroativo ou retrocedente. Talvez 
seja mais freqente encontrar a relao oposta: uma impresso indiferente de poca recente se consolida na memria como lembrana encobridora, apesar de dever esse 
privilgio apenas a sua ligao com um evento anterior que as resistncias impedem de ser diretamente reproduzido. Estas seriam lembranas encobridoras adiantadas 
ou avanadas. Aqui o essencial de que se ocupa a memria situa-se, na ordem temporal, atrs da lembrana encobridora. Por fim, temos ainda a terceira possibilidade, 
em que a lembrana encobridora vincula-se  impresso encoberta no s por seu contedo, mas tambm pela contigidade temporal: estas so as lembranas encobridoras 
simultneas ou contguas.
         Quanto de nossa reserva mnmica pertence  categoria das lembranas encobridoras e qual o papel desempenhado por elas nos diferentes processos de pensamento 
neurticos so problemas importantes que no abordei em meu artigo anterior, e nem os abordarei aqui. Importa-me apenas enfatizar a identidade entre o esquecimento 
de nomes prprios seguido de iluso de memria e a formao das lembranas encobridoras.
          primeira vista, as diferenas entre os dois fenmenos so muito mais flagrantes do que as eventuais analogias. O primeiro fenmeno refere-se a nomes prprios; 
aqui, trata-se de impresses completas, de algo que se vivenciou quer na realidade, quer no pensamento. Ali temos uma falha manifesta da funo mnmica; aqui,  
um ato da memria que nos parece estranho. Num, trata-se de uma perturbao momentnea - pois o nome agora esquecido pode ter sido corretamente reproduzido cem vezes 
antes, e voltar a poder s-lo de amanh em diante; noutro, trata-se de uma posse permanente e constante, pois as lembranas indiferentes da infncia parecem ter 
o poder de nos acompanhar durante grande parte de nossa vida. Ou seja, o problema, nesses dois casos, parece ter um enfoque completamente diferente. Num, tem-se 
o esquecimento, no outro, a reteno, que desperta nossa curiosidade cientfica. Um estudo mais detalhado revela que, a despeito das diferenas entre os dois fenmenos 
quanto ao material psquico e  durao, as coincidncias entre ambos predominam em muito. Ambos se referem a falhas no recordar: o que a memria reproduz no  
o que deveria ser corretamente reproduzido, mas algo diverso que serve de substituto. No casodo esquecimento de nomes, a lembrana se d sob a forma de nomes substitutos; 
o caso da formao de lembranas encobridoras tem por base o esquecimento de outras impresses mais importantes. Em ambos, uma sensao intelectual nos d notcia 
da interferncia de algum fator perturbador, mas o faz de formas diferentes: no esquecimento de nomes, sabemos que os nomes substitutos so falsos; nas lembranas 
encobridoras, ficamos surpresos por possu-las. Se a anlise psicolgica nos revela agora que a formao substitutiva se produziu da mesma maneira em ambos os casos, 
por deslocamento ao longo de uma associao superficial, so precisamente as dessemelhanas entre os dois fenmenos, quanto a seu material, durao e ponto focal, 
que contribuem para aguar nossa expectativa de havermos descoberto algo importante e de validade universal. E esse universal afirmaria que, quando a funo reprodutora 
falha ou se extravia, isso indica, com muito mais freqncia do que suspeitamos, a interferncia de um fator partidarista, de uma tendncia que favorece uma lembrana, 
enquanto se empenha em trabalhar contra outra. [1]
         O tema das lembranas da infncia me parece to significativo e interessante que eu gostaria de dedicar-lhe mais algumas observaes, que vo alm dos pontos 
de vista apresentados at agora.
         At que ponto da infncia recuam nossas lembranas? Conheo algumas investigaes a esse respeito, como as de V. e C. Henri (1897) e de Potwin (1901). Eles 
mostram que existem grandes diferenas individuais entre as pessoas examinadas: algumas situam suas primeiras lembranas no sexto ms de vida, ao passo que outras 
nada lembram de sua vida at completarem seis ou mesmo oito anos de idade. Mas a que se prendem essas diferenas na reteno de lembranas da infncia, e que significado 
deve ser-lhes atribudo? Evidentemente, no basta compilar material para responder a essas perguntas por meio de um questionrio; falta, alm disso, elaborar esse 
material, e desse processo a pessoa que fornece a informao precisa participar.
         Em minha opinio, aceitamos com demasiada indiferena o fato da amnsia infantil - isto , a perda das lembranas dos primeiros anos de vida - e deixamos 
de encar-lo como um estranho enigma. Esquecemos quo grande so as realizaes intelectuais e quo complexos so os impulsos afetivos de que  capaz uma criana 
de uns quatro anos, e deveramos ficar atnitos ante o fato de a memria dos adultos, em geral, preservar to pouco desses processos anmicos, sobretudo j que temos 
todas as razes para suporque essas mesmas realizaes infantis esquecidas no tero resvalado pelo desenvolvimento da pessoa sem deixar marcas, mas tero, antes, 
exercido uma influncia determinante sobre todas as fases posteriores de sua vida. E, malgrado essa eficcia incomparvel, foram esquecidas! Isto sugere que existem, 
para o ato de lembrar (no sentido da reproduo consciente), condies especialssimas de que no tomamos conhecimento at agora.  perfeitamente possvel que o 
esquecimento da infncia nos possa fornecer a chave para o entendimento das amnsias que, segundo nossas descobertas mais recentes, esto na base da formao de 
todos os sintomas neurticos.
         Dentre lembranas infantis conservadas, algumas nos parecem perfeitamente inteligveis, ao passo que outras parecem estranhas ou incompreensveis. No  
difcil corrigir alguns erros quanto a ambas as espcies. Quando as lembranas conservadas pela pessoa so submetidas  investigao analtica,  fcil determinar 
que nada garante sua exatido. Algumas das imagens mnmicas certamente so falsificadas, incompletas ou deslocadas no tempo e no espao.  evidente que no so dignas 
de crdito declaraes das pessoas indagadas, no sentido, por exemplo, de que sua primeira lembrana provm do segundo ano de vida. Alm disso, logo se descobrem 
motivos que tornam compreensveis a distoro e o deslocamento da experincia vivenciada, mas que, ao mesmo tempo, mostram que esses erros na recordao no podem 
ser causados simplesmente por uma memria traioeira. Foras poderosas de pocas posteriores da vida modelaram a capacidade de lembrar as vivncias infantis - provavelmente, 
as mesmas foras responsveis por nos termos alienado tanto da compreenso dos anos de nossa infncia.
         O recordar, nos adultos, sabidamente utiliza diversos materiais psquicos. Alguns recordam em imagens visuais; suas lembranas tm um carter visual. Outros 
mal conseguem reproduzir na lembrana os mais vagos contornos [visuais] do que foi vivenciado; de acordo com a sugesto de Charcot, tais pessoas so chamadas auditifs 
e moteurs, contrastando com os visuels. Nos sonhos, essas diferenas desaparecem: todos sonhamos predominantemente em imagens visuais. Mas esse desenvolvimento se 
inverte igualmente no caso das lembranas infantis; estas so plasticamente visuais,mesmo nas pessoas cujo recordar posterior carece de elementos visuais. O recordar 
visual, conseqentemente, preserva o tipo de recordar infantil. No meu caso, as primeiras lembranas da infncia so as nicas que tm carter visual: so cenas 
elaboradas de modo francamente plstico, comparveis apenas s representaes no palco. Nessas cenas infantis, sejam elas de fato verdadeiras ou falsas, a pessoa 
costuma ver a si mesma como criana, com seus contornos e suas roupas infantis. Essa circunstncia deve causar estranheza: em suas lembranas de vivncias posteriores, 
os adultos visuels j no visualizam a si mesmos. Ademais, supor que, em suas vivncias, a ateno da criana estaria voltada para ela prpria, e no exclusivamente 
para as impresses do exterior, contradiz tudo o que sabemos. Assim, somos forados por diversas consideraes a suspeitar de que, das chamadas primeiras lembranas 
da infncia, no possumos o trao mnmico verdadeiro, mas sim uma elaborao posterior dele, uma elaborao que talvez tenha sofrido a influncia de uma diversidade 
de foras psquicas posteriores. Portanto, as "lembranas da infncia" dos indivduos adquirem universalmente o significado de "lembranas encobridoras", e nisto 
oferecem uma notvel analogia com as lembranas da infncia dos povos, preservadas nas lendas e mitos.
         Quem j empreendeu uma investigao anmica de vrias pessoas pelo mtodo da psicanlise ter compilado, no decorrer de seu trabalho, inmeros exemplos 
de todo tipo de lembranas encobridoras. Contudo, o relato desses exemplos  extraordinariamente dificultado pela natureza j apresentada das relaes entre as lembranas 
da infncia e a vida posterior. Para que se possa mostrar que uma lembrana da infncia deve ser encarada como lembrana encobridora, quase sempre  necessrio expor 
a biografia completa da pessoa em questo. Raramente  possvel retirar uma lembrana encobridora de seu contexto para descrev-la em separado, como no belo exemplo 
que se segue.
         Um homem de vinte e quatro anos conservou a seguinte imagem de seu quinto ano de idade: est sentado no jardim de uma casa de veraneio, numa cadeirinha 
ao lado da tia, que tenta ensinar-lhe as letras do alfabeto. A distino entre o m e o n lhe traz dificuldades, e ele pede  tia que lhe diga como discernir uma 
da outra. A tia lhe indica que o m tem um pedao inteiro a mais do que o n - o terceiro trao. No parecia haver nenhuma razo paraduvidar da veracidade dessa lembrana 
da infncia; contudo, ela s adquirira sentido mais tarde, quando se mostrou apta a representar simbolicamente outra das curiosidades do menino.  que, assim como 
nessa poca ele queria saber a diferena entre o m e o n, mais tarde se empenhou em descobrir a diferena entre os meninos e as meninas, e sem dvida teria gostado 
de que justamente essa tia fosse sua mestra. Nessa ocasio, ele descobriu ainda que a diferena era semelhante - que o menino tambm tem um pedao inteiro a mais 
do que a menina - e, adquirido esse discernimento, ele evocou a lembrana de sua correspondente curiosidade infantil.
         Aqui est outro exemplo, de anos posteriores da infncia. [1] Um homem com graves inibies em sua vida amorosa, agora com mais de quarenta anos,  o mais 
velho de nove filhos. Tinha quinze anos quando nasceu o mais novo dentre seus irmos, mas afirma com absoluta certeza que nunca havia notado nenhuma das gestaes 
de sua me. Sob a presso de minha incredulidade, ocorreu-lhe a lembrana de, certa vez, aos onze ou doze anos, ter visto a me desatar a saia apressadamente diante 
do espelho. Acrescentou ento, sem ser pressionado, que ela chegara da rua e inesperadamente sentira as contraes do parto. O desatar ["Aufbinden"] da saia era 
uma lembrana encobridora do parto ["Entbindung"]. Voltaremos a deparar com a utilizao dessas "pontes verbais" em outros casos.
         Gostaria ainda de mostrar, com um nico exemplo, como uma lembrana da infncia pode ganhar sentido atravs da elaborao analtica, quando antes no parecia 
ter nenhum. Quando, aos quarenta e trs anos, comecei a dirigir meu interesse para os restos de lembranas da minha prpria infncia, ocorreu-me uma cena que por 
muito tempo (desde o passado mais remoto, ao que me parecia) vez por outra me chegava  conscincia, e que eu tinha bons indcios para situar numa poca anterior 
a meus trs anos completos. Eu me via exigindo alguma coisa e chorando, parado diante de uma arca ["Kasten", tambm "caixa"] cuja porta meu meio-irmo, vinte anos 
mais velho do que eu, mantinha aberta. E ento, de repente, linda e esguia, minha me entrou no quarto, como se estivesse voltando da rua. Foi com essas palavras 
que descrevi a cena, da qual tinha uma imagem plstica, mas com a qual no sabia mais o que fazer. Se meu irmo queria abrir ou fechar a arca - em minha primeira 
traduo da imagem eu a chamara de "armrio" ["Schrank"] -, porque eu estava chorando, e o que tinha a chegada de minha me a ver com tudo isso, me era obscuro. 
A explicao que me sentia tentado a dar a mim mesmo era que se tratava da lembrana de alguma brincadeira implicante de meu irmo mais velho, que minha me teria 
interrompido. No so raros esse mal-entendidos de uma cena infantil preservada na memria: a situao  lembrada, mas no se sabe ao certo em que est centrada, 
e no se sabe em qual de seus elementos deve recair o acento psquico. O esforo analtico levou-me a uma concepo totalmente inesperada da cena. Eu sentira falta 
de minha me e passara a suspeitar de que ela estivesse trancada nesse armrio ou arca, e por isso pedira que meu irmo abrisse sua porta. Quando ele me atendeu 
e me certifiquei de que minha me no estava no armrio, comecei a chorar. Esse era o momento preservado por minha memria, seguindo-se de imediato o aparecimento 
de minha me, que aliviou minha inquietao ou minha saudade. Mas como foi que o menino teve a idia de procurar a me ausente no armrio? Os sonhos da mesma poca 
[da anlise dessa lembrana] continham aluses vagas a uma bab de quem eu tambm guardava outras reminiscncias, como, por exemplo, a de que ela costumava insistir 
em que eu lhe entregasse, conscienciosamente, as moedinhas que recebia de presente - detalhe que pode reclamar para si o valor de uma lembrana encobridora de vivncias 
posteriores. Assim, resolvi que dessa vez facilitaria para mim o trabalho de interpretao e perguntaria a minha me, j agora idosa, sobre essa bab. Fiquei sabendo 
de muitos detalhes; entre eles, que essa pessoa esperta, mas desonesta, praticara grandes furtos na casa enquanto minha me convalescia do parto, e que por iniciativade 
meu meio-irmo fora levada ao tribunal. Essa notcia me permitiu compreender a cena da infncia como que por uma espcie de inspirao. O desaparecimento repentino 
da bab no me fora indiferente; perguntei justamente a esse irmo onde ela estava porque, provavelmente, eu havia notado que ele desempenhara um papel em seu desaparecimento; 
e ele respondeu da maneira esquiva e cheia de trocadilhos que lhe era caracterstica, dizendo que ela estava "encaixotada" ["eingekastelt"]. Na poca, entendi essa 
resposta  maneira infantil [ou seja, literalmente], mas parei de fazer perguntas, pois no havia mais nada a investigar. Quando minha me se ausentou pouco tempo 
depois, suspeitei que meu irmo malvado tivesse feito com ela o mesmo que fizera com a bab, e por isso o forcei a abrir a arca ["Kasten"] para mim. Agora compreendo 
tambm por que, na traduo da cena visual infantil, enfatizei a silhueta esguia de minha me: deve ter-me chamado a ateno como algo que ela acabara de recuperar. 
Sou dois anos e meio mais velho do que minha irm nascida nessa poca, e quando fiz trs anos j no convivia com meu meio-irmo.
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       CAPTULO V - LAPSOS DA FALA
         
         
         O material [lingstico] comum que usamos ao falar em nossa lngua materna parece estar protegido contra o esquecimento, mas sucumbe com freqncia bem 
maior a uma outra perturbao, conhecida como "lapso da fala". Os lapsos de linguagem que observamos nas pessoas normais do a impresso de serem um estgio preliminar 
das chamadas "parafasias" que surgem em condies em condies patolgicas.
         Esse  um assunto em que me encontro na situao excepcional de poder reconhecer o valor de uma obra anterior. Em 1895, Meringer e C. Mayer publicaram um 
estudo sobre "Lapsos na fala de na escrita", mas com pontos de vista muito distantes dos meus. Um dos autores, porta-voz do texto,  fillogo, e foram seus interesses 
lingsticos que o levaram a tentar descobrir as normas que regem os lapsos da fala. Ele esperava poder inferir dessas regras a existncia de "certo mecanismo mental 
em que os sons de uma palavra, de uma frase e tambm das palavras [inteiras] entre si acham-se ligados e entrelaados de maneira muito peculiar" (ver em. [1]).
         Os exemplos de lapsos da fala compilados pelos autores so inicialmente agrupados em categorias puramente descritas. So classificados como transposies 
(por exemplo, "a Milo de Vnus" em vez de "a Vnus de Milo"); pr-sonncias ou antecipaes (por exemplo, "es war mir auf der Schwest... auf der Brust so schwer"; 
ps-sonncias ou perseveraes (por exemplo, "ich fordere Sie auf, auf da Wohl unseres Chefs aufzustossen" em vez de "anzustossen"); contaminaes (por exemplo, 
"er setzt sich auf den Hinterkopf", resultante de "er setzt sich einen Kopf auf" e de "er stellt sich auf die Hinterbeine"); e substituies (por exemplo, "ich gebe 
die Prparate in den Briefkasten", em vez de Btkasten"). Alm dessas categorias principais h ainda algumas outras menos imporantes (ou menos significativas, segundo 
nosso ponto de vista). Nesse agrupamento em categorias no faz diferena que a transposio, distoro, amalgamao etc., se refiram a sons isolados numa palavra, 
a slabas ou a palavra inteiras da frase intencionada.
         Para explicar os vrios tipos de lapsos de fala por ele observados, Meringer postula que os sons da lngua [fonemas] tm diferentes valncias psquicas. 
Quando inervamos o primeiro som de uma palavra ou a primeira palavra de uma frase, o processo excitatrio j se estende aos sons posteriores e s palavras subseqentes 
e, posto que essas inervaes so simultneas, elas podem excercer reciprocamente uma influncia modificadora. A excitao do som psiquicamente mais intenso o faz 
ressoar antes ou perseverar e desse modo perturba o processo de inervao de menor valncia. Por isso  preciso determinar quais so os sons de maior valncia numa 
palavra. Meringer sustenta: "Se quisermos saber qual o som de maior intensidade numa palavra, deveremos observar a ns mesmos quando procuramos uma palavra esquecida, 
por exemplo, um nome. O primeiro [som] a voltar  conscincia  sempre aquele que teve a maior intensidade antes do esquecimento" (ver em. [1]). "Os sons de maior 
valncia so o som inicial da slaba radical e o som inicial da palavra, bem como a vogal ou vogais acentuadas" (ver em [1]).
         No posso deixar de contradiz-lo aqui. Quer o som inicial do nome seja ou no um dos elementos de maior valncia da palavra,  certamente incorreto que, 
no caso de esquecimento de uma palavra, ele seja o primeiro a regressar  conscincia. Portanto, a regra formulada acima no se aplica. Quando nos observamos ao 
procurarmos um nome esquecido, somos forados, com relativa freqncia, a expressar a convico de que ele comea por determinada letra. E com igual freqncia essa 
convico se revela fundada ou infundada. A rigor, eu afirmaria que, na maioria dos casos, o som inicial que anunciamos  falso. Em nosso exemplo de "Signorelli" 
[ver em [1]], os nomes substitutos tinham perdido o som inicial e as slabas essenciais; foi precisamenteo par de slabas de menor valncia - elli - que voltou  
memria no nome substituto Botticelli.
         O caso seguinte, [1] por exemplo, pode ensinar-nos quo pouco os nomes substitutos respeitam o som inicial do nome esquecido:
         Um dia, foi-me impossvel lembrar o nome do pequeno pas cuja capital  Monte-Carlo. Seus nomes substitutos foram: Piedmont, Albania, Montevideo e Colico. 
Albania logo foi substituda por Montenegro, e ento me ocorreu que a slaba ento me ocorreu que a slaba "Mont" (pronunciada "Mon") aparecia em todos os nomes 
substitutos, exceto o ltimo. Isso me facilitou descobrir, partindo do nome do prncipe Alberto [o prncipe regente], o nome esquecido, Mnaco. Colico imita aproximadamente 
o ritmo e a seqncia de slabas do nome esquecido.
         Admitindo a suposio de que um mecanismo semelhante ao demostrado no esquecimento de nomes tambm poderia desempenhar um papel nos fenmenos dos lapsos 
da fala, somos levados a formar um juzo mais aprofundado dos casos de lapsos da fala. A perturbao da fala que se manifesta no lapso pode ser causada, em primeiro 
lugar, pela influncia de outro componente do mesmo dito - isto , por uma antecipao ou uma perseverao do som -, ou por outra formulao das idias contidas 
na frase ou no contexto que se tenciona enunciar. A esse tipo pertencem todos os exemplos acima, tomados de Meringer e Mayer. A perturbao poderia, contudo, ser 
de um segundo tipo, anlogo ao processo do caso de "Signorelli"; poderia resultar de influncias externas  palavra, frase ou contexto, e provir de elementos que 
no se pretende enunciar e de cuja excitao s tomamos conhecimento justamente atravs da prpria perturbao. O que esse dois modos de formao dos lapsos da fala 
tm em comum  a simultaneidade da excitao, e o que os diferencia  situar-se a origem da perturbao dentro ou fora da frase ou contexto. A diferena, inicialmente, 
no parece to grande no que concerne a certas dedues que podem ser feitas a partir da sintomatologia dos lapsos da fala.  evidente, contudo, que apenas no primeiro 
caso existe qualquer perspectiva de se extrarem dos fenmenosdos lapsos da fala concluses sobre um mecanismo que vincule os sons e palavras entre si, de modo a 
que eles influam mutuamente em sua articulao - isto , concluses como as que o filsofo esperava obter do estudo dos lapsos da fala. No caso de inteferncia de 
influncias externas  frase ou ao contexto do que  dito, tratar-se-ia, antes de mais nada, de saber quais so os elementos interferentes, surgindo depois a questo 
de saber se tambm o mecanismo dessa perturbao pode revelar as presumveis leis da formao da fala.
         No se pode afirmar que Meringer e Mayer tenham descuidado da possibilidade de as perturbaes da fala resultarem de "influncias psquicas complicadas", 
de elementos externos  palavra, frase ou seqncia de palavras como tais. Eles tiveram de observar que, a rigor, a teoria da desigualdade da valncia psquica dos 
sons s  suficiente para esclarecer as perturbaes do som, bem como as antecipaes e perseveraes de sons. Nos casos em que as perturbaes da palavra no podem 
ser reduzidas a perturbaes dos sons (como, por exemplo, nas substituies e contaminaes de palavras), eles no hesitaram em procurar uma causa para o lapso fora 
do contexto intencionado, procedimento este que eles justificam atravs de alguns bons exemplos. Cito os seguintes trechos:
         "Ru. estava falando de ocorrncias que, em seu ntimo, considerava como 'Schweinereien' [repugnantes; literalmente, porcarias]'. Tentou, porm exprimir-se 
de modo mais suave, e comeou: 'Mas ento certos fatos vieram  "Vorschwein" ...' Mayer e eu estvamos presentes e Ru. confirmou ter pensado em 'Schweinereien'. 
O fato de essa palavra pensada logo ter-se tornado atuante, traindo-se em 'Vorschwein',  suficientemente explicado pela semelhana das palavras." (Em [1])
         "Assim como nas contaminaes, tambm nas substituies - e provavelmente em grau muito maior - as imagens lingsticas 'flutuantes' ou 'errantes' desempenham 
um grande papel. Mesmo quando ficam abaixo do limiar da conscincia, elas ainda esto suficientemente prximas para serem eficazes, e  fcil serem acionadas por 
alguma semelhana com o complexo a ser falado, provocando ento um desvio na seqncia de palavras, ou cruzando essa seqncia. Muitas vezes, as imagens lingsticas 
'flutuantes' ou 'errantes' so, como dissemos, os retardatrios que se seguem a processos de linguagem recm-terminados (perseveraes). (Em [1])
         
         "A semelhana tambm pode causar um desvio quando outra palavra semelhante est pouco abaixo do limiar da conscincia, sem que se destinasse a ser pronunciada. 
Isso  o que acontece nas substituies. Assim, espero que minhas regras venham a confirmar-se quando forem testadas. Para isso, entretanto,  necessrio (se o falante 
for outra pessoa) que se saiba com clareza tudo o que se passou nos pensamentos do falante. Eis um caso instrutivo. Li., diretor de uma escola, disse em nossa presena: 
'Die Frau wrde mir Furcht einlagen.' Fiquei perplexo porque o l me pareceu inexplicvel. Permitiu-me chamar a ateno do falante para seu lapso, ao dizer 'einlagen' 
em vez de 'einjagen', ao que ele logo retrucou: 'Sim, a razo disso  que pensei: eu no estaria "in der Lage [na posio, em condies]'' etc.'
         "Aqui est outro caso. Perguntei a R. von Schid, como estava indo seu cavalo doente. Ele respondeu: 'Ja, das draut... dauert vielleicht noch einen Monat.' 
No consegui entender o 'draut com r, pois o r de 'dauert' no poderia ter tido esse resultado. Assim, chamei-lhe a ateno para isso, ao que ele explicou ter pensado: 
'das ist eine traurige Geschichte [isso  uma histria triste].' Logo, o falante tinha em mente duas respostas, e estas se misturaram." (Em [1]).
          bastante bvio que o exame das imagens lingsticas "errantes" que esto abaixo do limiar da conscincia sem que se tencione diz-las, bem como o pedido 
de informao sobre tudo o que estaria na mente do falante, so procedimentos que se aproximam muito das condies de nossas "anlises". Tambm ns estamos  procura 
de material inconsciente, e at o investigamos pelo mesmo caminho; s que, para ir das idias que ocorrem  pessoa interrogada at a descoberta do elemento perturbador, 
temos de seguir um caminho mais longo, atravs de uma srie complicada de associaes.
         Quero ainda deter-me um pouco em outro processo interessante atestado pelos exemplos de Meringer. O prprio autor afirma que  uma espcie de semelhana 
entre uma palavra da frase que se tenciona dizer e outra palavra no destinada a ser dita que permite a esta ltima impor-se  conscincia, acarretando uma distoro, 
uma formao mista ou uma formao de compromisso (contaminao):
         
                 jagen,         dauert,         Vorschein
                 lagen,         traurig,         ...schwein.
         Ora, em A Interpretao dos Sonhos (1900a) demonstrei o papel desempenhado pelo trabalho de condensao na formao do chamado contedo manifesto do sonho 
a partir dos pensamentos onricos latentes. Qualquer tipo de semelhana entre dois elementos do material inconsciente - uma semelhana entre as prprias coisas ou 
entre as representaes de palavra - serve de oportunidade para a criao de um terceiro elemento, que  uma representao mista ou de compromisso. No contedo do 
sonho, esse terceiro elemento representa ambos os seus componentes, e  por se originar terceiro elemento representa ambos os seus componentes, e  por se originar 
dessa maneira que ele tantas vezes apresenta diversas caractersticas contraditrias. A formao de substituies e contaminaes ocorrente nos lapsos da fala , 
por conseguinte, um comeo do trabalho de condensao que encontramos em diligente atividade na construo do sonho. 
         Num breve ensaio destinado a um crculo mais amplo de leitores, Meringer (1900) afirmou existir uma importncia prtica especial em determinados casos de 
troca de uma palavra por outra - a saber os casos em que a palavra  substituda por outra de sentido oposto. " provvel", escreve ele, "que ainda se recorde a 
maneira como, no faz muito tempo, o Presidente da Cmara de Deputados do Parlamento austraco abriu a sesso: 'Senhores Deputados; Constato a presena dos membros 
dessa casa em quorum suficiente e, portanto, declaro encerrada a sesso!' Somente a hilaridade geral despertou-lhe a ateno e o fez corrigir seu engano. Nesse caso 
especfico, a explicao foi, sem dvida, que o presidente desejava secretamente j poder encerrar a sesso, da qual pouco havia de bom a esperar. Mas esse pensamento 
colateral, como freqentemente ocorre, irrompeu ao menos parcialmente, e o resultado foi 'encerrada' em vez de 'aberta' - ou seja, o contrrio do que se pretendia 
dizer. Ora, numerosas observaes me ensinaram que em geral  muito freqente permutar entre si palavras de sentido oposto; elas j esto associadas em nossa conscincia 
lingstica, acham-se muito prximas umas das outras e  fcil evocar-se a errada por engano."
         No so todos os casos de permutao pelo oposto em que  to fcil como nesse exemplo do presidente mostrar a probabilidade de que o lapso seja conseqncia 
de uma contradio que, no interior do falante, ergue-se com a frase proferida. Encontramos um mecanismo anlogo em nossa anlise do exemplo de aliquis [Em [1]]. 
Ali a contradio interna expressou-se no esquecimento de uma palavra, e no numa substituio por seu oposto. Minorando essa diferena, porm, podemos notar que, 
na verdade, a palavra aliquis  incapaz de ter um oposto como "abrir" e "encerrar", e que "abrir"  uma palavra que no se pode esquecer, pois  parte integrante 
de nosso vocabulrio usual.
         Se os ltimos exemplos de Meringer e Mayer mostram que a perturbao da fala pode surgir, de um lado, por influncia da antecipao ou da perseverao de 
sons e palavras da mesma frase, os quais se tenciona falar, e de outro, pelo efeito de palavra externas  frase intencionada, cuja excitao no se evidenciaria 
de outro modo, a primeira coisa que deveremos averiguar  se essas duas classes de lapsos da fala podem ser nitidamente separadas, e de que modo um exemplo de uma 
classe pode ser distinguido de um caso da outra. Neste ponto de argumentao, contudo, devemos ter em mente as concepes expressas por Wundt, que aborda os fenmenos 
dos lapsos da fala em sua ampla discusso das leis do desenvolvimento da fala.
         Segundo ele, um trao que nunca falta a esses e outros fenmenos correlatos  a atividade de certas influncias psquicas. "Antes de mais nada, elas tm 
um determinante positivo sob a forma do fluxo desinibido de associaes sonoras e associaes de palavras evocadas pelos sons falados. A isso vem somar-se um fator 
negativo sob a forma de supresso ou relaxamento dos efeitos inibidores da vontade sobre esse fluxo, assim como da ateno, que se reafirma nesse ponto como funo 
da vontade. Quer esse jogo das associaes se manifeste pela antecipao de um som vindouro, ou pela reproduo de sons precedentes, ou pela intercalao de um som 
habitualmente pronunciado ou, por ltimo, pela repercusso de palavras completamente diferentes sobre os sons pronunciados, por terem com eles algum vnculo associativo 
- tudo isso indica apenas diferenas na direo e, nomximo, no mbito das associaes ocorrentes, e no diferentes em sua natureza geral. Em alguns casos, tambm 
pode haver dvidas quanto  forma a que se deve atribuir determinada perturbao, ou quanto a estabelecer se no seria mais justificvel, de acordo com o princpio 
da complicao das causas, atribu-la a uma conjugao de vrios motivos." (Wundt, 1900, 380-1.). [Ver em [1].]
         Considero plenamente justificadas e muito instrutivas essas observaes de Wundt. Talvez pudssemos enfatizar, mais decididamente do que Wundt, que o fator 
positivo que favorece o lapso da fala (o fluxo desinibido de associaes), bem como o fator negativo (o relaxamento da ateno inibidora), tm invariavelmente um 
efeito conjunto, de modo que os dois fatores tornam-se apenas maneiras diferentes de encarar um mesmo processo. Acontece que, com o relaxamento da ateno inibidora 
- ou, em termos ainda mais claros, em conseqncia desse relaxamento - o fluxo desinibido de associaes entra em atividade.
         Entre os lapsos da fala que eu mesmo compilei, dificilmente haver algum em que eu seja forado a atribuir a perturbao da fala nica e exclusivamente 
ao que Wundt [1900, 392] chama de "efeito de contato dos sons". Quase invariavelmente descubro, ademais, uma influncia pertubadora que provm de algo externo ao 
enunciado pretendido; e o elemento perturbador  um pensamento singular que permaneceu inconsciente, que se manifesta no lapso da fala e com freqncia s pode ser 
trazido  conscincia atravs de uma anlise detalhada, ou ento  um motivo psquico mais geral que se volta contra o enunciado inteiro.
         (1)Minha filha fez uma careta ao morder uma ma, e eu quis fazer-lhe a seguinte citao:
         Der Affe gar possierlich ist,
         Zumal wenn er von Apfel frisst.
         Mas comecei: "Der Apfe..." [palavra inexistente]. Isso parece uma contaminao de "Affe [macaco]" e "Apfel [ma]" (uma formao de compromisso), ou poderia 
ser encarado como uma antecipao de "Apfel", que estava para ser pronunciada. Entretanto, as coisas se passaram mais exatamente da seguinte maneira: eu j havia 
iniciado essa citao antes, eno cometera um lapso na primeira vez. S o cometi ao repeti-la. A repetio foi necessria porque a pessoa interpelada, estando absorta 
em outra coisa, no me escutou. Tenho de incluir essa repetio, junto com minha impacincia de terminar a frase, entre os motivos do lapso que se apresentou como 
produto da condensao.
         (2) Minha filha disse: "Estou escrevendo para a Sra. Schresinger..." O nome dessa senhora  Schlesinger. Esse lapso da lngua provavelmente est ligado 
a uma tendncia a facilitar a articulao, pois  difcil pronunciar o l depois de um r repetido. Devo acrescentar, contudo, que minha filha fez esse lapso poucos 
minutos depois de eu dizer "Apfe" em vez de "Affe". Ora, acontece que os lapsos da fala so altamente contagiosos, assim como o esquecimento de nomes [em [1]] - 
peculiaridade assinalada pro Meringer e Mayer no caso do esquecimento. No sei sugerir alguma razo para esse contgio psquico.
         (3)"Eu me fecho como um Tassenmescher [palavra inexistente] - quero dizer, Taschnmesser [canivete]", disse uma paciente no incio da sesso. Tambm aqui, 
a dificuldade de articulao (como, por exemplo, em "Wiener Weiber Wscherinnen waschen weisse Wshe", "Fischflosse" [barbatana] e outros trava-lnguas similares) 
poderia servir de desculpa para a troca dos sons. Quando chamei sua ateno para o lapso, ela retrucou imediatamente: ", isso foi s porque hoje o senhor disse 
'Ernscht'." De fato, eu a recebera como o comentrio: "Hoje a coisa vai ser realmente sria ["Ernst"]" (porque seria a ltima sesso antes das frias) e, gracejando, 
esticara o "Ernst", dizendo "Ernscht". No decorrer da sesso, ela cometeu repetidamente outros lapsos da fala, e por fim notei que no estava meramente me imitando, 
mas tinha uma razo especial para deter-se, no inconsciente, na palavra "Ernst" como nome prprio ["Ernesto"].
         (4)"Estou to resfriada que no consigo durch die Ase natmen - quero dizer, Nase atmen", disse a mesma paciente numa outra ocasio. E entendeu imediatamente 
como viera a cometer o lapso. "Todos os dias pego o bonde na Rua Hasenauer, e hoje de manh, enquanto esperava por ele, ocorreu-me que, se eu fosse francesa, diria 
'Asenauer', porque os franceses sempre deixa de pronunciar o h no comeo das palavras." Trouxe ento uma srie de reminiscncias de franceses a quem havia conhecido, 
e depois de muitos rodeios chegou  lembrana de ter desempenhado, aos quatorze anos, o papel de Picarde na pequena pea Kurmrker und Picarde, e de ter-se expressado 
nessa ocasio num alemo defeituoso. A chegada fortuita de um hspede de Paris a sua penso despertara toda essa srie de lembranas. A troca dos sons, portanto, 
foi resultante da perturbao causada por um pensamento inconsciente que provinha de um contexto completamente diverso.
         (5)Mecanismo similar teve o lapso de outra paciente, que teve uma falha de memria em meio  reproduo de uma lembrana infantil h muito esquecida. Sua 
memria se recusava a dizer-lhe em que parte do corpo a mo lasciva e indiscreta de outra pessoa a havia segurado. Logo depois da sesso, foi visitar uma amiga com 
quem conversou sobre residncias de veraneio. Indagada sobre a localizao de sua casa de veraneio em M., ela respondeu: "na Berglende [coxa da montanha]", em vez 
de Berglehne [encosta da montanha].
         (6)Quando perguntei a outra paciente, ao final da sesso, como estava passando seu tio, ela respondeu: "No sei, atualmente s o vejo in flagranti." No 
dia seguinte, comeou dizendo: "Estou muito envergonhada por ter-lhe dado uma resposta to tola.  claro que o senhor deve ter-me tomado por uma pessoa muito inculta, 
que est sempre confundindo as palavras estrangeiras. Eu queria dizer en passant." Ainda no sabamos qual a origem das palavras estrangeiras que ela usara erroneamente. 
Na qual a origem da palavras estrangeiras que ela usara erroneamente. Na mesma sesso, porm, dando prosseguimento ao tema da vspera, ela apresentou uma reminiscncia 
em que o papel principal consistia em ser surpreendida in flagranti. Portanto, o lapso da fala do dia anterior antecipara a lembrana que, naquele momento, ainda 
no se havia tornado consciente.
         (7)A certa altura da anlise de outra paciente, tive que dizer-lhe de minha suspeita de que ela sentira vergonha de sua famlia na poca que estvamos considerando, 
e que havia censurado seu pai por algo que ainda nos era desconhecido. Ela no se lembrou de nada parecido e, ainda por cima, declarou que isso era improvvel. Contudo, 
prosseguiu com a conversa tecendo alguns comentrios sobre sua famlia: "Uma coisa eu tenho que admitir: eles so pessoas fora do comum, todos tm Geiz [avareza]... 
quero dizer, Geist [inteligncia]." E, essa era, na verdade, a censura que ela recalcara, desalojando-a da memria.  freqente a situao em que a idia que se 
quer reter  precisamente a que se impe sob a forma de um lapso da fala (recorde-se o lapso de Meringer) de "zum Vorschwein gekommen" ["vieram  luz"], [em [1]]. 
A nica diferena  que, no caso de Meringer, a pessoa queria guardar para si algo que estava em sua conscincia, ao passo que minha paciente no sabia o que estava 
sendo retido, ou, dito de outra maneira, no sabia que estava retendo alguma coisa, nem que coisa era essa.
         (8) O exemplo seguinte de lapso da fala tambm remonta a uma reteno propositada. Certa vez, encontrei nas Dolomitas, duas damas que estavam vestidas como 
excursionistas. Acompanhei-as em parte do caminho e conversamos sobre os prazeres, mas tambm as dificuldades da vida de turista. Uma das damas admitiu que essa 
maneira de passar o dia acarretava muitos incmodos. " verdade", disse ela, "que no  nada agradvel andar o dia inteiro sob o sol e ficar com a blusa e a combinao 
completamente suadas." Num ponto dessa frase, ela teve de superar uma pequena hesitao. Depois, continuou: "Mas a, quando se chega 'nach Hose' e se pode trocar 
de roupa..." No meu entender, no era necessrio nenhum exame para esclarecer esse lapso da fala.  evidente que a inteno dela fora fazer uma enumerao mais completa 
de suas roupas: blusa, combinao e Hose [calcinhas]. Razes ligadas ao decoro, porm, levaram-na a suprimir qualquer meno a essa terceira pea da roupa ntima. 
Mas na fase seguinte, de contedo independente, a palavra suprimida veio  tona, contra sua vontade, como uma distoro de "nach Hause [casa]", palavra semelhante.
         (9)"Quando o senhor quiser comprar tapetes", disse-me uma senhora, "v at o Kaufman [nome prprio que tambm significa "comerciante"], na Matthusgasse 
[Rua Mateus]. Acho que posso dar-lhe uma recomendao." "Na loja de Mattus...", repeti, "quero dizer, de Kaufmann." Essa minha repetio de um nome no lugar do 
outro parece resultar de uma distrao. E de fato, a fala da senhora me distrara, pois ela desviara minha ateno para uma coisa que me era muito mais importante 
do que os tapetes.  que fica na Mathusgasse a casa emque minha mulher morou quando era minha noiva. A entrada da casa dava para uma outra rua, e reparei ento 
que esquecera seu nome, s conseguindo torn-lo consciente atravs de um rodeio. O nome Matthus, no qual me detive, era, portanto, um substituto do nome de rua 
esquecido. Era mais adequado para esse fim do que o nome Kaufmann, pois Matthus  exclusivamente um nome prprio, enquanto Kaufmann no o , e a rua esquecida tambm 
tem um nome de pessoa: Radetzky.
         (10)O caso seguinte tambm poderia ser adequadamente includo no captulo sobre "Erros" [Captulo X], mas cito-o aqui porque as relaes fonticas que fundamentaram 
a troca de uma palavra pela outra so de uma clareza incomum. Uma paciente me contou um sonho: uma criana resolvera matar-se com uma mordida de cobra e levara a 
cabo sua resoluo. Ela via a criana retorcer-se em convulses etc. Agora, empenhava-se em descobrir as impresses da vspera que o sonho tomara como de ponto de 
partida. Lembrou-se imediatamente de que, na noite anterior, assistira a uma conferncia popular sobre os primeiros socorros em caso de mordida de cobras. Se um 
adulto e uma criana forem picados simultaneamente, deve-se cuidar primeiro do ferimento da criana. Ela se lembrou tambm da forma de tratamento recomendada pelo 
conferencista. Isso dependeria muito, dissera ele, da espcie de cobra pela qual se fosse picado. Nesse ponto, interrompi-a e perguntei: mas ele no disse que temos 
muito poucas espcies venenosas em nossa regio, e quais so as mais temveis? "Sim, ele salientou a 'Klapperschlange [cascavel]'. Meu riso chamou-lhe a ateno 
para o fato de que teria dito alguma coisa errada. Ela no corrigiu o nome mas voltou atrs na afirmao: "Sim,  claro, essa no existe entre ns; ele falou da 
vbora. Como  que eu fui pensar na cascavel?" Desconfiei que isso se devesse  interferncia dos pensamentos que se ocultavam por trs do sonho. Um suicdio por 
picada de cobra dificilmente poderia ser outra coisa seno uma aluso  bela Clepatra [em alemo "Kleopatra"]. A grande semelhana fontica entre as duas palavras, 
a ocorrncia em ambas das mesmas letras, "Kl... p...r", na mesma ordem, e do mesmo "a" tnico, eram inconfundveis. Essa boa correspondncia entre os nomes "Klapperschlange" 
e ''Kleopatra" resultou numa restrio momentnea do juzo da paciente, tanto que ela no se chocou com a afirmao de que o conferencista instrura seu pblico 
em Viena sobre como tratar mordidas de cascavel. Alis, ela sabe to bem quanto eu que essa espcie de cobra no faz parte da fauna da nossa ptria. E no devemos 
lev-la a mal por tampouco ter hesitado em transferir a cascavel para o Egito, pois estamos acostumados a atirar no mesmo saco tudo o que  no-europeu e extico, 
e eu mesmo tive de refletir por um momento antes de declarar que a cascavel se restringe apenas ao Novo Mundo.
         
         O prosseguimento da anlise trouxe outras confirmaes. Na vspera, a sonhadora visitara pela primeira vez o monumento a Marco Antnio, de Strasser, que 
ficava nas imediaes de sua casa. Essa, portanto, era a segunda causa instigadora do sonho (a primeira fora a conferncia sobre mordida de cobra). Na contaminao 
do sonho, ela embalava uma criana nos braos, cena que a fez lembrar de Gretchen. Outros pensamentos que lhe ocorreram trouxeram reminiscncias de Arria und Messalina. 
O aparecimento do nome de tantas peas teatrais nos pensamentos onricos j permite suspeitar de que, quando mais jovem, a sonhadora alimentara uma paixo secreta 
pela profisso de atriz. O comeo do sonho - "Uma criana resolvera pr fim a sua vida atravs de uma mordida de cobra" - no tinha, na verdade, outro sentido seno 
o de que, quando criana, ela resolvera tornar-se uma atriz famosa algum dia. Por fim, ramificou-se do nome "Messalina" o curso de pensamentos que levara ao contedo 
essencial do sonho. Certos acontecimentos recentes haviam-lhe despertado a apreenso de que seu nico irmo viesse a fazer um casamento socialmente inadequado, uma 
msalliance com uma no-Ariana.
         (11) Reproduzo agora um exemplo completamente inocente (ou cujos motivos talvez no tenham sido bem esclarecidos), j que nos revela um mecanismo transparente.
         Um alemo que viajava pela Itlia precisou de uma correia para amarrar sua mala danificada. Para "correia" ["Riemen"] o dicionrio lhe indicou a palavra 
italiana "coreggia". "Ser fcil guardar essa palavra", considerou ele, "pensando no pintor Correggio". Depois disso, entrou numa loja e pediu "una ribera".
         Aparentemente, ele no conseguira substituir a palavra alem pela italiana em sua memria, mas seus esforos no foram completamente infrutferos. Ele sabia 
que precisava ater-se ao nome de um pintor, e assim esbarrou, no no nome do pintor que soava como a palavra italiana, mas no de outro que se parecia com a palavra 
alem "Riemen".  evidente que, tal como inclu esse caso como exemplo de um lapso da fala, poderia tambm t-lo citado como exemplo do esquecimento de nomes.
         
         Quando colecionava lapsos da fala para a primeira edio deste livro, meu procedimento consistia em submeter  anlise todos os casos que conseguia observar, 
mesmo os menos notveis. Desde ento, muitas outras pessoas se dedicaram  divertida tarefa de colecionar e analisar lapsos da fala, e assim me permitiram fazer 
uma seleo entre um material mais rico.
         (12)Disse um jovem a sua irm: "Rompi completamente as relaes com os D., j nem os cumprimento mais." "Pois ", respondeu ela, "eles so uma bela Lippschaft." 
Pretendia dizer "Sippschaft [corja, ral]", mas, no lapso, comprimiu duas idias: a de que o prprio irmo certa vez comeara um flerte com uma jovem dessa famlia, 
e a de que se comentava que esta se envolvera recentemente numa Liebschaft [relao amorosa] sria e irregular.
         (13) Um jovem dirigiu-se a uma dama na rua com as seguintes palavras: "Senhorita, permita-me que a 'acom-sulte' ['begleit-digen']".  bvio que ele pensara 
em dizer que gostaria de acompanh-la [''begleiten''], mas temia que sua proposta pudesse insult-la ["beleidigen"]. O fato de esses dois impulsos afetivos conflitantes 
encontrarem expresso numa nica palavra - justamente no lapso da fala - indica que as verdadeiras intenes do rapaz, afinal no eram das mais puras, de modo que 
mesmo a ele pareciam insultuosas para com a dama. Mas enquanto tentava esconder isso de si mesmo, seu inconsciente lhe pregou uma pea e traiu suas verdadeiras intenes. 
Desse modo, por outro lado, ele como que antecipou a resposta convencional da dama: "Mas o que  que o senhor est pensando de mim, como ousa me insultar dessa maneira?" 
(Relatado por O. Rank.)
         Menciono a seguir alguns exemplos de um artigo de Stekel intitulado "Confisses Inconscientes", publicado no Berliner Tageblatt de 4 de janeiro de 1904.
         (14)"Uma parte desagradvel de meus pensamentos inconscientes  revelada pelo exemplo seguinte. Convm dizer de antemo que, em minha condio de mdico, 
nunca levo em conta minha remunerao e sempre tenho em vista apenas o interesse do paciente, como  natural. Encontrava-me com uma paciente a quem estava prestando 
assistncia mdica durante sua convalescena aps uma doena grave. Passramos juntos por dias e noites penosos. Feliz por v-la em melhor estado, pintei-lhe as 
delcias de uma temporada em Abbazia e conclu dizendo: 'Se, como espero, a senhora no sair da cama logo...' Isso obviamente brotou de um motivo egosta do inconsciente, 
a saber, que eu pudesse continuar tratando dessa paciente abastada por mais algum tempo - um desejo que  totalmente alheio a minha conscincia de viglia e que 
eu repudiaria indignado."
         (15)Aqui est outro exemplo de Stekel. "Minha mulher estava contratando uma governanta francesa para trabalhar durante as tardes e, depois de trem chegado 
a um acordo sobre as condies, quis ficar com as recomendaes dela. A francesa lhe pediu permisso para conserv-las, indicando o seguinte motivo: Je cherche encore 
pour les aprs-midis, pardon, pour les avant-midis [Ainda estou procurando colocao para as tardes - quero dizer, para a manh]. Obviamente, ela estava com a inteno 
de tentar a sorte em outros lugares e talvez conseguir melhores condies - inteno que realmente levou a cabo."
         (16)De Stekel: "Tive de fazer um sermo a uma esposa, e seu marido, a pedido de quem eu o fazia, ficou escutando do lado de fora da porta. Ao final de meu 
sermo, que a deixara visivelmente impressionada, eu disse: 'Beijo-lhe as mos, meu senhor.' Para qualquer pessoa bem informada, eu estava assim traindo o fato de 
que minhas palavras destinavam-se ao marido e que eu as dissera por ele."
         (17)O Dr. Stekel nos informa, a seu prprio respeito, que em certa poca estava tratando de dois pacientes de Trieste e, ao cumpriment-los, costumava sempre 
trocar-lhes os nomes. "Bom dia, senhor Peloni", dizia a Askoli, e "Bom dia, senhor Askoli", dizia a Peloni. A princpio, ele no se inclinava a atribuir essa confuso 
a qualquer motivo mais profundo, mas sim a explic-la pelo muito que havia em comum entre os dois senhores. Contudo, convenceu-se facilmente de que a troca dos nomes 
correspondia a uma espcie de vanglria, pois, desse modo, ele dava a entender a cada um de seus pacientes italianos que ele no era o nico triestino a ir a Viena 
em busca de sua orientao mdica.
         (18)O prprio Dr. Stekel, durante uma tumultuada assemblia geral, disse: "Vamos agora brigar [streiten]" (em vez de "passar [schreiten]") "ao item quatro 
da agenda."
         (19)Disse um professor em sua aula inaugural: "No estou geneigt [inclinado]" (em vez de "geeignet [apto]") "a descrever os mritos do meu estimado predecessor."
         
         (20)Disse o Dr. Stekel a uma dama que ele suspeitava estar com a doena de Graves: "A senhora  aproximadamente um Kropf [bcio]" (em vez de "Kopf [cabea]") 
"mais alta do que sua irm."
         (21) Informa o Dr. Stekel: "Algum queria descrever o relacionamento entre dois amigos, salientando o fato de que um deles era judeu. Disse: 'Eles viviam 
juntos como Castor e Pollak.' Isto certamente no foi um gracejo; o prprio falante s notou o lapso depois que lhe chamei a ateno para ele.
         (22)Ocasionalmente, um lapso da fala faz as vezes de uma caracterizao detalhada. Uma jovem senhora que costumava dar as ordens em casa contou-me que o 
marido, adoentado, fora ao mdico para saber que tipo de dieta deveria seguir. O mdico, entretanto, disse-lhe que no se importasse com isso. "Ele pode comer e 
beber o que eu quiser", concluiu ela.
         Os dois prximos [1] exemplos, fornecidos por T. Reik (1915), provm de situaes em que os lapsos da fala ocorrem com facilidade especial - situaes em 
que se tem de guardar muito mais do que se pode dizer.
         (23)Um senhor apresentava suas condolncias a uma jovem dama cujo marido morrera recentemente e quis acrescentar: "A senhora encontrar consolo ao dedicar-se 
[widmen] integralmente a seus filhos", mas, em vez disso, falou "widwen". O pensamento suprimido referia-se a outro tipo de consolo: uma viva [Witwe] jovem e bonita 
logo encontrar novos prazeres sexuais.
         (24)Numa reunio social  noite, o mesmo senhor conversava com essa dama sobre os grandes preparativos para a Pscoa que se haviam feito em Berlim e perguntou: 
"A senhora viu a exposio [Auslage] de hoje na Wertheim? Est totalmente decotada" [dekolletiert, em vez de dekoriert, decorada]. Ele no ousara exprimir sua admirao 
pelo decote da linda senhora e nisso veio  tona o pensamento proibido, transformando a decorao de uma vitrine ou exposio de mercadorias [Warenauslage] num decote, 
com a palavra "exposio" [Auslage] inconscientemente usada num duplo sentido.
         
         Essa mesma condio aplica-se a outra observao da qual o Dr. Hanns Sachs tentou fornecer um relato minucioso:
         (25)"Contava-me uma dama, a propsito de um conhecido comum, que, da ltima vez que o vira, ele estava to elegantemente vestido como sempre e usava, em 
especial, belssimos Hallbschuhe [sapatos baixos] de cor marrom. Quando lhe perguntei onde o havia encontrado, ela respondeu: 'Ele bateu  porta de minha casa e 
eu o vi pelas venezianas, que estavam abaixadas. Mas no abri a porta nem dei qualquer outro sinal de vida, pois no queria que ele soubesse que eu j estava de 
volta na cidade.' Enquanto a escutava, ocorreu-me que ela me estava escondendo alguma coisa, e o mais provvel era que no tivesse aberto a porta por no estar sozinha, 
nem adequadamente vestida para receber visitas; assim, perguntei, ironizando um pouco: 'Quer dizer que a senhora conseguiu admirar-lhe os Hausschuhe [chinelos], 
digo, Halbschuhe [sapatos baixos] atravs das venezianas abaixadas?' Em Hausschuhe consegue expressar-se o pensamento sobre seu Hauskleid [lit. vestido caseiro, 
ou seja, camisola], que eu me abstivera de enunciar. Por outro lado, tentou-se afastar a palavra 'Halb [metade]', pois justamente ela continha o ncleo da resposta 
proibida: 'A senhora s est me dizendo meia verdade, e est escondendo o fato de que estava apenas meio vestida.' O lapso da fala foi ainda favorecido pelo fato 
de, imediatamente antes, termos estado falando sobre a vida conjugal e a felicidade huslich [domstica] desse senhor; isso sem dvida contribuiu para determinar 
o deslocamento [de 'Haus'] para a pessoa dele. Por fim, devo confessar que minha inveja talvez tenha contribudo para eu situar esse senhor elegante andando de chinelos 
pela rua; pouco tempo antes, eu mesmo comprara um par de sapatos baixos marrons que certamente j no so 'belssimos'."
         As pocas de guerra como a atual produzem numerosos lapsos da fala cujo entendimento no traz muita dificuldade.
         (26)"Em que regimento est seu filho?", perguntaram a uma senhora. Ela respondeu: "Est no 42 de assassinos [Mrder]", em vez de "morteiros" [Mrser].
         (27) O tenente Henrik Haiman escreve do front (1917): "Fui bruscamente arrancado da leitura de um livro cativante para assumir por um momento a funo de 
telefonista de reconhecimento. Quando o posto da artilharia deu o sinal para testar a linha, reagi dizendo: 'Controles testados e em ordem; Ruhe.' Pelo regulamento, 
a mensagem deveria ter sido: 'Controles testados e em ordem; Schluss [fim (da mensagem)].' Minha aberrao se explica pelo aborrecimento que me causou ser interrompido 
na leitura."
         (28) Um sargento instruiu seus homens para que dessem seu endereo correto nas cartas para casa, a fim de que os "Gespeckstcke" no se extraviassem.
         (29)O excelente exemplo que se segue, e que  tambm significativo em vista da situao profundamente aflitiva que supe, devo-o ao Dr. L. Czeszer, que 
fez essa observao e a analisou exaustivamente enquanto morava na Sua neutra durante a guerra e que o analisou exaustivamente. Reproduzo sua carta ao p da letra, 
com algumas omisses secundrias:
         "Tomo a liberdade de descrever-lhe um lapso da fala cometido pelo professor M. N., da Universidade de O., numa de suas conferncias sobre a psicologia dos 
sentimentos durante o semestre de vero que acaba de se encerrar. Devo comear dizendo que essas conferncias se realizavam no salo nobre da universidade, diante 
de um grande nmero de prisioneiros de guerra franceses internados e, por outro lado, de estudantes cuja maioria se compunha de suo-franceses firmemente partidrios 
da Entente. Na cidade de O., como na prpria Frana, 'boche'  uma palavra universal e exclusivamente usada para designar os alemes. Entretanto, nas manifestaes 
pblicas, nas conferncias e similares, os altos funcionrios, professores e outras pessoas em cargos de responsabilidade esforam-se, em nome de neutralidade, por 
evitar essa palavra nefasta.
         "O Professor N. estava em meio a uma dissertao sobre a importncia prtica dos afetos e se props citar um exemplo ilustrativo de como um afeto pode ser 
deliberadamente explorado, de maneira a que uma atividade muscular desinteressante em si mesma seja carregada de sentimentos agradveis e assim se intensifique. 
Narrou, portanto - falando em francs, naturalmente -, uma histria que acabara de ser publicada nos jornais locais, extrada de um jornal alemo. Versava sobre 
um mestre-escola alemo que fizera seus alunos trabalharem no jardim e, para incentiv-los a trabalhar com maior intensidade, exortara-os a imaginarem que, a cada 
torro de terra arrancado, estavam rachando o crnio de um francs. Todas as vezes que a palavra 'alemo' surgiu no relato de sua histria,  claro que N. disse, 
com toda correo, 'allemand', e no 'boche'. Mas, ao chegar ao clmax da histria, assim reproduziu as palavras do mestre-escola alemo: Imaginez-vous qu'en chaque 
moche vous crasez le crne d'un Franais. Ou seja, em vez de motte [palavra francesa para 'torro'] - moche!
         "V-se claramente como esse professor escrupuloso se conteve com firmeza, desde o comeo de sua narrativa, para no ceder ao hbito - e talvez mesmo  tentao 
- de permitir que uma palavra expressamente proibida por decreto federal fosse proferida na ctedra do salo nobre da universidade! E, no exato momento em que tivera 
a felicidade de dizer com toda correo, pela ltima vez, 'instituteur allemand [mestre-escola alemo]', e em que, com um suspiro interno de alvio, apressava-se 
rumo  concluso, que parecia isenta de armadilhas, a palavra que fora suprimida com tanto esforo agarrou-se  semelhana fontica de 'motte' e ...estava feita 
a desgraa. A angstia ante uma falta de tato poltica, talvez um prazer refreado por usar, apesar de tudo, a palavra corrente e que todos esperavam, e ainda a indignao 
desse republicano e democrata nato diante de qualquer restrio  liberdade de expresso, tudo isso interferiu em seu propsito principal de dar uma verso precisa 
de seu exemplo. Essa tendncia interferente era conhecida pelo orador e, como no podemos deixar de supor, ele pensara nela imediatamente antes de cometer seu lapso 
de fala.
         "O Professor N. no percebeu seu deslize, ou, pelo menos, no o corrigiu, como se costuma fazer de maneira quase automtica. Por outro lado, o lapso foi 
recebido pela platia predominantemente francesa com genuna satisfao e seu efeito foi idntico ao de um jogo de palavras intencional. Eu mesmo acompanhei esse 
episdio aparentemente inocente com verdadeira excitao interior.  que, embora no pudesse, por motivos bvios, formular ao professor as perguntas exigidas pelo 
mtodo psicanaltico, ainda assim encarei esse lapso da fala como uma prova conclusiva da exatido de sua teoria sobre a determinao dos atos falhos e sobre as 
analogias e conexes profundas entre os lapsos da fala e os chistes."
         (30)O lapso da fala que se segue, relatado por um oficial austraco de volta a sua terra, o tenente T., originou-se tambm das impresses desoladoras da 
poca da guerra:
         "Por vrios meses do perodo em que fui prisioneiro de guerra na Itlia, fui um dos duzentos oficiais alojados numa pequena villa. Nessa fase, um de nossos 
companheiros morreu de gripe. Naturalmente, foi profunda a impresso causada por esse acontecimento, pois a situao em que nos encontrvamos, a falta de assistncia 
mdica e o desamparo de nossa existncia tornavam mais do que provvel a irrupo de uma epidemia. Havamos colocado o morto num poro.  noite, depois de dar um 
passeio ao redor da casa com um amigo, ambos manifestamos o desejo de ver o cadver. Sendo eu primeiro a entrar no poro, o espetculo com que deparei chocou-me 
violentamente, pois eu no esperava encontrar o esquife to perto da entrada e ter de contemplar to de perto o rosto agitado pelo jogo de luzes projetado pelas 
velas. Ainda sob os efeitos dessa cena, continuamos nossa caminhada ao redor da casa. Quando chegamos ao lugar de onde se avistavam um parque banhado pela luz da 
lua cheia, um prado claramente iluminado e, mais adiante, um tnue vu de nvoa, descrevi a imagem que isso me sugeria: era como se eu visse uma roda de elfos danando 
na orla do bosque de pinheiros vizinhos.
         "Na tarde seguinte enterramos nosso companheiro morto. O percurso desde nossa priso at o cemitrio da aldeola vizinha foi-nos igualmente penoso e humilhante, 
pois uma garotada imberbe e zombeteira e uma turba de aldees rudes e vociferantes aproveitaram a oportunidade para dar livre expresso, aos gritos, a seus sentimentos 
para conosco, mescla de curiosidade e dio. A sensao de no podermos escapar aos insultos nem mesmo nessa condio indefesa e minha repulsa pela rudeza demonstrada 
por eles encheram-me de amargura at a noite. No mesmo horrio da vspera e com o mesmo companheiro, comecei a andar pela trilha de cascalho ao redor da casa, tal 
como fizera antes; e ao passarmos pela grade do poro atrs da qual jazera o corpo, fui assaltado pela lembrana da impresso que me causara a viso dele. No lugar 
onde o parque claramente iluminado de novo se estendia diante de mim, sob a luz da mesma lua cheia, parei e disse a meu companheiro: 'Poderamos sentar aqui na sepultura 
["Grab"] - quero dizer, na grama ["Gras"] e afundar ["sinken"] uma serenata.' Minha ateno s foi despertada quando cometi o segundo lapso; eu havia corrigido o 
primeiro sem me conscientizar do sentido que ele continha. Agora, refleti e reuni os dois lapsos: 'na sepultura - afundar!' As seguintes imagens sucederam-se em 
minha mente com a rapidez de um raio: elfos danando e pairando  luz do luar; nosso camarada deitado no esquife, a impresso por ele despertada; algumas cenas do 
enterro, a sensao da repulsa vivenciada e da perturbao de nosso luto; a lembrana de algumas conversas sobre a epidemia surgida e as manifestaes de temor de 
vrios oficiais. Mais tarde, lembrei-me de que essa era a data da morte do meu pai, o que me pareceu notvel, dado que usualmente tenho pssima memria para datas.
         "A reflexo seguinte logo me esclareceu: a semelhana das circunstncias externas das duas noites, o mesmo horrio e iluminao, o lugar e o companheiro 
idnticos. Lembrei-me da inquietao que sentira ao aventarem os temores de uma propagao da gripe; e lembrei, ao mesmo tempo, minha proibio interna de me deixar 
dominar pelo medo. Conscientizei-me tambm do sentido da ordem de colocao das palavras 'poderamos - na sepultura - afundar', e entendi que somente a correo 
inicial de 'Grab' [sepultura] pro 'Gras' [grama], que se dera de modo quase imperceptvel, levara ao segundo lapso ('sinken' [afundar] em vez de 'singen' [cantar]), 
para garantir plena expresso ao complexo suprimido.
         "Acrescento ainda que, nessa poca, eu sofria de sonhos angustiantes em que por vrias vezes via adoentada uma parenta muito prxima, e em que certa vez 
cheguei a v-la morta. Pouco antes de ser aprisionado, eu recebera a notcia de que a gripe estava assolando com especial virulncia a ptria dessa parenta e tambm 
lhe expressara minhas srias preocupaes a esse respeito. Desde ento, ficara sem nenhum contato com ela. Meses depois, recebi a notcia de que ela fora vitimada 
pela epidemia duas semanas antes do episdio aqui descrito!"
         (31)O exemplo seguinte de lapso da fala elucida brilhantemente um dos dolorosos conflitos que fazem parte da sina de um mdico. Um homem com uma doena 
provavelmente fatal, embora o diagnstico ainda no se tivesse confirmado, chegara a Viena para aguardar a soluo do seu problema e pedira a um amigo dos tempos 
de juventude, agora transformado num mdico famoso, que se encarregasse de seu tratamento. Com alguma relutncia, o amigo finalmente concordou em faz-lo. O doente 
deveria internar-se numa casa de sade, e o mdico props o sanatrio "Hera". "Mas essa  uma instituio que s trata de determinado tipo de caso (uma maternidade)", 
objetou o doente. "Oh, no!", apressou-se o mdico a retrucar, "no 'Hera' eles podem umbringen [matar], quero dizer, unterbringen [acolher] qualquer tipo de paciente." 
Contestou ento violentamente a interpretao de seu deslize. "Voc no h de acreditar que tenho impulsos hostis contra voc, no ?" Quinze minutos depois, ao 
ser acompanhado at a porta pela dama que se encarregara dos cuidados com o enfermo, disse-lhe o mdico: "No consigo achar nada e continuo a no acreditar nisso. 
Mas, se for o caso, sou a favor de uma dose forte de morfina, e que descanse em paz." Ocorre que seu amigo lhe impusera a condio de que ele abreviasse seu sofrimento 
por meio de alguma droga to logo se confirmasse que o caso no tinha mais cura. Portanto, o mdico realmente aceitara a tarefa de matar seu amigo.
         (32) Eis um exemplo extremamente instrutivo de lapso da fala que eu no gostaria de omitir, apesar de ter ocorrido h uns vinte anos, segundo meu informante. 
"Certa vez uma dama expressou a seguinte opinio numa reunio social - e as palavras mostram ter sido pronunciadas com fervor e sob a presso de inmeros impulsos 
secretos: 'Sim, a mulher precisa ser bonita para agradar aos homens. J o homem tem muito mais facilidade; desde que tenha seus cinco [fnf] membros direitos [gerade], 
no precisa de mais nada!" Esse exemplo permite-nos uma boa viso do mecanismo ntimo de um lapso da fala resultante da condensao ou contaminao (em [1]).  plausvel 
supor que tenhamos aqui uma fuso de dois modos de falar de sentido semelhante:
         
         desde que ele tenha seus quatro membros direitos desde que ele tenha seus cinco sentidos.
         
         Ou talvez o elemento direito ["gerade"] fosse comum a duas intenes de discurso com o seguinte teor:
         
         desde que ele tenha seus membros direitos
         encarar todos os cinco como pares.
         
         "De fato, nada nos impede de presumir que ambas as expresses, a que se refere aos cinco sentidos e a referente ao "nmero par cinco", tenham contribudo 
separadamente para introduzir, na frase sobre os membros direitos, primeiro um nmero e, depois, o misterioso cinco, em vez do simples quatro. Mas essa fuso certamente 
no se teria produzido se, na forma resultante do lapso da fala, no tivesse um bom sentido prprio - um sentido que expressava uma verdade cnica obviamente inadmissvel 
sem disfarces, sobretudo ao ser dita por uma mulher. Por fim, no devemos deixar de salientar o fato de que a observao dessa senhora, tal como enunciada, tanto 
poderia ser vista como um chiste excepcional quanto como um divertido lapso da fala. Trata-se apenas de saber se ela teria proferido as palavras com uma inteno 
consciente ou inconsciente. Em nosso caso, o comportamento da interlocutora por certo refutou qualquer inteno consciente e excluiu a idia de um chiste."
         
         A estreita aproximao que o lapso da fala [1] pode ter com o chiste  demonstrada no seguinte caso narrado por Rank (1913), no qual a prpria autora do 
deslize acabou por trat-lo como um chiste e rir-se dele.
         (33)"Um homem recm-casado com quem a mulher, preocupada em preservar sua aparncia juvenil, s relutantemente admitia ter relaes sexuais freqentes, 
contou-me a seguinte histria, que, em retrospectiva [nachtrglich], tanto ele quanto ela achavam extremamente engraada. Depois de uma noite em que novamente desobedecera 
 norma de abstinncia de sua mulher, ele se barbeava pela manh no dormitrio do casal, enquanto ela permanecia deitada, e, como j fizera muitas vezes por comodismo, 
servia-se da borla de p-de-arroz da esposa, que estava na mesinha de cabeceira. Sua mulher, extremamente preocupada com sua pele, j lhe dissera muitas vezes para 
no fazer isso, e assim, exclamou irritada: 'Mas l est voc de novo a me [mich] empoar com sua [deiner] borla!' A risada do marido fez com que ela notasse o lapso 
(ela pretendera dizer 'a se [dich] empoar com minha [meiner] borla') e acabasse por cair tambm na risada. 'Empoar' ["pudern"]  uma expresso comumente usada em 
Viena no sentido de 'copular', e a borla  um smbolo flico bastante bvio."
         (34) Tambm no exemplo seguinte, fornecido por Storfer, poder-se-ia pensar que houve inteno de fazer um chiste:
         A senhora B., que sofria de um mal de origem obviamente psicognica, fora repetidamente aconselhada a consultar o psicanalista X. Recusava-se persistentemente 
a faz-lo, dizendo que tal tratamento nunca poderia ter nenhuma serventia, pois o metdico erroneamente faria tudo remontar a coisas sexuais. Entretanto, chegou 
finalmente o dia em que ela se disps a seguir o conselho e perguntou: "Num gut, wann ordinrt also dieser Dr. X.?"
         (35) -A ligao entre os chistes e os lapsos da fala tambm se evidencia no fato de que, em muitos casos, o deslize no passa de uma abreviao:
         Ao terminar o curso secundrio, uma jovem seguiu a moda dominante da poca e matriculou-se no curso de medicina. Passados alguns semestres, trocou o curso 
de medicina pelo de qumica. Alguns anos depois, descreveu essa mudana com as seguintes palavras: "Em geral, eu no me apavorava nas dissecaes, mas um dia, quando 
tive de arrancar as unhas dos dedos de um cadver, perdi o prazer em toda essa... qumica".
         (36) Introduzo aqui outro lapso da fala cuja interpretao no exige muita habilidade. "Numa aula de anatomia, o professor se empenhava em explicar as cavidades 
nasais, que so sabidamente um captulo muito difcil da enterologia. Ao perguntar aos ouvintes se haviam entendido sua exposio do assunto, a resposta de todos 
foi afirmativa. Diante disso, comentou o professor, conhecido por sua presuno: 'Mal posso acreditar nisso, pois mesmo em Viena, com seus milhes de habitantes, 
os que entendem das cavidades nasais podem ser contados num dedo, quero dizer, nos dedos da mo."
         (37)Em outra ocasio, disse o mesmo professor: "No caso dos rgos genitais femininos, apesar das muitas Versuchungen [tentaes] - perdo, Versuche [tentativas]..."
         (38) Sou grato ao Dr. Alfred Robitsek, de Viena, por ter-me apontado dois lapsos da fala registrados por um antigo autor francs, que aqui transcrevo sem 
fazer a traduo:
         Brantme (1527-1614), Vies des Dames galantes, "Discours second:" "Si ay-je cogneu une trs-belle et honneste dame de par le monde, qui, devisant avec un 
honneste gentilhomme de la cour des affaires de la guerre durant ces civiles, elle luy dit: 'J'ay ouy dire que le roy a faict rompre tous les c... de ce pays l.' 
Elle vouloit dire les ponts. Pensez que, venant de coucher d'avec son mary, ou songeant  son amant, elle avoit encor, ce nom frais en la bouche; et le gentilhomme 
s'en eschauffa en amours d'elle pour ce mot.
         "Une autre dame que j'ai cogneue, entretenant une autre grand' dame plus qu'elle, et luy louant et exaltant ses beautez, elle luy dit apres: 'Non, madame, 
ce que je vous en dis, ce n'est point pour vous adultrer', voulant dire adulater, comme elle le rhabilla ainsi: pensez qu'elle songeoit  adultrer."
         
         (39) Evidentemente, tambm existem exemplos mais modernos de doubles entendres sexuais nascidos de lapsos da fala. A senhora F. estava descrevendo sua primeira 
aula num curso de lnguas: " muito interessante; o professor  um jovem ingls muito simptico. Logo na primeira aula, ele me deu a entender 'durch die Bluse' [atravs 
da blusa] - quero dizer, 'durch die Blume' [literalmente, "atravs das flores", i.e. "indiretamente"] que preferiria dar-me aulas particulares." (De Storfer.)
         No procedimento psicoteraputico que emprego para resolver e eliminar os sintomas neurticos,  muito freqente eu deparar com a tarefa de descobrir, pelos 
ditos e associaes aparentemente casuais dos pacientes, um contudo de pensamento que se esfora por permanecer oculto, mas que, no obstante, no consegue deixar 
de denunciar inadvertidamente sua existncia, das mais variadas maneiras. Nisso os lapsos da fala prestam com freqncia os mais valiosos servios, como eu poderia 
mostrar com alguns exemplos muito convincentes e, ao mesmo tempo, curiosssimos. Por exemplo, um paciente fala sobre sua tia e, sem reparar no lapso, chama-a sistematicamente 
de "minha me", ou ento uma paciente se refere ao marido como seu "irmo". Assim, eles me chamam a ateno para o fato de terem "identificado" essas pessoas entre 
si - de as terem includo numa srie, o que implica uma recorrncia de um mesmo tipo em sua vida afetiva. Outro exemplo: um rapaz de vinte anos apresentou-se em 
meu consultrio com as seguintes palavras: "Sou o pai de fulano de tal, que se tratou com o senhor. Perdo, eu quis dizer que sou irmo dele: ele  quatro anos mais 
velho do que eu." Compreendi assim que, por meio desse lapso, ele quis expressar que, tal como irmo, tambm adoecera por culpa do pai; que, como o irmo, desejava 
tratar-se, mais que era o pai quem mais necessitava de tratamento. Noutros casos, uma combinao de palavras que soa estranha ou uma expresso que parece forada 
basta para revelar que um pensamento recalcado participa dos ditos do paciente, que encobrem uma outra motivao.
         Por conseguinte, tanto nas perturbaes mais grosseiras da fala quanto nas mais sutis, que ainda podem ser classificadas sob o ttulo de "lapsos da fala", 
penso que no  a influncia do "efeito de contato dos sons" [em [1]], mas sim a influncia de pensamentos situados fora do dito intencionado, quedetermina a ocorrncia 
do lapso e fornece uma explicao adequada para o equvoco ocorrido. No pretendo pr em dvida as leis que regem a maneira como os sons se modificam mutuamente, 
mas, por si s, essas leis no me parecem ter eficcia suficiente para perturbar a enunciao correta da fala. Nos casos que estudei e investiguei com rigor, essas 
leis no representam mais do que o mecanismo preformado de que se serve, por convenincia, uma motivao psquica mais remota, mas sem sujeitar-se  esfera da influncia 
dessas relaes [fonticas]. Num grande nmero de substituies [em [1]], os lapsos da fala desconsideram por completo essas leis fonticas. Nesse aspecto, estou 
de pleno acordo com Wundt, que como eu presume que as condies que regem os lapsos da fala so complexas e vo muito alm dos efeitos de contato dos sons.
         Se considero aceitas essas "influncias psquicas mais remotas", como so chamadas por Wundt [cf. acima, ver em [1]-[2]], nada me impede por outro lado, 
de admitir tambm que, nas situaes em que se fala apressadamente e a ateno est algo distrada, as condies que regem os lapsos da fala podem restringir-se 
facilmente aos limites definidos por Meringer e Mayer. Ainda assim, para alguns dos exemplos compilados por esses autores, parece mais plausvel dar uma explicao 
mais complexa. Tomo, por exemplo, um dos casos citados acima [em [1]]:
         
         'Es war mir auf der Schwest...
         Brust so schwer.'
         
         Ser que aqui o som "schwe" simplesmente suplantou [verdrngt] o "bru", de igual valncia, como uma "antecipao" dele? Dificilmente se pode descartar a 
idia de que os fonemas componentes de "schwe" foram ainda habilitados para essa supremacia graas a uma relao especial. Esta s poderia ser a associao Schwester 
[irm] - Bruder [irmo], ou talvez tambm Brust der Schwester [seio da irm], que leva a outros grupos de pensamentos. E  este auxiliar invisvel por trs dos bastidores 
que d ao inocente "schwe" o poder cujo xito se manifesta como um equvoco da fala.
         Existem outros lapsos da fala em que podemos supor que o verdadeiro fator perturbador  alguma semelhana fontica com palavras e sentidos obscenos. A distoro 
e deformao deliberadas de palavras e expresses, to caras s pessoas vulgares, tm a finalidade exclusiva de explorar ocasiesinocentes para aludir a temas proibidos; 
e esse jogo com as palavras  to freqente que nada haveria de assombroso em sua ocorrncia inadvertida e contrria  vontade da pessoa. A essa categoria sem dvida 
pertencem exemplos como Eischeissweibchen (em vez de Eiweissecheibchen), Apopos Fritz (em vez de  propos), Lokuskapitl (em vez de Lotuskapitl) etc., e talvez 
tambm a Alabsterbachse (Alabasterbchse) de Sta. Maria Madalena. [1] - "Ich fordere Sie auf, auf das Wohl unsers Chefs aufzustossen" ["Convido-os a arrotarem  
sade de nosso chefe", ver em [1]] certamente nada mais  do que uma pardia inintencional que ecoa uma pardia deliberada. Se eu fosse o chefe homenageado na cerimnia 
em que o orador cometeu esse lapso, provavelmente refletiria sobre a esperteza dos romanos em permitirem aos soldados dos imperadores triunfantes exprimirem em canes 
satricas suas crticas ntimas ao homem festejado. Meringer nos conta que ele prprio, ao saudar certa vez algum que, por ser o membro mais velho de uma sociedade, 
era familiarmente tratado pelo ttulo honorfico de "Senexl" ou ...altes [velho] Senexl", disse-lhe: "Prost [ sua sade!], Senex altesl!" O prprio Meringer ficou 
chocado com esse engano (Meringer e Mayer, 1895, 50). Talvez, possamos interpretar seu afeto se considerarmos o quanto a forma "Altes" se aproxima da expresso insultuosa 
"alter Esel" ["burro velho"]. Existem poderosas punies internas para qualquer falta de respeito para com os mais velhos (ou seja, reduzindo isso aos termos da 
infncia, do respeito para com o pai).
         Espero que no escape ao leitor a diferena de valor entre essas interpretaes cuja comprovao  impossvel, e os exemplos que eu mesmo compilei e expliquei 
atravs de anlises. Mas, se ainda me apego secretamente a minha expectativa de que at os lapsos da fala aparentemente simples podem ser explicados pela interferncia 
de uma idia meio suprimida que est fora do contexto intencionado, o que me atrai para isso  uma observao de Meringer extremamente digna de nota. Diz esse autor 
que  curioso que ningum se dispe a admitir que cometeu um lapso da fala. H pessoas muito sensatas e honestas que se ofendem quando lhes dizemos que cometeram 
um lapso. Eu no ousaria fazer uma generalizao to ampla quanto a de Meringer ao dizer "ningum". Mas o sinal de afeto que se segue  revelao do lapso, e que 
 claramente da natureza da vergonha, tem seu significado. Pode ser comparado ao aborrecimento que sentimos quando no conseguimos lembrar um nome esquecido [em 
[1]-[2]], e a nossa surpresa diante da tenacidade de uma lembrana aparentemente indiferente [em [1]]; e indica invariavelmente que algum motivo contribuiu para 
o advento da interferncia.
         A distoro de um nome, quando intencional, equivale a um insulto; e  bem possvel que tenha a mesma significao em toda uma srie de casos em que aparece 
sob a forma de um lapso inadvertido. A pessoa que uma vez, como relata Mayer, disse "Freuder" em vez de "Freud", por ter pouco antes proferido o nome de Breuer (Meringer 
e Mayer, 1895, 38), e que, em outra ocasio, falou do mtodo de tratamento "Freuer-Breudiano" (ibid, 28), provavelmente era um colega no muito entusiasmado com 
esse mtodo. Mais adiante, no captulo relativo aos lapsos da escrita, apresentarei um exemplo de distoro de um nome que certamente no pode ser explicado de nenhuma 
outra maneira [em [1]].
         
         Nesses casos, o fator perturbador interferente  uma crtica que precisa ser posta de lado, por no corresponder no momento  inteno do falante.
         Inversamente, [1] a substituio de um nome por outro, a apropriao do nome de outra pessoa e a identificao por meio do lapso no nome devem significar 
um reconhecimento que, por alguma razo, tem de permanecer em segundo plano por ora. Uma experincia dessa natureza, extrada de seus tempos de estudante, -nos 
descrita por Sndor Ferenczi:
         "Em meu primeiro ano ginasial, pela primeira vez na vida, tive de recitar um poema em pblico (i.e. diante da classe inteira). Estava bem preparado e fiquei 
atnito ao ser interrompido, logo no comeo, por uma gargalhada geral. O professor logo me explicou o motivo dessa estranha reao: eu dissera corretamente o ttulo 
do poema, 'Aus der Ferne' [Da Distncia], mas, em vez de atribu-lo a seu verdadeiro autor, indiquei meu prprio nome. O nome do poeta  Alexandre (Sndor [em hngaro]) 
Petfi. A troca foi favorecida pelo fato de termos o mesmo prenome, porm, indubitavelmente, a causa real foi que, naquela poca, eu me identificava em meus desejos 
secretos com esse famoso poeta-heri. Mesmo conscientemente, meu amor e admirao por ele beiravam a idolatria. Por trs desse ato falho,  claro que se encontra 
tambm todo o lastimvel complexo da ambio."
         Uma identificao semelhante atravs da troca de nomes foi-me narrada por um jovem mdico. Tmida e reverentemente, ele se apresentara ao famoso Virchow 
como "Dr. Virchow". O professor voltou-se para ele, surpreso, e perguntou: "Ah, o senhor tambm se chama Virchow?" No sei como o jovem ambicioso justificou o lapso 
cometido - se recorreu  desculpa lisonjeira de que se sentira to insignificante diante daquele grande nome que o seu prprio no pde deixar de escapar-lhe, ou 
se teve a coragem de admitir que esperava um dia tornar-se um homem to importante como Virchow, e de pedir ao professor que no o tratasse com tanto menosprezo 
por causa disso. Um desses dois pensamentos - ou talvez ambos simultaneamente - podem ter confundido o jovem ao se apresentar.
         Por motivos de natureza extremamente pessoal devo deixar indeterminado se uma interpretao semelhante  tambm aplicvel ao caso que se segue. No Congresso 
Internacional de Amsterd, em 1907, minha teoria da histeria foi alvo de vivos debates. Num inflamado discurso contra mim, um dos meus mais vigorosos adversrios 
cometeu repetidamente lapsos que assumiram a forma de ele se colocar em meu lugar e falar em meu nome. Por exemplo, dizia: "Sabe-se que Breuer e eu provamos...", 
quando s poderia ter pretendido dizer "... Breuer e Freud..." O nome desse meu oponente no tem a menor semelhana com o meu. Esse exemplo, assim como muitos outros 
casos em que o lapso da fala  a troca de um nome por outro, mostra-nos que tais lapsos dispensam inteiramente o auxlio prestado pela semelhana de som [ver em 
[1]] e podem ocorrer unicamente com o apoio de relaes ocultas no contedo.
         Em outros casos bem mais significativos,  a autocrtica, a oposio interna ao prprio enunciado, que obriga o sujeito a cometer um lapso da fala e mesmo 
a substituir pelo oposto aquilo que tenciona dizer. Com assombro, observa-se ento como o texto de uma afirmao anula a inteno dela e como o lapso da fala expe 
uma insinceridade interna. O lapso transforma-se aqui num meio de expresso mmica - freqentemente, decerto, a expresso de algo que no se queria dizer: torna-se 
um meio de trair a si mesmo. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando um homem no muito afeito s chamadas relaes sexuais normais em seu contato com as mulheres 
interveio numa conversa sobre uma moa que diziam ser coquete [kokett], afirmando: "Se tivesse que se haver comigo ela logo perderia esse hbito de kottiern [palavra 
inexistente]." Sem dvida, s uma outra palavra, "koitieren" [praticar o coito], poderia ter sido responsvel por essa alterao na palavra pretendida "kokettieren" 
[coquetear]. - Ou este outro caso: "Temos um tio que h meses se mostra muito ofendido por nunca o visitarmos. Aproveitamos a oportunidade de sua mudana para uma 
casa nova para fazer-lhe a to adiada visita. Ele pareceu muito alegre por ver-nos e, quando nos despedamos, disse com muita emoo: 'De agora em diante, espero 
v-los ainda mais raramente do que antes'."
         As contingncias favorveis [1] do material lingstico muitas vezes determinam a ocorrncia de lapsos da fala que tm o efeito francamente estarrecedor 
de uma revelao, ou produzem todo o efeito cmico de um chiste. -  o caso do exemplo seguinte, observado e relatado pelo Dr. Reitler:
         "-Esse encantador chapu novo, suponho que voc mesma o tenha 'aufgepatzt' [em vez de "aufgeputzt" (enfeitado)], no ? - disse uma dama a outra em tom 
de admirao. Mas teve de interromper o elogio pretendido, pois sua crtica silenciosa de que os enfeites do chapu ["Hutaufputz"] eram uma 'Patzerei [uma barafunda]' 
fora indicada com demasiada clareza por esse lapso indelicado para que qualquer outra expresso de admirao convencional soasse convincente."
         
         Mais branda, porm tambm inequvoca,  a crtica contida no seguinte exemplo:
         "Uma dama em visita a uma conhecida foi ficando muito impaciente e cansada com a conversa enfadonha e prolixa desta ltima. Quando enfim conseguiu libertar-se 
e se despedir, foi outra vez detida por uma nova enxurrada de palavras da companheira, que a acompanhara at o vestbulo e, quando ela j ia saindo, obrigava-a a 
ficar de p junto  porta e a continuar ouvindo. Por fim, ela interrompeu a anfitri com a pergunta: 'A senhora est em casa no vestbulo [Vorzimmer]?' Somente ao 
ver a expresso atnita da outra foi que ela reparou em seu lapso. Cansada de ficar tanto tempo em p no vestbulo, ela tencionara interromper a conversa com a pergunta 
'A senhora est em casa de manh [Vormittag]?', e o lapso traiu sua impacincia ante a nova reteno."
         O exemplo seguinte, testemunhado pelo Dr. Max Graf,  uma advertncia que chama  auto-observao:
         "Na assemblia geral da Associao de Jornalista 'Concordia', um jovem membro, que estava sempre sem dinheiro, fazia um discurso violentamente oposicionista 
e, em sua excitao, disse 'Vorschussmitglieder [membros do emprstimo]' (em vez de 'Vorstandsmitglieder [membros da diretoria]' ou 'Ausschussmitglieder [membros 
da comisso]') .  que estes ltimos esto autorizados a aprovar emprstimos, e o jovem orador realmente acabara de fazer uma solicitao de emprstimo."
         Vimos [1] pelo exemplo do "Vorschwein" [ver em [1]] que um lapso da fala pode ocorrer facilmente quando se faz um esforo para suprimir palavras insultuosas. 
Dessa maneira, d-se vazo aos prprios sentimentos:
         Um fotgrafo que decidira abster-se de usar palavras da zoologia ao lidar com seus empregados desajeitados, dirigiu-se nos seguintes termos a um aprendiz 
que tentava despejar uma grande bandeja cheia at a borda e, ao faz-lo, naturalmente derramou metade do contedo no cho: "Mas homem, primeiro schpsen Sie um pouco!" 
Logo depois, em meio a uma longa reprimenda a uma assistente que quase estragara uma dzia de chapas valiosas por desleixo, ele disse: "Ser que voc  to hornverbrannt...?"
         O exemplo seguinte mostra com um lapso da fala resultou em grave autodelao. Alguns de seus detalhes justificam a reproduo integral do relato feito por 
Brill na Zentralblatt fr Psychoanalyse, Volume II.
         "Certa noite, o Dr. Frink e eu fazamos um passeio e discutamos alguns dos assuntos da Sociedade Psicanaltica de Nova Iorque. Encontramos um colega, o 
Dr. R., que eu no via h anos e de cuja vida particular nada sabia. Ficamos muito contentes com nosso reencontro e, a convite meu, ele nos acompanhou a um caf, 
onde passamos duas horas conversando animadamente. Ele aparecia conhecer alguns detalhes a meu respeito, pois, logo aps as saudaes usuais, perguntou como ia passando 
meu filho pequeno e me disse ter notcias minhas de tempos em tempos, atravs de um amigo comum, e estar interessado em meu trabalho desde que lera sobre ele nas 
publicaes mdicas. Quando perguntei se era casado, deu uma resposta negativa e acrescentou: 'Por que se casaria um homem como eu?'
         "Ao sairmos do caf, ele se voltou abruptamente para mim e disse: 'Gostaria de saber o que o senhor faria num caso como este: conheo uma enfermeira que 
foi citada como cmplice num processo de divrcio. A mulher processou o marido e a citou como cmplice, e ele obteve o divrcio. Interrompi-o, dizendo: 'O senhor 
quer dizer que ela obteve o divrcio.' Ele se corrigiu imediatamente, dizendo: 'Sim,  claro, ela obteve o divrcio', e prosseguiu, contando que a enfermeira fora 
to afetada pelo processo e pelo escndalo que passara a beber, ficara muito nervosa etc.; e ele queria que eu o aconselhasse sobre o modo de trat-la.
         
         "Assim que corrigi seu engano, pedi-lhe que o explicasse, mas recebi as respostas surpresas de praxe: afinal, todos tinham o direito de cometer lapsos, 
fora apenas um acidente, no havia nada por trs disso etc. Respondi que deve haver uma razo para todos os deslizes da fala e que, se ele no me houvesse dito antes 
que no era casado, eu ficaria tentado a supor que ele prprio era o heri dessa histria, porque, nesse caso, o lapso poderia ser explicado por seu desejo de que 
ele tivesse obtido o divrcio, e no sua mulher, para no ter (segundo nossas leis matrimoniais) que pagar penso alimentcia e poder voltar a se casar do Estado 
de Nova York. Ele negou firmemente minha conjectura mas sua reao emocional exagerada ao faz-lo, com sinas evidentes de agitao seguidos de risadas, s fez reforar 
minhas suspeitas. Ante meu apelo de que dissesse a verdade a bem da cincia, respondeu: 'A menos que o senhor queira ouvir uma mentira, deve acreditar que nunca 
fui casado, e, portanto, sua interpretao psicanaltica est completamente errada.' Acrescentou que uma pessoa que prestava ateno a todos essas trivialidades 
era decididamente perigosa. E ento, lembrou-se repentinamente de que tinha outro compromisso e se despediu.
         "O Dr. Frink e eu continuvamos convencidos de que minha interpretao do lapso estava correta, e decidi corrobor-la ou refut-la mediante novas investigaes. 
Dias depois, visitei um vizinho, velho amigo do Dr. R. que pde confirmar minha explicao em todos os seus detalhes: o processo de divrcio ocorrera algumas semanas 
antes e a enfermeira fora citada como cmplice. Hoje o Dr. R. est plenamente convencido da exatido dos mecanismos freudianos."
         A autodelao  igualmente inconfundvel no caso que se segue, narrado por Otto Rank:
         "Um pai desprovido de qualquer sentimento patritico, e que queria educar seus filhos de modo a que tambm eles ficassem livres do que ele considerava um 
sentimento suprfluo, estava criticando os filhos por participarem de uma demonstrao patritica; quando eles protestaram, dizendo que o tio tambm havia participado, 
o pai retrucou: 'Ele  justamente pessoa que vocs no devem imitar:  um idiota.' Ao notar a expresso de assombro dos filhos ante esse tom incomum no pai, ele 
percebeu que havia cometido um lapso e acrescentou, desculpando-se: 'Naturalmente, eu quis dizer patriota'."
         
         Eis um lapso da fala que foi interpretado como uma autodelao pela prpria interlocutora. Ele nos  relatado por Strcke, que acrescenta um comentrio 
pertinente, se bem que ultrapasse os limites da tarefa interpretativa.
         "Uma dentista prometera  irm que qualquer dia lhe faria exame para verificar se havia Kontakt [contato] entre dois de seus molares (isto , se as superfcies 
laterais dos molares se tocavam de modo a evitar o depsito de fragmentos de comida entre eles). Por fim, a irm se queixou de ter que esperar tanto por esse exame 
e, gracejando, disse: 'Agora ela talvez esteja tratando de uma colega, mas sua irm tem que continuar esperando.' A dentista enfim a examinou e constatou que, de 
fato, havia um pequeno orifcio num dos molares, dizendo ento: 'No pensei que fosse to srio; achei que voc s no tinha Kontant [moeda soante] ... quero dizer 
Kontakt.' 'Est vendo?', riu a irm; 'foi s por avareza que voc me fez esperar mais tempo do que seus pacientes que pagam!'
         "(Obviamente, no me cabe acrescentar minhas prprias associaes s delas, ou basear nisso quaisquer concluses, mas, ao saber desse lapso da fala, ocorreu-me 
de imediato que essas duas jovens, amveis e brilhantes, so solteiras e se relacionam muito pouco com os rapazes, e perguntei a mim mesmo se no teriam mais contato 
com gente jovem se dispusessem de mais moeda sonante.)" [Cf. Strcke, 1916.]
         Tambm no exemplo seguinte, narrado por Reik (1915), o lapso da fala equivale a uma autodelao:
         "Uma moa estava para ficar noiva de um jovem que lhe era antiptico. Para que os dois jovens se conhecessem melhor, os pais prepararam uma reunio  qual 
compareceriam tambm os futuros noivos. A moa soube controlar-se o bastante para que seu pretendente, muito obsequioso com ela, no percebesse sua antipatia. Mas, 
quando a me lhe perguntou se gostara do rapas, ela respondeu polidamente: 'Sim, ele  muito detestvel [liebenswidrig]!'"
         No menos auto-revelador  este exemplo, descrito por Rank (1913) como um "lapso da fala jocoso":
         "Uma mulher casada que gostava de ouvir anedotas e que, segundo se dizia, no era completamente avessa s relaes extraconjugais, se reforadas por presentes 
adequados, ouviu de um jovem que tambm ansiava por seus favores a seguinte velha histria, narrada no sem segundas intenes por parte dele. Um dos dois parceiros 
comerciais tentava obter os favores da mulher um tanto arisca de seu scio. Por fim, ela consentiu em conced-los, em troca de um presente de mil florins. Assim, 
quando o marido se preparava para sair em viagem, o scio lhe pediu mil florins emprestados e prometeu devolv-los a sua mulher no dia seguinte. Depois,  claro, 
pagou essa soma  esposa do scio como uma suposta recompensa pelos favores concedidos; e ela se acreditou finalmente apanhada quando o marido, ao regressar, pediu-lhe 
os mil florins, o que acrescentou a seu prejuzo a afronta. Quando o rapaz chegou ao ponto da histria em que o sedutor diz 'Devolverei o dinheiro a sua mulher amanh', 
sua interlocutora o interrompeu com estas palavras muito reveladoras: 'Diga-me, o senhor j no me devolveu... perdo, j no me contou isso?' Dificilmente ela poderia 
ter dado uma indicao mais clara, sem formul-la expressamente, de sua disposio a se entregar nas mesmas condies."
         Um bom exemplo desse tipo de autodelao sem conseqncias graves  narrado por Tausk (1917) sob o ttulo de "A F dos Antepassados". "Como minha noiva 
era crist, contou o senhor A., "e no queria abraar a f judaica, fui eu mesmo obrigado a me converter ao cristianismo para que pudssemos casar-nos. No foi sem 
alguma resistncia interna que mudei de religio, mas isso me pareceu justificado pelo objetivo visado tanto mais que envolvia apenas o abandono de uma filiao 
aparente ao judasmo, e no de uma convico religiosa (que nunca tive). Apesar disso, continuei sempre a me apresentar como judeu, e poucos de meus conhecimentos 
sabem que sou batizado. Tenho desse casamento dois filhos que foram batizados como cristos. Quando os meninos chegaram a certa idade, foram informados sobre sua 
ascendncia judaica, para que no fossem influenciados pelas vises anti-semitas na escola e no se voltassem contra o pai por um motivo to suprfluo. H alguns 
anos, eu e meus filhos, que na poca freqentavam a escola primria, estvamos passando as frias de vero em D., hospedados pela famlia de um professor. Um dia, 
ao tomarmos ch com nossos anfitries habitualmente amveis, a dona da casa, que nem suspeitava da ascendncia judaica de seus veranistas, desfechou alguns ataques 
muito mordazes contra os judeus. Eu deveria ter esclarecido bravamente a situao, para dar a meus filhos o exemplo de 'sustentar com coragem as prprias convices', 
mas eu temi as explicaes desagradveis que costumam seguir-se a esse tipo de confisso. Alm disso, receava a possibilidade de ter de abandonar as boas acomodaes 
encontradas e, desse modo, estragar o j limitado perodo de frias minhas e de meus filhos, caso o comportamento de nossos anfitries se tornasse inamistoso pelo 
fato de sermos judeus. Enfrentanto, como tinha razes para esperar que meus filhos, com sua franqueza e ingenuidade, acabariam por revelar a momentosa verdade se 
continuassem ouvindo a conversa, tentei afast-los do grupo, mandando-os para o jardim. 'Vo para o jardim, judeus [Juden]', disse-lhes, e me corrigi rapidamente: 
'meninos [Jungen]'. Permiti assim que a 'corajosa sustentao das prprias convices' se expressasse atravs de um ato falho. De fato, os outros no tiraram nenhuma 
concluso de meu lapso da fala, j que no lhe atriburam qualquer importncia; mas tive de aprender a lio de que a 'f dos antepassados' no pode ser renegada 
impunemente quando se  filho e se tem filhos."
         Nada inocente foi o efeito produzido pelo seguinte deslize da fala, que eu no relataria se o prprio juiz no tivesse anotado para esta coleo durante 
um julgamento:
         Um soldado acusado de invaso e furto numa casa declarou em juzo: "At agora no me deram baixa desse Diebsstellung militar, de modo que, por enquanto, 
ainda perteno ao exrcito."
         Hilariante  o lapso da fala [1] quando, durante o trabalho psicanaltico, serve de meio para fornecer ao mdico uma confirmao muito bem-vinda, caso haja 
uma contradio com o paciente. Certa vez tive de interpretar o sonho de um paciente em que ocorria o nome "Jauner". O sonhador conhecia uma pessoa com esse nome, 
mas era impossvel descobrir porque ela havia aparecido no contexto do sonho; assim, arrisquei a conjectura de que talvez fosse apenas por causa do nome, que soa 
parecido com o insulto "Gauner" [gatuno, trapaceiro]. Meu paciente contestou isso com rapidez e energia, mas, ao faz-lo, cometeu um lapso da fala que confirmou 
minha suposio, pois tornou a confundir as mesmas letras. Sua resposta foi: "isso me aprece jewagt demais [em vez de "gewagt (ousado)"]. Quando chamei sua ateno 
para esse lapso, ele aceitou minha interpretao.
         Quando um dos participantes de uma discusso sria comete um lapso da fala que inverte o sentido do que ele pretendia dizer, isso o coloca imediatamente 
em desvantagem diante de seu adversrio, que raramente deixa de tirar grande proveito da melhora em sua posio.
         Isso deixa claro [1] que as pessoas do aos lapsos da fala e aos outros atos falhos a mesma interpretao que advogo neste livro, ainda que no endossem 
teoricamente essa concepo e mesmo que, no que se refere a elas prprias, sintam-se pouco inclinadas a renunciar ao comodismo implcito na tolerncia para com os 
atos falhos. A hilaridade e a ironia que so o efeito certeiro desse deslizes da fala no momento crucial servem de prova contra a conveno, supostamente aceita 
por todos, de que o equvoco na fala  um lapsus linguae sem nenhum significado psicolgico. Ningum menos do que o prprio chanceler do imprio alemo, o prncipe 
Blow, faz um protesto nesses moldes na tentativa de salvar a situao criada quando o texto de seu discurso em defesa do imperador (em novembro de 1907) adquiriu 
o sentido oposto por causa de um lapso na fala:
         "Quanto ao presente, a esta nova era do Imperador Guilherme II, s posso repetir o que disse h um ano: que seria inquo e injusto dizer que um crculo 
de conselheiros responsveis rodeia nosso imperador..." ("irresponsveis", gritam muitas vozes) "...conselheiros irresponsveis. Perdoem o lapsus linguae." (Risos.)
         Nesse caso, pelo acmulo de negativas, a frase do prncipe Blow foi um tanto obscurecida; a simpatia pelo orador e a considerao por sua posio difcil 
impediram que esse lapso fosse depois usado contra ele. Pior sorte, um ano depois, teve outro orador nesse mesmo lugar; ele queria exortar a uma manifestao irrestrita 
[rckhaltlos] em apoio ao imperador, e, nisso, um lamentvel lapso da fala o advertiu de que outros sentimentos se abrigavam em seu peito leal:
         "Lattmann (Partido Nacional Alemo): Colocamo-nos a questo do manifesto com base no regularmento do Reichstag. Segundo este, o Reichstag tem o direito 
de fazer tal manifesto ao imperador. Cremos que o pensamento e o desejo coletivos do povo alemo sejam o de poder fazer uma manifestao una tambm nesse caso, e, 
se pudermos faz-lo de uma forma que resulte em lucro absoluto para os sentimentos monrquicos, ento devemos tambm faz-lo de modo irresoluto ["rckgratlos", literalmente: 
"sem espinha dorsal"]." (Estrondosa gargalhada durante alguns minutos.) "Senhores, no  'rckgratlos' [irresolutamente] mas sim 'rckhaltlos' [irrestritamente]'" 
(risadas), "e tal manifestao irrestrita do povo, esperamos, h de ser aceita tambm por nosso imperador nesta poca difcil."
         O [jornal social-democrata] Vorwrts de 12 de novembro de 1908 no perdeu a oportunidade de apontar o sentido psicolgico desse lapso da fala: " provvel 
que nunca, em nenhum parlamento, um membro tenha caracterizado com tanta exatido, atravs de uma auto-acusao involuntria, sua prpria atitude e a da maioria 
parlamentar perante o imperador, tal como o fez o anti-semita Lattmann quando, ao falar com solene emoo no segundo dia do debate, escorregou na confisso de que 
ele e seus amigos queriam expressar sua opinio ao imperador irresolutamente. Uma estrepitosa gargalhada vinda de todos os lados abafou o restante das palavras do 
infeliz, que ainda achou necessrio balbuciar  guisa de desculpa, que na verdade pretendera dizer 'irrestritamente'."
         Acrescento mais um exemplo em que o lapso da fala assumiu as caractersticas decididamente inslitas de uma profecia. No comeo de 1923, houve uma grande 
comoo no mundo das finanas quando o jovem banqueiro X., provavelmente um dos mais novos dentre os "nouveaux riches" de W. e sem dvida o mais rico e o mais moo, 
obteve, depois de uma breve luta, a posse majoritria das aes do Banco ; como conseqncia disso, realizou-se tambm uma notvel assemblia geral em que os antigos 
diretores do banco, financistas da velha escola, no foram reeleitos, e o jovem X. tornou-se presidente do banco. No discurso de despedida ento proferido pelo diretor 
administrativo, Dr. Y., em homenagem ao velho presidente que no fora reeleito, vrios ouvintes repararam num lamentvel lapso da fala que se repetiu diversas vezes. 
Ele se referiu seguidamente ao presidente falecido [dahinschidend], em vez de exonerado. Ocorre que o ex-presidente morreu alguns dias depois dessa reunio. Mas, 
 claro, j tinha mais de oitenta anos! (De Storfer.)
         
         Um bom exemplo de lapso da fala em que a finalidade no  tanto trair o falante, mas dar algo a entender ao espectador na platia, encontra-se no Wallenstein 
[de Schiller] (Piccolomini, Ato I, Cena 5), e nos mostra que o dramaturgo que aqui se serviu desse recurso estava familiarizado com o mecanismo e o sentido dos lapsos 
da fala. Na cena anterior, Max Piccolomini tomara ardorosamente o partido do Duque [de Wallenstein] e descrevera em tom apaixonado as bnos da paz, das quais se 
conscientizara durante uma viagem em que havia acompanhado a filha de Wallenstein ao campo. Quando ele sai de cena, seu pai [Octavio] e Questenberg, o emissrio 
da corte, esto profundamente consternados. E prossegue a Cena 5:
         
         QUESTENBERG        A de ns e h de ficar assim?
         E ento, amigo! havemos de deix-lo partir
         Nesse delrio - deix-lo partir
         Sem cham-lo de volta imediatamente,
         Sem abrir-lhe os olhos agora mesmo?
         
         OCTAVIO        (recobrando-se aps uma meditao profunda)
          que ele acaba de abrir os meus.
         E vejo mais do que gostaria.
         
         QUEST.        O que h amigo?
         OCT.        Maldita seja essa viagem!
         QUEST.        Mas, por qu? O que h?
         OCT.        Vamos, venha comigo! Preciso seguir
         De imediato a malfadada pista, ver
         Com meus prprios olhos. Venha!
         (Procura arrast-lo consigo.)
         QUEST.        Mas, como? Para onde?
         OCT.        At ela...
         QUEST.        -At...
         OCT.        (corrigindo-se). At o Duque, vamos.
         [Conforme a traduo inglesa de Coleridge.]
         
         O pequeno deslize ao dizer "at ela", em vez de "at ele", serve para nos revelar que o pai entendeu o motivo por que seu filho tomou o partido do Duque, 
enquanto o corteso se queixa de que ele lhe est "falando por verdadeiros enigmas".
         Outro exemplo em que um dramaturgo se vale de um lapso da fala foi descoberto por Otto Rank (1910) em Shakespeare. Cito o relato de Rank:
         "Encontra-se em O Mercador de Veneza, de Shakespeare (Ato III, Cena 2), um lapso da fala que, do ponto de vista dramtico, tem uma motivao extremamente 
sutil e  empregado como um brilhante recurso tcnico. Tal como o lapso do Wallenstein para o qual Freud chamou a ateno, ele mostra que os poetas tm uma clara 
compreenso do mecanismo e do sentido desse tipo de ato falho e supem que o mesmo se aplique a sua platia. Prcia, compelida pela vontade de seu pai  escolha 
de um marido por sorteio, escapou at o momento de todos os seus pretendentes indesejados por obra do acaso. Tendo enfim encontrado em Bassinio o pretendente de 
seu agrado, ela tem motivos para temer que tambm a ele a sorte seja esquiva. Ela gostaria muito de dizer-lhe que, mesmo assim, ele pode ter certeza de seu amor, 
mas isso lhe  vedado por seu juramento. Nesse conflito ntimo, o poeta a faz dizer ao pretendente favorito:
         
         No vos apresseis, eu vos suplico; esperai um ou dois dias antes de consultar a sorte, pois, se escolherdes mal, perco vossa companhia; assim, aguardai 
um pouco. Algo me diz (mas no  o amor) que no quereria perder-vos... Eu vos poderia ensinar a escolher bem, mas ento seria perjura, e no o serei jamais. Podeis 
perder-me, portanto; mas, se o fizerdes, levar-me-eis a desejar ter cometido o pecado do perjrio. Malditos sejam vossos olhos! Eles me enfeitiaram e dividiram: 
metade de mim  vossa, e a outra metade  vossa... minha, quero dizer; mas, sendo minha,  vossa, e assim, sou toda vossa.
         "Aquilo de que ela queria dar-lhe apenas um indcio muito sutil, pois na verdade deveria ocultar-lhe por completo, ou seja, que mesmo antes de ele fazer 
a escolha ela lhe pertencia inteiramente e o amava,  justamente isso que o poeta, com admirvel e requintada sensibilidade psicolgica, deixa transparecer claramente 
em seu lapso da fala; e, como esse artifcio artstico, ele consegue minorar tanto a intolervel incerteza do amante quanto a tenso consonante da platia frente 
ao resultado de sua escolha."
         Pelo interesse que essa espcie de apoio dos grandes escritores confere a nossa teoria dos lapsos da fala, sinto-me justificado a citar um terceiro desses 
exemplos, relatado por Ernest Jones (1911b, 496):
         "Num artigo publicado recentemente, Otto Rank chamou-nos a ateno para um belo exemplo de como Shakespeare fez um de seus personagens, Prcia, cometer 
um lapso que revelou seus pensamentos secretos a qualquer espectador atento. Proponho relatar um exemplo semelhante, extrado de The Egoist, obra-prima do maior 
dos romancistas ingleses, George Meredith. Resumidamente, a trama do romance  a seguinte: Sir Willoughby Patterne, um aristocrata muito admirado em seu crculo, 
fica noivo de uma certa Srta. Constantia Durham. Ela descobre nele um egosmo intenso, que ele esconde habilmente do mundo, e, para escapar do casamento, foge com 
um certo Capito Oxford. Passados alguns anos, Patterne fica noivo da Srta. Clara Middleton, e a maior parte do livro  consagrada a descrever detalhadamente o conflito 
que brota em sua alma quando tambm ela descobre o egosmo dele. As circunstncias externas e seu conceito de honradez fazem-na manter o compromisso assumido, enquanto 
seu noivo torna-se cada vez mais repugnante a seus olhos. Ela toma parcialmente como confidente o primo e secretrio dele, Vernon Whitford, homem com quem termina 
por se casar; ele, porm, por lealdade a Patterne e outros motivos, mantm-se afastado.
         "Num monlogo sobre sua infelicidade, Clara assim se expressa: '- Ah, se algum nobre cavalheiro pudesse ver-me como sou e no desdenhasse ajudar-me! Quisera 
ser arrancada dessa priso de espinhos e saras. No consigo desvencilhar meu prprio caminho. Sou uma covarde. Um aceno com um dedo, creio, me faria mudar. Para 
um companheiro eu conseguiria fugir, mesmo sangrando e em meio a gritos e apuros... Constantia encontrou um soldado. Talvez ela tenha rezado, e suas preces foram 
atendidas. Ela agiu mal. Mas, ah, como a amo por isso! Seu nome era Harry Oxford... Ela no hesitou, rompeu as amarras, entregou-se de papel passado. Ah, moa intrpida, 
que pensar voc de mim? Mas no tenho nenhum Harry Whitford; estou sozinha... -' O sbito reconhecimento de que trocara o nome de Oxford por outro atingiu-a como 
uma bofetada e a fez corar intensamente.
         "O fato de os dois nomes masculinos terminarem em 'ford' evidentemente torna mais fcil confundi-los, e muitos veriam nisso uma causa suficiente, mas o 
verdadeiro motivo subjacente  claramente indicado pelo autor. Num outro trecho ocorre o mesmo lapso, seguindo-se a ele a hesitao espontnea e a repentina mudana 
de assunto que nos so familiares na psicanlise e nas experincias de Jung sobre a associao, quando se toca num complexo semiconsciente. Diz Sir Willoughby sobre 
Whitford, em tom paternalista: '- Alarme falso. A deciso de fazer qualquer coisa fora do comum escapa inteiramente ao pobrezinho do Vernon.' Clara retruca: '- Mas, 
se o Sr. Oxford - Whitford... seus cisnes vem singrando o lago, veja como so lindos quando esto enfurecidos! Estava para lhe perguntar, quando um homem testemunha 
uma admirao acentuada por outro, ele naturalmente se sente desencorajado, no  mesmo? -' Sir Willoughby retesou-se, compreendendo repentinamente.
         "Noutra passagem ainda, Clara trai por outro lapso seu desejo secreto de ter um relacionamento mais ntimo com Vernon Whitford. Falando com um amigo, diz 
ela: '- Diga ao Sr. Vernon - diga ao Sr. Whitford'."
         A concepo [1] de lapsos da fala aqui defendida resiste  prova at mesmo nos exemplos mais triviais. Tenho podido mostrar repetidamente que os erros mais 
insignificantes e bvios da fala tm sentido e podem ser explicados do mesmo modo que os exemplos mais notveis. Uma paciente que estava agindo em total desacordo 
com minha vontade ao programar uma rpida viagem a Budapeste, mas que estava decidida a fazer as coisas a seu modo, justificou-se dizendo que ficaria l apenas trs 
dias; entretanto, cometeu um lapso e disse "apenas trs semanas". Estava traindo o fato de que, a despeito de mim, preferiria passar trs semanas, e no trs dias, 
na companhia que eu considerava inadequada para ela. - Certa noite, quis desculpar-me por no ter buscado minha mulher no teatro e disse: "Cheguei ao teatro s dez 
e dez". Fui corrigido: "Voc quer dizer dez para as dez".  claro que eu queria dizer dez para as dez. Depois das dez horas, no haveria desculpa. Haviam-me dito 
que nos ingressos constava: o espetculo termina antes das dez horas. Ao chegar, encontrei o saguo de entrada s escuras e o teatro, vazio. O espetculo de fato 
terminara mais cedo e minha mulher no havia esperado por mim. Quando consultei o relgio, eram apenas cinco para as dez. Mas decidi apresentar minha situao de 
modo mais favorvel ao chegar em casa e dizer que ainda faltavam dez para as dez. Infelizmente, meu lapso estragou meu plano e exps minha insinceridade, fazendo-me 
confessar mais do que havia para ser confessado.
         Isso nos leva s perturbaes da fala que j no podem ser descritas como lapsos, pois o que afetam no  a palavra isolada, mas sim o ritmo e a enunciao 
do dito inteiro: perturbaes como, por exemplo, os balbucios e gaguejos causados pelo embacao. Mas tambm nesse caso, como nos anteriores, a questo  um conflito 
interno que nos  denunciado pela perturbao da fala. Realmente no creio que algum cometesse um lapso da fala numa audincia com Sua Majestade, numa declarao 
de amor feita com seriedade ou ao defender sua honra e seu nome diante de um jri - em suma, em todas as ocasies em que a pessoa se entrega de corpo e alma, como 
diz a significativa expresso. Mesmo ao avaliar o estilo de um autor, temos o direito e o hbito de aplicar o mesmo princpio elucidativo que nos  indispensvel 
ao rastrearmos as origens dos equvocos isolados da fala. A maneira clara e inambgua de escrever mostra-nos que o autor est de acordo consigo mesmo; quando encontramos 
uma expresso forada e retorcida, que, segundo o apropriado dito, aponta para mais de um alvo, ali podemos reconhecer a interveno de um pensamento insuficientemente 
elaborado, complicado, ou escutar os ecos velados da autocrtica do autor. [1]
         
         Desde a primeira publicao deste livro, [1] amigos e colegas de lngua estrangeira comearam a voltar sua ateno para os lapsos da fala que puderam observar 
nos pases em que essas lnguas so faladas. Como era de se esperar, descobriram que as leis que regem os atos falhos independem do material lingstico, e fizeram 
as mesmas interpretaes aqui ilustradas atravs de exemplos de falantes da lngua alem. Dentre os inmeros exemplos, incluo apenas um:
         Conta o Dr. A.A. Brill (1909), de Nova Iorque, a seu prprio respeito: "Um amigo me descreveu um doente dos nervos e quis saber se eu poderia ajud-lo. 
Observei: 'Creio que, com o tempo, eu poderia eliminar todos os sintomas dele pela psicanlise, porque  um caso durvel [durable]' - querendo dizer 'curvel [curable]'!"
         Para concluir, [1] em prol dos leitores que esto dispostos a fazer um certo esforo e no desconhecem a psicanlise, acrescentarei um exemplo capaz de 
mostrar a que profundezas da alma pode conduzir a investigao de um lapso da fala. O exemplo foi relatado pelo Dr. Z. Jekels (1913).
         "Em 11 de dezembro, uma dama de minhas relaes interpelou-me (em polons) de maneira um tanto desafiadora e arrogante, dizendo: 'Por que foi que eu disse 
hoje que tenho doze dedos?' A meu pedido, ela reproduziu a cena em que essa observao fora feita. Ela se aprontara para sair com a filha para fazerem uma visita, 
e pedira  filha - um caso de demncia precoce em fase de remisso - que trocasse de blusa, o que ela fez no quarto ao lado. Ao voltar, a filha encontrou a me ocupada 
em limpar as unhas, seguindo-se a seguinte conversa:
         "Filha: 'Est vendo? Agora j estou pronta, e voc, no!'
         
         "Me: ', mas voc s tem uma blusa, e eu, doze unhas.'
         "Filha: 'O qu?'
         
         "Me (impaciente): 'Ora, naturalmente, pois eu tenho doze dedos.'
         "Um colega que ouvira essa histria junto comigo perguntou a ela o que ocorria em relao a doze. Ela respondeu de modo igualmente rpido e decidido: 'Para 
mim, doze no  nenhuma data (importante).'
         "Para dedo, ela forneceu a seguinte associao, depois de hesitar um pouco: 'Na famlia do meu marido, houve quem nascesse com seis dedos nos ps (o polons 
no tem um termo especfico para Zehe [dedos dos ps]). Quando nossos filhos nasceram, foram imediatamente examinados para ver se tinham seis dedos.' Por motivos 
externos, no se prosseguiu na anlise nessa noite.
         "Na manh seguinte, 12 de dezembro, a dama me visitou e disse, visivelmente agitada: 'Sabe o que me aconteceu? H cerca de vinte anos tenho enviado congratulaes 
ao velho tio de meu marido por seu aniversrio, que  hoje, e sempre lhe escrevo uma carta no dia 11. Desta vez, esqueci e acabo de ter que enviar-lhe um telegrama.'
         "Lembrei-me, e recordei a essa dama, quo decididamente ela havia descartado, na noite anterior, a pergunta de meu colega a respeito do nmero doze, que 
decerto era muito apropriada para lembr-la desse aniversrio, com a observao de que o doze no era para ela nenhuma data importante.
         "Ela ento admitiu que esse tio de seu marido era um homem rico, de quem, na verdade, ela sempre esperava herdar alguma coisa, muito especialmente na situao 
de aperto financeiro por que estava passando agora. Fora ele, por exemplo, ou melhor, a morte dele, que lhe ocorrera de imediato alguns dias antes, quando uma conhecida 
lhe profetizara pelas cartas que ela receberia uma grande soma em dinheiro. Passou-lhe de imediato pela cabea que o tio era o nico de quem ela ou seus filhos poderiam 
receber dinheiro; e essa mesma cena tambm a fez recordar, instantaneamente, que a mulher desse tio certa vez prometera lembrar-se dos filhos dela em seu testamento. 
Nesse nterim, porm, a tia morrera sem deixar testamento; teria ela deixado essa incumbncia ao marido?
         " evidente que o desejo de morte contra o tio deve ter surgido com enorme intensidade, pois ela dissera  amiga que fez a profecia: 'Voc induz as pessoas 
a matarem outras.' Nos quatro ou cinco dias decorridos entre a profecia e o aniversrio do tio, ela consultou seguidamente o obiturio dos jornais da cidade em que 
ele morava,  procura da notcia de sua morte. No surpreende, portanto, tendo em vista a intensidade do desejo de que ele morresse, que o fato e a data do aniversrio 
que ele estava prestes a celebrar fossem to intensamente suprimidos a ponto no s de faz-la esquecer um propsito levado a cabo durante anos, mas tambm de fazer 
com que nem sequer a pergunta de meu colega conseguisse traz-lo a sua conscincia.
         "No lapso 'doze dedos', o 'doze' suprimido veio  tona e ajudou a determinar o ato falho. Digo 'ajudou a determinar' porque a notvel associao com 'dedos' 
permite-nos suspeitar da existncia de outras motivaes; ela tambm explica porque o 'doze' falseou exatamente essa expresso inocentssima, 'dez dedos'. A associao 
fora: 'Na famlia do meu marido, houve quem nascesse com seis dedos nos ps.' Seis dedos so o sinal de determinada anormalidade. Portanto, seis dedos significam 
um filho anormal, e doze dedos, dois filhos anormais. E de fato era esse o caso. Essa dama se casara muito jovem, e a nica herana que lhe foi deixada pelo marido 
- sempre considerado um homem excntrico e anormal, que tirou a prpria vida pouco depois de se casar com ela - foram duas filhas que os mdicos repetidamente definiam 
como anormais e como vtimas de grave doena hereditria vinda do pai. Recentemente, a filha mais velha voltara para casa depois de um grave ataque de catatonia; 
pouco depois, a mais nova, agora na puberdade, tambm caiu doente, vtima de uma neurose grave.
         "O fato de a anormalidade das filhas vincular-se aqui ao desejo da morte do tio, e de se condensar com esse elemento muito mais intensamente suprimido e 
de valncia psquica maior, permite-nos supor a existncia de um segundo determinante para o lapso da fala, qual seja, o desejo de morte contra as filhas anormais.
         "Mas o sentido predominante do doze com desejo de morte j  indicado pelo fato de que o aniversrio do tio estava muito intimamente associado, nas representaes 
da narradora, com a idia da morte dele. Ocorre que seu marido se suicidara num dia 13, isto , um dia depois do aniversrio do tio; e a mulher do tio dissera  
jovem viva: 'Ontem ele o estava felicitando, to efusivo e amvel, e hoje...!'
         "Cabe-me acrescentar que, alm disso, essa dama tinha motivos bastante reais para desejar a morte de suas filhas, pois estas no lhe davam nenhuma alegria, 
apenas tristeza e graves restries a sua independncia, e por causa delas ela havia renunciado a toda e qualquer felicidade amorosa. Tambm nessa ocasio, ela fizera 
um esforo extraordinrio para evitar  filha com quem ia fazer a visita qualquer motivo de aborrecimento; e bem podemos imaginar quanta pacincia e abnegao so 
exigidas por um caso de demncia precoce, e quantos impulsos de raiva tm de ser suprimidos nesse processo.
         "Conseqentemente, o sentido do ato falho seria:
         
         'Que morra o tio, que morram essas filhas anormais (toda essa famlia anormal, por assim dizer), e que eu fique com o dinheiro deles.'
         "Esse ato falho, a meu ver, tem vrios traos de uma estrutura incomum:
         "(a) A presena de dois determinantes, condensados num nico elemento.
         "(b) A presena dos dois determinantes, refletiu-se na duplicao do lapso da fala (doze unhas, doze dedos).
         "(c)  notvel que um dos sentidos do 'doze', ou seja, os doze dedos que expressavam a anormalidade das filhas, represente uma forma de figurao indireta; 
a anormalidade psquica foi aqui representada pela anormalidade fsica, e a parte superior do corpo, pela inferior."
         
         
         
         
       
       
       CAPTULO VI - LAPSOS DE LEITURA E LAPSOS DE ESCRITA
         
         
         Quanto aos erros na leitura e na escrita, constatamos que os mesmos pontos de vista e observaes aplicados aos equvocos na fala tambm so vlidos, o 
que no  de surpreender, considerando-se o ntimo parentesco entre essas funes. Limitar-me ei a relatar aqui alguns exemplos cuidadosamente analisados, e no 
farei nenhuma tentativa de abarcar todos os aspectos dos fenmenos.
         
         (A) LAPSOS DE LEITURA
         
         (1)Eu estava sentado num caf, folheando um nmero do Leipziger Illustrierete [um semanrio ilustrado], que eu segurava inclinado diante de mim, quando 
li a seguinte legenda sob uma fotografia que se estendia por toda a pgina: "Cerimnia de Casamento na Odyssee [Odissia]." Com a ateno despertada e surpreso, 
endireitei a revi
         sta e corrigi meu erro: "Cerimnia de Casamento no Ostsee [Bltico]." Como fui cometer esse erro absurdo de leitura? Meus pensamentos voltaram-se prontamente 
para um livro de Ruths (1898), Experimentaluntersuchungen ber Musikphantome..., que me ocupara muito nestes ltimos tempos, pois toca de leve nos problemas psicolgicos 
de que venho tratando. O autor prometeu que em breve publicaria um livro a ser chamado "Anlise e Princpios dos Fenmenos Onricos". No surpreende que, tendo acabado 
de publicar uma Interpretao dos Sonhos, eu aguarde esse livro com o mximo interesse. Na obra de Ruths sobre os fantasmas da msica encontrei, no comeo do ndice, 
o anncio de uma demonstrao indutiva detalhada de que os mitos e lendas dos antigos gregos tiveram sua principal raiz nos fantasmas do sono e da msica, nos fenmenos 
dos sonhos e tambm nos delrios. Mergulhei imediatamente no texto para verificar se ele tambm percebera que a cena em que Odisseu surge diante de Nauscaa deriva 
do sonho comum de estar nu.Um amigo me chamara a ateno para o belo trecho do Der Grne Heinrich, de Gottfried Keller, que explica esse episdio da Odissia como 
uma representao objetiva dos sonhos de um navegante que vagava longe de sua terra natal; e eu havia assinalado a relao com os sonhos exibicionistas de estar 
nu. No encontrei nada sobre o assunto no livro de Ruths. Nesse exemplo,  bvio que meus pensamentos estavam voltados para questes de prioridade.
         (2)Como posso um dia ter lido num jornal: "Im Fass [num barril] pela Europa", em vez de "Zu Fuss [a p]"? A soluo desse problema custou-me prolongadas 
dificuldades.  verdade que as primeiras associaes indicaram que o que eu tinha em mente devia ser o barril de Digenes, e eu estivera lendo recentemente sobre 
a arte da poca de Alexandre numa histria da arte. Da foi fcil lembrar o clebre dito de Alexandre: "Se eu no fosse Alexandre, gostaria de ser Digenes." Veio-me 
tambm uma vaga lembrana de um certo Hermann Zeitung, que dera para viajar embalado num caixote. Mas a seqncia de associaes recusou-se a prosseguir, e no consegui 
reencontrar a pgina da histria da arte em que aquela observao me saltara aos olhos. S depois de muitos meses foi que voltou de repente a me ocorrer esse problema, 
que eu deixara de lado, dessa vez acompanhado de sua soluo. Lembrei-me do comentrio de um artigo de jornal sobre os estranhos meios de transporte [Befrderung] 
que as pessoas estavam escolhendo para irem  Exposio Internacional de Paris [de 1900]; e o trecho prosseguia, creio eu, com o relato divertido de como um cavalheiro 
pretendia fazer-se levar a Paris rolando dentro de um barril, empurrado por outro cavalheiro. Naturalmente, essas pessoas no tinham outro motivo seno o de chamar 
a ateno sobre si mesmas com essas loucuras. Hermann Zeitung era, de fato, o nome do homem que dera o primeiro exemplo de tais mtodos extraordinrios de transporte. 
Ocorreu-me ento que, certa vez, tratei de um paciente cuja angstia patolgica ante a leitura de jornais veio a se esclarecer como uma reao contra sua ambio 
patolgica de se ver em letras de imprensa e ler sobre sua fama nos jornais. Alexandre da Macednia foi, sem dvida, um dos homens mais ambiciosos que j existiram. 
Chegou a se queixar de que no houvesse um Homero para cantar suas faanhas. Mas como poderia eu ter deixado de lembrar que h outro Alexandre mais chegado a mim, 
que Alexandre  o nome de meu irmo mais moo? Descobri ento, de imediato, o pensamento escandaloso que tivera de ser recalcado a respeito desse outro Alexandre, 
e o que ocasionara isso na situao atual. Meu irmo  especialista em questes relacionadas com tarifas e transportes e, em certa poca, esteve para receber o ttulo 
de professor por suas atividades docentes numa escola comercial. Vrios anos antes, meu prprio nome fora sugerido na universidade para essa mesma promoo [Befrderung], 
sem que eu a obtivesse. Na poca, nossa me expressou sua estranheza de que seu filho mais novo chegasse a professor antes do mais velho. Era essa a situao na 
poca em que no pude resolver meu lapso de leitura. Posteriormente, meu irmo tambm deparou com dificuldades; suas perspectivas de chegar a professor tornaram-se 
ainda menores do que as minhas. Mas, nesse ponto, o sentido do lapso de leitura ficou repentinamente claro para mim, era como se a reduo das perspectivas de meu 
irmo tivesse afastado um obstculo. Eu me havia comportado como se estivesse lendo a nomeao de meu irmo no jornal e dizendo a mim mesmo: "Como  estranho que 
se possa ser citado no jornal (i.e., ser nomeado professor) por essas bobagens (como as que ele faz por profisso)!" Depois disso, no tive dificuldade em encontrar 
o trecho sobre a arte helnica na poca de Alexandre e, para minha surpresa, convenci-me de que, durante minha busca anterior, eu lera repetidamente partes da mesma 
pgina e, em todas as vezes, saltara a frase pertinente, como se estivesse dominado por uma alucinao negativa. Essa frase, porm, no continha nada que pudesse 
esclarecer-me ou que merecesse ser esquecido. Creio que o sintoma de no conseguir encontrar o trecho no livro formou-se apenas para me despistar. Cabia-me procurar 
uma continuao da seqncia de pensamentos ali onde minhas investigaes esbarravam num obstculo, isto , em alguma idia ligada a Alexandre da Macednia, e desse 
modo eu seria mais eficazmente desviado de meu irmo do mesmo nome. O recurso foi perfeito: todos os meus esforos foram orientados para redescobrir o trecho perdido 
na histria da arte.
         Nesse caso, o duplo sentido da palavra "Befrderung" ["transporte" e "promoo"] forma a ponte associativa entre os dois complexos; o complexosem importncia, 
despertado pela notcia do jornal, e o mais interessante, mas objetvel, que aqui se imps sob a forma de uma perturbao da leitura. Por esse exemplo se percebe 
que nem sempre  fcil explicar ocorrncia como esse equvoco na leitura. s vezes somos at forados a adiar a soluo do problema para uma poca mais favorvel. 
No entanto, quanto mais difcil se revela o trabalho de solucion-lo, maior  a certeza com que se pode prever que o pensamento perturbador finalmente descoberto 
ser julgado por nosso pensamento consciente como algo que lhe  estranho e contrrio.
         (3)Um dia, recebi uma carta das imediaes de Viena com uma notcia que me abalou. Chamei prontamente minha mulher e lhe comuniquei que "die arme [a pobre] 
Wilhelm M." estava muito doente, a ponto de os mdicos terem perdido as esperanas. Mas algo deve ter soado falso nas palavras que escolhi para exprimir meu pesar, 
pois minha mulher ficou desconfiada, pediu para ver a carta e manifestou sua convico de que no podia ser isso, pois ningum se referia a uma mulher pelo prenome 
do marido e, de mais a mais, a remetente da carta conhecia perfeitamente o nome da mulher. Defendi obstinadamente minha afirmao e fiz referncia ao costume corriqueiro, 
nos cartes de visita, de as mulheres se designarem pelo prenome do marido. Por fim, vi-me forado a pegar a carta, e o que lemos nela, de fato, foi "der arme W.M.", 
ou melhor, algo ainda mais claro, que eu omitira por completo: "der arme Dr.  W.M." Meu erro de leitura, portanto, importou numa espcie de tentativa forada de 
transferir a triste notcia do marido para a mulher. O ttulo entre o artigo e o nome adjetivado no se adequava bem a minha pretenso de que a notcia se referisse 
 mulher. Por isso, foi simplesmente eliminado na leitura. Meu motivo para falsear a notcia, entretanto, no foi que eu simpatizasse menos com a mulher do que com 
o marido, mas sim que o destino desse pobre homem havia despertado minha inquietao acerca de outra pessoa, muito chegada a mim, que com ele compartilhava o que 
eu sabia ser um dos determinantes da doena.
         (4) Irritante e ridculo  um lapso de leitura que tendo a cometer sempre que, em minhas frias, ando pelas ruas de alguma cidade desconhecida. Nessas ocasies, 
leio como "Antigidades" todos os letreiros de loja que dealgum modo se assemelham a essa palavra. Nisso se manifesta o gosto do colecionador pela aventura.
         (5) Bleuler relata, em seu importante livro Affektivitt, Suggestibilitt, Paranoia (1906, 121): "Certa vez, enquanto lia, tive a sensao intelectual de 
estar vendo meu nome duas linhas mais abaixo. Para minha surpresa, s encontrei ali a palavra 'Blutkrperchen [corpsculos sangneos]'. Entre os muitos milhares 
de lapsos de leitura que j analisei, tanto no campo visual perifrico quanto no central, este  o exemplo mais crasso. Todas as vezes que acreditei ver meu nome, 
a palavra que ocasionou isso costumava ser muito mais semelhante a ele, e, na maioria dos casos, cada uma das letras de meu nome tinha de estar presente ali por 
perto para que eu pudesse cometer esse erro. Neste caso, entretanto, o delrio de auto-referncia e a iluso puderam ser explicados com muita facilidade: o que eu 
acabara de ler era o final de um comentrio sobre certo tipo de estilo precrio nos trabalhos cientficos, do qual eu no me sentia livre."
         (6) Hanns Sachs diz ter lido: "Ele passa, com seu 'Steifleinenheit [pedantismo]', pelas coisas que chocam as pessoas." "Essa palavra", prossegue Sachs, 
"chamou minha ateno e, ao olhar mais atentamente, descobri que era 'Stilfeinheit [fineza de estilo]'. O trecho ocorria em meio a algumas observaes feitas por 
um autor a quem eu admirava e que enalteciam efusivamente um historiador que no me  simptico, pois exibe em demasia o 'estilo professoral alemo'."
         (7) O Dr. Marcell Eibenschtz (1911) descreve um caso de lapso de leitura no estudo da cincia filolgica. "Eu estavam empenhado no estudo da tradio literria 
do Livro dos Mrtires, compilao de lendas do perodo mdio do alto alemo que eu resolvera editar na coleo de 'Textos Medievais Alemes' publicada pela Academia 
Prussiana de Cincias. Sabia-se muito pouco sobre essa obra, que nunca fora impressa; havia sobre ela um nico ensaio, da autoria de Joseph Haupt (1872, 101 e segs.). 
Haupt no baseou seu trabalho no manuscrito antigo, mas numa cpia da fonte principal, o Manuscrito C (Klosterneuburg), cpia esta feita em poca relativamente recente 
(no sculo XIX) e preservada na Hofbibliothek [Biblioteca Imperial]. No fim da cpia encontra-se a seguinte subscrio:
         
         "'Anno Domini MDCCCL in vigilia exaltacionis sancte crucis ceptus est iste liber et in vigilia pasce anni subsequentis finitus cum adiutorio omnipotentis 
per me Hartmanum de Krasna tunc temporis ecclesie niwenburgensis custoden.
         "Ora, em seu ensaio, Haupt cita essa subscrio como sendo proveniente do prprio autor de C e supe que C. foi escrito em 1350, com um conseqente erro 
de leitura da data de 1850, escrita em algarismos romanos, apesar de ter copiado a subscrio corretamente e de a data ter sido corretamente impressa no ensaio (i.e. 
MDCCCL) no trecho citado.
         "A informao de Haupt foi para mim fonte de muitos apuros. Em primeiro lugar, como completo principiante no mundo da cincia, eu estava totalmente dominado 
pela autoridade de Haupt, e por muito tempo li na subscrio diante de mim, impressa com perfeita clareza e correo 1350 em vez de 1850, tal como fizera Haupt, 
muito embora no houvesse nenhum vestgio da subscrio no Manuscrito C utilizado por mim, e embora tambm se verificasse que nenhum monge de nome Hartman vivera 
em Klosterneuburg em todo o sculo XIV. Quando enfim caiu a venda de meus olhos, adivinhei o que havia acontecido, e as investigaes posteriores confirmaram minha 
suspeita. A to mencionada subscrio, na verdade, encontra-se apenas na cpia utilizada por Haupt e  obra de um copista, P. Hartman Zeibig, que nasceu em Krasna, 
na Morvia, foi Mestre do coro agostiniano em Klosterneuburg e, como sacristo do mosteiro, fez uma cpia do Manuscrito C, registrando seu nome no final,  maneira 
antiga. A fraseologia medieval e a ortografia antiquada da subscrio sem dvida contriburam para induzir Haupt a ler sempre 1350, em vez de 1850, juntando-se o 
seu desejo de poder dizer aos leitores o mximo possvel sobre a obra que estava examinando e, portanto, tambm de datar o Manuscrito C. (Foi esse o motivo do ato 
falho.)
         (8) Em Witzige und Satirische Einflle, de Lichtenberg [1853], h um comentrio que sem dvida provm da observao e contm quase que a teoria completa 
dos lapsos de leitura: "Ele tanto lera Homero que sempre lia 'Agamemnon' onde constava 'angenommen [suposto]'."
         
         Ocorre que, num imenso nmero de casos [1]  a predisposio do leitor que altera a leitura e introduz no texto algo que corresponde a suas expectativas 
ou que o est ocupando. A nica contribuio que o prprio texto precisa fazer ao lapso de leitura  fornecer alguma semelhana na imagem da palavra, que o leitor 
possa modificar no sentido que quiser. Sem dvida, a leitura apressada, especialmente quando h uma deficincia visual no corrigida, aumenta a possibilidade de 
tal iluso, mas certamente no  uma precondio necessria.
         (9)Creio que a poca de guerra, que a todos nos trouxe preocupaes to constantes e prolongadas, favoreceu mais os lapsos de leitura do que qualquer outro 
ato falho. Pude observar um grande nmero desses exemplos, mas, infelizmente, foram poucos os que conservei. Certo dia, peguei um jornal do meio-dia ou vespertino 
e vi, impresso em grandes caracteres: "Der Friede von Grz [A Paz de Gorzia]". Mas no, dizia apenas: "Die Feinde vor Grz [Os Inimigos diante de Gorzia]". Para 
quem tem dois filhos lutando justamente nesse palco de guerra,  fcil cometer tal lapso de leitura. - Outro viu mencionado em certo contexto "eine alte Brotkarte 
[um velho carto de racionamento de po]"; lendo mais atentamente, teve de substituir isso por "alte Brokate [brocados antigos]". Talvez valha a pena mencionar que, 
numa casa onde costuma ser um hspede sempre bem recebido, esse homem tem o hbito de agradar a dona da casa cedendo-lhe seus cartes de racionamento de po. - Um 
engenheiro cujo equipamento nunca resistia por muito tempo  umidade de um tnel em construo leu, para sua surpresa, um anncio em que se elogiavam certos artigos 
de "Schundleder [couro estragado]". Mas os comerciantes raramente so to francos; os artigos cuja compra se recomendava eram de "Seehundleder [couro de foca]"
         Tambm a profisso ou a situao atual do leitor determinam o resultado de seu lapso de leitura. Um fillogo que, por causa de seus ltimos excelentes trabalhos, 
entrou em conflito com seus colegas de profisso, leu "Sprachstrategie [estratgia lingstica]" em lugar de "Schachstrategie [estratgia enxadrstica]". - Um homem 
que passeava por uma cidade estrangeira justamente no horrio em que sua atividade intestinal estava programada para ocorrer, em virtude de um tratamento mdico, 
leu a palavra "Klosetthaus [casa de banheiros]" num grande letreiro no primeiro andar de um prdio comercial alto; sua satisfao mesclou-se, sem dvida, com uma 
certa surpresa ante a localizao inslita do benfico estabelecimento. No momento seguinte, porm, a sua satisfao desapareceu, pois o letreiro, corretamente lido, 
dizia "Korsetthaus [casa de espartilhos]".
         (10)Num segundo grupo de casos,  muito maior a participao do texto no lapso de leitura. Ele contm algo que mexe com as defesas do leitor - alguma comunicao 
ou exigncia que lhe  penosa - e que, por isso mesmo,  corrigida pelo lapso de leitura, no sentido de um repdio ou uma realizao de desejo. Nesse casos, evidentemente, 
somos forados a presumir que, de incio, o texto foi corretamente entendido e julgado pelo leitor, antes de passar pela retificao, embora sua conscincia nada 
tenha sabido dessa primeira leitura. O exemplo (3), algumas pginas atrs [em [1]],  desse tipo; e aqui incluo um outro, muito atual, narrado por Eitingon (1915), 
que na poca estava no hospital militar de Igl.
         "O tenente X., que est em nosso hospital sofrendo de uma neurose traumtica de guerra, lia para mim certo dia um poema de Walter Heymann, to prematuramente 
morto em combate, e, com visvel emoo, assim leu os versos finais da ltima estrofe:
         Wo aber steht's geschrieben, frag' ich, dass von allenIch brig bleiben soll, ein anderer fr mich fallen?Wer immer von euch fllt, der stirbt gewiss fr 
mich;Und ich soll brig bleiben? Warum denn nicht? [Mas onde est escrito, pergunto, que de todosDevo eu sobreviver, que outro h de cair por mim?O que tomba dentre 
vs, decerto  por mim que morre;E devo eu permanecer? Por que no?]
         "Com a ateno despertada por minha surpresa e parecendo um pouco confuso, ele leu ento corretamente o ltimo verso:
         Und ich soll brig bleiben? Warum denn ich?
         [E devo eu permanecer? Por que eu?]
         "Devo ao caso X certo discernimento analtico sobre o material psquico dessas 'neuroses traumticas de guerra' e, apesar das condies vigentes numhospital 
militar, com sua intensa sobrecarga e sua escassez de mdicos - circunstncias to desfavorveis para nossa maneira de trabalhar -, foi-me possvel enxergar um pouco 
alm das exploses de granadas, levadas em to alta conta como 'causa' da doena.
         "Tambm nesse caso havia os tremores intensos que do aos casos pronunciados dessas neuroses uma semelhana que  to notvel  primeira vista, bem como 
inquietao, tendncia ao choro e propenso a acessos de raiva, acompanhados de manifestaes motoras infantis convulsivas, e a vmitos ('ante a menor excitao').
         "A natureza psicognica deste ltimo sintoma, sobretudo por sua contribuio para o lucro secundrio da doena, no podia deixar de se evidenciar a todos: 
o aparecimento, na enfermaria, do comandante do hospital, que de tempos em tempos inspecionava os convalescentes, ou a observao de algum conhecido na rua - 'Voc 
est mesmo com timo aspecto, certamente j deve estar bom' - eram o bastante para desencadear um acesso imediato de vmito.
         "'Curado... voltar  ativa ... por que eu?'"
         (11) O Dr. Hanns Sachs (1917) relatou outros casos de lapsos "de guerra" na leitura:
         "Um conhecido muito prximo me declarara repetidamente que, quando chegasse sua vez de ser convocado, no se valeria de sua formao profissional, atestada 
por um diploma, e renunciaria a qualquer direito que isso lhe assegurasse de obter emprego na retaguarda, alistando-se para lutar na frente de batalha. Pouco antes 
da chegada efetiva da data da convocao, ele me disse um dia, da maneira mais lacnica possvel e sem fornecer maiores razes, que submetera as provas de sua formao 
superior s autoridades competentes e, por conseguinte, logo seria designado para um cargo na indstria. No dia seguinte, encontramo-nos casualmente numa repartio 
pblica. Eu estava diante de uma escrivaninha e escrevia; ele entrou, olhou por um momento por cima de meu ombro e disse: 'Ah! a palavra ali em cima  "Druckbogen 
[prova tipogrfica]" - eu a tinha lido como se fosse 'Drckeberger [covarde]'."
         (12)"Sentado no bonde, eu ia refletindo sobre o fato de que muitos de meus amigos da juventude, sempre considerados frgeis e sem energia, eram agora capazes 
de suportar os trabalhos mais estafantes, aos quais,com toda certeza, eu sucumbiria. Em meio a essa desagradvel seqncia de pensamentos, li de passagem, sem prestar 
muita ateno, as grandes letras pretas do letreiro de uma firma: 'Constituio de ferro' [Eisenkonstitution]. Passado um momento, ocorreu-me que essa palavra no 
era muito prpria do letreiro de uma empresa comercial; virei-me rapidamente e ainda consegui dar uma olhadela na inscrio, vendo que de fato dizia 'Construo 
de ferro [Eisenkonstruktion]'." (Sachs, ibid.)
         (13)"Nos jornais vespertinos saiu um despacho da agncia Reuter, que logo se revelou incorreto, comunicando que Hughes fora eleito presidente dos Estados 
Unidos. Seguia-se a isso um breve relato de carreira do suposto presidente, onde deparei com a informao de que Hughes se havia formado na Universidade de Bonn. 
Pareceu-me estranho que esse fato no tivesse sido mencionado nos debates jornalsticos de todas as semanas que antecederam o dia da eleio. Olhando melhor, vi 
que de fato o texto s fazia referncia  Universidade Brown [em Providence, Rhode Island, Estados Unidos]. Esse caso crasso, em que a produo do lapso de leitura 
tornara necessria uma distoro bastante violenta, esclareceu-se, afora minha pressa em ler o jornal, principalmente por eu considerar desejvel que a simpatia 
do novo presidente pelas potncias centrais europias, como base de boas relaes futuras, se fundamentasse tambm em motivos pessoais, alm dos motivos polticos." 
(Sachs, ibid.)
         
         
         (B) LAPSOS DE ESCRITA
         
         (1) Numa folha de papel contendo breves anotaes dirias, a maioria de interesse profissional, fiquei surpreso ao encontrar entre as datas corretas do 
ms de setembro a data erroneamente anotada de "quinta-feira, 20 de outubro". No  difcil esclarecer essa antecipao - e esclarec-la como a expresso de um desejo. 
Poucos dias antes, eu voltara refeito de minha viagem de frias e me sentia disposto para abundantes afazeres mdicos, mas o nmero de pacientes ainda era reduzido. 
Na chegada eu encontrara uma carta de uma paciente dizendo que viria no dia 20 de outubro. Ao fazer uma anotao nesse mesmo dia, porm em setembro,  bem possvel 
que tenha pensado: "X. j deveria estar aqui; que pena desperdiar um ms inteiro!", e com isso em mente antecipei a data em um ms. Nesse caso, dificilmente sepode 
chamar o pensamento perturbador de escandalizante; por esse motivo pude saber da soluo do lapso de escrita assim que o notei. - No outono do ano seguinte, cometi 
outro lapso de escrita inteiramente anlogo, que teve motivos semelhantes. - Ernest Jones [1911b] fez um estudo desses lapsos na redao de datas e, na maioria dos 
casos, foi-lhe fcil reconhecer que tinham motivaes [psicolgicas].
         (2)Eu havia recebido as provas de minha contribuio ao Jahresbericht fr Neurologie und Psychiatrie e, naturalmente, precisava fazer a reviso dos nomes 
dos autores com um cuidado especial, j que eles eram de diversas nacionalidades e por isso costumavam causar enormes dificuldades ao tipgrafo. De fato encontrei 
muitos nomes de som estrangeiro que ainda precisavam ser corrigidos, mas, curiosamente, havia um nome que o tipgrafo corrigira aperfeioando meu manuscrito, e com 
total acerto. Eu havia escrito "Buckrhard", enquanto o tipgrafo adivinhou que seria "Burckhard". De fato, eu elogiara como muito meritrio o ensaio de um obstetra 
com esse nome sobre a influncia do parto na gnese das paralisias infantis, e no tinha conscincia de nenhuma objeo contra esse autor; mas ele tinha o mesmo 
nome de um escritor de Viena que me aborrecera com sua resenha poucointeligente de meu livro A Interpretao dos Sonhos.  exatamente como-se, ao escrever o nome 
Burckhard para designar o obstetra, eu tivesse tido um pensamento hostil sobre o outro Burckhard, o escritor, pois a distoro dos nomes, com muita freqncia,  
um meio de insultar seus portadores, como j assinalei [em. [1]] a propsito dos lapsos da fala.
         
         (3) Essa afirmao  muito claramente confirmada por uma auto-observao de Storfer (1914) em que o autor expe com franqueza louvvel os motivos que o 
fizeram lembrar-se erroneamente do nome de um pretenso concorrente e, em seguida, escrev-lo de maneira deturpada.
         "Em dezembro de 1910, vi na vitrine de uma livraria em Zurique um livro recm-surgido do Dr. Eduard Hitschmann sobre a teoria das neuroses, de Freud. Justamente 
nessa poca, eu estava trabalhando no manuscrito de uma conferncia que estava prestes a proferir numa associao acadmica sobre os princpios bsicos da psicologia 
de Freud. Na introduo j redigida da conferncia, eu me referira ao desenvolvimento histrico da psicologia freudiana a partir de suas pesquisas no campo da psicologia 
aplicada, a certas dificuldades da decorrentes para se fornecer uma exposio resumida de seus princpios bsicos, e tambm ao fato de que at ento ainda no havia 
surgido nenhuma exposio geral. Quando vi o livro (cujo autor me era ainda desconhecido) na vitrine, inicialmente no pensei em compr-lo. Entretanto, alguns dias 
depois resolvi faz-lo. Mas o livro j no estava na vitrine. Mencionei ao livreiro a obra recm-publicada e indiquei como autor o 'Dr. Eduard Hartmann'. O livreiro 
me corrigiu: 'O senhor quer dizer Hitschmann', e trouxe o livro.
         "O motivo inconsciente do ato falho era bvio. De certa maneira, eu me atribura o mrito de ter compilado os princpios bsicos da teoria psicanaltica, 
e  evidente que encarava o livro de Hitschmann com inveja e aborrecimento, j que ele tirava parte de meu mrito. Disse a mim mesmo, segundo a Psicopatologia da 
Vida Cotidiana, que a alterao do nome fora um ato de hostilidade inconsciente. Na ocasio, dei-me por satisfeito com essa explicao.
         "Algumas semanas depois, anotei esse ato falho. Nessa oportunidade, perguntei-me ainda por que o nome Eduard Hitschmann se alterara justamente para Eduard 
Hartmann. Teria eu sido levado ao nome do clebre filsofo apenas por sua semelhana com o outro? Minha primeira associao foi a lembrana de uma declarao que 
ouvi certa vez do professor Hugo von Meltzl, admirador entusistico de Schopenhauer, quedizia aproximadamente o seguinte: 'Eduard con Hartmann  um Schopenhauer 
mal-interpretado, um Schopenhauer virado pelo avesso.' A tendncia afetiva que havia determinado a formao substitutiva para o nome esquecido fora, portanto: 'Ora, 
provavelmente no haver grande coisa nesse Hitschmann e em sua exposio resumida; ele deve estar para Freud assim como Hartmann para Schopenhauer.'
         "Como disse, eu havia anotado esse caso de esquecimento [psicologicamente] determinado com troca da palavra esquecida por um substituto.
         "Seis meses depois, deparei com a folha de papel em que fizera a anotao. Observei ento que, em vez de Hitschmann, eu escrevera Hintschmann o tempo todo."
         (4) Eis o que parece ser um lapso de escrita mais grave, que eu talvez pudesse ter classificado com igual direito entre os "equvocos na ao" [Captulo 
VIII]:
         Eu pretendia retirar da Caixa Econmica Postal a quantia de 300 coroas, que queria remeter a um parente ausente para tratamento mdico. Notei ento que 
o saldo de minha conta era de 4.380 coroas e decidi reduzi-lo, nessa oportunidade, para a soma redonda de 4.000 coroas, que no deveria ser tocada no futuro prximo. 
Depois de preencher devidamente o cheque e cortar os nmeros correspondentes  quantia, percebi de repente que no havia solicitado as 380 coroas, como pretendia, 
mas exatamente 438 coroas, e fiquei abismado com a infidedignidade de minha conduta. Logo percebi que meu espanto era injustificado: eu no ficara mais pobre do 
que j era antes. Mas foi preciso um bocado de reflexo para descobrir que influncia havia perturbado minha inteno inicial, sem se revelar a minha conscincia. 
A princpio, rumei por caminhos falsos; tenti subtrair 380 de 438, mas depois no soube o que fazer com a diferena. Por fim, ocorreu-me uma idia repentina que 
me mostrou a verdadeira relao. Ora, 438 correspondiam a dez por cento do saldo total de 4.380 coroas! E um desconto de dez por cento  o que se obtm dos livreiros. 
Lembrei-me que, alguns dias antes, eu separara alguns livros de medicina em que j no estava interessado para oferec-los a um livreiro por exatamente 300 coroas. 
Ele achou alto demais o preo queeu pedira e prometeu dar-me uma resposta definitiva dentro de alguns dias. Se ele aceitasse minha oferta, reporia a quantia exata 
que eu estava para gastar com o enfermo. No h dvida de que eu lamentava fazer essa despesa. O afeto que me deixou a percepo de meu erro se compreende melhor 
como um medo de ficar pobre por causa dessas despesas. Mas ambos os sentimentos, o pesar pelo gasto e a angstia de empobrecer ligada a ele, eram inteiramente estranhos 
a minha conscincia; eu no tivera nenhum sentimento de pesar ao prometer essa soma, e teria considerado risvel sua motivao.  provvel que jamais me acreditasse 
capaz de tal emoo, no fosse por estar bastante familiarizado, atravs de minha prtica psicanaltica com os pacientes, com o papel desempenhado pelo recalcado 
na vida anmica, e no fosse por ter tido, dias antes, um sonho que exigia a mesma soluo.
         (5) Segundo Wilhelm Stekel, cito o seguinte caso, cuja autenticidade tambm posso garantir.
         "Um exemplo simplesmente incrvel de lapso de escrita e lapso de leitura ocorreu na redao de um semanrio muito difundido. Seus proprietrios tinham sido 
publicamente chamados de 'venais'; evidentemente, fazia-se necessrio escrever um artigo de repdio e defesa. E foi o que se fez - com grande ardor e grande nfase. 
O redator-chefe leu o artigo, enquanto o autor obviamente o leu vrias vezes no manuscrito e, depois, novamente na prova tipogrfica; todos estavam plenamente satisfeitos. 
De repente, vem o revisor e aponta um pequeno erro que havia escapado  ateno de todos. Ali estava, escrito com toda clareza: 'Nossos leitores so testemunhas 
de que sempre agimos da maneira mais interessada pelo bem da comunidade.'  bvio que a redao deveria ser 'da maneira mais desinteressada'. Mas os verdadeiros 
pensamentos irromperam com fora elementar no comovido discurso.
         (6) Uma leitora do Pester Lloyd, a senhora Kata Levy, de Budapeste, deparou recentemente com uma demonstrao involuntria de franquezasemelhante a essa 
num telegrama de Viena, publicado no jornal de 11 de outubro de 1918:
         "Com base na completa confiana mtua que tem prevalecido entre ns e nossos aliados alemes durante toda a guerra, pode-se ter certeza de que as duas potncias 
ho de chegar a decises unnimes na totalidade dos casos.  desnecessrio mencionar expressamente que tambm na presente fase tem havido uma cooperao ativa e 
descontnua entre os diplomatas aliados."
         Passadas apenas algumas semanas, foi possvel pronunciar-se com maior franqueza sobre essa "confiana mtua", no mais havendo necessidade de refugiar-se 
num lapso de escrita (ou num erro de imprensa).
         (7) Um americano residente na Europa, que deixara sua mulher em meio a um desentendimento, achou que agora poderia reconciliar-se com ela e lhe pediu que 
atravessasse o oceano e fosse ter com ele em determinada data. "Seria esplndido", escreveu ele, "que, como eu, voc pudesse vir no Mauretania." Mas no ousou enviar 
a folha onde constava essa frase. Preferiu escrev-la de novo.  que ele no queria que ela reparasse na correo que fora preciso fazer no nome do navio. Inicialmente, 
ele escrevera mesmo "Lusitania".
         Esse lapso de escrita no requer explicao, interpreta-se com perfeita clareza. Mas um feliz acaso nos permite acrescentar mais um detalhe: antes da guerra, 
sua mulher visitara a Europa pela primeira vez por ocasio da morte de sua nica irm. Se no me engano, o Mauretania  a nave-irm sobrevivente do Lusitania, afundado 
durante a guerra.
         (8) Um mdico havia examinado uma criana e estava escrevendo a receita, que inclua a palavra "alcohol". Enquanto o fazia, a me da criana o importunava 
com perguntas disparatadas e desnecessrias. Ele decidiu intimamente no se irritar com isso e conseguiu realizar esse propsito, mas cometeu um lapso de escrita 
enquanto era perturbado. Em vez de alcohol, lia-se na receita achol.
         (9) O exemplo seguinte, relatado por Ernest Jones [1911b, 501] sobre A.A., Brill, tem uma afinidade de contedo e por isso  aqui inserido. Embora seja, 
de hbito, totalmente abstmio, ele se deixou persuadir por um amigo a beber um pouco de vinho. Na manh seguinte, uma violenta dor de cabeadeu-lhe motivo para 
lamentar sua transigncia. Coube-lhe escrever o nome de uma paciente, que era Ethel, e, em vez disso, escreveu Ethyl.  claro que tambm se deve levar em conta que 
a dama costumava beber mais do que lhe convinha.
         (10) J que um lapso de escrita por parte de um mdico, ao escrever uma receita, tem uma importncia que vai muito alm do costumeiro valor prtico dos 
atos falhos [em [1]], aproveito esta oportunidade para relatar na ntegra a nica anlise j publicada desse lapsos cometidos por mdicos:
         Do Dr. Eduard Hitschmann (1913b): "Contou-me um colega que, no decorrer dos anos, cometeu vrias vezes um erro ao receitar certo medicamento a suas pacientes 
de idade avanada. Em duas ocasies, receitou uma dose dez vezes maior do que a correta e em seguida viu-se obrigado, ao se aperceber disso repentinamente, com extrema 
angstia ante a idia de ter prejudicado sua paciente e ter-se exposto a um enorme transtorno, a tomar medidas apressadas para recuperar a receita. Esse curioso 
ato sintomtico merece ser esclarecido por uma descrio mais exata de cada caso e por uma anlise.
         "Primeiro caso: Ao tratar de uma pobre mulher j no limiar da senectude, o mdico receitou, contra uma constipao espasmdica, uma dose dez vezes mais 
forte de supositrios de beladona. Ele deixou o ambulatrio e, j em casa, cerca de uma hora depois, enquanto lia o jornal e tomava o caf da manh, seu erro de 
repente lhe ocorreu; dominado pela angstia, ele correu primeiro ao ambulatrio para conseguir o endereo da paciente, e de l foi s pressas para a casa dela, que 
ficava muito afastada. Ficou radiante ao constatar que a velhinha ainda no mandara aviar a receita e voltou aliviado para casa. A desculpa que deu a si mesmo nessa 
ocasio, no sem justificativa, foi que o chefe do ambulatrio, muito conversador, ficara olhando por sobre seu ombro enquanto ele escrevia a receita e o havia distrado.
         "Segundo caso: O mdico teve de se afastar a contragosto da consulta a uma bela paciente, coquete e provocadora, para fazer uma visita mdica a uma velha 
solteirona. Tomou um txi, pois no dispunha de muito tempo para essa visita;  que, em certo horrio, tinha combinado encontrar-se em segredo com uma jovem a quem 
amava, perto da casa dela. Tambm aqui havia uma indicao de beladona por causa de queixas anlogas s do primeiro caso.Mais uma vez, ele cometeu o erro de receitar 
uma dose dez vezes mais forte do medicamento. A paciente trouxe  baila um assunto de certo interesse, mas que no vinha ao caso, e o mdico mostrou impacincia, 
embora a negasse com suas palavras, e deixou a paciente, conseguindo comparecer a tempo ao encontro marcado. Uma doze horas depois, por volta das sete da manh, 
o mdico acordou; quase simultaneamente, vieram-lhe  conscincia seu lapso de escrita e um sentimento de angstia, e ele enviou s pressas um recado  paciente, 
na esperana que o remdio ainda no tivesse sido retirado da farmcia, pedindo que a receita lhe fosse devolvida para que pudesse rev-la. Ao receb-la, porm, 
constatou que o medicamento j fora aviado; com resignao estica e com o otimismo nascido da experincia, dirigiu-se  farmcia, onde o farmacutico o tranqilizou, 
explicando que, naturalmente (ou, quem sabe, tambm por engano?), preparara o medicamento numa dose menor.
         "Terceiro caso: O mdico queria receitar uma mistura de Tinct. belladonnae e Tinct. opii, em dose inofensiva, para sua tia idosa, irm de sua me. A receita 
foi imediatamente levada  farmcia pela empregada. Pouqussimo tempo depois, ocorreu ao mdico que ele escrevera 'extrato' em vez de 'tintura', e logo em seguida 
o farmacutico telefonou para interpel-lo sobre esse erro. O mdico desculpou-se com o falso pretexto de que no havia terminado a receita, que fora retirada s 
pressas de sua mesa, inesperadamente, e portanto a culpa no era dele.
         "Esses trs erros de escrita tm em comum os seguintes pontos destacados: at agora, isso s aconteceu ao mdico com esse exato medicamento; em todas as 
vezes, tratou-se de uma paciente feminina muito idosa, e todas as vezes a dose foi forte demais. Uma curta anlise evidenciou que a relao do mdico com sua me 
deve ter tido importncia decisiva. De fato, ocorreu-lhe que, em certa ocasio - e  extremamente provvel que tenha sido antes desses atos sintomticos -, ele prescrevera 
essa mesma receita para sua me, que era tambm uma mulher idosa, receitando uma dose de 0,03, embora estivesse mais familiarizado com a dose usual de 0,02; e isso, 
segundo disse a si mesmo, para ajud-la de maneira radical. A reao da frgil me ao medicamento foi uma congesto ceflica e uma secura desagradvel na garganta. 
Ela se queixou disso, aludindo num meio-gracejo aos riscos que podem advir da consulta com um filho. De fato, houve outras ocasies em que sua me, que alis era 
filha de mdico, fez objees parecidas, em tom meio jocoso, aos medicamentos ocasionalmente recomendados pelo filho mdico, e falou em envenenamento.
         
         "Tanto quanto este autor pde entender as relaes desse filho com sua me, no h dvida de que ele  um filho instintivamente amoroso, mas sua avaliao 
intelectual da me e seu respeito pessoal por ela no so nada exagerados. Ele mora na mesma casa com um irmo um ano mais moo e com a me, e h anos sente essa 
convivncia como um entrave a sua liberdade ertica, mas sabemos pela experincia psicanaltica que se costuma abusar de tais argumentos como desculpa para um comprometimento 
[incestuoso] interno. O mdico aceitou essa anlise, ficando razoavelmente satisfeito com a explicao, e sugeriu, sorrindo, que a palavra 'belladonna' (i.e. mulher 
bonita) tambm poderia conter uma referncia ertica. Ocasionalmente, ele prprio j havia utilizado esse remdio."
         A meu ver, os atos falhos graves como esse se do exatamente da mesma maneira que os de cunho inofensivo que costumamos investigar.
         (11) O prximo lapso de escrita, relatado por Sndor Ferenczi, h de ser considerado particularmente inocente. Pode-se interpret-lo como um ato de condensao 
proveniente da impacincia (veja-se o lapso da fala "Der Apfe", em [1]); e tal concepo poderia ser mantida se uma anlise aprofundada da ocorrncia no revelasse 
um fator perturbador mais poderoso:
         "'Isso condiz com a Anektode',escrevi certa vez em meu caderno de anotaes. Naturalmente, queria dizer 'Anekdote [anedota]', e era a do cigano condenado 
 morte [Tode], que pediu a graa de poder escolher pessoalmente a rvore em que seria enforcado. (Embora procurasse com afinco, no conseguiu encontrar nenhuma 
rvore adequada.)"
         (12)Por outro lado, existem ocasies em que o mais insignificante lapso de escrita pode expressar um perigoso sentido secreto. Conta um correspondente annimo:
         "Terminei uma carta com estas palavras: 'Herzlichste Grsse an Ihre Frau Gemahlin und ihren Sohn.' Quando ia colocando a folha no envelope, reparei no erro 
cometido na primeira letra de 'ihren' e o corrigi. Ao voltar para casa depois de minha ltima visita a esse casal, a dama que me acompanhava observou que o filho 
tinha uma semelhana notvel com um amigo da famlia, e seguramente seria filho dele."
         
         (13) Uma dama enviou  irm algumas linhas com votos de felicidades por sua mudana para uma casa nova e espaosa. Uma amiga que estava presente reparou 
que a autora da carta pusera nesta o endereo errado, que nem sequer correspondia ao da casa que a irm tinha acabado de deixar, mas  primeira casa que ela tivera 
logo depois de casar e de onde se mudara h muito tempo. A amiga chamou-lhe a ateno para o lapso. "Voc tem razo", teve ela de confessar: "mas como foi que cheguei 
a isso? Por que agi assim?" " provvel", disse a amiga, "que voc esteja com inveja da casa grande e bonita que ela ter agora, enquanto voc mesma se sente num 
espao apertado, e por isso a recolocou na primeira casa, onde ela no estava melhor do que voc." "Certamente sinto inveja da nova casa dela", confessou a outra 
com franqueza, e acrescentou: "Que pena a gente ser sempre to mesquinha nessas coisas!"
         (14) Ernest Jones [1911b, 499] relata o seguinte lapso de escrita que lhe foi fornecido por A.A. Brill:
         "Um paciente enviou ao Dr. Brill um texto em que se empenhava em atribuir seu nervosismo a suas preocupaes e inquietaes com seus negcios durante uma 
crise do algodo: 'Todos os meus problemas se devem a essa maldita onda de frio [frigid wave]; no existem nem mesmo sementes.' (Por 'wave', naturalmente, ele pretendia 
referir-se a uma onda, uma tendncia do mercado financeiro.) Na realidade, porm, o que escreveu no foi 'onda', mas sim 'mulher' [frigid wife]. No fundo de seu 
corao ele abrigava ressentimentos contra a mulher por sua frieza conjugal e por no lhe ter dado filhos, e no estava longe de reconhecer que sua vida de abstinncia 
forada desempenhava um grande papel na causao de seus sofrimentos."
         (15) Conta o Dr. R. Wagner (1911) a seu prprio respeito:
         "Ao reler um velho caderno de apontamentos, percebi que, na pressa de fazer as anotaes, eu cometera um pequeno lapso. Em vez de 'Epithel [epitlio]', 
havia escrito 'Edithel'. Acentuando a primeira slaba, tem-se o diminutivo de um nome de mulher. A anlise retrospectiva  bastante simples. Na poca em que cometi 
o lapso, meu conhecimento da portadora desse nome era muito superficial, e s bem mais tarde  que se transformou num relacionamento ntimo. O lapso de escrita , 
portanto, um belo exemplo de irrupo da atrao inconsciente que senti por ela numa poca em que eu mesmo no tinha a menor idia disso, e a forma escolhida do 
diminutivo caracterizou,ao mesmo tempo, a natureza dos sentimentos concomitantes."
         (16)Da Dra. von Hug-Hellmuth (1912):
         "Um mdico receitou a uma paciente 'Leviticowasser [gua levtica]', em vez de "Levicowasser'. Esse erro, que deu a um farmacutico uma bela oportunidade 
para tecer comentrios desfavorveis, pode facilmente ser encarado de maneira mais benvola quando se buscam suas possveis motivaes do inconsciente, e quando 
se est disposto a conceder-lhes certa plausibilidade - ainda que sejam apenas conjecturas subjetivas de algum que no conhece o mdico de perto. A despeito de 
recriminar seus pacientes numa linguagem um tanto dura por seus hbitos alimentares pouco racionais - de fazer-lhes sermes ['die Leviten Lesen'], por assim dizer 
-, esse mdico gozava de grande popularidade, de modo que sua sala de espera ficava lotada antes e durante os horrios de consulta; e isso justificava seu desejo 
de que os pacientes j atendidos se vestissem o mais depressa possvel - 'vite, vite' ['rpido, rpido', em francs]. Se bem me lembro, sua mulher era francesa de 
nascimento, o que confere certo apoio a minha hiptese aparentemente muito ousada de que ele usasse justamente o francs em seu desejo de que os pacientes tivessem 
maior agilidade. Alis,  hbito de muitas pessoas recorrerem a palavras estrangeiras para expressar esses desejos: meu prprio pai nos apressava em nossos passeios, 
quando crianas, exclamando 'avanti giovent' ['avante, juventude', em italiano] ou 'marchez au pas' ['em frente, marche', em francs]; j um mdico muito idoso 
com quem estive em tratamento por uma afeco da garganta quando menina, costumava tentar inibir meus movimentos, que lhe pareciam rpidos demais, murmurando um 
tranqilizante 'piano, piano' ['devagar, devagar', em italiano]. Assim, parece-me muito plausvel que tambm o outro mdico tivesse o mesmo hbito e assim cometesse 
o lapso de escrita, usando 'Leviticowasser' em vez de 'Levicowasser'."
         O mesmo texto contm outros exemplos extrados de lembranas da juventude da autora ("frazsisch" em vez de "franzsisch" e um lapso na redao do nome 
"Karl").
         (17) Sou grato ao Sr. J.G., que tambm contribuiu com um exemplo j mencionado, pelo seguinte relato de um lapso de escrita cujo contedo idntico ao de 
um famoso chiste de mau gosto, mas do qual estava definitivamente excluda qualquer inteno de fazer piada:
         "Quando era paciente de um sanatrio (de doenas pulmonares), fiquei sabendo, para meu pesar, que a mesma doena que me forara a buscar tratamento numa 
casa de sade fora constatada num parente prximo. Numa carta a esse parente, recomendei-lhe que consultasse um especialista, um professor famoso com quem eu mesmo 
estava em tratamento e de cuja autoridade mdica estava plenamente convencido, ao mesmo tempo que tinha todas as razes para me queixar de sua falta de cortesia: 
pouco tempo antes, o referido professor se recusara a lavrar-me um atestado que tinha grande importncia para mim. Em sua resposta a minha carta, meu parente chamou-me 
a ateno para um lapso da pena que me divertiu muitssimo, posto que reconheci sua causa de imediato. Em minha carta eu usara a seguinte frase: '... assim, eu o 
aconselho insultar sem demora o Professor X.'  claro que pretendera escrever 'consultar'. Talvez eu deva assinalar que meus conhecimentos de latim e francs excluem 
a possibilidade de explicar isso como um erro devido  ignorncia."
         (18) As omisses na redao, naturalmente, podem ser avaliadas da mesma maneira que os lapsos de escrita. Dattner (1911) relatou um curioso exemplo de "ato 
falho histrico". Num dos artigos do acordo ajustado entre a ustria e a Hungria no ano de 1867 sobre as obrigaes financeiras de ambos os Estados, a palavra "efetivo" 
foi omitida da traduo hngara, e Dattner considera provvel que a tendncia inconsciente dos redatores do legislativo hngaro a concederem o mnimo possvel de 
vantagens  ustria tenha contribudo para essa omisso.
         Temos tambm todos os motivos para supor [1] que as repeties muito freqentes de uma mesma palavra ao escrever ou copiar - as "perseveraes" - no deixam 
de ter sentido. Se a pessoa que escreve repete uma palavra que j escreveu, talvez queira assinalar com isso que no lhe foi fcil livrar-se dela, que poderia ter 
dito algo mais nesse ponto, mas que o omitiu, ou coisa semelhante. A perseverao ao copiar parece substituir a exteriorizao de um "eu tambm". Tive em mos extensos 
pareceres mdico-legais que exibiam perseveraes do copista em trechos particularmente importantes,as quais se poderiam interpretar como se ele, entediado com seu 
papel impessoal, introduzisse seu prprio comentrio: " exatamente o meu caso", ou "o mesmo acontece conosco".
         (19)Alm disso, nada nos impede de tratar os erros de impresso como "lapsos de escrita" do tipgrafo e de consider-los [psicologicamente] motivados em 
sua grande maioria. No me empenhei em fazer uma coleo sistemtica desses atos falhos, que poderia ser muito divertida e instrutiva. Na obra a que j me referi 
diversas vezes, Jones [1911b, 503-4] dedicou uma seo especial aos erros de impresso.
         s vezes, tambm as distores [1] no texto de telegramas podem ser entendidas como erros de redao do telegrafista. Nas frias de vero recebi de meus 
editores um telegrama cujo texto era ininteligvel. Dizia: "Vorrte erhalten, Einladung X. dringend." ["Mantimentos recebidos, convite X urgente."] A soluo do 
enigma partiu do nome X. mencionado no telegrama. X. era o nome do autor de um livro para o qual eu devia escrever uma "Einleitung [introduo]". Essa "Einleitung" 
 que se transformara em "Einladung [convite]". Pude ento lembrar-me de que, dias antes, eu enviara a meus editores um prefcio [Vorrede] para outro livro, cujo 
recebimento era assim confirmado. O texto correto provavelmente seria: "Vorrede erhalten, Einleitung X. dringend." [Prefcio recebido, introduo X. urgente.'] Podemos 
supor que tenha sido vtima de uma elaborao pelo complexo de fome do telegrafista, na qual, alis, as duas metades da frase ficaram numa concatenao mais estreita 
do que tencionara o remetente. A propsito, esse  um belo exemplo da "elaborao secundria" cuja ao podemos reconhecer na maioria dos sonhos.
         A possibilidade de "erros de impresso tendenciosos" foi discutida por Herbert Silberer (1922).
         (20) Ocasionalmente, outros autores apontaram erros de impresso cuja tendenciosidade no  fcil de contestar, como, por exemplo, o artigo de Storfer "O 
Demnio Poltico dos Erros de Impresso" (1914) e sua pequena nota (1915) que aqui reproduzo:
         "Um erro de impresso poltico se encontra no nmero de Mrz de 25 de abril deste ano. Uma carta vinda de Argirocastro reproduzia alguns comentriosfeitos 
por Zographos, o lder dos epirotas insurretos na Albnia (ou, caso se prefira, o presidente do Governo Independente do Epiro). Ela inclua a seguinte frase: 'Creiam-me: 
um Epiro autnomo seria do mais profundo interesse para o Prncipe Wied. Nele, ele poderia apear-se ["sich strzen", erro de impresso em lugar de "sich sttzen", 
"apoiar-se"]'. Mesmo sem esse erro de impresso fatal, o prncipe da Albnia sem dvida est bem ciente de que a aceitao do apoio ["Sttze"] oferecido pelos epirotas 
significaria sua queda ["Sturz"]."
         (21)Eu mesmo li recentemente, num de nossos jornais de Viena, um artigo cujo ttulo - "A Bukovina sob Domnio Romeno" - deveria no mnimo ser chamado de 
prematuro, j que, na poca, a Romnia ainda no se declarara inimiga. Pelo contedo do artigo, ficou bem claro que a palavra deveria ter sido "russo", e no "romeno", 
mas o prprio censor parece ter achado a frase to pouco surpreendente que at a ele passou despercebido o erro de impresso.
          difcil evitar a suspeita de um erro de imprensa "poltico" ao se deparar com o seguinte erro "ortogrfico" numa circular da clebre companhia editora 
(antes editora imperial e real) de Karl Prochaska, em Teschen:
         "Por deciso das potncias da Entente, que fixa a fronteira no Rio Olsa, no s a Silsia, mas tambm Teschen, foram divididas em duas partes, das quais 
uma zuviel  Polnia e outra  Tchecoslovquia."
         Certa vez, Theodor Fontane foi obrigado a se defender, de maneira divertida, de um erro de impresso demasiadamente carregado de sentido. Em 29 de maro 
de 1860, escreveu a seu editor, Julius Springer:
         "Prezado Senhor.
         "Parece que estou destinado a no ver a realizao de meus modestos desejos. Uma olhadela nas provas que estou anexando lhe esclarecer o que quero dizer. 
Alm disso, enviaram-me um nico jogo de provas, apesar de eu precisar de dois, pelas razes j fornecidas antes. E meu pedido de que a primeira via me fosse devolvida 
para nova reviso - com especial cuidado pelas palavras e frases em ingls - no foi atendido. Isso me  muitoimportante. Por exemplo, na pgina 27 das provas atuais, 
uma cena entre John Knox e a Rainha contm as palavras: 'worauf Maria aasrief.' Diante de um erro to fulminante, seria um alvio saber que ele realmente foi eliminado. 
O lamentvel 'aas' em vez de 'aus' torna-se ainda pior por no haver dvida de que ela (a rainha) h de t-lo chamado assim em seu ntimo.
         "Atenciosamente,Theodor Fontane."
         Wundt (1900, 374) d uma explicao [1] digna de nota para o fato, facilmente confirmvel de que  mais fcil cometermos lapsos de escrita do que lapsos 
da fala. "No curso da fala normal, a funo inibidora da vontade est continuamente voltada para harmonizar o curso das representaes com os movimentos articulatrios. 
Se o movimento expressivo que acompanha as representaes  retardado por causas mecnicas, como acontece ao escrever (...), torna-se particularmente fcil o surgimento 
de tais antecipaes".
         A observao das condies em que ocorrem os lapsos de leitura d margem a uma dvida que no quero deixar de mencionar, porque, no meu entender, ela pode 
tornar-se o ponto de partida de uma investigao frutfera.  do conhecimento de todos que, freqentemente, ao ler em voz alta, a ateno do leitor se afasta do 
texto e se volta para seus prprios pensamentos. Em decorrncia desse desvio de sua ateno, ele  quase sempre incapaz, se interrompido e interrogado, de dizer 
o que leu. Portanto, estava lendo como que automaticamente, embora quase sempre de maneira correta. No creio que, nessas condies, os lapsos de leitura se multipliquem 
acentuadamente. De fato, h toda uma srie de funes que, segundo estamos acostumados a supor, so desempenhadas com maior exatido quando executadas automaticamente 
- isto , quase sem nenhuma ateno consciente. Da parece decorrer que o fator da ateno dos lapsos da fala, da leitura e da escrita deveser determinado de maneira 
diferente daquela descrita por Wundt (ausncia ou reduo da ateno). Os exemplos que submetemos  anlise realmente no nos autorizam a supor que tenha havido 
uma reduo quantitativa da ateno; encontramos algo que talvez no seja exatamente a mesma coisa: uma perturbao da ateno por um pensamento que se impe e demanda 
considerao.
         Entre os "lapsos da escrita" e o "esquecimento" [1] podemos inserir o caso da pessoa que esquece de apor sua assinatura. Um cheque no assinado  o mesmo 
que um cheque esquecido. No tocante ao sentido de tal esquecimento, citarei um techo de romance que chamou a ateno do Dr. Hanns Sachs:
         "Um exemplo muito instrutivo e transparente da segurana com que os escritores sabem empregar o mecanismo dos atos falhos e dos atos sintomticos no sentido 
psicanaltico est contido no romance The Island Pharisees, de John Galsworthy. A trama gira em torno das oscilaes de um rapaz da classe mdia abastada entre sua 
profunda sensibilidade social e as atitudes convencionais de sua classe. O captulo XXVI retrata a maneira com que ele reage  carta de um jovem vagabundo a quem, 
movido por sua concepo original da vida, ele havia socorrido em algumas ocasies. A carta no contm nenhum pedido direto de dinheiro, mas sim a descrio de um 
estado de grande necessidade que no pode ter outro sentido. O destinatrio inicialmente rejeita a idia de jogar seu dinheiro fora num caso incorrigvel, em vez 
de utiliz-lo para apoiar obras de caridade. 'Estender a mo, dar um pouco de si mesmo, fazer um gesto de camaradagem ao prximo, independentemente de qualquer reivindicao, 
apenas por ele estar mal de vida, ora, que absurdo sentimental! H que traar um limite em algum lugar! Mas, enquanto murmurava para si mesmo essas concluses, ouviu 
o protesto de sua sinceridade: 'Tratante! Voc s quer  conservar seu dinheiro, isso  tudo!'
         "Escreveu ento uma carta amistosa que terminava com estas palavras: 'Estou anexando um cheque. Cordialmente, Richard Shelton.'
         "'Antes que preenchesse o cheque, uma mariposa voando ao redor da vela distraiu sua ateno; ele a capturou, libertou-a do lado de fora e, nesse meio tempo, 
esqueceu que o cheque no fora includo na carta.' E ela foi despachada exatamente como estava.
         
         "Entretanto, esse esquecimento tem uma motivao ainda mais sutil do que a irrupo da tendncia egosta aparentemente superada de poupar-se aquela despesa.
         "Na quinta de seus futuros sogros, rodeado por sua noiva e mais os familiares e convidados dela, Shelton sente-se isolado; seu ato falho indica que ele 
anseia por seu protegido, que, por seu passado e sua concepo de vida, contrasta diametralmente com o grupo irrepreensvel que o cerca, uniformemente estampado 
com o selo de uma nica e mesma conveno. E, de fato, dias depois, j no podendo manter-se onde estava sem receber ajuda, chega o vagabundo para pedir esclarecimentos 
sobre as razes da ausncia do cheque prometido."
         
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        CAPTULO VII - O ESQUECIMENTO DE IMPRESSES E INTENES
         
         Se algum se sentir propenso a superestimar o estado de nosso atual conhecimento da vida anmica, recordar-lhe a funo da memria ser o bastante para 
for-lo a ser mais modesto. At agora, nenhuma teoria psicolgica conseguiu dar uma explicao coerente do fenmeno fundamental da lembrana e do esquecimento; 
de fato, uma dissecao completa do que realmente se pode observar mal chegou a ser iniciada. Hoje em dia, talvez o esquecimento se tenha tornado mais enigmtico 
do que a lembrana, uma vez que o estudo dos sonhos e dos fenmenos patolgicos nos ensinou que at mesmo algo que supnhamos esquecido h muito tempo pode reassomar 
repentinamente na conscincia. [1]
         J dispomos,  verdade, de alguns pontos de vista para os quais esperamos obter aceitao geral. Supomos que o esquecimento  um processo espontneo ao 
qual se pode atribuir o requisito de um certo decurso de tempo. Enfatizamos que no esquecimento se produz uma certa seleo entre as impresses que nos so oferecidas, 
o mesmo acontecendo entre os detalhes da cada impresso ou experincia. Conhecemos algumas das condies para a preservao na memria e para a renovao daquilo 
que, de outro modo, seria esquecido. No obstante, em inmeras ocasies da vida cotidiana podemos observar quo incompleto e insatisfatrio  nosso conhecimento 
dessas condies. Basta ouvir duas pessoas que tenham recebido as mesmas impresses externas - que tenham feito uma viagem juntas, por exemplo [em [1]] - trocando 
lembranas algum tempo depois. O que permanece firme na memria de uma delas freqentemente foi esquecido pela outra, como se nunca tivesse acontecido; e isso acontece 
mesmo quando no h razo para supor que a impresso tenha sido psiquicamente mais significativa para uma do que para a outra.  bvio que um grande nmero dos fatores 
que determinam a escolha daquilo que ser lembrado ainda escapa a nosso entendimento.
         Com o propsito de fazer uma pequena contribuio a nosso conhecimento dos determinantes do esquecimento, costumo submeter  anlise psicolgica os casos 
em que eu mesmo esqueo alguma coisa. Em regra geral, ocupo-me apenas de certo grupo desses casos, ou seja, aqueles em que o esquecimento me surpreende, j que, 
segundo minha expectativa, eu deveria saber a coisa em questo. Acrescento ainda que, em geral, no tenho tendncia ao esquecimento (das coisas vivenciadas no das 
aprendidas!) e que, por um breve perodo de minha juventude, no me era impossvel realizar algumas proezas mnmicas extraordinrias. Em meus tempos de estudante, 
era natural para mim poder recitar de cor a pgina do livro que estivera lendo, e, pouco antes de entrar na universidade, eu conseguia anotar quase ao p da letra, 
logo depois de ouvi-las, as conferncias populares de contedo cientfico. No perodo de tenso que precedeu meu exame final de medicina, ainda devo ter utilizado 
o que me restava dessa capacidade, pois em alguns assuntos dei aos examinadores respostas quase automticas que correspondiam fielmente s palavras do texto didtico 
que eu folheara apenas uma vez, e com muita pressa.
         Desde ento, meu poder de dispor de meu patrimnio mnmico foi-se deteriorando cada vez mais; contudo, at pocas muito recentes, tenho-me convencido de 
que, com a ajuda de um artifcio, sou capaz de recordar muito mais do que eu mesmo consideraria possvel. Quando, por exemplo, um paciente em meu horrio de consultas 
declara que j o vi antes, ao passo que no consigo me lembrar nem do fato nem da poca, recorro  adivinhao: deixo que me ocorra um nmero de anos e conto do 
presente para trs. Nos casos em que os registros ou alguma informao exata do paciente permitem um controle do que me ocorreu, fica demonstrado que raramente erro 
em mais de seis meses a cada dez anos. Uma experincia semelhante sucede quando encontro um conhecido distante e, por uma questo de cortesia, pergunto como vo 
indo seus filhinhos. Se ele descreve os progressos dos filhos, procuro deixar que me ocorra a idade atual da criana, verifico-a atravs das informaes do pai e, 
no mximo, erro por um ms, ou, no caso de crianas mais velhas, por trs meses, embora no saiba dizer em que foi que baseei essa estimativa. Ultimamente, tornei-me 
toousado que sempre forneo minha estimativa espontaneamente, sem risco de melindrar o pai ao expor minha ignorncia sobre sua prole. Dessa maneira, amplio minha 
memria consciente invocando minha memria inconsciente, que  sempre muito mais rica.
         Assim, citarei alguns exemplos destacados de esquecimento, a maioria observada em mim mesmo. Fao uma distino entre o esquecimento de impresses e experincias, 
ou seja, de um saber, e o esquecimento de intenes, ou seja, da omisso de um fazer. Posso antecipar o resultado uniforme de toda a srie de observaes: na totalidade 
dos casos, o esquecimento mostrou basear-se num motivo de desprazer.
         
         (A) O ESQUECIMENTO DE IMPRESSES E CONHECIMENTOS
         
         (1)Certo vero, minha mulher me deu um motivo, em si mesmo inocente, para ficar muito aborrecido. Estvamos sentados  table d'hte, em frente a um senhor 
de Viena que eu conhecia e que, sem dvida, tambm se lembrava de mim. Entretanto, eu tinha minhas razes para no renovar esse conhecimento. Minha mulher, que s 
ouvira o ilustre nome desse senhor, deixou transparecer com demasiada clareza que estava escutando a conversa dele com seu vizinho, pois, de tempos em tempos, voltava-se 
para mim com perguntas que retomavam o fio da conversa deles. Fui ficando impaciente e, por fim, irritado. Algumas semanas depois, eu me queixava com uma parenta 
sobre esse comportamento de minha mulher, mas no consegui recordar uma nica palavra da conversa daquele senhor. Como sou normalmente bastante rancoroso e no consigo 
esquecer um s detalhe dos incidentes que me aborrecem, minha amnsia nesse caso foi provavelmente motivada pela considerao por minha esposa. Faz pouco tempo tornou 
a me ocorrer algo semelhante. Eu queria me divertir com um amigo ntimo a propsito de um comentrio feito por minha mulher poucas horas antes, mas fui impedido 
de faz-lo pela notvel circunstncia de ter esquecido por completo o comentrio em questo. Tive de pedir a minha mulher que o relembrasse.  fcil entender esse 
meu esquecimento como anlogo tpica perturbao do julgamento a que estamos sujeitos quando se trata de nossos parentes mais prximos.
         (2)Eu me havia comprometido a adquirir, para uma dama estrangeira em visita a Viena, um pequeno cofre porttil para guardar seus documentos e dinheiro. 
Quando me dispus a isso, tinha presente uma imagem visual incomumente vvida da vitrine de uma loja no centro da cidade onde tinha certeza de ter visto esses cofres. 
 verdade que no conseguia lembrar-me do nome da rua, mas estava certo de que encontraria a loja se andasse pelo centro da cidade, pois minha memria me dizia que 
eu passara pode ela inmeras vezes. Para minha irritao, porm, no consegui encontrar a vitrine com os cofrinhos, embora percorresse o centro da cidade em todas 
as direes. No me restava outro recurso, pensei eu, seno consultar num catlogo os endereos de fabricantes de cofres, para ento identificar, numa segunda caminhada 
pela cidade, a vitrine buscada. Mas no foi preciso tanto; entre os endereos indicados no catlogo havia um que reconheci imediatamente como o esquecido. Era verdade 
que eu havia passado inmeras vezes por essa vitrine - a saber, todas as vezes em que visitara a famlia M., que h muitos anos reside no mesmo prdio. Desde que 
nossa estreita amizade cedeu lugar a um distanciamento total, habituei-me, sem me dar conta das razes disso, a evitar tambm aquela rea e o prdio. Em meu passeio 
pela cidade  procura da vitrine com os cofres, eu havia passado por todas as ruas das cercanias, menos aquela, evitada como se sobre ela pesasse uma proibio. 
 patente o motivo de desprazer responsvel por minha desorientao nesse caso. O mecanismo do esquecimento, porm, no  to simples aqui como no exemplo anterior. 
Minha averso naturalmente no se voltava contra o fabricante de cofres, mas contra outra pessoa em quem eu no queria pensar, e desta ltima se transferiu para 
a ocasio em que produziu o esquecimento. O caso de "Burckhard" [em [1]] foi muito semelhante; meu rancor contra uma pessoa com esse nome provocou um lapso na escrita 
dele quando se referia a outra pessoa. O papel ali desempenhado pela identidade de sobrenomes, estabelecendo uma ligao entre dois crculos de pensamentos essencialmente 
diferentes, pde ser substitudo, no exemplo da vitrine, pela contigidade espacial, pela proximidade inseparvel. Alis, este ltimo caso estava mais firmemente 
encadeado; nele havia ainda uma segunda associao de contedo, pois o dinheiro tinha desempenhado um papel entre as razes de meu distanciamento da famlia residente 
no prdio.
         
         (3)Fui solicitado pela firma B. & R. a fazer uma visita mdica a um de seus empregados. A caminho dessa residncia, fui tomado pela idia de que j devia 
ter estado diversas vezes no prdio em que se localizava essa firma. Era como se eu houvesse notado o letreiro da empresa num andar inferior enquanto fazia uma visita 
profissional num andar acima. Entretanto, no consegui lembrar-me nem do edifcio, nem de quem teria visitado. Embora o assunto todo no tivesse importncia nem 
sentido, continuei a me ocupar dele e finalmente descobri, pelo rodeio habitual, ou seja, reunindo os pensamentos que me ocorreram a esse respeito, que os escritrios 
da firma B. & R. ficavam um andar abaixo da Penso Fischer, onde eu muitas vezes visitara pacientes. Ao mesmo tempo, lembrei-me tambm do prdio que abrigava o escritrio 
e a penso. Ainda me era enigmtico o motivo que estivera em jogo nesse esquecimento. No descobri nada ofensivo  memria na prpria firma, ou na Penso Fischer, 
ou nos pacientes que ali moravam. Conjeturei ento que no poderia tratar-se de nada muito penoso, caso contrrio eu dificilmente teria conseguido recuperar por 
via indireta o que havia esquecido, sem recorrer  ajuda externa, como fizera no exemplo anterior. Por fim, ocorreu-me que pouco antes, quando estava a caminho da 
casa desse novo paciente, um senhor que tive dificuldade em reconhecer me havia cumprimentado na rua. Meses antes, eu examinara esse homem num estado aparentemente 
grave e o sentenciara com um diagnstico de paralisia progressiva; mais tarde, porm, ouvi dizer que ele se havia restabelecido, de modo que meu julgamento devia 
estar errado. A menos que tivesse havido uma das remisses tambm encontradas na dementia paralytica, de modo que meu diagnstico continuaria a ser justificado! 
A influncia que me fez esquecer a localizao do escritrio da B. & R. proveio de meu encontro com esse homem, e meu interesse em encontrar a soluo para o que 
fora esquecido transferiu-se para isso partindo desse caso de diagnstico duvidoso. Mas o elo associativo, no obstante a nfima ligao interna - o homem que se 
restabeleceu contrariando as expectativas tambm era funcionrio de uma grande empresa que costumava encaminhar-me pacientes -, foi fornecido pela identidade entre 
os sobrenomes. O mdico junto com quem eu examinara o suposto caso de paralisia tambm se chamava Fischer, tal como a penso afetada pelo esquecimento, que ficava 
naquele prdio.
         (4)Extraviar uma coisa realmente no passa de esquecer onde ela foi colocada. Como a maioria das pessoas que escrevem e lidam com livros, conheo bem minha 
escrivaninha e sei apanhar de uma s vez aquilo que busco. O que a outros parece desordem , para mim, uma ordem historicamente criada. Por que, ento, extraviei 
recentemente um catlogo de livros que me fora remetido, a ponto de ser-me impossvel reencontr-lo? De fato, eu tinha inteno de encomendar um livro nele anunciado, 
ber die Sprache [Sobre a Linguagem], pois era de um autor cujo estilo espirituoso e movimentado me agrada, e cujos conhecimentos de psicologia e de histria da 
cultura aprendi a valorizar. Acho que foi exatamente por isso que extraviei o catlogo.  que costumo emprestar livros desse autor a meus conhecidos para que se 
instruam, e dias antes um deles me devolvera um exemplar, dizendo: "O estilo me lembra muito o seu, e tambm a maneira de pensar  a mesma." Essa pessoa no sabia 
no que tocava em mim ao fazer essa observao. Anos trs, quando eu ainda era jovem e mais necessitado de me associar a outrem, um colega mais velho, diante de quem 
eu elogiara os escritores de um famoso autor mdico, dissera quase a mesma coisa: " exatamente como seu estilo e seu gnero." Influenciado por essa observao, 
escrevi uma carta a esse autor tentando estreitar as relaes com ele, mas uma resposta fria me colocou no meu lugar.  possvel que outras experincias desanimadoras 
anteriores tambm se ocultem por trs dessa, pois jamais encontrei o catlogo extraviado, e esse pressgio realmente fez com que eu me abstivesse de encomendar o 
livro anunciado, embora o desaparecimento do catlogo no constitusse um verdadeiro empecilho, j que eu guardara na memria tanto o nome do livro quanto o do autor.
         (5) Outro caso de extravio merece nosso interesse por causa das condies em que se reencontrou o objeto extraviado. Um homem mais jovem contou-me o seguinte: 
"H alguns anos, havia desentendimentos em meu casamento; eu considerava minha mulher fria demais e, apesar de reconhecer de bom grado suas excelentes qualidades, 
vivamos juntos sem nenhuma ternura. Um dia, voltando de um passeio, ela me deu um livro que havia comprado por achar que me interessaria. Agradeci-lhe esse sinal 
de "ateno", prometi ler o livro, coloquei-o de lado e nunca mais voltei a encontr-lo. Passaram-se meses em que, de vez em quando, eu me lembrava do livro desaparecido 
e em vo tentava reencontr-lo. Cerca de seis meses depois, adoeceu minha querida me, que no morava conosco. Minha mulher saiu de casa para cuidar da sogra. O 
estado da paciente se agravou e deu a minha mulher uma oportunidade de mostrar seu lado mais positivo. Umanoite, voltei para casa cheio de entusiasmo e gratido 
pelo trabalho realizado por minha mulher. Fui at minha escrivaninha e, sem qualquer inteno definida, mas com uma espcie de certeza sonamblica, abri uma das 
gavetas, onde, bem em cima de tudo, encontrei o livro h tanto tempo desaparecido, o livro extraviado." [1]
         (6) Um caso de extravio que compartilhava da ltima caracterstica do exemplo acima - ou seja, a espantosa segurana do reencontro do objeto to logo se 
extingue o motivo do extravio -  narrado por Strcke (1916):
         "Uma moa havia estragado um pedao de tecido ao cort-lo para fazer um colarinho; por isso, a costureira teve que ser chamada para tentar recomp-lo. Quando 
ela chegou, a moa quis pegar o colarinho mal cortado e foi at a gaveta onde pensava t-lo posto, mas no conseguiu encontr-lo. Virou o contedo de cabea para 
baixo, mas no o achou. J exasperada, sentou-se e perguntou a si mesma por que ele desaparecera de repente, e se no haveria algum motivo pelo qual ela no queria 
encontr-lo. Chegou  concluso de que, naturalmente, sentia-se envergonhada diante da costureira por ter estragado uma coisa to simples como um colarinho. Depois 
dessa reflexo, ela se levantou, foi at outro armrio e dali retirou, na mesma hora, o colarinho mal cortado."
         (7) O prximo exemplo de "extravio"  de um tipo que se tornou familiar a qualquer psicanalista. Posso acrescentar que o prprio paciente responsvel pelo 
lapso descobriu a soluo:
         "Ao se despir  noite, um paciente cujo tratamento psicanaltico foi interrompido pelas frias de vero, num perodo em que ele se achava num estado de 
resistncia e mal-estar, colocou seu molho de chaves, ao que lhe pareceu, no lugar habitual. Lembrou-se ento de que havia mais algumas coisas de que precisava para 
sua viagem no dia seguinte - ltimo dia do tratamento e data de pagamento dos honorrios -, e foi busc-las na escrivaninha, onde tambm pusera o dinheiro. Mas as 
chaves haviam desaparecido. Ele comeou a empreender em sua pequenina casa uma busca sistemtica, porm com agitao cada vez maior... e nada de xito. Por reconhecer 
no 'extravio' das chaves um ato sintomtico, isto , algo feitointencionalmente, acordou seu criado para poder prosseguir na busca com o auxlio de uma pessoa 'imparcial'. 
Depois de mais uma hora, desistiu, temendo haver perdido as chaves. Na manh seguinte, encomendou chaves novas do fabricante da escrivaninha, sendo estas feitas 
para ele a toda pressa. Dois amigos que o haviam acompanhado  casa no mesmo txi acreditaram lembrar-se de ter ouvido alguma coisa tilintar no cho quando ele desceu 
do carro. Ele estava convencido de que as chaves haviam cado de seu bolso. Naquela noite, o empregado, triunfante, apresentou-lhe as chaves. Tinham sido encontradas 
entre um livro grosso e um folheto fino (trabalho de um de meus alunos) que ele queria levar para ler nas frias, e estavam colocadas com tanta habilidade que ningum 
suspeitaria que estivessem ali. Depois, foi-lhe impossvel recoloc-las de maneira a ficarem igualmente invisveis. A destreza inconsciente com que se extravia um 
objeto por motivos ocultos, mas poderosos, faz lembrar muito a 'certeza sonamblica'. O motivo, como se poderia esperar, era o mal-estar pela interrupo do tratamento 
e raiva secreta por ter de pagar honorrios elevados quando se sentia to mal."
         (8) "Um homem", relata Brill [1912], "foi pressionado por sua mulher a participar de um acontecimento social a que, no fundo, era indiferente. Cedendo aos 
apelos da esposa, comeou a tirar do ba seu traje de gala, mas, de repente, resolveu barbear-se primeiro. Depois de faz-lo, voltou ao ba, encontrou-o trancado 
e, apesar de uma longa e intensa busca, no conseguiu encontrar a chave. Sendo domingo  noite, era impossvel chamar um chaveiro, de modo que o casal teve que desculpar-se 
pelo no comparecimento. Quando o ba foi aberto na manh seguinte, l dentro se encontrou a chave perdida. Distrado, o marido a deixara cair dentro do ba e depois 
fechara o cadeado. Ele me garantiu que o fizera sem nenhuma inteno e inconscientemente, mas sabemos que no queria comparecer ao acontecimento social. Portanto, 
no faltava motivo para o extravio da chave."
         Ernest Jones [1911b, 506] observou em si mesmo que costumava extraviar seu cachimbo sempre que, tendo fumado demais, sentia-se indisposto por causa disso. 
Depois, o cachimbo aparecia em todos os lugares imaginveis, onde no deveria estar e onde comumente no era guardado.
         
         (9) Um caso ingnuo em que a motivao foi admitida  relatado por Dora Mller (1915):
         "Contou-me a Srta. Erna A., dois dias antes do Natal: 'Imagine s! Ontem  noite, tirei um pedao de meu bolo de Natal do pacote e comi; ao faz-lo, pensei 
em oferecer um pedao  Srta. S.' (a dama de companhia de sua me) 'quando viesse dar-me boa noite; no estava com nenhuma disposio para isso, mas resolvi faz-lo 
assim mesmo. Quando ela chegou e estendi a mo para pegar o pacote na minha mesinha, ele no estava l. Ento, procurei-o e fui encontr-lo trancado em meu armrio. 
Eu o enfiara l dentro sem perceber.' Foi desnecessrio fazer uma anlise, pois a prpria narradora entendeu a cadeia de acontecimentos. O impulso recm-recalcado 
de querer guardar o bolo s para si conseguiu impor-se, mesmo assim, numa ao automtica, embora, nesse caso, esta fosse novamente anulada pelo ato consciente que 
se seguiu."
         (10)H. Sachs descreve como certa vez, por um extravio semelhante, furtou-se  obrigao de trabalhar: "No ltimo domingo,  tarde, hesitei por algum tempo 
entre trabalhar ou fazer um passeio seguido de uma visita, e depois de alguma luta decidi-me pelo primeiro. Cerca de uma hora depois, notei que acabara meu estoque 
de papel. Sabia que em algum lugar, numa gaveta, havia uma pilha de papel que eu guardava h anos, mas em vo procurei-a em minha escrivaninha e em outros lugares 
onde achei que poderia encontr-la, apesar do enorme trabalho que tive esquadrinhado todos os lugares possveis: livros velhos, folhetos, maos de correspondncia 
e assim por diante. Por fim, vi-me obrigado a interromper meu trabalho e sair. Quando voltei para casa  noite, sentei-me no sof e, pensativo e meio distrado, 
corri os olhos pela estante diante de mim. Uma caixa chamou minha ateno e lembrei que no examinava seu contedo h muito tempo. Assim, fui at ela e a abri. Bem 
em cima havia uma pasta de couro contendo papel em branco. Mas s quando o retirei e estava prestes a coloc-lo na gaveta de escrivaninha foi que me ocorreu que 
aquele era exatamente o mesmo papel que eu em vo procurara durante a tarde. Aqui devo acrescentar que, embora no costume ser parcimonioso, sou muito cuidadoso 
com o papel e guardo qualquer pedao utilizvel. Obviamente, foi esse meu hbito, alimentado por uma pulso, que possibilitou a retificao de meu esquecimento assim 
que desapareceu seu motivo imediato.
         
         Quando se observam em conjunto os casos de extravio, [1] torna-se realmente difcil acreditar que alguma coisa possa ser extraviada sem que isso seja produto 
de uma inteno inconsciente.
         (11) Um dia, no vero de 1901, observei a um amigo com quem, na poca, eu tinha um animado intercmbio de idias cientficas: "Esses problemas neurticos 
s podero ser resolvidos quando nos basearmos integralmente na hiptese da bissexualidade originria do indivduo." Ao que ele respondeu: "Isso foi o que eu lhe 
disse h dois anos e meio em Br. [Breslau], quando dvamos aquele passeio  tardinha. S que, na poca, voc no queria ouvir falar nisso."  penoso ser assim convidado 
a renunciar  prpria originalidade. Eu no conseguia lembrar-me nem dessa conversa, nem do comunicado de meu amigo. Um de ns dois devia estar enganado e, pelo 
princpio do "cui prodest?", devia ser eu mesmo. De fato, no decorrer da semana seguinte, lembrei-me de todo o incidente, que fora exatamente como meu amigo tentara 
fazer-me evocar, e at da resposta que lhe dei na poca: "Ainda no aceitei isso; no estou inclinado a entrar nessa questo." Desde ento, porm, tornei-me um pouco 
mais tolerante quando, na literatura mdica, deparo com uma das poucas idias que se podem associar com meu nome e vejo que ele no foi citado.
         Crticas  prpria esposa, uma amizade que se transforma no inverso, um erro no diagnstico mdico, a rejeio de algum que tem interesses semelhantes, 
a apropriao de idias alheias - no h de ser por acaso que uma coleo de exemplos de esquecimento reunida sem seleo prvia exige que se entre em temas to 
penosos para ser explicada. Ao contrrio, suspeito que qualquer outro que se disponha a investigar os motivos de seus prprios esquecimentos poder arrolar um mostrurio 
semelhante de contrariedades. A tendncia a esquecer o que  desagradvel me parece inteiramente universal; a aptido para isso tem graus diferenciados de desenvolvimento 
nas diferentes pessoas.  provvel que muitos dos desmentidos com que deparamos na atividade mdica sejam provenientes de esquecimentos.  verdade que nossa concepo 
desse esquecimento reduz a distino entre as duas formas de comportamento [o desmentido e o esquecimento] a fatores puramente psicolgicos e nos permite ver nos 
dois modos de reao a expresso do mesmo motivo. Dentre todos os numerosos exemplos de renegao [Verleugnung] de lembranas desagradveis que observei em parentes 
de enfermos, h um que preservo na memria como sendo especialmente singular. Uma me, ao dar-me informaes sobre a infncia do filho neurtico, agora na puberdade, 
disse que, como todos os irmos, ele urinara na cama at idade bem tardia, o que no deixa de ter importncia na histria clnica de um paciente neurtico. Algumas 
semanas depois, quando ela quis obter informaes sobre o estado do tratamento, tive oportunidade de chamar-lhe a ateno para os sinais de uma predisposio constitucional 
 doena no rapazinho e, ao faz-lo, referi-me ao trao de urinar na cama, levantado na anamnese. Para meu assombro ela contestou esse fato, tanto no tocante a ele 
quanto aos outros filhos, e perguntou como eu poderia saber disso, at que, por fim, eu lhe disse que ela mesma me havia informado a esse respeito pouco tempo antes, 
e portanto, devia t-lo esquecido.
         Assim, tambm nas pessoas saudveis, no neurticas, encontramos sinais abundantes de que uma resistncia se ope  lembrana de impresses aflitivas,  
representao de pensamentos aflitivos. Mas o sentido pleno desse fato s pode ser avaliado quanto se investiga a psicologia das pessoas neurticas. -se forado 
a encarar como um dos pilares centrais do mecanismo portador dos sintomas histricos esse empenho defensivo elementar contra as representaes capazes de despertar 
sentimentos de desprazer - um empenho somente comparvel ao reflexo de fuga na presena de estmulos dolorosos.Contra a suposio da existncia dessa tendncia defensiva 
no se pode objetar que, pelo contrrio, -nos freqentemente impossvel livrar-nos das lembranas aflitivas que nos perseguem e afugentar moes afetivas penosas 
como o remorso e as dores de conscincia. Isso porque no estamos afirmando que essa tendncia defensiva seja capaz de se impor em todos os casos, que, no jogo das 
foras psquicas, no possa esbarrar em fatores que, por outros desgnios, aspirem ao efeito oposto e o produzam apesar da tendncia defensiva. Podemos supor que 
o princpio arquitetnico do aparelho anmico consista numa estratificao, numa edificao de instncias superpostas, e  bem possvel que esse empenho defensivo 
pertena  instncia psquica inferior e seja inibido pelas instncias superiores. De qualquer modo, depe em favor da existncia e do poder dessa tendncia defensiva 
o fato de podermos atribuir a ela a origem de processos como os de nossos exemplos de esquecimento. Como vimos, muitas coisas so esquecidas por si mesmas; quando 
isso no  possvel, a tendncia defensiva desloca seu alvo e produz ao menos o esquecimento de alguma outra coisa, algo menos importante que tenha estabelecido 
um vnculo associativo com aquilo que  realmente chocante.
         O ponto de vista aqui desenvolvido - de que as lembrana aflitivas sucumbem com especial facilidade ao esquecimento motivado - merece ser aplicado em muitos 
campos que at hoje lhe concederam muito pouca ou nenhuma ateno. Assim, parece-me que ele ainda no foi enfatizado com fora suficiente na avaliao dos testemunhos 
prestados nos tribunais, onde  patente que se considera o juramento da testemunha capaz de exercer uma influncia exageradamente purificadora sobre o jogo de suas 
foras psquicas.  universalmente reconhecido que, no tocante  origem das tradies e da histria legendria de um povo,  preciso levar em conta esse tipo de 
motivo, cuja meta  apagar da memria tudo o que seja penoso para o sentimento nacional. Uma investigao mais detalhada talvez revelasse uma completa analogia entre 
os modos de formao das tradies de um povo e das lembranas da infncia do indivduo. - O grande Darwin [1] estabeleceu uma "regra de ouro" para o trabalhador 
cientfico, baseada em seudiscernimento do papel desempenhado pelo desprazer como motivo para o esquecimento. [1]
         De maneira muito semelhante ao esquecimento de nomes [em [1]], o esquecimento de impresses pode ser acompanhado por falsas recordaes, que, quando merecem 
crdito, so designadas de iluses de memria [Erinnerungstuschung]. A iluso de memria observada nos casos patolgicos (na parania ela desempenha justamente 
o papel de um fator constitutivo na formao do delrio) deu origem a uma vasta literatura em que me foi inteiramente impossvel encontrar qualquer indcio de sua 
motivao. Como este  tambm um tema pertencente  psicologia das neuroses,  imprprio consider-lo neste contexto. Em vez disso, descreverei um curioso exemplo 
de iluso de memria ocorrida comigo, na qual a motivao fornecida pelo material inconsciente recalcado e o modo e natureza da combinao com esse material so 
reconhecveis com bastante clareza.
         Quando escrevia os ltimos captulos de meu livro sobre a interpretao dos sonhos, encontrava-me num local de veraneio sem acesso a biblioteca e obras 
de consulta, e fui forado a incorporar ao manuscrito, de memria, toda sorte de referncias e citaes, sujeitas a correo posterior. Ao escrever o trecho sobre 
os devaneios
         , ocorreu-me a primorosa figura do pobre guarda-livros do Le Nabab, de Alphonse Daudet, em quem o escritor provavelmente retratou seus prprios devaneios. 
Acreditei lembrar-me de uma das fantasias tramadas por esse homem - chamei-o de Monsieur Jocelyn - em suas andanas pelas ruas de Paris; lembrava-a com clareza e 
comecei a reproduzi-la de memria: o Sr. Jocelyn se atirava ousadamente contra um cavalo em disparada na rua e o detinha; a porta da carruagem se abria e dela saa 
uma alta personalidade, que apertava a mo do Sr. Jocelyn e dizia "O senhor  meu salvador, devo-lhe minha vida. Que posso fazer pelo senhor?"
         As eventuais imprecises na reproduo dessa fantasia, consolei-me, poderiam ser facilmente corrigidas em casa, quando eu tivesse o livro em mos. Mas quando 
finalmente folheei Le Nabab para conferir esse trecho de meu manuscrito, que j estava pronto para ser impresso, descobri, para minha grande vergonha e consternao, 
que nada havia de tal devaneio do Sr. Jocelyn; na verdade, o pobre guarda-livros nem sequer tinha esse nome, mas se chamava Monsieur Joyeuse. Esse segundo erro logo 
me forneceu a chave para esclarecer o primeiro, a iluso de memria, "Joyeux", nome do qual "Joyeuse"  a forma feminina,  a nica maneira pela qual eu poderia 
traduzir meu prprio nome, Freud, para o francs. De onde proviria, portanto, essa fantasia falsamente lembrada que atribura a Daudet? S poderia ser produto de 
mim mesmo, um devaneio que eu prprio criara e que no se havia tornado consciente, ou que um dia me fora consciente e depois eu esquecera por completo. Talvez eu 
mesmo o tenha inventado em Paris, quando freqentemente passeava pelas ruas, solitrio e repleto de anseios, necessitado de um colaborador e protetor, at que mestre 
Charcot me aceitou em seu crculo. Mais tarde, foram muitas as vezes em que encontrei o autor de Le Nabab na casa de Charcot. [1]
         
         Outro caso de iluso da memria [1] que se pode explicar satisfatoriamente faz lembrar a fausse reconnaissance, tema a ser discutido mais adiante [em [1]]. 
Eu havia contado a um de meus pacientes, um homem ambicioso e capaz, que um jovem estudante fora recentemente incorporado ao crculo de meus discpulos por meio 
de um interessante trabalho, "Der Knstler, Versuch einer Sexualpsychologie" [O Artista, Ensaio de uma Psicologia Sexual]. Ao ser esse livro publicado depois de 
um ano e trs meses, meu paciente afirmou poder lembrar-se com certeza de ter lido em algum lugar, antes mesmo de minha comunicao (um ou seis meses antes), um 
anncio desse livro, talvez no prospecto de algum livreiro. Esse anncio, disse ele, viera-lhe  mente naquela ocasio, e comentou ainda ter constatado que o autor 
havia modificado o ttulo: j no se chamava "Versuch" ["Esboo"], mas "Anztze zu einer Sexualpsychologie" [Rudimentos de uma Psicologia Sexual]. Entretanto, uma 
sondagem cuidadosa feita com o autor e a comparao de todas as datas mostraram que meu paciente alegava lembrar-se de algo impossvel. Nenhum anncio do livro aparecera 
em parte alguma antes da publicao, e menos ainda um ano e trs meses antes de ele ser impresso. Quando deixei de interpretar essa iluso da memria, esse mesmo 
homem produziu uma reedio dela, de natureza equivalente. Acreditou ter visto recentemente uma obra sobre a agorafobia na vitrine de uma livraria e estava agora 
pesquisando os catlogos de todas as editoras para obter um exemplar. Pude ento explicar-lhe por que seus esforos seriam necessariamente infrutferos. A obra sobre 
a agorafobia s existia em sua fantasia, como uma inteno inconsciente, devendo ser escrita por ele mesmo. Sua ambio de se igualar ao outro jovem e tornar-se 
um de meus discpulos mediante um trabalho cientfico similar fora responsvel pela primeira iluso da memria e, depois, por sua repetio. Diante disso, ele se 
lembrou de que o anncio de livraria que lhe servira para esse falso reconhecimento referia-se a um livro intitulado "Genesis, das Gesetz der Zeugung" [Gnese, a 
Lei da Gerao]. Mas a alterao do ttulo por ele mencionada correu por minha conta, pois pude lembrar-me de ter cometido eu mesmo essa inexatido - "Versuch" em 
vez de "Anstze" - ao reproduzir o ttulo.
         
         (B) O ESQUECIMENTO DE INTENES
         
         Nenhum grupo de fenmenos se presta melhor do que o esquecimento de intenes para comprovar a tese de que, por si s, a falta de ateno no basta para 
explicar os atos falhos. A inteno  um impulso para a ao, um impulso que j foi aprovado, mas cuja execuo  adiada para uma ocasio propcia. Ora, no intervalo 
assim criado,  possvel que sobrevenha uma tal modificao nos motivos que a inteno no seja efetivada; nesse caso, porm, ela no  esquecida, e sim revista 
e anulada. O esquecimento das intenes, ao qual estamos sujeitos cotidianamente em todas as situaes possveis, no  algo que estejamos habituados a explicar 
em termos de tal modificao no equilbrio dos motivos; em geral o deixamos inexplicado ou buscamos uma explicao psicolgica supondo que, no momento em que a inteno 
deveria efetivar-se, j no se dispunha da ateno necessria  ao, embora a ateno tivesse sido uma precondio indispensvel para o advento da inteno e, portanto, 
tivesse estado disponvel para a ao naquele momento. A observao de nosso comportamento normal diante das intenes leva-nos a rejeitar como arbitrria essa tentativa 
de explicao. Quando concebo pela manh uma inteno a ser efetivada  noite,  possvel que me lembre dela duas ou trs vezes ao longo do dia. Mas de modo algum 
 necessrio que ela se torne consciente durante o dia. Quando se aproxima o momento de sua execuo, ela de repente me ocorre e me leva a fazer os preparativos 
necessrios para a ao proposta. Quando saio para um passeio levando uma carta a ser despachada, no preciso, como indivduo normal e livre de neuroses, carreg-la 
na mo por todo o caminho e ficar  cata de uma caixa de correio onde possa jog-la; pelo contrrio, costumo coloc-la no bolso, seguir meu caminho deixando os pensamentos 
vagarem livremente, e confiar em que uma das primeiras caixas do correio h de chamar minha ateno e fazer com que eu ponha a mo no bolso e retire a carta. A conduta 
normal frente a uma inteno concebida coincide por completo com o comportamento experimentalmente produzido das pessoas a quem se deu, em hipnose, uma "sugesto 
ps-hipntica a longo prazo", como se costuma cham-la. Esse fenmeno  usualmente descrito da seguinte maneira: a inteno sugerida dormita na pessoa em questo 
at se aproximar o momento de efetiv-la.  a que desperta e impele a pessoa para a ao.
         Em duas situaes na vida, at o leigo se apercebe de que o esquecimento no tocante s intenes no pode ter a pretenso de ser considerado um fenmeno 
elementar irredutvel, mas autoriza a concluso de que existem motivos inconfessados. Refiro-me s relaes amorosas e  disciplina militar. Um amante que falta 
a um encontro sabe que  intil desculpar-se dizendo a sua dama que, infelizmente, esqueceu-o por completo. Ela no deixar de responder: "H um ano voc no teria 
esquecido.  que j no se importa comigo." Mesmo que ele se agarrasse  explicao psicolgica mencionada acima [em [1]] e quisesse desculpar seu esquecimento alegando 
um acmulo de trabalho, s conseguiria fazer com que a dama - j agora to perspicaz quanto o mdico na psicanlise - lhe respondesse: "Curioso, essas perturbaes 
do trabalho nunca apareceram antes!"  claro que a dama no pretende negar a possibilidade do esquecimento; ela apenas acredita, e no sem justificativa, que se 
pode tirar praticamente a mesma concluso - a existncia de uma certa relutncia - do esquecimento involuntrio e do pretexto consciente.
         Similarmente, na situao do servio militar, despreza-se, por uma questo de princpio e com pleno direito, a diferena entre o descumprimento de ordens 
por esquecimento e aquele que  deliberado. Um soldado no deve esquecer aquilo que lhe ordena o servio militar. Quando de fato esquece, apesar de conhecer a ordem, 
 porque outros motivos, contrrios aos que o levam a cumprir a ordem militar, opem-se a estes. Um voluntrio por um ano que, diante de uma inspeo, tente dar 
a desculpa de que esqueceu de polir seus botes, com certeza ser punido. Mas essa punio  insignificante em comparao quela a que ele se exporia se admitisse 
para si mesmo e para seus superiores o motivo de sua omisso: "Estou enojado desse trabalho deplorvel de limpeza." Para se poupar esse castigo - por questes de 
economia, por assim dizer - ele se serve do esquecimento como desculpa, ou este se produz como um compromisso.
         
         Os prstimos  mulher e o servio militar exigem que tudo o que se relaciona com eles seja imune ao esquecimento. Assim, sugerem a noo de que, embora 
o esquecimento seja admissvel nos assuntos sem importncia, nos importantes ele  um sinal de que se quer trat-los como aos assuntos sem importncia, isto , negar-lhes 
a importncia. De fato, no se pode rejeitar aqui o ponto de vista que leva em conta o valor psquico. Ningum se esquece de executar as aes que lhe parecem importantes 
sem se expor  suspeita de estar mentalmente perturbado. Nossa investigao, portanto, s pode estender-se ao esquecimento das intenes mais ou menos insignificantes; 
nenhuma inteno pode ser considerada completamente indiferente, pois, nesse caso, nunca se teria formado.
         Como nas perturbaes funcionais descritas nas pginas anteriores, compilei os casos de omisses por esquecimento que observei em mim mesmo e me empenhei 
em esclarec-los, descobrindo invariavelmente que se podia atribuir sua origem  interferncia de motivos inconfessados e desconhecidos - ou, como se poderia dizer, 
a uma contravontade. Numa srie desses casos eu me encontrava numa situao semelhante  do servio, sob uma presso  qual no tinha desistido inteiramente de me 
opor, de modo que me manifestava contra ela atravs do esquecimento. A isso se deve o fato de eu me esquecer com particular facilidade de enviar congratulaes em 
ocasies como aniversrios, festas comemorativas, casamentos e promoes. Estou sempre a tomar novas decises a esse respeito e cada vez me conveno mais de que 
no vou conseguir. Agora, estou a ponto de desistir e ceder conscientemente aos motivos que se opem a isso. Enquanto me achava numa fase de transio, um amigo 
pediu-me para enviar em certa data um telegrama de congratulaes em nome dele, juntamente com o meu, mas preveni-o de que esqueceria ambos; e no foi surpresa que 
minha profecia se realizasse. Prende-se a experincias dolorosas no decorrer de minha vida o fato de eu ser incapaz de manifestar simpatia nas ocasies em que tal 
manifestao necessariamente exagerada, pois no seria admissvel uma expresso correspondente  escassa monta de minha emoo. Desde que compreendi com que freqncia 
tomei como genuna a pretensa simpatia de outras pessoas, tenho-me rebelado contra essas expresses convencionais de simpatia, embora, por outro lado, reconhea 
sua utilidade social. As condolncias nos casos de falecimento constituem uma exceo a esse tratamento dividido: quando me decido a envi-las, no deixo de faz-lo. 
Quando minha participao nos sentimentos j no tem nada a ver com uma obrigao social, sua expresso nunca  inibida pelo esquecimento.
         Escrevendo de um campo de prisioneiros de guerra, o tenente T. relata um desses exemplos de esquecimento, no qual uma inteno inicialmente suprimida irrompeu 
sob a forma de uma "contravontade" e acarretou uma situao desagradvel:
         "O oficial mais graduado de um campo de oficiais prisioneiros de guerra foi insultado por um de seus companheiros. Para evitar complicaes, quis usar o 
nico recurso de autoridade a seu dispor, fazendo com que o oficial fosse afastado e transferido para outro campo. Somente a conselho de vrios amigos foi que decidiu, 
contrariando seu desejo secreto, abandonar seu plano e procurar imediatamente reparar sua honra, embora isso estivesse fadado a trazer mltiplas conseqncias desagradveis. 
Na mesma manh, esse comandante tinha de fazer a chamada dos oficiais sob controle do rgo de vigilncia. Fazia muito tempo que ele conhecia seus companheiros de 
farda e nunca lhe acontecera cometer erros nisso. Dessa vez, deixou de ler o nome de seu agressor, de modo que este, depois de dispensados todos os seus companheiros, 
teve que permanecer no campo at que o erro fosse esclarecido. O nome saltado aparecia com perfeita clareza no meio de uma folha. O incidente foi encarado por uma 
das partes como um insulto deliberado e, pela outra, como um acaso lamentvel e sujeito a ser mal interpretado. Mais tarde, porm, depois de tomar conhecimento da 
Psicopatologia de Freud, o autor do lapso pde formar um juzo correto sobre o que havia ocorrido."
         Da mesma forma, o conflito entre um dever convencional e a opinio interna e inconfessada que se tem dele explica os casos em que esquecemos de fazer um 
favor prometido a algum. Aqui, o habitual  apenas o obsequiador acreditar que o esquecimento serve de desculpa, enquanto o solicitante d a si mesmo, sem nenhuma 
dvida, a resposta correta: "Ele no est interessado no assunto, caso contrrio no teria esquecido." H pessoas que todos sabem ser geralmente esquecidas e que 
por isso so desculpadas, tal como acontece com o mope que no nos cumprimenta na rua. Essas pessoas esquecem todas as suas pequenas promessas e no executam nenhuma 
das incumbncias recebidas. Assim, mostram-se indignas de confiana nas pequenas coisas e exigem que no levemos a mal essas falhas insignificantes - ou seja, que 
no as expliquemos por seu carter, mas que as atribuamos a alguma particularidade orgnica. Eu mesmo no sou uma dessas pessoas, e no tive oportunidade de analisar 
as aes de uma delas, de tal modo que, examinando a escolha dos esquecimentos, pudesse descobrir sua motivao. Entretanto, no posso deixar de presumir, por analogia, 
que o motivo aqui  um grau incomumente grande de menosprezo inconfessado pelas outras pessoas, que explora o fator constitucional para seus prprios fins.
         Em outros casos  menos fcil descobrir os motivos do esquecimento, que, quando encontrados, despertam maior surpresa. Foi assim que notei, anos atrs, 
que dentre um grande nmero de visitas a enfermos, eu s me esquecia das que devia fazer a pacientes gratuitos ou a algum colega. Envergonhado diante disso, adotei 
o hbito de anotar, j de manh, as visitas que pretendia fazer durante o dia. No sei se outros mdicos chegaram  mesma prtica pelo mesmo caminho. Mas assim podemos 
ter uma idia doque leva o chamado paciente neurastnico a anotar, em seus famigerados "papeizinhos", as vrias comunicaes que quer fazer ao mdico. A razo aparente 
 que ele no confia na capacidade reprodutora de sua memria. Isso  certo, sem dvida, mas a cena geralmente se desenrola assim: o paciente formula suas diversas 
queixas e indagaes de maneira extremamente detalhista. Ao terminar, faz uma pequena pausa, depois saca o papelzinho e diz em tom de desculpa: "Fiz algumas anotaes, 
porque no consigo me lembrar de nada." Em geral, no encontra nada de novo no papelzinho. Repete cada ponto e responde ele mesmo: "Sim, j perguntei sobre isso." 
 provvel que, com o papelzinho, ele esteja apenas demonstrando um de seus sintomas: a freqncia com que suas intenes so perturbadas pela interferncia de motivos 
obscuros.
         Estarei tocando num dos males que afligem a maior parte de meus conhecidos sadios aos confessar que, sobretudo no passado, eu esquecia com muita facilidade 
e por longos perodos de devolver livros emprestados, ou que, com facilidade ainda maior, adiava o pagamento de contas atravs do esquecimento. Uma manh, pouco 
tempo atrs, sa sem pagar da tabacaria onde fizera minha compra diria de charutos. Foi uma omisso das mais inofensivas, pois sou conhecido ali e, portanto, podia 
esperar que no dia seguinte me lembrassem a dvida. Mas esse pequeno descuido, essa tentativa de contrair uma dvida, por certo no deixava de se relacionar com 
as ponderaes oramentrias que me haviam ocupado na vspera. Mesmo entre a maioria das chamadas pessoas "decentes"  fcil observar sinais de um comportamento 
dividido no que concerne ao dinheiro e  propriedade. Talvez seja universal que a avidez primitiva do lactente, que quer apossar-se de todos os objetos (para lev-los 
 boca), s tenha sido superada de maneira incompleta pela cultura e pela educao.
         
         Temo que todos os exemplos que apresentei at aqui paream simplesmente banais. Mas, afinal, s pode convir a meu objetivo esbarrar em coisas familiares 
a todos e por todos entendidas de igual maneira, j que s me proponho compilar material do cotidiano e aproveit-lo cientificamente. No vejo por que a sabedoria, 
que  o precipitado das experincias comuns da vida, deva ser excluda das aquisies da cincia. O carter essencial do trabalho cientfico no decorre da natureza 
especial de seus objetos de estudo, mas de seu mtodo mais rigoroso de verificao e de sua busca de correlaes extensas.
         No que concerne s intenes de certa importncia, descobrimos, em geral, que elas so esquecidas quando contra elas se erguem motivos obscuros. No caso 
das das que tm importncia bem menor, podemos reconhecer um segundo mecanismo do esquecimento: uma contravontade se transfere de algum outro ponto para a inteno, 
depois de formada uma associao externa entre esse outro ponto e o contedo da inteno. Aqui est um exemplo: valorizo o papel mata-borro ["Lschpapier"] de boa 
qualidade, e um dia resolvi comprar um novo suprimento em minha passagem vespertina pelo centro da cidade. mas esqueci de faz-lo por quatro dias seguidos, at que 
me perguntei pelo motivo dessa omisso. Ele foi fcil de descobrir quando me lembrei de que, embora costume escrever "Lschpapier", geralmente digo "Fliesspapier" 
[outra palavra para designar "mata-borro"]. "Fliess"  o nome de um amigo de Berlim que, nesses dias, dera-me motivo para um pensamento aflitivo e inquietante. 
No pude livrar-me desse pensamento, mas a tendncia defensiva (ver em [1]) se manifestoutransferindo-se, atravs da similaridade verbal, para a inteno indiferente 
e, por isso mesmo, pouco resistente.
         Uma contravontade direta e uma motivao mais distante conjugam-se no seguinte exemplo de adiamento. Eu havia escrito um breve ensaio Sobre os Sonhos (1901a), 
resumindo o contedo de A Interpretao dos Sonhos [1900a], para a coleo Grenzfragen des Nerven- und Seelenlebens [Problemas Fronteirios da Vida Nervosa e Anmica]. 
Bergmann, [o editor] de Wiesbaden, enviara-me as provas com o pedido de que eu as devolvesse pela volta do correio, j que o livro deveria ser lanado antes do Natal. 
Corrigi as provas na mesma noite e coloquei-as na escrivaninha para lev-las comigo na manh seguinte. Nessa manh, esqueci de faz-lo, e s me lembrei  tarde, 
ao ver o pacote na escrivaninha. Da mesma forma, esqueci as provas naquela tarde,  noite e na manh seguinte, at que me recompus e levei-as para uma caixa de correio 
na tarde do segundo dia, imaginando qual seria a razo desse adiamento. Era bvio que eu no queria envi-las, mas no conseguia descobrir por qu. Entretanto, nessa 
mesma caminhada, fiz uma visita a meu editor em Viena, que publicara A Interpretao dos Sonhos, fiz-lhe uma encomenda e depois, como que impelido por um pensamento 
repentino, disse-lhe: "Sabe que escrevi o livro sobre o sonho pela segunda vez?" - "Ah! no me diga uma coisa dessas!", retrucou ele. "Acalme-se", disse eu, " s 
um breve ensaio para a coleo de Lwenfeld Kurella." Mas ele no ficou satisfeito; preocupava-se com a idia de que o ensaio prejudicasse as vendas do livro. Discordei 
dele e por fim perguntei: "Se eu tivesse vindo ao senhor primeiro, o senhor me teria proibido a publicao?" - "No, de maneira alguma." Penso comigo mesmo que agi 
com pleno direito e nada fiz que contrariasse a prtica usual; ainda assim, parece certo que um receio semelhante ao que foi expresso pelo editor constituiu o motivo 
de minha demora em devolver as provas. Esse receio remonta a uma ocasio anterior, em que outro editor criou dificuldades quando me pareceu inevitvel transcrever, 
inalteradas, algumas pginas de um texto anterior meu sobre a paralisia cerebral infantil, publicado por outra editora em minha reviso desse mesmo tema para o Handbuch 
de Nothnagel. Mas tambm nesse caso a censura no se justificava; tambm naquela ocasio eu comunicara lealmente minha inteno a meu primeiro editor (o mesmo que 
publicou A Interpretao dos Sonhos). Entretanto retrocedendo ainda mais nessa srie de lembranas, ela me desloca para uma ocasio ainda mais remota, a uma traduo 
do francs em que realmente infringi os direitos de propriedade que regem as publicaes. Acrescentei notas ao texto traduzido sem pedir a permisso do autor, e 
anos depois tive razes para supor que o autor ficara insatisfeito com essa minha arbitrariedade.
         Existe um provrbio que revela o conhecimento popular de que o esquecimento das intenes no  casual: "Quando se esquece de fazer uma coisa uma vez, ainda 
se h de esquec-la muitas mais."
         De fato, [1] s vezes no podemos furtar-nos  impresso de que tudo o que se pode dizer sobre o esquecimento e os atos falhos j  conhecido de todos como 
algo evidente.  mesmo de admirar que, ainda assim, seja necessrio apresentar a sua conscincia coisas to conhecidas. Quantas vezes ouvi dizerem: "No me pea 
para fazer isto, tenho certeza de que vou esquecer!" A realizao dessa profecia, portanto, decerto nada tem de mstico: quem assim fala sente em si a inteno de 
no executar o pedido e apenas se recusa a confess-lo a si mesmo.
         Alm disso, o esquecimento das intenes  muito bem ilustrado pelo que se pode chamar de "formao de falsas intenes". Certa vez prometi a um jovem autor 
que escreveria uma resenha sobre sua pequena obra; entretanto, por causa de resistncias internas que no me eram desconhecidas, fui adiando isso, at que um dia 
cedi  insistncia dele e prometi faz-lo naquela mesma noite. Eu tinha realmente a firme inteno de faz-lo, mas esqueci que tinha reservado a noite para preparar 
um parecer inadivel. Depois de haver assim percebido que minha inteno era falsa, desisti da luta contra minhas resistncias e recusei o pedido do autor.
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       CAPTULO VIII - EQUVOCOS NA AO
         
         
         Da obra citada de Meringer e Mayer (1895, 98) retiro o seguinte trecho [em [1]]:
         "Os equvocos da fala no deixam de ter paralelos. Correspondem s falhas que freqentemente ocorrem em outras atividades humanas e so conhecidas pela 
denominao bastante tola de 'descuidos'."
         Portanto, no sou de modo algum o primeiro a supor um sentido e um propsito por trs das pequenas perturbaes funcionais da vida cotidiana das pessoas 
sadias.
         Se os lapsos na fala - que  claramente sua funo motora - podem ser entendidos dessa maneira, basta um pequeno passo para estender essa mesma expectativa 
aos erros em nossas outras atividades motoras. Formei aqui dois grupos de casos. Uso o termo "equvocos na ao" ["Vergreifen"] para descrever todos os casos em 
que o efeito falho - ou seja, um desvio do que fora intencionado - parece ser o elemento essencial; aos outros, em que  antes a ao inteira que parece inoportuna, 
chamo-os de "atos sintomticos e acidentais" ["Symptom- und Zufallshandlungen"]. Mas no se pode traar uma demarcao ntida entre eles e, na verdade, somos forados 
a concluir que todas as divises feitas neste estudo tm apenas uma importncia descritiva e contradizem a unidade interna desse campo de fenmenos.
          claro que a compreenso psicolgica dos "equvocos na ao" no ser particularmente promovida se os classificarmos sob o ttulo de "ataxia" ou, em especial, 
de "ataxia cortical". Tentemos, antes, reconduzir cada exemplo a seus respectivos determinantes. Para isso, tornarei a valer-me de algumas auto-observaes, ainda 
que, em meu caso, as oportunidades para faz-las no sejam particularmente freqentes.
         (a)Em anos anteriores, quando eu visitava os paciente a domiclio com maior freqncia do que hoje, ocorria-me muitas vezes, ante a porta em que eu deveria 
bater ou tocar a campainha, tirar do bolso as chaves de minha prpria casa e, logo em seguida, tornar a guard-las, quase envergonhado.Quando considero os pacientes 
em cujas casas isso acontecia, sou forado a supor que esse ato falho - apanhar minha chave em vez de tocar a campainha - tinha o sentido de uma homenagem  casa 
onde eu cometia esse erro. Era equivalente ao pensamento: "Aqui me sinto em casa", pois s ocorria em lugares onde eu me havia afeioado ao doente. ( bvio que 
nunca toco a campainha de minha prpria casa.)
         Assim, o ato falho era a representao simblica de um pensamento que, na verdade, no se destinava a ser admitido de maneira sria e consciente, pois, 
de fato, um neurologista sabe muito bem que o doente s permanece apegado a ele enquanto espera ser beneficiado, e que, por sua vez, ele s se permite sentir um 
interesse excessivamente caloroso pelos pacientes com vistas a dar-lhes ajuda psquica.
         Numerosas auto-observaes feitas por outras pessoas [1] mostram que esse manejo das chaves, equivocado e pleno de sentido, certamente no  uma peculiaridade 
minha.
         Maeder (1906) descreve uma repetio quase idntica de minhas experincias: "II est arriv  chacun de sortir son trousseau, en arrivant  la porte d'un 
ami particulirement cher, de se surprendre, pour ainsi dire, en train d'ouvrir avec sa cl comme chez soi. C'est un retard, puisqu'il faut sonner malgr tout, mais 
c'est une preuve qu'on se sent - ou qu'on voudrait se sentir - comme chez soi, auprs de cet ami."
         Jones (1911b, 509): "O uso das chaves  uma fonte frtil desse tipo de ocorrncias, das quais  possvel fornecer dois exemplos. Quando em meio a algum 
trabalho absorvente em casa, sou perturbado por ter de ir ao hospital para executar alguma tarefa de rotina,  muito provvel que me descubra tentando abrir a porta 
de meu laboratrio no hospital com a chave da escrivaninha de casa, embora as duas chaves sejam bem diferentes uma da outra. Esse erro demonstra, inconscientemente, 
onde eu preferiria estar naquele momento.
         "H alguns anos, eu trabalhava num cargo subalterno em certa instituio cuja porta principal se mantinha trancada, de modo que era necessrio tocar a campainha 
para entrar. Em vrias ocasies, vi-me fazendo sriastentativas de abrir essa porta com a chave de minha casa. A cada membro do pessoal mdico permanente, do qual 
eu aspirava a fazer parte, fornecia-se uma chave, para evitar-lhe o incmodo de esperar  porta. Meus erros, portanto, expressavam meu desejo de estar em p de igualdade 
com eles e de me sentir inteiramente 'em casa' ali."
         O Dr. Hanns Sachs relata uma experincia semelhante: "Sempre carrego comigo duas chaves, uma da porta de meu escritrio e outra de minha residncia. No 
 nada fcil confundi-las, visto que a chave do escritrio  pelo menos trs vezes maior do que a de casa. Alm disso, carrego a primeira no bolso da cala e, a 
segunda, no bolso do colete. No obstante, ocorreu-me muitas vezes notar, diante da porta, que havia apanhado a chave errada na escadaria. Resolvi fazer uma experincia 
estatstica; j que me postava cotidianamente diante de ambas as portas mais ou menos no mesmo estado de nimo, a troca das chaves tambm deveria exibir uma tendncia 
regular, se  que de fato possua algum determinante psquico. Minha observao dos casos posteriores mostrou ento que eu tirava regularmente a chave de casa diante 
da porta do escritrio, ao passo que o inverso aconteceu apenas uma vez, quando cheguei em casa cansado, sabendo que um convidado estaria  minha espera. Ao chegar 
 porta, fiz uma tentativa de abri-la com a chave do escritrio, que, naturalmente, era grande demais."
         (b)Em determinada casa, faz seis anos que, duas vezes por dia, em horrios fixos, costumo esperar para entrar diante de uma porta no segundo piso. Durante 
esse longo perodo, aconteceu-me em duas ocasies (com um curto intervalo entre elas) subir um andar a mais, ou seja, "exceder-me". Na primeira ocasio, estava entregue 
a um ambicioso devaneio em que "subia cada vez mais alto". Nessa ocasio, deixei at de ouvir que a porta em questo se abrira quando coloquei o p no primeiro degrau 
do terceiro lance da escada. na outra ocasio, tornei a subir demais, "imerso em pensamentos"; quando dei por isso, fiz meia-volta e tentei apreender a fantasia 
em que estivera absorto, descobrindo que estivera irritado com uma crtica (fantasiada) a meus textos, na qual eu era censurado por ir sempre "longe demais", e na 
qual havia substitudo isso pela expresso no muito respeitosa de "extravagante" [versteigen].
         
         (c)Sobre minha escrivaninha esto colocados, h muitos anos, um martelo para testar reflexos e um diapaso. Um dia, sa s pressas ao terminar meu horrio 
de consultas, pois queria tomar determinado trem urbano, e em plena luz do dia coloquei no bolso do casaco o diapaso, em vez do martelo. O peso do objeto, puxando 
meu bolso para baixo, atraiu-me a ateno para meu erro. Quem no estiver acostumado a atentar para ocorrncias to insignificantes sem dvida explicar e justificar 
esse engano pela pressa do momento. Apesar disso, preferi perguntar-me por que, na verdade, eu pegara o diapaso em vez do martelo. Minha pressa tambm poderia muito 
bem ter sido um motivo para pegar o objeto certo, e assim no ter que perder tempo em retificar o erro.
         "Quem foi a ltima pessoa a pegar o diapaso?", foi a pergunta que se imps a mim nesse momento. Fora um menino idiota cuja ateno s impresses sensoriais 
eu testara alguns dias antes, e que ficara to fascinado com o diapaso que a muito custo consegui tir-lo dele. Significaria isso, ento, que eu era um idiota? 
Decerto parece que sim, pois minha primeira associao a "martelo" ("Hammer") foi "Chamer" ("burro", em hebraico).
         Mas por que esses insultos? Aqui,  preciso interrogar a situao. Eu estava saindo s pressas para atender a uma consulta num lugar situado na linha ferroviria 
oeste, para ver um doente que, segundo a anamnese que eu recebera pelo correio, havia cado de uma sacada alguns meses antes e desde ento ficara impossibilitado 
de andar. O mdico que me solicitou a consulta escreveu que, apesar disso, no sabia se se tratava de uma leso na medula ou de uma neurose traumtica - histeria. 
Isso era o que me cabia decidir. Era aconselhvel, portanto, que eu fosse particularmente cauteloso na delicada tarefa de fazer o diagnstico diferencial. Ocorre 
que meus colegas acham que com demasiada facilidade se fazem diagnsticos de histeria quanto h coisas mais graves em jogo. Mas isso ainda no justificava os insultos. 
Mas,  claro! Ocorreu-me ento que a pequena estao ferroviria ficava no mesmo lugar em que, anos antes, eu examinara um jovem que, desde certo abalo emocional, 
no conseguia andar devidamente. Na poca, fiz um diagnstico de histeria e em seguida aceitei o paciente em tratamento psquico, com o que se constatou que meu 
diagnstico no fora incorreto, sem dvida, mas tambm no fora correto. Um grande nmero de sintomas do paciente eram histricos e logo desapareceram no decorrer 
do tratamento. Mas ocorre que, por trs deles, tornou-se ento visvel um resduo inacessvel  minha terapia, e que s poderia ser explicado pela esclerose mltipla. 
Para os que examinaram o doente depois de mim, foi fcil reconhecer a afeco orgnica; quanto a mim, dificilmente poderia ter procedido de outra maneiraou formado 
um juzo diferente, mas a impresso que ficou foi a de um grave erro; naturalmente, a promessa de cura que eu lhe fizera no pde ser mantida. O erro de pegar o 
diapaso em vez do martelo poderia ter traduzido nas seguintes palavras: "Seu idiota, burro! Dessa vez, trate de no tornar a diagnosticar histeria quando estiver 
diante de uma doena incurvel, como fez h anos com aquele pobre homem, nesse mesmo lugar!" E, felizmente para essa pequena anlise, embora infelizmente para meu 
estado de esprito, esse mesmo homem sofrendo de uma grave paralisia espasmdica, estivera em meu consultrio poucos dias antes, e um dia depois do menino idiota.
         Observa-se que, dessa vez, foi a voz da autocrtica que se fez ouvir no equvoco na ao. Para esse emprego como autocensura, os equvocos na ao mostram-se 
particularmente apropriados: o desacerto de agora busca representar o engano cometido em outra ocasio.
         (d)Evidentemente, os equvocos na ao tambm podem servir a toda uma srie de outros propsitos obscuros. Eis um primeiro exemplo.  muito raro eu quebrar 
alguma coisa. No sou particularmente habilidoso, mas um resultado da integridade anatmica de meu aparelho neuromuscular  que no h em mim nenhuma razo para 
fazer esses movimentos desajeitados, com suas conseqncias indesejadas. Por isso, no me lembro de nenhum objeto em minha casa que tenha sido quebrado por mim. 
A falta de espao em meu gabinete obriga-me freqentemente a manusear uma srie de antigidades de argila e pedra, da quais tenho uma pequena coleo, nas mais incmodas 
posies, tanto que as pessoas presentes exprimiram o temor de que eu derrubasse alguma coisa e viesse a quebr-la. Mas isso nunca aconteceu. Por que, ento, um 
dia derrubei no cho a tampa de mrmore de meu modesto tinteiro, de tal modo que se quebrou?
         Meu tinteiro consiste numa base de mrmore de Untersberg, escavada para conter o vidro de tinta, e este tem uma tampa com um casto dessa mesma pedra. Por 
trs desse tinteiro h um crculo de estatuetas de bronze e figurinhas de terracota. Sentei-me  escrivaninha para escrever e, com a mo que segurava a caneta, fiz 
um movimento singularmente desajeitado para a frente, jogando no cho a tampa do tinteiro que estava sobre a escrivaninha.
         A explicao no foi difcil de encontrar. Horas antes, minha irm estivera no aposento para examinar algumas novas aquisies. Achou-as muito bonitas e 
depois comentou: "Agora sua escrivaninha est realmente linda, s o tinteiro  que no combina. Voc precisa ter um mais bonito". Sacom minha irm e s voltei algumas 
horas depois. E ento, ao que parece, consumei a execuo do tinteiro condenado. Teria eu deduzido do comentrio de minha irm que ela pretendia presentear-me com 
um tinteiro mais bonito na prxima ocasio festiva, e teria eu quebrado o que era velho e feio para assim for-la a realizar a inteno insinuada? Se era assim, 
meu movimento de arremesso fora apenas aparentemente desajeitado; na realidade, fora extremamente hbil e conseqente, tendo sabido poupar todos os objetos mais 
valiosos que estavam ao redor.
         Creio realmente que devemos aceitar esse juzo para toda uma srie de movimentos desajeitados aparentemente acidentais.  certo que eles exibem algo de 
violento e impetuoso, como os movimentos espstico-atxicos, mas mostram-se regidos por uma inteno e alcanam seu objetivo com uma segurana de que em geral no 
podem vangloriar-se nossos movimentos voluntrios conscientes. Alm disso, partilham essas duas caractersticas - a violncia e a infalibilidade - com as manifestaes 
motoras da neurose histrica e, em parte, tambm com as realizaes motoras do sonambulismo, o que aponta, num e noutro casos, para uma mesma modificao desconhecida 
do processo de inervao.
         Outra auto-observao, [1] relatada pela Sra. Lou Andreas-Salom, pode dar uma demonstrao convincente de como a persistncia obstinada num ato de "inabilidade" 
serve a propsitos inconfessados, e de modo muito hbil.
         "Exatamente na poca em que o leite se tornara uma mercadoria escassa e custosa, constatei, para meu constante horror e aborrecimento, que o deixava entornar 
todas a vezes que o fervia. Em vo me empenhei em dominar isso, embora de modo algum possa dizer que, em outras ocasies, eu me mostre distrada ou desatenta. Bons 
motivos para me comportar assim eu teria tido depois da morte de meu querido terrier branco (que merecia tanto seu nome de 'Druzhok' ['Amigo', em russo] quanto qualquer 
ser humano chegou a merecer). Mas - veja s! - desde sua morte, nunca mais se derramou uma s gotinha do leite fervido! Meu primeiro pensamento a esse respeito foi: 
'Que sorte, porque agora o leite derramado na chapa do fogo ou no cho no serviria mesmo para nada!' E no mesmo instante visualizei meu 'Amigo', sentado diante 
de mim, observando atentamente o processo da fervura, com a cabea um pouco inclinada para um lado, o rabo abanando,esperanoso, aguardando com plena confiana o 
esplndido infortnio que estava para acontecer. E ento tudo se esclareceu para mim, inclusive isto: que eu gostava dele ainda mais do que eu mesma sabia."
         Nos ltimos anos, [1] desde que venho colecionando essas observaes, tive mais algumas experincias de despedaar ou quebrar objetos de algum valor, mas 
a investigao desses casos me convenceu de que eles nunca foram fruto do acaso ou de uma desproposital inabilidade minha. Uma manh, por exemplo, quando ia passando 
por um quarto de roupo e chinelos de palha, cedi a um impulso repentino e, com o p, atirei um dos chinelos na parede, derrubando uma linda pequena Vnus de mrmore 
de seu suporte. Enquanto ela se fazia em pedaos, citei, inteiramente impassvel, estes versos de Busch:
         "Ach! di Venus ist perd -Klickeradoms! - von Medici!"
         Essa conduta absurda e minha tranqilidade ante o dano podem ser explicadas pela situao da poca. Tnhamos na minha famlia uma doente grave, de cujo 
restabelecimento eu j perdera secretamente as esperanas. Naquela manh eu me inteirara de que tinha havido uma grande melhora, e sei que disse a mim mesmo: "Quer 
dizer, ento, que ela vai viver!" Meu acesso de fria destrutiva serviu, portanto, para expressar um sentimento de gratido ao destino, e me permitiu realizar um 
"ato sacrifical", como se tivesse feito uma promessa de sacrificar isto ou aquilo como uma oferenda, caso ela recuperasse a sade! A escolha da Vnus de Medici para 
esse sacrifcio foi,  claro, apenas uma galante homenagem  convalescente; mas ainda hoje me  incompreensvel como foi que me decidi to depressa, mirei com tanta 
destreza e consegui no atingir nenhum outro dos objetos que estavam to prximos.
         Outra quebra para a qual tornei a me valer de uma caneta que escapou de minha mo teve, igualmente, o sentido de um sacrifcio, s que, dessa vez, um sacrifcio 
propiciatrio para afastar um mal. Certa vez, achei de repreender um amigo leal e digno, baseando-me apenas na interpretao que dei a alguns sinais vindos de seu 
inconsciente. Ele se ofendeu e me escreveu uma carta pedindo que eu no tratasse meus amigos psicanaliticamente. Tive quedar-lhe razo e lhe respondi procurando 
apazigu-lo. Enquanto escrevia essa carta, eu tinha diante de mim minha ltima aquisio, uma figurinha egpcia magnificamente vitrificada. Quebrei-a da maneira 
descrita e, logo em seguida, entendi que havia causado essa calamidade para impedir outra maior. Por sorte, ambas as coisas - a amizade e a figura - puderam ser 
cimentadas de modo a no se notar a rachadura.
         Uma terceira quebra relacionou-se com questes menos graves; foi apenas uma "execuo" disfarada, para usar a expresso de Vischer (em Auch Einer), de 
um objeto que j no gozava de minha estima. Durante algum tempo eu havia usado uma bengala com cabo de prata; numa ocasio em que, sem culpa minha, a fina chapa 
de prata foi danificada, o conserto foi malfeito. Pouco depois de receber a bengala de volta, usei o cabo, por travessura, para puxar um de meus filhos pela perna. 
Naturalmente, o cabo se partiu e assim me vi livre dele.
         A impassividade com que aceitamos o dano produzido em todos esses casos pode, sem dvida, ser tomada como prova de que existe um propsito inconsciente 
por trs da realizao desses atos.
         Por vezes, quando se investigam as razes da ocorrncia de um desses atos falhos to nfimos, como  a quebra de um objeto, [1] depara-se com relaes que, 
alm de se vincularem  situao atual da pessoa, penetram profundamente em sua pr-histria. A seguinte anlise de Jekels (1913) pode servir de exemplo: 
         "Um mdico estava de posse de uma floreira de barro que, apesar de no ser valiosa, era de grande beleza. Fora-lhe presenteada h algum tempo, juntamente 
com vrios outros objetos, alguns inclusive de valor, por uma paciente (casada). Quando nela se manifestou uma psicose, ele devolveu todos os presentes aos familiares 
da paciente - exceto esse vaso muito menos valioso, do qual no conseguiu separar-se, supostamente por sua beleza. Mas esse desfalque custou certa luta interna a 
esse homem habitualmente muito escrupuloso, que, tendo plena cincia da impropriedade de sua ao, s conseguiu superar seu remorso dizendo a si mesmo que, na verdade, 
o vaso no tinha nenhum valor material, era muito difcil de embalar etc. Passados alguns meses, quando ele estava prestes a contratar um advogado para reclamar 
o pagamento do resto dos honorrios devidos pelo tratamento dessa mesma paciente, que estavam sendo contestados, as auto-recriminaes voltaram a surgir; por um 
breve intervalo, ele sofreu a angstia de que os parentes descobrissem seu suposto desfalque e o levantassem contra ele no processo judicial. Particularmente, porm, 
por algum tempo o primeiro fator (suas auto-recriminaes) foi to intenso que ele pensou em renunciar a sua exigncia de uma soma de valor talvez cem vezes maior 
que o do vaso - como que numa indenizao pelo objeto do qual se havia apropriado. Contudo, logo superou esses pensamentos e os afastou como absurdos.
         "Enquanto ainda estava nesse estado de esprito, sucedeu-lhe renovar a gua da floreira e, apesar da extraordinria infreqncia com que quebrava alguma 
coisa e do domnio que tinha sobre seu aparelho muscular, ele fez um movimento estranhamente 'desajeitado', que no tinha a menor relao orgnica com a ao executada, 
e derrubou o vaso da mesa, quebrando-o em cinco ou seis pedaos grandes. E isso depois de ter decidido, na noite anterior, no sem grandes hesitaes, colocar justamente 
esse vaso, cheio de flores, na mesa de jantar diante de seus convidados. Lembrara-se do vaso pouco antes de quebr-lo, tendo notado com angstia que ele no estava 
na sala de visitas e tendo-o trazido pessoalmente do outro aposento! Depois dos primeiros momentos de consternao, catou os pedaos e, juntando-os, acabara de constatar 
que ainda seria possvel fazer um conserto quase completo, quando os dois ou trs fragmentos maiores escaparam-lhe da mo e se quebraram em milhares de estilhaos, 
eliminando com isso qualquer esperana relacionada ao vaso.
         "No h dvida de que esse ato falho respondeu  tendncia atual de facilitar ao mdico o prosseguimento de seu processo legal, livrando-o de algo que ele 
retivera e que, em certa medida, impedia-o de exigir o que haviam retido dele.
         "Mas, alm desse determinante direto, qualquer psicanalista ver nesse ato falho um outro muito mais profundo e importante, um determinante simblico, pois 
o vaso  um smbolo indubitvel da mulher.
         "O heri dessa pequena histria perdera de maneira trgica sua esposa jovem, linda e ardentemente amada; caiu vtima de uma neurose cuja nota fundamental 
dizia que ele era o culpado dessa desgraa ('ele havia quebrado um belo vaso'). Alm disso, j no tinha nenhuma relao com as mulheres e tomou averso ao casamento 
e s relaes amorosas duradouras, que inconscientemente encarava como uma infidelidade  sua esposa morta, mas que, na conscincia, racionalizava na idia de que 
trazia a desgraa smulheres infelizes, de que uma mulher poderia matar-se por sua causa etc. (Da sua natural relutncia em conservar o vaso permanentemente!)
         "Tendo em vista a fora de sua libido, no surpreende que lhe parecessem mais adequadas as relaes - passageiras por natureza - com mulheres casadas (donde 
ele reter o vaso de outro).
         "Uma bela confirmao desse simbolismo encontra-se nos dois fatores seguintes. Em conseqncia da neurose ele entrou em tratamento psicanaltico. Durante 
a sesso em que descreveu a quebra do vaso 'de barro' ['irdenen' Vase], ocorreu-lhe, bem mais tarde, voltar a falar sobre suas relaes com as mulheres, e disse 
ento considerar-se absurdamente exigente - por exemplo, exigia que as mulheres tivessem uma 'beleza extraterrena' ['unirdische Schonheit']. Isso acentua com muita 
clareza que ele ainda era dependente de sua mulher (falecida, i.e., no-terrena) e nada queria saber da 'beleza terrena'; da a quebra do vaso 'de barro' ('terreno').
         "E exatamente na poca em que, na transferncia, ele criou a fantasia de se casar com a filha de seu mdico, presenteou-o com um vaso, como que para dar 
um indcio do tipo de presente que desejaria receber em troca.
         " previsvel que o sentido simblico do ato falho admita ainda mltiplas variaes - por exemplo, ele no querer encher o vaso etc. Mais interessante, 
porm, parece-me a considerao de que a presena de vrios motivos (pelo menos dois), provavelmente agindo em separado desde o pr-consciente e o inconsciente, 
reflete-se na duplicao do ato falho - derrubar o vaso e depois deix-lo escapar das mos."
         (e) Deixar cair, derrubar e quebrar objetos so atos que parecem ser usados com muita freqncia para expressar cadeias inconscientes de pensamentos, como 
a anlise s vezes pode comprovar; mais amide, porm, pode-se adivinh-lo pelas interpretaes supersticiosas ou brincalhonas feitas pela voz do povo. So conhecidas 
as interpretaes dadas quando se derrama sal, derruba-se um copo de vinho, quando uma faca cada se crava no cho etc. S mais adiante [em [1]] examinarei a questo 
do direito que tm essas interpretaes supersticiosas a serem levadas a srio; aqui, cabe apenas observar que, isoladamente, os atos desajeitados de modo algum 
tm um sentido constante, mas servem como meio de representar esta ou aquela inteno, conforme as circunstncias.
         
         Recentemente, houve em minha casa um perodo durante o qual se quebrou uma quantidade incomumente grande de cristais e porcelanas; eu mesmo contribu para 
o estrago de vrias peas. Mas a pequena epidemia psquica pde ser explicada facilmente; estvamos s vsperas do casamento de minha filha mais velha. Nessas cerimnias, 
alis, era costume quebrar-se algum utenslio deliberadamente e, ao mesmo tempo, pronunciar uma palavra para trazer boa sorte. Esse costume talvez tenha o significado 
de um sacrifcio e tambm pode ter outro sentido simblico.
         Quando os empregados destroem objetos frgeis, deixando-os cair, no nos ocorre pensar primeiro numa explicao psicolgica, mas tambm aqui no  improvvel 
que motivos obscuros contribuam para isso. Nada est mais distante das pessoas incultas do que a apreciao da arte e das obras de arte. Nossos criados so dominados 
por uma hostilidade surda contra as produes artsticas, especialmente quando os objetos (cujo valor eles no entendem) tornam-se para eles uma fonte de trabalho. 
Por outro lado, pessoas da mesma origem e grau de cultura freqentemente mostram grande destreza e fidedignidade no manejo de objetos frgeis em instituies cientficas, 
to logo comeam a se identificar com o chefe e a considerar-se parte essencial da equipe.
         Aqui insiro [1] uma comunicao de um jovem tcnico, que nos confere certo entendimento do mecanismo de um caso de dano material:
         "H algum tempo eu tralhava com diversos colegas, no laboratrio da escola tcnica, numa srie de experincias complexas sobre a elasticidade, trabalho 
esse que tnhamos empreendido voluntariamente, mas que comeava a exigir mais tempo de que havamos esperado. Um dia, ao voltar ao laboratrio com meu amigo F., 
ele comentou quo desagradvel lhe era perder tanto tempo justamente naquele dia, quando tinha tantas outras coisas a fazer em casa. No pude deixar de concordar 
com ele, e ainda acrescentei, em tom meio brincalho, referindo-me a um incidente da semana anterior: 'Esperemos que a mquina torne a dar defeito, pois assim poderemos 
suspender o trabalho e ir para casa cedo.' Ocorre que, na diviso do trabalho, coube a F. a regulagem da vlvula da prensa, isto , ele foi incumbido de abrir cautelosamente 
a vlvula para deixar o fluido sob presso sair pouco a pouco do acumulador pra o cilindro da prensa hidralica. O condutor da experincia ficou junto ao manmetro 
e, quando se atingiu a presso correta, gritou bemalto: 'Pare!'  palavra de comando, F. segurou a vlvula e girou-a com toda a fora ... para a esquerda! (Todas 
as vlvulas, sem exceo, fecham-se sendo giradas para a direita.) Isso fez com que toda a presso do acumulador passasse subitamente para a prensa, esforo este 
para o qual os tubos de ligao no esto preparados, de modo que um deles explodiu imediatamente - um defeito totalmente inofensivo para a mquina, mas que nos 
forou a suspender o trabalho por esse dia e ir para casa. Alis,  caracterstico que, passado algum tempo, quando discutamos esse acontecimento, meu amigo F. 
no tivesse a mnima lembrana de meu comentrio, que eu recordava com toda a certeza."
         De maneira semelhante, [1] cair, dar um passo em falso e escorregar nem sempre precisam ser interpretados como falhas puramente acidentais das aes motoras. 
O duplo sentido que a linguagem confere a essas expresses  suficiente para indicar o tipo de fantasias guardadas que se podem representar atravs desses abandonos 
do equilbrio corporal. Lembro-me de certo nmero de doenas nervosas leves em mulheres e moas que sobrevieram depois de uma queda sem leses e foram tomadas por 
histerias traumticas decorrentes do susto da queda. J naquela poca eu tinha a impresso de que essas coisas poderiam estar relacionadas de outra maneira, como 
se a queda j fosse um produto da neurose e expressasse as mesmas fantasias inconscientes, de contedo sexual, que so as foras motoras por trs dos sintomas, como 
se pode presumir. No seria tambm isso o que pretende dizer o provrbio "Donzela, quando cai, cai de costas"?
         Tambm podemos tomar [1] como equvocos na ao os casos em que se d a um mendigo uma moeda de ouro em vez de uma moedinha de cobre ou de prata. A explicao 
desses enganos  fcil; so atos sacrificais destinados a aplacar o destino, afastar a desgraa, e assim por diante. Quando se ouve uma me, ou tia afeioada, pouco 
antes de sair para um passeio em que exibiu a contragosto tal generosidade, expressar preocupao com a sade de uma criana, j no se pode ter nenhuma dvida quanto 
ao sentido desse acidente supostamente desagradvel. Dessa maneira, nossos atos falhos nos permitem praticar todos aqueles costumes piedosos e supersticiosos que 
so obrigados a evitar a luz da conscincia devido  resistncia de nossa razo, agora incrdula.
         
         (f)Em nenhum outro campo [1] a concepo de que na realidade os atos acidentais so deliberados h de encontrara maior crena do que na esfera da atividade 
sexual, onde a demarcao entre as duas possibilidades parece realmente vaga. Um bom exemplo de minha prpria experincia de alguns anos atrs mostra como um movimento 
aparentemente desajeitado pode ser usado de maneira altamente requintada para fins sexuais. Na casa de alguns amigos, encontrei uma jovem ali hospedada e que despertou 
em mim um sentimento de prazer que eu julgara extinto h muito tempo. Em conseqncia disso, fiquei com um nimo alegre, falastro e solcito. Na ocasio, esforcei-me 
tambm por descobrir como isso se dera; um ano antes, essa mesma jovem me deixara indiferente. Quando o tio dela, um senhor muito idoso, entrou na sala, eu a ela 
nos erguemos de um salto para levar-lhe uma cadeira que estava num canto. Ela foi mais gil do que eu e estava, creio, mais prxima do objeto; por isso, apoderou-se 
primeiro da cadeira e ps-se a carreg-la, apoiando seu espaldar na frente do corpo e segurando com ambas as mos aos lados do assento. Como cheguei depois, mas 
ainda aferrado a minha inteno de carregar a cadeira, vi-me de repente postado bem atrs da jovem, enlaando-a por trs com os dois braos, e minhas mos se tocaram 
por um momento em seu regao. Naturalmente, desfiz a situao com a mesma rapidez com que ela fora criada. Ningum pareceu reparar na habilidade com que me aproveitei 
desse movimento desajeitado.
         Ocasionalmente, tambm tive de dizer a mim mesmo que o processo irritante e desajeitado de desviar de algum na rua, no qual, por alguns segundos, d-se 
primeiro um passo para um lado e, depois, para o outro, mas sempre para o mesmo lado que outra pessoa, at que se acaba ficando frente a frente com ela (ou com ele), 
que esse "barrar o caminho", eu dizia,  tambm a repetio de um comportamento travesso e provocador de anos anteriores e, sob a mscara da inabilidade, persegue 
objetivos sexuais. Por minhas psicanlises de neurticos, sei que a chamada ingenuidade dos jovens e crianas muitas vezes  apenas uma mscara desse tipo, usada 
para que possam dizer ou fazer algo indecoroso sem se sentirem embaraados.
         Wilhelm Stekel relatou auto-observaes muito semelhantes. Entrei numa casa e estendi a sua dona minha mo direita. Ao faz-lo, achei um modo estranhssimo 
de desatar o lao que prendia seu roupo largo. Eu no estava consciente de nenhuma inteno desonrosa, mas executei esse movimento desajeitado com a destreza de 
um escamoteador."
         J pude [1] fornecer provas reiteradas [ver em [1] e [2]] de que os escritores pensam nos atos falhos como tendo um sentido e um motivo, tal como venho 
argumentando aqui. Por isso, no nos surpreenderemos ao verificar, num novo exemplo, como um escritor dota de sentido um movimento desajeitado e tambm o faz prenunciar 
eventos posteriores.
         Eis um trecho do romance L'Adultera [A Adltera, 1882], de Theodor Fontane: '... Melanie ergueu-se de um salto e atirou para o marido uma das bolas grandes, 
como que num cumprimento. Mas no mirou bem, a bola voou para um lado e Rubehn a agarrou." Ao voltarem da excurso que levou a esse pequeno episdio, ocorre entre 
Melanie e Rubehn uma conversa que revela os primeiros indcios de uma afeio nascente. Essa afeio cresce e se transforma em paixo, de modo que Melanie termina 
por abandonar o marido para se entregar inteiramente ao homem amado. (Comunicado por H. Sachs.)
         (g) Os efeitos produzidos pelos atos falhos das pessoas normais so, em geral, dos mais inofensivos. Precisamente por isso, h um interesse especial em 
saber se os erros de importncia considervel, que podem ser acompanhados de conseqncias desagradveis - por exemplo, os erros dos mdicos ou farmacuticos -, 
enquadram-se de algum modo em nossos pontos de vista. (Cf. tambm em [1]-[2]).
         Como  muito raro eu praticar intervenes mdicas, s tenho para comunicar, de minha experincia pessoal, um exemplo de equvoco na ao mdica. Com uma 
senhora muito idosa a que tenho visitado duas vezes por dia h alguns anos, meus servios mdicos se limitam, na visita matinal, a duas aes; coloco-lhe algumas 
gotas de colrio no olho e lhe aplico uma injeo de morfina. Em geral, j h dois frasquinhos preparados: um azul com o colrio e um branco com a soluo de morfina. 
Durante as duas operaes, meus pensamentos, na maioria das vezes, voltam-se para alguma outra coisa;  que j as repeti tantas vezes que minha ateno se libera. 
Uma manh, notei que o autmato havia errado no trabalho: mergulhara o conta-gotas no frascobranco, e no no azul, e pingara morfina no olho em vez de colrio. Fiquei 
muito assustado, mas logo me tranqilizei, refletindo que algumas gotas de uma soluo de morfina a dois por cento no poderiam causar nenhum dano nem mesmo no saco 
conjuntival. A sensao de susto obviamente derivava de outra fonte.
         Ao tentar analisar esse pequeno erro, ocorreu-me inicialmente a frase "sich an der Alten vergreifen", que forneceu o caminho mais curto para a soluo. 
Eu estava sob a influncia de um sonho que me fora contado por um jovem na noite anterior e cujo contedo no admita outra interpretao que no fosse a de relaes 
sexuais com sua prpria me. O estranho fato de a lenda [de dipo] no fazer nenhuma objeo  idade da rainha Jocasta pareceu-me adequar-se bem  concluso de que, 
no enamoramento pela prpria me, nunca se trata da pessoa atual dela, mas de sua imagem mnmica juvenil, formada nos anos da infncia. Tais incongruncias aparecem 
sempre que uma fantasia que oscila entre dois perodos se torna consciente e, com isso, liga-se em definitivo a determinada poca. Absorto em tais pensamentos, fui 
ver minha paciente, que tem mais de noventa anos, e devo ter estado a caminho de apreender a aplicao humana universal do mito de dipo como um correlato do destino 
que se revela nos orculos, pois ento "atentei contra a velha" ou "cometi um erro em relao  velha" ["vergreifen sich bei der Alten"]. Tambm esse equvoco na 
ao foi inofensivo; dos dois erros possveis, aplicar a soluo de morfina no olho ou injetar o colrio, escolhi o que era bem mais inofensivo. Resta ainda a questo 
de saber se, nos erros capazes de provocar danos graves,  lcito admitirmos a possibilidade de uma inteno inconsciente, tal como fizemos nos casos j discutidos.
         Nesse ponto, como seria de se esperar, meu material me deixa desamparado, e fico reduzido a depender de conjeturas e inferncias. Sabe-se que, nos casos 
mais graves de psiconeuroses, os ferimentos auto-infligidos ocasionalmente aparecem como sintomas patolgicos e que, nesses casos, nunca se pode excluir o suicdio 
como um possvel desfecho do conflito psquico. Sei agora, e posso provar com exemplos convincentes, que muitos ferimentos aparentemente acidentais sofridos por 
esses doentes so, na realidade, leses auto-infligidas. Acontece que uma tendncia  autopunio, que est constantemente  espreita e comumente se expressa na 
autocensura ou contribui para a formao do sintoma, tira hbil partido de uma situao externa oferecida pelo acaso, ou contribui para sua criao at que se d 
o efeito lesivo desejado. Tais ocorrncias de modo algum so raras, inclusive nos casos de gravidade moderada, e denunciam o papel desempenhado pela inteno inconsciente 
atravs de uma srie de traos particulares - por exemplo, a notvel serenidade com que os pacientes encaram o suposto acidente.
         Quero descrever detalhadamente, [1] dentre muitos, um nico exemplo de minha experincia mdica: uma jovem senhora quebrou os ossos de uma perna num acidente 
de carruagem, o que a fez ficar acamada por semanas; o notvel foi a ausncia de quaisquer expresses de dor e a tranqilidade com que ela suportou seu infortnio. 
Esse acidente deu incio a uma doena neurtica prolongada e grave, da qual ela foi finalmente curada pela psicanlise. Ao trat-la, inteirei-me das circunstncias 
que cercaram o acidente e de certos acontecimentos que o precederam. Essa jovem senhora estava hospedada com o marido, homem muito ciumento, na fazendo de uma irm 
casada, em companhia de suas muitas outras irms e irmos com os respectivos maridos e mulheres. Certa noite, ela exibiu nesse crculo ntimo um de seus talentos: 
danou o canc com perfeio, sob os aplausos calorosos dos parentes, mas com pouqussima satisfao do marido, que depois lhe sussurrou: "Voc tornou a se portar 
como uma meretriz!" O comentrio calou fundo - deixemos em suspenso se foi s por causa da exibio de dana. Ela passou uma noite inquieta; na manh seguinte, sentiu 
vontade de dar um passeio de carruagem. Mas escolheu os cavalos pessoalmente, recusando uma parelha e pedindo outra. A irm mais moa queria que seu beb e a ama 
fossem com ela na carruagem; ela se ops a isso vigorosamente. Durante o trajeto, deu mostras de nervosismo; preveniu o cocheiro de que os cavalos estavam espantadios 
e, quando os animais irrequietos realmente criaram uma dificuldade momentnea, ela saltou do veculo, assustada, e quebrou a perna, os outros que permaneceram na 
carruagem saram ilesos. Embora, depois de descobrir esses detalhes, j no possamos duvidar de que o acidente, naverdade, foi arranjado, no podemos deixar de admirar 
a habilidade com que o acaso foi forado a impor um castigo to adequado ao crime: por muito tempo ela ficou impossibilitada de danar o canc.
         Quanto a leses que eu tenha infligido a mim mesmo em pocas tranqilas, pouco tenho a relatar, mas percebo que no sou incapaz dessas coisas em circunstncias 
extraordinrias. Quando um membro de minha famlia se queixa de ter mordido a lngua, imprensado um dedo etc., no recebe de mim a compaixo esperada, mas sim a 
pergunta: "Por que voc fez isso?" Mas eu mesmo dei certa vez um belisco extremamente doloroso em meu polegar, depois que um jovem paciente me falou, durante a 
sesso, de seu propsito (no para ser levado a srio,  claro) de se casar com minha filha mais velha, enquanto eu sabia que, justamente nessa poca, estava no 
sanatrio, correndo o mais extremo risco de vida.
         Um de meus meninos, cujo temperamento animado costumava criar dificuldades para se cuidar dele quando ficava doente, um dia teve um acesso de raiva porque 
o mandamos passar a manh de cama e ameaou matar-se, possibilidade esta com que se familiarizara atravs dos jornais.  noite, mostrou-me um machucado que fizera 
num dos lados do peito ao dar um esbarro na maaneta da porta. Diante de minha pergunta irnica sobre por que fizera isso e o que havia pretendido, o menino de 
onze anos respondeu, como que subitamente inspirado: "Isso foi minha tentativa de suicdio, que ameacei cometer hoje cedo." A propsito, no creio que nessa poca 
meus filhos tivessem acesso a minhas concepes sobre os ferimentos auto-infligidos.
         Quem acreditar [1] na ocorrncia de ferimentos semi-intencionais auto-infligidos - se me for permitido usar essa expresso desajeitada - tambm estar disposto 
a supor que, alm do suicdio intencional consciente, existe uma autodestruio semi-intencional (com uma inteno inconsciente), capaz de explorar habilmente uma 
ameaa  vida e mascar-la como um acidente casual. No h por que supor que essa autodestruio seja rara.  que a tendncia  autodestruio est presente em certa 
medida num nmero muito maior de pessoas do que aquelas em que chega a ser posta em prtica; os ferimentos auto-infligidos so, em geral, um compromisso entre essa 
pulso e as foras que ainda se opem a ela. Mesmo nos casos em que realmente se consuma o suicdio, a propenso a ele ter estado presente desdelonga data, com 
menor intensidade ou sob a forma de uma tendncia inconsciente e suprimida.
         Mesmo a inteno consciente de cometer suicdio escolhe sua poca, seus meios e sua oportunidade; e  perfeitamente consonante com isso que a inteno inconsciente 
aguarde uma ocasio que possa tomar a seu encargo parte da causao e que, ao requisitar as foras defensivas do sujeito, liberte a inteno da presso destas. As 
consideraes que aqui proponho esto longe de ser fteis. J tive notcia de mais de um acidente aparentemente casual (andando a cavalo ou de carruagem) cujos detalhes 
justificam a suspeita de que o suicdio foi inconscientemente permitido. Por exemplo, durante uma prova hpica com outros companheiros, um oficial caiu do cavalo 
e feriu-se to gravemente que morreu alguns dias depois. Seu comportamento ao voltar a si teve alguns aspectos singulares, e sua conduta anterior fora ainda mais 
notvel. Ele ficara profundamente desgostoso com a morte de sua me amada, tivera crises de choro na presena de seus companheiros de farda e dissera a seus amigos 
ntimos que estava farto da vida; quis abandonar o servio para participar de uma guerra na frica que antes no o interessara; e tendo sido um cavaleiro esplndido, 
agora evitava montar sempre que possvel. Por fim, antes da corrida, da qual no pde esquivar-se, ele expressou um mau pressentimento; dada nossa viso nessas questes, 
no nos surpreende que esse pressentimento tenha-se revelado justificado. Ho de fazer-me a objeo de que  perfeitamente compreensvel que uma pessoa em tal depresso 
nervosa no consiga dominar um cavaloto bem quanto em dias normais. Concordo plenamente; s que eu buscaria o mecanismo da inibio motora produzida por esse estado 
de "nervosismo" na inteno de autodestruio aqui enfatizada.
         S. Ferenczi, de Budapeste, entregou-me para publicao a anlise de um ferimento aparentemente acidental com arma de fogo, que ele explica como uma tentativa 
inconsciente de suicdio. S posso declarar minha concordncia com a viso que ele tem do assunto.
         "J. Ad., um carpinteiro de vinte e dois anos, consultou-me em 18 de janeiro de 1908. Queria saber de mim se a bala que penetrara em sua tmpora esquerda 
em 20 de maro de 1907 podia ou devia ser removida por uma operao. Salvo por dores de cabea ocasionais e no muito fortes, ele se sentia perfeitamente bem, o 
exame objetivo nada revelou alm da cicatriz caracterstica, enegrecida pela plvora, na tmpora esquerda, de modo que desaconselhei a operao. Indagado sobre as 
circunstncias do caso, ele explicou que se ferira acidentalmente. Estava brincando com o revlver do irmo, achou que no estava carregado, pressionou-o com a mo 
esquerda contra a tmpora esquerda (no  canhoto), ps o dedo no gatilho e um tiro foi disparado. Havia trs balas na arma de seis tiros. Perguntei como lhe ocorrera 
a idia de pegar o revlver. Respondeu que tinha sido na poca de seu exame mdico para o servio militar; na noite anterior, levara a arma com ele para a hospedaria, 
pois tinha medo de brigas. No exame mdico, foi declarado inepto por causa de suas varizes, o que o fez sentir-se muito envergonhado. Voltou para casa e ps-se a 
brincar com o revlver, mas no tinha nenhuma inteno de se ferir - e ento ocorreu o acidente. Indagado ainda se, no mais, estava satisfeito com pura sorte, respondeu 
com um suspiro e contou a histria de seu amor por uma jovem que tambm o amava, mas que mesmo assim o havia abandonado; por pura cobia ela emigrara para a Amrica. 
Ele quis segui-la, mas seus pais o impediram. Sua amada partira em 20 de janeiro de 1907, ou seja, dois meses antes do acidente. Apesar de todos esses fatores suspeitos, 
o paciente continuou insistindo em que o disparo fora um 'acidente'. Entretanto, estou firmemente convencido de que sua negligncia em certificar-se de que a arma 
estava descarregada antes de brincar com ela, bem como seu ferimento anto-infligido, foram psiquicamente determinados. Ele ainda estava sob os efeitos deprimentes 
de seu desafortunado caso de amor e obviamente queria 'esquecer tudo' no exrcito. Quando lhe tiraram tambm essa esperana, ps-se a brincar com o revlver, ou 
seja, entregou-se a uma tentativa inconsciente de suicdio. O fato de segurar o revlver na mo esquerda, e no nadireita,  uma prova decisiva de que realmente 
s estava 'brincando' - isto , no queria conscientemente cometer suicdio."
         Outra anlise de um ferimento auto-infligido aparentemente acidental, transmitida a mim por seu observador (Van Emden, 1912), faz lembrar o provrbio: "Quem 
abre uma cova para os outros acaba caindo nela."
         "A Sra. X., que vem de um meio burgus,  casada e tem trs filhos. Sem dvida  nervosa, mas nunca precisou de um tratamento enrgico, pois tem capacidade 
suficiente para enfrentar a vida. Certo dia, acarretou para si mesma uma desfigurao facial bem impressionante na poca, embora passageira. Ia ela por uma rua que 
estava em conserto quando tropeou num monte de pedras e bateu com o rosto no muro de uma casa. O rosto ficou todo arranhado; as plpebras ficaram azuis e inchadas 
e, temendo que algo pudesse acontecer com seus olhos, ela mandou chamar o mdico. Depois de tranqiliz-la a esse respeito, perguntei: 'Mas por que foi mesmo que 
a senhora caiu assim?' Ela respondeu que, pouco antes, havia prevenido o marido - que j sofria h alguns meses de uma afeco articular e por isso andava com dificuldade 
- para que tomasse muito cuidado naquela rua; e ela j tivera muitas vezes a experincia, em casos como esse, de acontecer-lhe, de maneira muito estranha, justamente 
aquilo de que ela prevenira alguma outra pessoa.
         "No fiquei satisfeito com essa determinao do acidente e lhe perguntei se acaso no teria algo mais a me contar. Sim, bem antes do acidente ela vira um 
bonito quadro numa loja do outro lado da rua; de repente, desejara t-lo como adorno para o quarto das crianas, e por isso quis compr-lo imediatamente: partiu 
em linha reta em direo  loja, sem olhar para o cho, tropeou no monte de pedras e, ao cair, bateu com o rosto no muro da casa, sem esboar a menor tentativa 
de se proteger com as mos. Esqueceu de imediato a inteno de comprar o quadro e voltou para casa o mais depressa possvel. - 'Mas por que a senhora no prestou 
mais ateno?' perguntei. - 'Bem', respondeu ela, 'talvez tenha sido um castigo... por causa daquela histria que lhe contei em confiana.' - 'Com que ento essa 
histria tem continuado a afligi-la tanto assim?' - 'Sim, depois em arrependi muito; achei que fui m, criminosa e imoral, mas naquela poca eu estava quase louca 
com meu nervosismo.'
         "Tratava-se de um aborto que ela fizera com o consentimento do marido, j que, dada a sua situao financeira, o casal no queria ter mais filhos. Oaborto 
fora iniciado por uma curandeira e tivera de ser concludo por um mdico especialista.
         "'Muitas vezes me repreendo pensando "mas voc mandou matar seu filho!", e me angustiava pensar que uma coisa assim no podia ficar sem castigo. Agora que 
o senhor me garantiu que no h nada de mal com meus olhos, fico muito descansada: de qualquer modo, j fui suficientemente punida.'
         "Esse acidente, portanto, foi uma autopunio, de um lado para expiar o crime dela, mas de outro tambm para escapar a um castigo desconhecido, talvez muito 
maior, ante o qual ela se angustiara continuamente por meses a fio. No momento em que se atirou em direo  loja para comprar o quadro, ela foi dominada pela lembrana 
dessa histria inteira, com todos os seus temores - histria que j se fizera sentir com bastante fora em seu inconsciente quando da advertncia ao marido - e  
possvel que isso se tenha expressado em palavras como: 'Mas para que voc precisa de um enfeite para o quarto das crianas, voc que mandou matar seu filho? Voc 
 uma assassina! O grande castigo com certeza chegar!'
         "Esse pensamento no se tornou consciente, mas em contrapartida ela usou a situao, nesse momento que eu chamaria de psicolgico, para se castigar discretamente, 
com o auxlio do monte de pedras que parecia adequado para tal fim; foi por isso que nem sequer estendeu as mos ao cair e tambm no levou um susto violento. O 
segundo determinante do acidente, provavelmente menos importante, foi sem dvida a autopunio por seu desejo inconsciente de se livrar do marido, que alis fora 
cmplice no crime. Esse desejo traiu-se na advertncia inteiramente suprflua que ela fez ao marido, para que ficasse atento ao monte de pedras na rua, j que ele 
andava com muito cuidado justamente por no ir bem das pernas."
         Quando se consideram as circunstncias do seguinte caso de autoferimento aparentemente acidental por queimadura, tende-se a achar que J. Strcke (1916) 
est certo em encar-lo como um "ato sacrifical":
         "Uma senhora cujo genro tinha de partir para a Alemanha a fim de prestar servio militar escaldou o p nas seguintes circunstncias: sua filha esperava 
dar  luz em breve e, naturalmente, os pensamentos voltados para os perigos da guerra no deixavam a famlia muito bem-humorada. No dia anterior  partida, ela convidara 
o genro e a filha para jantarem. Ela mesma preparou a refeio na cozinha, no sem antes, estranhamente, trocar suas botas altas de amarrar, providas de palmilha 
corretiva, com as quais andava comodamente e que tambm costumava usar em casa, por um par de chinelos do marido, grandes demais e abertos em cima. Ao tirar do fogo 
uma panela grande de sopa fervendo, deixou-a cair e assim fez uma queimadura bastante sria num dos ps, sobretudo no peito do p, que no estava protegido pelo 
chinelo aberto. - Naturalmente, todos atriburam esse acidente a seu compreensvel 'nervosismo'. Nos primeiros dias depois desse holocausto, ela teve um cuidado 
especial ao manipular coisas quentes, mas isso no a impediu, alguns dias depois, de queimar o pulso com um caldo fervente".
         
         Se uma fria [1] contra a prpria integridade e a prpria vida pode assim esconder-se por trs de uma inabilidade aparentemente acidental e de uma insuficincia 
motora, no  preciso um grande passo para se transferir essa mesma concepo para os erros que colocam em srio perigo a vida e a sade de outras pessoas. As provas 
de que disponho para mostrar a validade desse ponto de vista so extradas de minha experincia com neurticos e, portanto, no atendem a todos os requisitos da 
situao. Relatarei um caso em que algo que no foi propriamente um erro, mas que merece o nome de ato sintomtico ou casual, forneceu-me a pista que depois possibilitou 
resolver o conflito do paciente. Aceitei certa vez o encargo de fazer algo pelo casamento de um homem muito inteligente cujas desavenas com sua jovem esposa, que 
o amava ternamente, sem dvida podiam reclamar para si alguns fundamentos reais, mas, como ele mesmo admitia, no eram assim inteiramente explicadas. Ele se ocupava 
incessantemente com a idia do divrcio, que ento voltara a descartar por amar muito ternamente seus dois filhos pequenos. Apesar disso, voltava constantemente 
a sua inteno e no buscava nenhum meio de fazer com que sua situao se tornasse suportvel. Tal incapacidade de prtermo a um conflito  vista por mim como prova 
de que motivos recalcados e inconscientes contriburam para fortalecer os motivos conscientes que lutam entre si, e em tais casos tomo a meu encargo dar fim ao conflito 
atravs da anlise psquica. Um dia, esse homem me narrou um pequeno incidente que o deixara extremamente assustado. Ele estava atiando ("hetzen") seu filho mais 
velho, claramente o predileto, brincando de jog-lo para cima e deix-lo cair, e em certo momento jogou-o to alto num determinado lugar, que a cabea do menino 
quase bateu no pesado lustre a gs ali pendurado. Quase, mas no de fato - ou talvez por um triz! O menino no sofreu nada, mas ficou tonto com o susto. O pai, horrorizado, 
ficou com o filho nos braos, e a me teve um ataque histrico. A destreza peculiar desse movimento imprudente e a violncia da reao dos pais fizeram-me procurar 
nesse acidente um ato sintomtico destinado a expressar uma inteno malvola dirigida contra o filho amado. Pude eliminar a contradio entre isso e a ternura atual 
do pai pelo filho, retrocedendo o impulso de feri-lo at a poca em que esse filho fora o nico e era to pequeno que o pai ainda no sentia por ele um interesse 
afetuoso. Foi-me ento fcil supor que esse homem, obtendo da mulher pouca satisfao, teria naquela poca formulado um pensamento ou tomado uma deciso assim: "Se 
essa criaturinha que nada significa para mim vier a morrer, ficarei livre e poderei divorciar-me de minha mulher." Portanto, o desejo da morte da criatura agora 
to amada por ele devia ter persistido inconscientemente. A partir da foi fcil descobrir o caminho da fixao inconsciente desse desejo. Um poderoso determinante 
proveio realmente da lembrana infantil do paciente sobre a morte de um irmozinho, cuja responsabilidade a me imputara  negligncia do pai e que havia conduzido 
a brigas violentas entre os pais e a ameaas de divrcio. O curso subseqente do casamento de meu paciente, bem como meu xito teraputico, confirmaram minha conjetura.
         Strcke (1916) deu um exemplo de como os escritores no hesitam em substituir uma ao intencional por um equvoco na ao e, desse modo, convert-lo em 
fonte das mais graves conseqncias:
         "Num dos esboos de Heijermans (1914) aparece um exemplo de equvoco na ao ou, mais exatamente, de um erro que o autor usa como motivo dramtico.
         "Trata-se do esboo chamado 'Tom e Teddie', onde um casal de mergulhadores, num teatro de variedades, apresenta-se num tanque de ferro comparedes de vidro, 
ali permanecendo por bastante tempo embaixo d'gua e fazendo vrias truques. A mulher iniciou h pouco tempo um caso com outro homem, um domador. O marido-mergulhador 
surpreende os dois juntos no camarim, pouco antes de comear o espetculo. Silncio mortal, olhares ameaadores, e o marido diz: 'Depois!' - Comea a representao. 
O mergulhador est para fazer seu truque mais difcil: permanecer 'dois minutos e meio embaixo d'gua, num ba hermeticamente fechado'. -  um truque que eles j 
fizeram muitas vezes: o ba era trancado e 'Teddie costumava mostrar a chave ao pblico, que controlava o tempo em seus relgios'. Ela tambm costumava jogar propositalmente 
a chave no tanque umas duas vezes, e depois mergulhar depressa atrs dela, para no se atrasar na hora em que o ba tinha que ser aberto.
         "'Nessa noite de 31 de janeiro, Tom foi trancafiado, como de costume, pelos dedinhos de sua mulher gil e animada. Sorriu-lhe pelo postigo - ela brincava 
com a chave e aguardava o sinal de advertncia do marido. Nos bastidores estava 'o outro', o domador com seu fraque impecvel, sua gravata branca e seu chicote. 
Para chamar a ateno dela, deu um assovio bem curto. Ela o olhou, riu e, com o gesto desajeitado de algum cuja ateno foi desviada, jogou a chave to impetuosamente 
para o alto que, exatamente em dois minutos e vinte segundos, contados com preciso, ela caiu ao lado do tanque, em meio s pregas do tecido que recobria o pedestal. 
Ningum a vira. Ningum poderia v-la. Vista da platia, a iluso de tica foi tal que todos viram a chave deslizar para dentro d'gua - e nenhum dos ajudantes do 
teatro reparou nela, pois o panejamento abafou o rudo.
         "'Rindo, sem nenhuma hesitao, Teddie trepou na borda do tanque. Rindo - ele agentava bem -, desceu a escada. Rindo, desapareceu sob o pedestal para procurar 
ali e, no encontrando a chave prontamente, inclinou-se para a parte frontal do panejamento com um gesto impagvel, tendo no rosto a expresso de quem dissesse. 
"Ora! mas que chateao!".
         "'Enquanto isso, Tom fazia sua caretas engraadas por trs do postigo, como se tambm ele fosse ficando inquieto. Via-se o branco de sua dentadura postia, 
a agitao dos lbios sob o bigode cor de trigo, as cmicas borbulhas que j se tinham visto antes, enquanto ele comia a ma. Viram-lhe os plidos ns dos dedos 
que se agitavam e arranhavam, e riram como tantas vezes tinham rido aquela noite.
         "'Dois minutos cinqenta e oito segundos...
         "'Trs minutos e sete segundos... doze segundos...
         "'Bravo! Bravo! Bravo!
         
         "'Houve ento um sobressalto na sala e um arrastar de ps, pois tambm os empregados e o domador comearam a procurar, e a cortina desceu antes que se levantasse 
a tampa.
         "'Seis danarinas inglesas entraram em cena... depois o homem dos pneis, os cachorros e os macacos. E assim por diante.
         "'S na manh seguinte o pblico ficou sabendo que houvera uma desgraa, que Teddie, viva, ficar s no mundo...'
         "Por essa citao se evidencia quo primorosamente esse artista devia compreender a essncia do ato sintomtico para nos mostrar com tanto acerto a causa 
mais profunda do desajeitamento fatal."
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       CAPTULO IX - ATOS CASUAIS E SINTOMTICOS
         
         
         Os atos descritos at aqui [Captulo VIII], nos quais reconhecemos a execuo de uma inteno inconsciente, apareciam sob a forma de perturbaes de outros 
atos tencionados e se ocultavam sob o pretexto da falta de habilidade. Os atos "casuais" a serem discutidos agora s diferem das aes "equivocadas" pelo fato de 
desprezarem o apoio da inteno consciente e, portanto, no terem necessidade de um pretexto. Aparecem por conta prpria e so permitidos por no se suspeitar de 
que haja neles algum objetivo ou inteno. So executados "sem que se pense que h alguma coisa neles", de maneira "puramente casual", "s para manter as mos ocupadas", 
e se espera que essas informaes ponham fim a qualquer indagao sobre o sentido do ato. Para poderem gozar dessa posio privilegiada, esses atos, que j no recorrem 
 desculpa da inabilidade, tm de preencher certas condies: tm que ser discretos e  preciso que seus feitos sejam insignificantes.
         Compilei um grande nmero desses atos casuais em mim mesmo e em outras pessoas e, depois de examinar de perto os diferentes exemplos, cheguei  concluso 
de que mais merecem o nome de atos sintomticos. Eles expressam algo de que o prprio agente no suspeita neles e que, em regra geral, no pretende comunicar, e 
sim guardar para si. Assim, exatamente como todos os outros fenmenos que consideramos at agora, desempenham o papel de sintomas.
         O estoque mais rico desses atos sintomticos ou casuais  obtido, na verdade, no tratamento psicanaltico do neurtico. No posso abster-me de citar dois 
exemplos dessa fonte, que mostram com que amplitude e sutileza esses acontecimentos insignificantes so determinados por pensamentos inconscientes. A fronteira entre 
os atos sintomticos e os equvocos na ao  to pouco ntida que eu bem poderia ter includo esses exemplos no captulo anterior.
         (1)Durante uma sesso, uma jovem casada mencionou em suas associaes ter cortado as unhas na vspera e "ter cortado a carne enquanto tentava retirar a 
fina cutcula da base da unha". Isso  to pouco interessanteque nos perguntamos, surpresos, porque teria sido lembrado e mencionado, e comeamos a suspeitar de 
que estamos lidando com um ato sintomtico. E de fato, o dedo vitimado por sua pequena inabilidade fora o dedo anular, aquele em se usa a aliana matrimonial. Alm 
disso, era seu aniversrio de casamento, o que empresta ao ferimento na fina cutcula um sentido muito definido, fcil de adivinhar. Ao mesmo tempo, ela contou um 
sonho que aludia  inabilidade do marido e a sua insensibilidade como esposa. Mas por que teria ela ferido o anular da mo esquerda, se a aliana  usada [em seu 
pas] na mo direita? O marido dela  advogado, "doutor em direito" ['Doktor der Rechte'], e quando mocinha, sua afeio secreta pertencera a um mdico (como se 
diz por brincadeira "Doktor der Linke" [literalmente, "doutor da esquerda"]). Um "casamento com a mo esquerda" tambm tem l seu sentido definido.
         (2)Disse-me uma jovem dama solteira: "Ontem, sem que tivesse nenhuma inteno disso, rasguei em dois pedaos uma nota de cem florins e dei metade a uma 
dama que me estava visitando. Ser isso tambm um ato sintomtico?" Uma investigao mais acurada revelou as seguintes particularidades. A nota de cem florins: - 
ela dedicava parte de seu tempo e de suas posses a obras de caridade. Junto com outra dama, estava cuidando da educao de um rfo. A nota de cem florins era a 
contribuio que lhe fora enviada por essa outra dama. Ela a pusera num envelope e o colocara provisoriamente sobre a escrivaninha.
         A visitante era uma dama ilustre a quem ela estava ajudando em outra obra beneficente. Essa dama queira anotar uma lista de nomes de pessoas a quem se pudesse 
solicitar apoio. Por faltar papel, minha paciente pegou o envelope em cima da escrivaninha e, sem pensar em seu contedo, rasgou-o em dois pedaos; conservou um 
deles para si, para ter uma cpia da relao de nomes, e entregou o outro  visitante. Note-se o carter inofensivo desse procedimento inoportuno. Uma nota de cem 
florins sabidamente no perde nada de seu valor ao ser rasgada, desde que se possa recomp-la por completo a partir dos fragmentos. A importncia dos nomes no pedao 
de papel era uma garantia de que a dama no o jogaria fora, e tampouco havia dvida de que ela restituiria seu valioso contedo assim que reparasse nele.
         Mas qual teria sido o pensamento inconsciente que esse ato casual, possibilitado pelo esquecimento, pretendeu expressar? A visitante tinha uma relao muito 
bem definida com o tratamento de minha paciente. Fora essa mesma dama que me recomendara como mdico  jovem doente e, se no me engano, minha paciente sentia-se 
em dvida com ela por esse conselho. Pretenderia a metade da nota de cem florins representar um pagamento por seus servios como intermediria? Isso ainda seria 
muito estranho.
         Mas a isso veio juntar-se outro material. Um dia antes, uma intermediria de natureza muito diferente indagara a um familiar da paciente se a graciosa senhorita 
gostaria de travar conhecimento com um certo cavalheiro; e nessa manh, algumas horas antes da visita da dama, chegara a carta com o pedido do pretendente, que dera 
margem a muitas risadas. Assim, quando a visitante iniciou a conversa perguntando pela sade de minha paciente, esta bem que pode ter pensado: " verdade que voc 
me recomendou o mdico certo, mas se pudesse ajudar-me a conseguir o marido certo" (e alm disso: "a ter um filho"), "eu lhe ficaria ainda mais agradecida." A partir 
desse pensamento, que permaneceu recalcado, as duas intermedirias fundiram-se numa s, e ela entregou  visitante o pagamento que sua fantasia se dispunha a entregar 
 outra. Essa soluo torna-se plenamente convincente quando acrescento que, justo na noite anterior, eu havia falado com a paciente sobre esses atos sintomticos 
ou casuais. Ela ento aproveitou a primeira oportunidade para produzir algo anlogo.
         Poder-se-ia proceder a um agrupamento desses atos sintomticos e casuais, de ocorrncia to freqente, conforme ocorram habitualmente, ou regularmente em 
certas circunstncias, ou ainda esporadicamente. Os atos do primeiro grupo (tais como brincar com a corrente do relgio, retorcer a barba etc.), que quase podem 
ser considerados caractersticos da pessoa em questo, aproximam-se dos mltiplos movimentos conhecidos como tiques e sem dvida merecem ser examinados em relao 
com eles. No segundo grupo incluo brincar com uma bengala ou rabiscar com um lpis que se tenha na mo, fazer tilintar as moedas no bolso, amassar miolo de po e 
outras substncias maleveis, manusear a prpria roupa de todas as maneiras etc. Durante o tratamento psquico, por trs dessas ocupaes com que se brinca escondem-se 
regularmente um sentido e significado aos quais se nega outra forma de expresso. Geralmente, a pessoa em questo no sabe que faz essas coisas, ou que introduziu 
modificaes em suas brincadeiras habituais, e nov nem ouve os efeitos dessas aes. Por exemplo, no ouve o barulho do tilintar das moedas e, quando sua ateno 
 chamada para isso, mostra-se atnita e incrdula. Tudo o que a pessoa faz com sua roupa, com freqncia sem se aperceber,  igualmente importante e merece a ateno 
do mdico. Cada alterao nos trajes habituais, cada pequeno sinal de desleixo - como um boto desabotoado -, cada indcio de desnudamento tem a inteno de expressar 
algo que o portador da roupa no quer dizer diretamente e do qual, na maioria da vezes, nem est ciente. As interpretaes desses pequenos atos casuais, bem como 
a comprovao delas, emergem a cada vez, com crescente certeza, das circunstncias concomitantes durante a sesso, do tema nela tratado e das associaes que ocorrem 
quando se chama a ateno para o ato aparentemente casual. Por isso deixo de corroborar minhas afirmaes mediante a comunicao de exemplos acompanhados de anlises; 
no entanto, menciono esses atos por acreditar que eles tenham, nas pessoas normais, o mesmo sentido que tm em meus pacientes.
         No posso deixar de mostrar, ao menos com um exemplo, como pode ser estreita a relao entre um ato simblico realizado pela fora do hbito e os aspectos 
mais ntimos e importantes da vida de uma pessoa sadia: [1]
         "Como nos ensinou o professor Freud, o simbolismo desempenha na vida infantil das pessoas normais um papel maior do que faziam prever as experincias psicanalticas 
anteriores; nesse sentido, a breve anlise que se segue talvez seja de algum interesse, especialmente por suas perspectivas mdicas.
         "Ao rearrumar sua moblia numa casa nova, um mdico deparou com um antigo estetoscpio "simples" de madeira. Depois de refletir por um instante sobre onde 
deveria coloc-lo, sentiu-se forado a p-lo num dos lados de sua escrivaninha, e em tal posio que ficou exatamente entre sua cadeira e a que era reservada aos 
pacientes. O ato em si foi um pouco estranho, por duas razes, Em primeiro lugar, ele no usava o estetoscpio com freqncia (de fato,  neurologista) e, quando 
havia necessidade, usava um modelo duplo, para ambos os ouvidos. Em segundo lugar, todos os seus aparelhos e instrumentos mdicos eram guardados em gavetas, com 
a nica exceo desse. Entretanto, ele no pensou mais no assunto, at que um diauma paciente, que nunca vira um estetoscpio simples, perguntou-lhe o que era aquilo. 
Recebida a resposta, ela perguntou porque ele o colocara justamente ali, ao que ele retrucou prontamente que aquele lugar era to bom quanto qualquer outro. Mas 
isso o intrigou, e ele comeou a se indagar se teria havido alguma motivao inconsciente em seu ato; familiarizado com o mtodo psicanaltico, resolveu investigar 
a questo.
         "Como primeira lembrana, ocorreu-lhe que, quando estudante de medicina, ele se impressionara com o hbito de um mdico residente, que sempre levava na 
mo um estetoscpio simples em suas visitas s enfermarias, embora nunca o usasse. Ele admirara muito esse mdico e lhe tinha excepcional afeio. Mais tarde, ao 
tornar-se residente ele prprio, adquiriu o mesmo hbito, e sentia-se muito pouco  vontade quando, por engano, saa do quarto sem balanar o instrumento na mo. 
A inutilidade desse hbito evidenciou-se, porm, no s pelo fato de o nico estetoscpio realmente usado por ele ser biauricular e ser levado em seu bolso, mas 
tambm por isso ter prosseguido quando ele j era residente do servio de cirurgia e nunca precisar de estetoscpio algum. A importncia dessas observaes logo 
se torna clara quando nos referimos  natureza flica desse ato simblico.
         "Em seguida, recordou o fato de que, quando menino, ficava impressionado com o hbito do mdico da famlia de carregar um estetoscpio simples dentro do 
chapu; ele achava interessante que o mdico sempre tivesse seu principal instrumento  mo ao visitar seus pacientes, e que s precisasse tirar o chapu (i.e., 
uma parte da roupa) e 'pux-lo para fora'. Quando menino, ele fora intensamente apegado a esse mdico; e uma breve auto-anlise permitiu-lhe descobrir que, na idade 
de trs anos e meio, ele tivera uma dupla fantasia a propsito do nascimento de uma irmzinha menor, a saber, que ela era filha, primeiro, dele e de sua me, e segundo, 
dele e do mdico. Nessa fantasia, portanto, ele desempenhava tanto o papel masculino quanto o feminino. Lembrou-se ainda de ter sido examinado por esse mesmo mdico 
quando tinha seis anos, e recordou nitidamente a sensao voluptuosa de ter a cabea do mdico perto dele, pressionando o estetoscpio em seu peito, bem como o movimento 
rtmico de sua respirao, indo e vindo. Aos trs anos de idade, ele tivera uma afeco crnica no peito, que exigira exames repetidos, embora ele realmente j no 
conseguisse lembrar desse fato em si.
         "Aos oito anos, ele se impressionou quando um menino mais velho lhe disse que era costume do mdico ir para a cama com suas pacientes. Decerto havia algum 
fundamento para esses boatos, e em todo caso, as mulheres da vizinhana, inclusive sua prpria me, eram muito afeioadas a esse mdicojovem e bonito. Ele prprio, 
em diversas ocasies, j experimentara tentaes sexuais em relaes a suas pacientes; apaixonara-se por duas delas e finalmente se casara com outra. Tampouco h 
alguma dvida de que sua identificao inconsciente com esse mdico foi a razo principal de ele optar pela profisso mdica. Outras anlises nos fazem supor que 
este , indubitavelmente, o motivo mais comum (embora seja difcil determinar sua freqncia). No presente caso houve uma determinao dupla: primeiro, pela superioridade, 
em vrias ocasies, do mdico sobre o pai, de quem o filho sentia muito cime, e segundo, pelo conhecimento que o mdico tinha de coisas proibidas e por suas oportunidades 
de satisfao sexual.
         "Veio ento um sonho que j publiquei em outro lugar (Jones 1910b); era de natureza nitidamente homossexual-masoquista. Nele, um homem que era uma figura 
substituta do mdico atacava-o com uma 'espada'. A espada recordou-lhe uma histria, na Vlsung Nibelungen- Saga, em que Sigurd coloca uma espada nua entre ele mesmo 
e Brnhilde adormecida. O mesmo episdio ocorre na lenda Arthur, que nosso homem tambm conhece bem.
         "Agora se torna claro o sentido do ato sintomtico. Nosso mdico colocou seu estetoscpio simples entre ele e suas pacientes tal como Sigurd colocou sua 
espada entre ele mesmo e a mulher em quem no devia tocar. O ato foi uma formao de compromisso; serviu a duas moes: ceder, na imaginao, ao desejo suprimido 
de manter relaes sexuais com alguma paciente atraente, mas, ao mesmo tempo, lembrar que esse desejo no podia ser realizado. Foi, por assim dizer, um encantamento 
contra a tentao.
         "Eu acrescentaria que o seguinte trecho do Richelieu, de Lord Lytton, causou grande impresso no menino:
         Sob o governo de homens de total grandeza
         A pena  mais poderosa do que a espada...
         e que ele se tornou um escritor fecundo que usa uma caneta excepcionalmente grande. Quando lhe perguntei porque precisava dela, deu a resposta caracterstica: 
'Porque tenho muito a expressar.'
         "Essa anlise volta a nos lembrar quo extenso  o conhecimento da vida anmica fornecido pelos atos 'inocentes' e 'sem sentido', e quo cedo se desenvolve 
na vida a tendncia  simbolizao."
         
         Posso ainda citar, de minha experincia psicoteraputica, um caso em que um testemunho eloqente foi fornecido por uma mo que brincava com um pedao de 
miolo de po. Meu paciente era um menino que ainda no completara treze anos, padecendo h quase dois anos de uma histeria grave, e a quem finalmente aceitei em 
tratamento psicanaltico, depois que uma longa estada numa instituio hidroptica mostrou-se infrutfera. Parti do pressuposto de que ele deveria ter tido experincias 
sexuais e estaria atormentado por questes sexuais, o que era bastante provvel em sua idade; abstive-me, porm, de correr em seu auxlio com esclarecimentos, pois 
queria submeter novamente  prova minhas premissas. Permiti-me, portanto, aguardar com curiosidade para ver de que modo se esboaria nele o que era buscado. Um dia, 
notei que ele rolava alguma coisa entre os dedos da mo direita; colocava-a no bolso, onde continuava brincando, tornava a retir-la etc. No lhe perguntei o que 
tinha na mo, mas, de repente, ele a abriu e me mostrou: era um pedao de miolo de po amassado. Na sesso seguinte, ele tornou a trazer um pedao semelhante e, 
dessa vez, enquanto conversvamos, ps-se a modelar, com incrvel rapidez e de olhos fechados, umas figuras que despertaram meu interesse. Eram sem dvida homenzinhos 
com cabea, dois braos e duas pernas, como os mais toscos dolos pr-histricos, e com um apndice entre as pernas que ele espichou numa ponta comprida. Mal terminou 
um desses homenzinhos, tornou a amass-lo; mais tarde, deixou-o ficar, mas puxou apndices semelhantes da superfcie das costas e de outras partes do corpo, para 
ocultar o sentido do primeiro. Quis mostrar-lhe que eu o havia entendido, mas, ao mesmo tempo, queria tirar-lhe o pretexto de que no teria havido nada de imaginrio 
nessa atividade de modelar seres humanos. Com esse objetivo, perguntei-lhe se ele se lembrava da histria do rei romano que fez uma pantomima no jardim para dar 
uma resposta a um mensageiro do filho. O menino no conseguiu lembrar-se, embora devesse t-la aprendido muito mais recentemente do que eu. Perguntou se era a histria 
do escravo e da resposta escrita em sua cabea raspada. No, retruquei, essa pertence  histria grega, e contei-lhe: O rei Tarqunio, o Soberbo, fizera seu filho 
Sexto entrar furtivamente numacidade latina inimiga. O filho, que entrementes reunira adeptos nessa cidade, enviou um mensageiro ao rei perguntando que medidas deveria 
tomar a seguir. O rei no respondeu, mas foi at o jardim, fez com que a pergunta lhe fosse repetida ali e ento, em silncio, cortou as copas das papoulas mais 
altas e mais belas. O mensageiro no teve outra alternativa seno relatar isso a Sexto, que entendeu o pai e providenciou para que os cidados mais ilustres da cidade 
fossem eliminados por assassinato.
         Enquanto eu falava, o menino parou de amassar e, quando passei a descrever o que o rei fez em seu jardim e cheguei s palavras "em silncio, cortou", ele 
fez um movimento rpido como um raio e arrancou a cabea de seu homenzinho. Tambm ele me entendera a notara ter sido entendido por mim. Pude ento fazer-lhe perguntas 
diretas, dei-lhe as informaes de que precisava, e em pouco tempo pusemos fim  neurose.
         Os atos sintomticos, [1] que podem ser observados em abundncia quase inesgotvel tanto nas pessoas saudveis quanto nas doentes, merecem nosso interesse 
por mais de um motivo. Para o mdico, servem freqentemente de indcios valiosos para se orientar em situaes novas ou pouco conhecidas; para o observador da natureza 
humana, freqentemente revelam tudo - e s vezes at mais do que ele desejaria saber. Quem est familiarizado com a valorizao deles pode s vezes sentir-se como 
o rei Salomo, que, segundo a lenda oriental, entendia a linguagem dos animais. Certo dia, eu tinha de examinar um rapaz, a quem no conhecia, na casa de sua me. 
Quando ele se encaminhou para mim, reparei numa mancha grande em sua cala - feita por clara de ovo, como pude reconhecer pela rigidez peculiar nas bordas. Depois 
de um embarao momentneo, o rapaz se desculpou e disse ter-se sentido rouco e, por isso, bebido um ovo cru; era provvel que um pouco da clara escorregadia tivesse 
pingado em sua roupa; para confirmar isso, apontou para a casca do ovo, ainda visvel no quarto sobre um pratinho. Assim se deu  mancha suspeita uma explicao 
inocente; quando sua me nos deixou a ss, porm, agradeci-lhe por ter-me facilitado tanto o diagnstico, e sem mais delongas tomei como base de nossa conversa sua 
confisso de que sofria de problemas provenientes da masturbao. Em outra ocasio, eu fazia uma visita a uma dama que era to rica quanto avarenta e tola, e que 
tinha o costume de dar ao mdico a tarefa de elaborar um batalho de queixas antes de chegar  causa simples de seu estado. Quando entrei, ela estava sentada frente 
a uma mesinha, ocupada em dispor florins de prata em pequenas pilhas.Ao se levantar, derrubou algumas moedas no cho. Ajudei-a a apanh-las e, pouco depois, interrompi-a 
na descrio de suas desgraas e perguntei: "Ento seu nobre genro tem-lhe custado tanto dinheiro assim?" Ela respondeu com uma negativa exasperada, mas pouco depois 
j me narrava a triste histria da aflio que lhe causava o esbanjamento de seu genro. Entretanto,  certo que nunca mais mandou me chamar. No posso afirmar que 
sempre se faam amigos entre aqueles a quem se informa o sentido de seus atos sintomticos.
         O Dr. J.E.G. van Emden (Haia) relata outro caso de "confisso por ato falho". "Ao apresentar-me a conta, o garom de um pequeno restaurante em Berlim declarou 
que, por causa da guerra, o preo de certo prato fora aumentado em dez centavos de marco. Quando lhe perguntei por que isso no constava no cardpio, ele retrucou 
que obviamente se tratava de um descuido, mas com certeza era como dizia! Ao embolsar o dinheiro, foi desajeitado e deixou cair na mesa uma moeda de dez centavos, 
bem na minha frente!
         "-Agora tenho certeza de que voc cobrou a mais. Quer que me informe na caixa?
         "-Desculpe... um momento, por favor - e l se foi ele.
         "-Evidentemente, permiti-lhe a retirada e, passados uns dois minutos, depois que ele se desculpou por ter inexplicavelmente confundido meu prato com outro, 
deixei-o ficar com os dez centavos como recompensa por sua contribuio para a psicopatologia da vida cotidiana."
         Qualquer um [1] que se disponha a observar o prximo durante as refeies poder identificar nele os mais belos e instrutivos atos sintomticos.
         Assim, relata o Dr. Hanns Sachs: "Ocorreu-me estar presente quando um casal idoso de parentes meus fazia sua ceia. A senhora sofria do estmago e tinha 
de observar uma dieta muito rigorosa. Um prato de carne assada acabara de ser colocado diante do marido, e ele pediu  mulher, proibida de partilhar dessa iguaria, 
que lhe passasse a mostarda. A mulher abriu o armrio, enfiou a mo l dentro e colocou na mesa, diante do marido, o frasquinho com suas gotas para o estmago.  
claro que no havia entre o vidro de mostarda em forma de barril e o frasquinho de remdio, nenhuma semelhana que pudesse explicar o lapso; mesmo assim, a esposa 
s percebeu sua troca quando o marido, sorridente, chamou-lhe a ateno para isso. O sentido desse ato sintomtico nem precisa de explicao."
         
         Devo ao Dr. B. Dattner, de Viena, um excelente exemplo desse tipo, habilmente aproveitado pelo observador:
         "Eu estava almoando num restaurante com meu colega H., doutor em filosofia. Ele me falava das dificuldades dos estagirios e mencionou de passagem que, 
antes de concluir seus estudos, encontrara colocao como secretrio do embaixador ou, mais exatamente, do ministro plenipotencirio e extraordinrio do Chile. 'Mas 
a o ministro foi transferido e no me apresentei ao seu sucessor.' Enquanto proferia esta ltima frase, ele levou  boca um pedao de torta, mas deixou-o cair da 
faca de modo aparentemente desajeitado. Apreendi prontamente o sentido culto desse ato sintomtico e, como que por acaso, disse a meu colega, no familiarizado com 
a psicanlise: 'Voc certamente deixou escapar um bom bocado.' Ele, no entanto, no percebeu que minhas palavras poderiam referir-se igualmente a seu ato sintomtico, 
e me repetiu com uma vivacidade singularmente surpreendente e encantadora como se meu comentrio lhe tivesse tirado as palavras da boca, exatamente a mesma frase 
que eu dissera: ', certamente deixei escapar um bom bocado', e em seguida desabafou, dando uma descrio detalhada da inabilidade que o fizera perder esse emprego 
bem remunerado.
         "O sentido do ato sintomtico simblico torna-se mais claro quando se tem em vista que meu colega tinha escrpulos em falar comigo, um conhecido bem distante, 
sobre sua precria situao material, e que o pensamento irruptivo disfarou-se num ato sintomtico que expressava simbolicamente aquilo que deveria permanecer oculto, 
assim proporcionando ao falante um alvio advindo do inconsciente."
         Os exemplos seguintes mostraro quanta riqueza de sentido pode evidenciar-se num ato aparentemente inintencional de tirar alguma coisa ou levar alguma coisa 
embora.
         Do Dr. B. Dattner: "Um colega fez uma visita a uma amiga de quem fora um grande admirador na juventude; era a primeira visita depois do casamento dela. 
Ele me contou essa visita e mostrou-se surpreso por no ter conseguido manter sua resoluo de ficar pouqussimo tempo com a amiga. Passou ento a narrar um curioso 
ato falho que ali lhe aconteceu. O marido da amiga, que participava da conversa, ps-se a procurar uma caixa de fsforos que seguramente estava em cima da mesa quando 
da chegada de meu colega. Este tambm vasculhou seus bolsos para ver se no 'a teria guardado' acidentalmente, mas foi em vo. Passado um bom tempo, ele realmente 
'a' encontrou no bolso, ficando surpreso com o fato de s haver um fsforo na caixa. - Poucos dias depois, um sonho que mostrava com insistncia o simbolismo da 
caixa de fsforos e versava sobre essa mesma amiga da juventude confirmou minha explicao de que o ato sintomtico de meu colega visara a reclamar direito de prioridade, 
e a representar sua pretenso de posse exclusiva (apenas um fsforo na caixa)."
         Do Dr. Hans Sachs: "Nossa empregada gosta particularmente de certo tipo de torta. No h dvida possvel quanto a isso, pois este  o nico prato que ela 
sempre faz bem-feito. Num domingo ela nos preparou essa torta, colocou-a sobre o guarda-louas, recolheu os pratos e talheres usados na refeio, empilhou-os na 
bandeja em que trouxera a torta, e ento, em vez de pr a torta na mesa, tornou a coloc-la sobre a pilha de pratos e desapareceu com ela na cozinha. No comeo pensamos 
que ela reparara em algo a ser consertado na torta, mas, como no reaparecia, minha mulher a chamou e perguntou: 'Betty, o que aconteceu com a torta?' 'Por qu?' 
retrucou a empregada, sem entender. Primeiro tivemos que explicar-lhe que ela tornara a levar a torta: pusera-a na bandeja, levara-a de volta e a guardara 'sem reparar'. 
- No dia seguinte, quando nos preparvamos para comer o restante da torta, minha mulher notou que havia a mesma quantidade que sobrara da vspera, ou seja, a moa 
havia rejeitado a parte que lhe cabia desse prato predileto. Quando lhe perguntamos por que no comera a torta, respondeu um pouco envergonhada que no sentira vontade. 
- A atitude infantil  muito clara nas duas situaes: primeiro, a insaciabilidade infantil que no quer partilhar com ningum o objeto de seus desejos, e depois, 
a reao igualmente infantil de desafio: 'Se vocs esto me dando de m vontade, podem guardar para vocs, agora no quero mais nada'."
         Os atos casuais e sintomticos [1] que ocorrem com as coisas ligadas ao casamento costumam ter um sentido extremamente srio e podem induzir os que no 
querem se preocupar com a psicologia do inconsciente a acreditarem em pressgios. [ver em [1].] No  um bom comeo quando uma jovem esposa perde sua aliana de 
casada na lua-de-mel, embora, na maioria das vezes, ela esteja apenas extraviada e torne a ser encontrada. - Conheo uma senhora, agora divorciada do marido, que 
na administrao de seus bens freqentemente assinava documentos com o nome de solteira, muitos anos antes de realmente reassumi-lo. - Certa vezfui hspede de um 
par de recm-casados e ouvi a jovem esposa descrever entre risos sua ltima experincia. No dia seguinte  volta da lua-de-mel, ela chamara a irm solteira para 
fazer compras, como nos velhos tempos, enquanto o marido cuidava de seus negcios. De repente, reparou num senhor do outro lado da rua e, cutucando a irm, exclamou: 
"Olhe, l vai o Sr. L!" Esquecera-se de que esse senhor j era seu marido h algumas semanas. Senti um calafrio ao ouvir esse relato, mas no me atrevi a tirar concluso. 
Essa historinha s tornou a me ocorrer alguns anos mais tarde, depois que o casamento teve um desfecho muito infeliz. [1]
         De um dos notveis trabalhos de Alphonse Maeder, publicados em francs (Maeder, 1906), extraio a observao que se segue, e que tambm poderia ter sido 
includa entre os exemplos de esquecimento:
         "Une dame nous racontait rcemment qu'elle avait oubli d'essayer sa robe de noce et s'en souvint la veille du mariage  huit heures du soir; la couturire 
dsesprait de voir se cliente. Ce dtail suffit  monter que la fiance ne se sentait pas trs heureuse de porter une rode d'pouse, elle cherchait  oublier cette 
reprsentation pnible. Elle est aujourd-hui... divorce."
         Um amigo que aprendeu a reparar nos sinais [1] contou-me que a grande atriz Eleonora Duse introduz num de seus papis um ato sintomtico que mostra claramente 
as profundezas de onde ela extrai sua arte cnica. Trata-se de um drama de adultrio; ela acabou de ter uma altercao com o marido e agora est absorta em seus 
pensamentos, antes que seu sedutor se aproxime. Durante esse breve intervalo, ela brinca com sua aliana de casamento, tirando-a e repondo-a no dedo, e depois volta 
a tir-la. Agora est pronta para o outro.
         Acrescento aqui um relato de Theodor Reik (1915) sobre alguns outros atos sintomticos relacionados com alianas.
         
         "Conhecemos os atos sintomticos que as pessoas casadas costumam executar, tirando e recolocando suas alianas. Meu colega M. produziu uma srie desses 
atos sintomticos. Uma jovem que ele amava o presenteara com um anel, recomendando-lhe que no o perdesse, caso contrrio ela saberia que ele j no a amava. Depois 
disso, ele foi ficando cada vez mais preocupado com a possibilidade de perder o anel. Se o tirava temporariamente (por exemplo, enquanto se lavava), esquecia regularmente 
onde o havia colocado, de modo que com freqncia s conseguia reencontr-lo depois de uma longa busca. Se ia pr uma carta na caixa do correio, no conseguia suprimir 
uma leve angstia de que o anel fosse arrancado do dedo pelas bordas da abertura. Certa vez, realmente portou-se de maneira to desajeitada que o anel caiu na caixa. 
A carta que ele estava remetendo nessa ocasio era um texto de despedida de uma ex-amada diante de quem ele se sentia culpado. Ao mesmo tempo, despertou nele uma 
saudade dessa outra mulher, o que entrou em conflito com seus sentimentos em relao a seu atual objeto de amor."
         O tema do anel [1] mais uma vez deixa-nos a impresso de como  difcil para o psicanalista descobrir algo novo que antes j no fosse conhecido por algum 
escritor. No romance Vor dem Sturm, de Fontane, diz o conselheiro Turgany durante um jogo de prendas: "Estejam certas, minhas senhoras, de que os mais profundos 
segredos da natureza revelam-se na entrega das prendas." Entre os exemplos que usa para corroborar sua afirmao existe um que merece nosso interesse especial: "Lembro-me 
da esposa de um professor, j situada na idade do embonpoint, que vez aps outra tirava sua aliana para oferec-la como prenda. Dispensem-me de descrever a felicidade 
conjugal desse lar." E prossegue: "Nesse mesmo grupo havia um cavalheiro que nunca se cansava de depositar no colo das damas seu canivete ingls, com dez lminas, 
saca-rolhas e isqueiro, at que esse monstro afiado, depois de rasgar vrios vestidos de seda, finalmente desapareceu ante os clamores de indignao."
         No nos causar surpresa que um objeto de significao simblica to rica quanto um anel tambm seja empregado em atos falhos dotados de sentido, mesmo 
que no defina um vnculo ertico sob a forma de uma aliana de casamento ou um anel de noivado. O seguinte exemplo de um episdio desse tipo foi posto  minha disposio 
pelo Dr. M. Kardos:
         "Muitos anos atrs, um homem bem mais moo do que eu apegou-se a mim; ele partilha de meus esforos intelectuais e mantm comigo aproximadamente a relao 
de um aluno com seu professor. Certa ocasio, presenteei-o com um anel que por vrias vezes j deu margem a atos sintomticos ou atos falhos, sempre que ele desaprovava 
alguma coisa em nossa relao. H pouco tempo ele pde relatar-me o caso que se segue, e que  particularmente belo e transparente. Costumvamos encontrar-nos uma 
vez por semana, quando ele vinha visitar-me e conversar; um dia, porm, ele deu uma desculpa qualquer para no comparecer, j que lhe pareceu mais desejvel ter 
um encontro com uma jovem dama. Na manh seguinte, ele notou, mas s muito depois de ter sado de casa, que o anel no estava em seu dedo. Isso no o preocupou muito, 
pois ele presumiu t-lo deixado na mesinha de cabeceira, onde o colocava todas as noites, e achou que ali o encontraria ao regressar. Assim que chegou em casa, ps-se 
a procur-lo, mas em vo, e comeou uma busca igualmente infrutfera pelo quarto. Por fim, ocorreu-lhe que o anel estivera na mesinha de cabeceira - como, alis, 
acontecia h mais de um ano - ao lado de um pequeno canivete que ele normalmente carregava no bolso do colete; veio-lhe assim a suspeita de que ele poderia, 'por 
distrao', ter colocado o anel no bolso, junto com o canivete. Enfiou a mo no bolso e de fato encontrou o anel ali buscado. 'Com a aliana no bolso do colete' 
 uma maneira proverbial de se fazer referncia ao lugar onde ela  guardada pelo marido que pretende trair a mulher de quem a recebeu. Portanto, o sentimento de 
culpa de meu amigo moveu-o, primeiramente,  autopunio ('voc j no merece usar esse anel'), e em seguida,  confisso de sua infidelidade, ainda que apenas sob 
a forma de um ato falho sem testemunhas. Somente pela via indireta de fazer um relato disso - o que, alis, era muito previsvel - foi que ele chegou a confessar 
sua pequena 'infidelidade'."
         Sei tambm de um homem idoso [1] que se casou com uma moa muito jovem e resolveu passar a noite de npcias num hotel da cidade, em vez de partir logo em 
viagem de lua-de-mel. Mal chegaram ao hotel, ele notou, alarmado, que estava sem sua carteira, onde se achava todo o dinheiro para a lua-de-mel; portanto, ou ele 
a havia posto em lugar errado ou a perdera. Com um telefonema, ainda conseguiu alcanar seu criado, que encontrou a carteira perdida no palet usado no casamento 
e a levou para o hotel onde o aguardava o noivo, que assim entrara no casamento sem meios [ohne Vermgen]. Portanto, na manh seguinte, ele pde partir em viagem 
com sua jovem esposa. Durante a noite, porm, como previra sua apreenso, ele ficara "impotente [unvermgend]".
          consolador pensar que o hbito humano de "perder coisas" tem nos atos sintomticos uma extenso insuspeitada e que, por conseguinte, ele  bem-vindo ao 
menos para uma inteno secreta do perdedor. Com freqncia, ele  apenas uma expresso de desapreo pelo objeto perdido, ou de uma antipatia secreta por ele ou 
pela pessoa de quem ele provm, ou ento a inclinao a perder o objeto foi para ele transferida de outros objetos mais significativos atravs de uma ligao simblica 
de pensamentos. A perda de coisas valiosas serve para expressar uma multiplicidade de moes; pode dar representao simblica a um pensamento recalcado, e portanto 
repetir uma advertncia que se gostaria de ignorar - ou, sobretudo, pode ser a oferta de um sacrifcio aos obscuros poderes do destino, cujo culto ainda hoje no 
se extinguiu entre ns.
         Aqui esto alguns exemplos para ilustrar essas teses sobre a perda de objetos:
         Do Dr. B. Dattner: "Um colega contou-me que perdera inesperadamente a lapiseira 'Penkala' que j tinha h mais de dois anos e valorizava muito por sua qualidade 
superior. A anlise revelou os seguintes fatos: no dia anterior, meu colega recebera de seu cunhado uma carta extremamente desagradvel que terminava com esta frase: 
'Atualmente, no tenho nem vontade nem tempo para sustentar sua frivolidade e sua preguia.' O afeto ligado a essa carta foi to poderoso que, no dia seguinte, meu 
colega sacrificou prontamente a lapiseira, que fora um presente desse cunhado, para que os favores dele no lhe pesassem demais."
         Uma dama conhecida minha absteve-se de ir ao teatro, como  compreensvel, enquanto estava de luto pela morte da me idosa. Faltavam poucos dias para terminar 
seu ano de luto, e ela se deixou persuadir por seus amigos a comprar um ingresso para um espetculo particularmente interessante. Chegando ao teatro, descobriu que 
havia perdido o ingresso. Mais tarde, achou que o teria jogado fora juntamente com a passagem de bonde ao saltar do veculo. Essa mesma dama costuma orgulhar-se 
de nunca ter perdido coisa alguma por descuido.
         Podemos presumir, portanto, que outro caso de perda que ela vivenciou tambm no se deu sem um bom motivo. Ao chegar a uma estncia hidromineral, ela resolveu 
visitar uma penso onde se hospedara numa ocasio anterior. Receberam-na como a uma velha amiga, hospedaram-na e, quando ela quis pagar, disseram-lhe que se considerasse 
convidada da casa, o que no lhe pareceu nada correto. Concordaram em que ela deixasse alguma coisa para a criada por quem fora servida, de modo que ela abriu a 
bolsa e colocou sobre a mesa uma nota de um marco.  noite, o servente da penso entregou-lhe uma nota de cinco marcos que fora achada embaixo da mesa e que, no 
entender da dona da penso, deveria pertencer  senhorita. Logo, ela devia t-la deixado cair da bolsa ao retirar a gorjeta para a criada. Provavelmente quisera 
pagar sua conta, apesar de tudo.
         Um artigo um pouco mais extenso de Otto Rank (1911) [450] serve-se da anlise dos sonhos para expor a disposio sacrifical que constitui a base desse atos 
[de perda] e revelar suas motivaes mais profundas.  interessante ele acrescentar, em seguida, que muitas vezes, no apenas perder objetos, mas tambm ach-los, 
parece ser [psicologicamente] determinado. O sentido em que se deve entender isso pode ser inferido da seguinte observao dele que aqui incluo (Rank, 1915a).  
bvio que, na perda, o objeto j est dado; no achado,  preciso primeiro procur-lo.
         "Uma jovem que dependia materialmente de seus pais queria comprar uma jia barata. Na loja, perguntou o preo do objeto de seu agrado, mas ficou desapontada 
do descobrir que custava mais do que a soma de suas economias. E no entanto apenas a falta de duas coroas a separava desse pequeno prazer. Com o nimo abatido, comeou 
a perambular em direo a casa pelas ruas da cidade, repletas das multides do entardecer. Num dos lugares mais movimentados, chamou-lhe de repente a ateno - dos 
lugares mais movimentados, chamou-lhe de repente a ateno - muito embora, por seu depoimento, ela estivesse profundamente imersa em pensamentos - umpedacinho de 
papel cado no cho, pelo qual ela acabara de passar sem reparar nele. Ela se voltou, apanhou-o e ficou atnita ao constatar que era uma nota de duas coroas, dobrada. 
Pensou consigo mesma: 'Isto me foi enviado pelo destino para que eu possa comprar a jia', e retomou alegremente o caminho de volta, pensando em aproveitar esse 
sinal. No mesmo instante, porm, disse a si mesma que no deveria faz-lo, pois dinheiro achado  dinheiro da sorte e no deve ser gasto.
         "O pouquinho de anlise que tornaria inteligvel esse 'ato casual' provavelmente pode ser inferido da situao descrita, mesmo sem informaes pessoais 
da prpria moa. Entre os pensamentos que a entretinham enquanto ia para casa, os relativos a sua pobreza e a suas restries materiais sem dvida devem ter estado 
em primeiro plano; alm disso, podemos presumir que essa reflexo tenha assumido a forma de uma eliminao desejada de sua situao precria. A idia da maneira 
mais fcil de obter a quantia necessria por certo h de ter surgido do interesse dela em realizar seu modesto desejo, e h de ter sugerido a soluo mais simples, 
ou seja, achar o dinheiro. Seu inconsciente (ou seu pr-consciente), portanto, estava predisposto a 'achar', muito embora, por causa de outras demandas feitas a 
sua ateno ('imersa em pensamentos'), essa idia no se tornasse inteiramente consciente. Podemos ir mais alm e, com base em casos semelhantes j analisados, afirmar 
inclusive que a 'disposio de busca' inconsciente tem muito mais probabilidade de xito do que a ateno conscientemente dirigida. De outro modo, seria quase impossvel 
explicar como foi que justamente essa pessoa, dentre as muitas centenas de transeuntes, e ainda sob as condies agravantes da iluminao crepuscular deficiente 
e da densa multido, pde fazer o achado surpreendente para ela mesma. A grande amplitude dessa disposio inconsciente ou pr-consciente  realmente indicada pelo 
fato notvel de que, depois desse achado - isto , num momento em que essa atitude j se tornara suprflua e certamente j escapara da ateno consciente -, a moa 
encontrou um leno mais adiante a caminho de casa, num trecho escuro e solitrio de uma rua de subrbio."
          mister dizer [1] que so exatamente esses atos sintomticos que costumam oferecer a melhor abordagem para a compreenso da vida anmica ntima das pessoas.
         Quanto aos atos casuais espordicos, quero comunicar um exemplo que admitiu uma interpretao mais profunda, mesmo sem anlise. Ele ilustracom clareza as 
condies em que tais sintomas podem ser produzidos de maneira inteiramente despercebida, e me permite acrescentar uma observao de importncia prtica. Numa viagem 
de frias de vero, tive de aguardar alguns dias em determinado local pela chegada de meu companheiro de viagem. Nesse meio tempo, travei conhecimento com um jovem 
que tambm parecia solitrio e se disps a juntar-se a mim. Como estvamos hospedados no mesmo hotel, era natural que compartilhssemos todas as refeies e fizssemos 
alguns passeios juntos. Na tarde do terceiro dia, ele me disse de repente estar esperando sua esposa, que chegaria  noite no trem expresso. Isso despertou meu interesse 
psicolgico, pois j de manh eu havia reparado que meu companheiro rejeitara minha proposta de fazermos uma excurso mais longa e, em nosso breve passeio, no quisera 
seguir certo caminho por consider-lo ngreme e perigoso demais. Durante nosso passeio vespertino, ele comentou de repente que eu sem dvida estaria com fome e que 
no deveria atrasar meu jantar por sua causa, pois ele iria aguardar a chegada da esposa e cearia com ela. Entendi a mensagem e sentei-me para jantar, enquanto ele 
seguia para a estao. Na manh seguinte, encontramo-nos no vestbulo do hotel. Ele me apresentou a sua mulher e depois disse: "O senhor vai tomar caf conosco, 
no vai?" Eu ainda tinha que fazer uma pequena compra na rua ao lado, mas prometi voltar logo. Ao entrar na sala onde era servido o desjejum, vi o casal sentado 
do mesmo lado de uma mesinha junto  janela. Do outro lado havia apenas uma cadeira, mas em seu encosto estava pendurada a grande e pesada capa do marido, cobrindo 
o assento. Entendi perfeitamente o sentido daquele arranjo da capa, que por certo no fora deliberado e, por isso mesmo, era muito mais expressivo. Queria dizer: 
"Aqui no h lugar para o senhor, sua presena agora  suprflua." O marido no percebeu que eu estava parado diante da mesa sem me sentar, mas a mulher percebeu 
e logo cutucou o marido, sussurrando: "Olhe, voc ocupou a cadeira do cavalheiro."
         Essa e outras experincias semelhantes levaram-me a concluir que os atos realizados de maneira inadvertida tornam-se inevitavelmente uma fonte de mal-entendidos 
nas relaes humanas. O agente, que nada saber da existncia de uma inteno ligada a esses atos, no acha que eles lhe sejam imputveis e no se sente responsvel 
por eles. A outra pessoa, ao contrrio, uma vez que geralmente baseia nesses atos, entre outros, suas concluses sobre as intenes e modos de pensar do parceiro, 
sabe mais dos processos psquicos do outro do que ele prprio se dispe a admitir ou acredita ter comunicado. Mas o agente fica indignado quando essas concluses 
extradas de seus atos sintomticos lhe so apresentadas; declara que no tm fundamento, pois no teve conscincia da inteno ao realiz-los, e se queixa de ter 
sido mal interpretado pela outra pessoa. A rigor, esses mal-entendidos baseiam-se numa compreenso excessiva, e tambm demasiadamente refinada. Quanto mais "nervosas" 
so duas pessoas, mais elas se do motivos para desentendimentos cuja responsabilidade  to terminantemente negada por cada uma em relao a si mesma quanto  considerada 
certa em relao  outra. E esse  sem dvida o castigo pela insinceridade interna das pessoas, que s a pretexto do esquecimento, dos equvocos na ao e da no-intencionalidade 
expressam impulsos que melhor seria admitirem para si mesmas e para os outros quando j no podem control-los. De fato, pode-se dizer genericamente que cada pessoa 
pratica em termos contnuos uma anlise psquica de seus semelhantes, e por isso aprende a conhec-los melhor do que eles prprios se conhecem. O caminho para se 
observar o preceito do ? passa pelo estudo dos prprios atos e omisses aparentemente acidentais.
         Dentre todos os escritores [1] que ocasionalmente se pronunciaram sobre os pequenos atos sintomticos e atos falhos ou que se valeram deles, nenhum entendeu 
to claramente sua natureza secreta ou os apresentou de modo to insolitamente verossmil quanto Strindberg, cuja genialidade para reconhecer tais coisas apoiava-se, 
de fato, numa grave anormalidade psquica. [1] O Dr. Karl Weiss, de Viena (1913), chamou ateno para o seguinte trecho de uma das obras de Strindberg:
         "Passado algum tempo, o conde realmente chegou e se aproximou de Esther calmamente, como se tivesse marcado um encontro com ela. 
         "-Voc esperou muito? - perguntou ele com sua voz baixa.
         "-Seis meses, como voc sabe - respondeu Esther -; mas foi hoje que voc me viu?
         "-Sim, agora mesmo, no bonde: e olhei em seus olhos, acreditando falar com voc.
         "-Muita coisa 'aconteceu' desde a ltima vez.
         "-Sim, e achei que tudo estava acabado entre ns.
         "-Como assim?
         
         "-Todos os presentinhos que recebi de voc se quebraram, e ainda por cima misteriosamente. E isso  um aviso antigo.
         "-No diga! Agora me lembro de uma poro de acontecimentos que julguei acidentais. Uma vez ganhei uns culos de presente de minha av, na poca em que 
ramos boas amigas. As lentes eram de cristal de rocha polido, excelentes para as autpsias - uma verdadeira maravilha que eu tratava com o maior cuidado. Um dia, 
cortei relaes com a velha e ela ficou com raiva de mim. E na autpsia seguinte, as lentes caram do aro, sem nenhum motivo para isto. Pensei que os culos simplesmente 
estavam quebrados e mandei consert-los. Mas no, eles continuaram a me recusar seus servios; foram postos numa gaveta e se perderam.
         "-No diga!  curioso como as coisas relativas aos olhos so as mais sensveis. Eu tinha um par de binculos que ganhei de um amigo; ajustavam-se to bem 
aos meus olhos que era um prazer us-los. Esse amigo e eu nos desentendemos. Sabe como , isso acontece sem nenhuma causa visvel;  como se no se pudesse ficar 
de acordo. Na vez seguinte em que eu quis usar o binculo, no consegui enxergar com clareza. A trave estava curta demais e eu via duas imagens. Nem preciso dizer 
que a trave no havia encurtado e que a distncia entre meus olhos tambm no aumentara! Foi um desses milagres que acontecem todos os dias - e que os maus observadores 
no percebem. A explicao? A fora psquica do dio  muito maior do que supomos. - Alis, o anel que voc me deu perdeu a pedra e no se deixa consertar, no deixa 
mesmo. Voc quer se separar de mim agora?..." (The Gothic Rooms.)
         Tambm no campo dos atos sintomticos [1] a observao psicanaltica tem de conceder prioridade aos autores literrios. Ela s consegue repetir o que eles 
j disseram h muito tempo. Wilhelm Stross chamou minha ateno para o seguinte trecho do famoso romance humorstico Tristram Shandy, de Laurence Sterne (Volume 
VI, Captulo V):
         "... e no me surpreende nem um pouco que Gregrio de Nazianzo, ao observar os gestos apressados e rebeldes de Juliano, previsse que ele um dia se tornaria 
um apstata; - ou que Santo Ambrsio tenha posto seu Amanuense porta afora por causa de um movimento indecente que ele fazia com a cabea, indo para frente e para 
trs como um malho; - ou que Demcrito tenha imaginado que Protgoras era um erudito ao v-lo amarrar um feixede lenha e colocar os gravetos mais finos na parte 
de dentro. H milhares de indcios despercebidos, prosseguiu meu pai, que permitem ao olhar perspicaz penetrar de imediato na alma humana; e afirmo, acrescentou 
ele, que nenhum homem sensato tira seu chapu ao entrar num aposento, ou torna a peg-lo ao sair dele, sem que lhe escape algo que o revela."
         Aqui acrescento uma pequena e variada coleo de atos sintomticos observados em pessoas sadias e em neurticos: [1]
         Um colega idoso, que no era bom perdedor no jogo de cartas, pagou certa noite sem reclamar, mas num estado de nimo peculiarmente contido, uma grande soma 
que havia perdido. Depois de sua sada, descobriu-se que ele deixara em seu lugar quase todos os pertences que levava: culos, cigarreira e leno. Isso sem dvida 
requer a traduo: "Seus ladres! Vocs realmente me saquearam!"
         Um homem que sofria de impotncia sexual ocasional, originria da intimidade de suas relaes com a me na infncia, contou que tinha o hbito de enfeitar 
escritos e apontamentos com a letra S, inicial do nome da me. Ele no suporta que as cartas vindas de casa entrem em contato com outra correspondncia profana qualquer 
sobre sua escrivaninha, e por isso  obrigado a guardar as primeiras separadamente.
         Uma jovem data abriu bruscamente a porta do consultrio, embora a paciente anterior ainda no tivesse sado. Ao se desculpar, ela se referiu a sua "irreflexo"; 
logo ficou claro que ela havia demonstrado a curiosidade que no passado a fizera entrar no quarto dos pais.
         As jovens que se orgulham de ter cabelos bonitos sabem manusear suas travessas e grampos de tal modo que o cabelo se solta enquanto esto conversando.
         Muitos homens deixam cair moedas do bolso enquanto deitados durante a sesso, e assim pagam os honorrios que julgam apropriados pelo trabalho de tratamento.
         As pessoas que esquecem na casa do mdico os objetos que trouxeram consigo, tais como culos, luvas e carteiras, mostram com isso que no conseguem separar-se 
e que gostariam de voltar logo. Ernest Jones [1911b, 508] diz: "Quase se pode medir o xito com que um mdico pratica apsicoterapia, por exemplo, pelo tamanho da 
coleo de guarda-chuvas, lenos, carteiras etc. que ele consegue fazer em um ms." [1]
         Os menores atos habituais executados com um mnimo de ateno, tais como dar corda no relgio antes de dormir, apagar a luz antes de sair do quarto etc., 
vez por outra ficam sujeitos a perturbaes que demonstram de maneira inconfundvel a influncia de complexos inconscientes sobre os hbitos aparentemente mais arraigados. 
Maeder conta, na revista Coenobium [1909], o caso de um mdico-residente que resolveu ir  cidade certa noite para cuidar de um assunto importante, embora estivesse 
de planto e no devesse sair do hospital. Ao voltar, ficou surpreso por ver a luz acesa em seu quarto. Esquecera-se de apag-la ao sair, coisa que nunca deixara 
de fazer antes. Mas logo entendeu o motivo desse esquecimento. O diretor do hospital, que morava na casa, naturalmente deduziria pela luz no quarto do mdico-residente 
que ele estava no hospital.
         Um homem sobrecarregado de preocupaes e sujeito a abatimentos ocasionais assegurou-me que em geral encontrava seu relgio sem corda pela manh quando, 
na noite anterior, a vida lhe parecera demasiadamente dura e hostil. Com essa omisso, deixando de dar corda no relgio, ele expressava simbolicamente que pouco 
lhe importava viver o dia seguinte.
         Outro homem, [1] que no conheo pessoalmente, escreve: "Depois de atingido por um duro golpe do destino, a vida me pareceu to dura e hostil que achei 
que no teria foras suficientes para atravessar o dia seguinte. Notei ento que quase todos os dias esquecia-me de dar corda em meu relgio, coisa que nunca omitira 
antes, pois era algo que eu fazia regularmente antes de ir para a cama, como um ato quase mecnico e inconsciente. Agora, s muito raramente me lembrava de faz-lo, 
e s quando tinha algo importante ou especialmente interessante no dia seguinte. Seria tambm isso um ato sintomtico? No pude dar-me nenhuma explicao."
         Quem se der o trabalho, como fizeram Jung (1907) e Maeder (1909), de observar as melodias que cantarola inintencionalmente e com freqncia sem perceb-lo, 
poder descobrir com bastante regularidade a relao entre as palavras da cano e o assunto que est ocupando sua mente.
         
         Tambm os determinantes mais sutis da expresso dos pensamentos na fala ou na escrita merecem uma considerao cuidadosa. Em geral se acredita que se  
livre para escolher as palavras com que se revestem os pensamentos ou as imagens com que eles so disfarados. Uma observao mais atenta mostra que outras consideraes 
determinam essa escolha e que, por trs da forma de expresso do pensamento, vislumbra-se um sentido mais profundo, muitas vezes no deliberado. As imagens e falares 
de que uma pessoa se serve preferencialmente poucas vezes deixam de ter importncia para o juzo que se faz dela, e outros continuamente se revelam aluses a um 
tema que se mantm em segundo plano no momento, mas que afetou poderosamente o falante. Ouvi em determinada poca, em meio a conversas tericas, algum usar repetidamente 
esta construo: "Quando uma coisa de repente nos atravessa a cabea, ..."2 S que eu sabia que, recentemente, ele recebera a notcia de que uma bala russa havia 
atravessado o capacete que seu filho portava.3
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       CAPTULO X - ERROS
         
         
         Os erros de memria distinguem-se do esquecimento acompanhado por iluses da memria unicamente por um trao: nos primeiros, o erro (a iluso de memria) 
no  reconhecido como tal, mas -lhe dado crdito. O uso do termo "erro", contudo, ainda parece depender de outra condio. Falamos em "errar", e no em "lembrar 
erroneamente", quando desejamos enfatizar o carter de realidade objetiva no material psquico por reproduzir, isto , quando pretendemos lembrar algo diferente 
de um fato de nossa prpria vida psquica, algo que, alm disso, possa ser confirmado ou refutado pela memria das outras pessoas. A anttese do erro de memria, 
nesse sentido,  a ignorncia.
         Em meu livro A Interpretao dos Sonhos (1900a) fui responsvel por uma srie de falseamentos do material histrico e factual em geral, nos quais reparei 
com assombro depois da publicao do livro. Investigando-os mais detidamente descobri que no haviam brotado de minha ignorncia, mas remontavam a erros de memria 
que a anlise poderia esclarecer.
         (1) Na pgina 266 (da primeira edio) [Ed. Standard Brasileira, Vol. V, em [1]], aponto como local de nascimento de Schiller a cidade de Marburgo [em Hesse], 
nome que se repete na Estria. Esse erro ocorre na anlise de um sonho que tive durante uma viagem noturna e do qual fui despertado pelo condutor que anunciava o 
nome da estao de Marburgo. No contedo do sonho, algum perguntava por um livro de Schiller. Na verdade, Shiller no nasceu na cidade universitria de Marburgo 
[em Hesse], mas em Marbach, na Subia. Alm do mais, posso afirmar que eu sempre soube disso.
         (2) Na pgina 135 [Ed. Standard Brasileira, Vol. IV, em [1] e [2]], o pai de Anbal foi chamado de Asdrbal. Esse erro me foi especialmente aborrecido, 
mas foi o que mais corroborou minha concepo desses erros. Poucos leitores de meu livro ho de estar mais familiarizados com a histria da casa dos Barca do que 
o autor, que escreveu esse erro e passou por cima dele em trs revises de provas. O pai de Anbal chamava-se Amlcar Barca - Asdrbal era o nome do irmo de Anbal, 
e tambm o de seu cunhado e antecessor no comando.
         
         (3) Nas pginas 177 e 370 [Ed. Standard Brasileira, Vol. IV, em [1], e Vol. V, em [2]], afirmo que Zeus castrou e destronou seu pai, Cronos. Mas adiantei 
erroneamente essa atrocidade em uma gerao: segundo a mitologia grega, foi Cronos quem a cometeu contra seu pai, Urano.
         Como se explica que minha memria, nesses pontos, me fornecesse o que era incorreto, ao passo que, como pode comprovar o leitor do livro, colocava a meu 
dispor o material mais remoto e incomum? E mais, como foi que em trs correes de provas, que fiz cuidadosamente, passei por esses erros como se estivesse cego?
         Goethe disse a respeito de Lichtenberg "Ali onde ele faz uma brincadeira oculta-se um problema". Pode-se dizer algo semelhante sobre os trechos de meu livro 
aqui citados: ali onde surge um erro oculta-se um recalcamento - melhor dizendo, uma insinceridade, uma distoro que se baseia fundamentalmente no material recalcado. 
Na anlise dos sonhos ali comunicados, fui compelido, pela prpria natureza dos temas com que se relacionavam os pensamentos onricos, a interromper a anlise em 
algum ponto antes de complet-la a contento, por um lado, e a aparar as arestas de algum detalhe indiscreto mediante uma leve distoro, por outro. No me era possvel 
agir de outro modo e, de fato, no tinha nenhuma outra opo se queria apresentar exemplos e provas; minha situao de aperto era uma decorrncia necessria da propriedade 
dos sonhos de expressarem o recalcado, ou seja, o que  insuscetvel de chegar  conscincia. Apesar disso, ao que parece, ainda restou o bastante [no livro] para 
escandalizar algumas almas sensveis. Mas a distoro ou a ocultao de pensamentos cuja continuao me era conhecida no foram possveis sem que alguns rastros 
ficassem para trs. Muitas vezes, o que eu queria suprimir conseguia, contra minha vontade, ganhar acesso ao que eu aceitaria relatar, surgindo sob a forma de um 
erro que me passava despercebido. Alm disso, o mesmo tema est no fundo de todos os trs exemplos aqui destacados: os erros derivam de pensamentos recalcados que 
se relacionam com meu pai morto.
         
         (1) Quem fizer a leitura do sonho analisado em [1] [Ed. Standard Brasileira, Vol. V. em [1]] descobrir em parte sem nenhum disfarce, e em parte poder 
adivinhar por outros indcios, que interrompi o texto diante de pensamentos que teriam contido uma crtica inamistosa a meu pai. Na continuao dessa cadeia de pensamentos 
e lembranas h de fato uma histria irritante na qual um certo papel  desempenhado por alguns livros e por um amigo de negcios de meu pai, que se chama Marburg 
- o mesmo nome que me acordou ao ser anunciado na estao homnima na ferrovia do sul. Na anlise, tentei ocultar esse Sr. Marburg de mim mesmo e de meus leitores; 
ele se vingou intrometendo-se onde no devia e mudando o nome do local de nascimento de Schiller de Marbach para Marburgo.
         (2) O erro de escrever Asdrbal em vez de Amlcar, o nome do irmo substituindo o do pai, ocorreu exatamente num contexto que se referia s fantasias sobre 
Anbal em meus anos de ginsio e a minha insatisfao com o comportamento de meu pai frente aos "inimigos do nosso povo". Eu poderia ter prosseguido e contado como 
minha relao com meu pai foi alterada por uma visita que fiz  Inglaterra, onde vim a conhecer meu meio-irmo, filho do primeiro casamento de meu pai, que l vivia. 
O filho mais velho de meu irmo tem a mesma idade que eu; assim, as relaes entre nossas idades no constituam nenhum obstculo a minhas fantasias de como as coisas 
teriam sido diferentes se eu tivesse vindo ao mundo no como filho de meu pai, mas de meu irmo. Essas fantasias suprimidas falsearam o texto de meu livro no ponto 
em que interrompi a anlise, forando-me a colocar o nome do irmo em lugar do nome do pai.
         (3)  influncia de minhas lembranas desse mesmo irmo que atribuo meu erro de adiantar em uma gerao as atrocidades mitolgicas do panteo grego. Dentre 
as advertncias de meu irmo, uma permaneceu por muito tempo em minha memria: "Quando  conduo de sua vida", disse-me ele, "no se esquea de que voc realmente 
no pertence  segunda mas  terceira gerao em relao a seu pai." Nosso pai tornara a casar-se anos depois, por isso era muito mais velho do que seus filhos do 
segundo casamento. Cometi o erro j descrito no ponto exato do livro em que estava examinando o respeito entre pais e filhos.
         Tambm aconteceu algumas vezes que amigos e pacientes cujos sonhos relatei, ou aos quais fiz aluso no decorrer de minhas anlises de sonhos, chamaram minha 
ateno para o fato de as circunstncias dos acontecimentospor ns vivenciados em comum terem sido inexatamente relatadas por mim. Tambm nesses casos tratava-se 
de erros histricos. Depois de retificados, reexaminei os diversos casos e de igual maneira me convenci de que minha lembrana dos fatos s fora inexata nos pontos 
onde eu havia propositalmente distorcido ou ocultado alguma coisa na anlise. Tambm aqui encontramos novamente um erro despercebido como substituto de uma ocultao 
ou recalcamento intencionais.
         Esses erros derivados do recalcamento, devem ser claramente distinguidos de outros que se baseiam numa verdadeira ignorncia. Assim, por exemplo, foi por 
ignorncia que, numa excurso a Wachau, acreditei ter chegado  residncia do lder revolucionrio Fischhof. Os dois lugares s tm em comum o mesmo nome: o Emmersdorf 
de Fischhof fica situado em Carntia. Mas eu no sabia disso.
         (4) Eis outro erro vergonhoso e instrutivo, um exemplo de ignorncia temporria, se  que se pode dizer isso. Certo dia, um paciente me lembrou de lhe dar 
os dois livros sobre Veneza que eu lhe prometera, pois precisava deles para se preparar para sua viagem de Pscoa. "J os tenho prontos para voc", retruquei, e 
fui busc-los na biblioteca. A verdade, porm,  que eu havia esquecido de apanh-los porque no estava inteiramente de acordo com a viagem de meu paciente, na qual 
via uma perturbao desnecessria do tratamento e um prejuzo material para o mdico. Dei ento uma rpida olhada na biblioteca  procura dos dois livros que tinha 
em vista. Um era "Veneza, Cidade da Arte"; "mas alm desse", pensei, "devo ter uma obra histrica numa coleo parecida. Certo, aqui est: 'Os Medici'." Peguei o 
livro e levei-o ao paciente que aguardava para logo ter que admitir, envergonhado, meu engano. Na realidade, eu sabia muito bem que os Medici nada tm a ver com 
Veneza, mas por um breve intervalo isso no me pareceu incorreto. Agora, cabia-me ser justo; j que por tantas vezes eu havia confrontado meu paciente com seus prprios 
atos sintomticos, s poderia salvar minha autoridade aos olhos dele sendo sincero e mostrando-lhe os motivos (que eu mantivera em segredo) de minha antipatia por 
sua viagem.
         Talvez seja genericamente espantoso que a nsia dos seres humanos de dizerem a verdade seja muito mais forte do que se costuma supor. Alm disso,talvez 
seja conseqncia de minha prtica de psicanlise que eu quase j no consiga mentir. Mal tento distorcer alguma coisa, sucumbo a um erro ou a algum outro ato falho 
que trai minha insinceridade, como se pode ver nesse ltimo exemplo e nos anteriores.
         Dentre todos os atos falhos, os erros parecem ter o mecanismo menos rgido, ou seja, a ocorrncia de um erro  uma indicao geral de que atividade anmica 
em questo teve de lutar com alguma influncia perturbadora, mas a forma especfica assumida pelo erro no  determinada pela qualidade da idia perturbadora que 
permaneceu na obscuridade. Podemos acrescentar aqui, retrospectivamente, que em muitos casos simples de lapsos da fala e da escrita  possvel supor a mesma situao. 
Toda vez que cometemos um lapso ao falar ou escrever, podemos inferir que houve alguma perturbao devida a processos anmicos situados fora de nossa inteno: mas 
 preciso admitir que os lapsos da fala e da escrita freqentemente obedecem s leis da semelhana, do comodismo ou da tendncia  pressa, sem que o elemento perturbador 
consiga impor qualquer parcela de sue prprio carter ao engano dele resultante na fala ou na escrita. Somente a complacncia do material lingstico  que possibilita 
a determinao dos erros e, ao mesmo tempo, marca seus limites.
         Para no me restringir exclusivamente a meus prprios erros, quero comunicar alguns exemplos que alis tambm poderiam ter sido includos entre os lapsos 
da fala e os equvocos na ao, embora isso no tenha maior importncia, j que todas essas formas de atos falhos so equivalentes.
         (5)Proibi um paciente de telefonar para a amada com quem ele mesmo queria romper, j que cada conversa reatiava a luta que ele travava para afastar-se 
dela. Ele deveria comunicar-lhe sua deciso final por escrito, apesar das dificuldades que havia para enviar-lhe cartas. Por volta de 1 hora, ele me visitou para 
dizer que encontrara um meio de contornar essas dificuldades e, entre outras coisas, perguntou-me se poderia invocar minha autoridade mdica. s 2 horas, estava 
ocupado em redigir a carta de rompimento quando, de repente, interrompeu-se e disse a sua me, que estava presente: "Oh! esqueci de perguntar ao professor se posso 
mencionar seu nome na carta"; correu para o telefone, pediu a ligao e perguntou: "Posso falar com o professor, por favor, se ele j tiver terminado de almoar?" 
Em resposta, ouviu um atnito "Adolf, voc enlouqueceu?" Era a mesma voz que, segundo minhas ordens, ele no deveria voltar a ouvir. Ele havia simplesmente "errado" 
e, em vez do nmero do telefone do mdico, fornecera o da amada.
         (6) Uma jovem dama pretendia fazer uma visita a uma amiga recm-casada na Habsburgergasse ["Rua Habsburgo"]. Falou nisso durante a refeio da famlia, 
mas por erro disse que tinha de ir  Babenbergergasse ["Rua Babenberg"]. Algumas das pessoas presentes acharam graa e chamaram sua ateno para o erro - ou lapso 
da fala, como se preferir - que ela no havia notado.  que dois dias antes a repblica fora proclamada em Viena; o negro e o amarelo haviam desaparecido e dado 
lugar s cores da velha Ostmark - vermelho, branco e vermelho -, e os Habsburgos tinham sido depostos; a falante introduzira essa mudana de dinastia no endereo 
da amiga. De fato existe em Viena uma clebre Babenberger-strasse, mas nenhum vienense a chamaria de "Gasse"
         (7) O mestre-escola de uma cidade de veraneio, um jovem pauprrimo mas garboso, tanto persistiu em cortejar a filha do proprietrio de uma manso, oriundo 
da cidade grande, que a jovem acabou por se apaixonar intensamente por ele e convenceu sua famlia a consentir no casamento, apesar das diferenas de posio social 
e de raa. Um dia, o professor escreveu ao irmo uma carta em que dizia: "A moa decerto no  nenhuma beleza, mas  muito meiga, e at a tudo estaria bem. Mas, 
se poderei decidir-me a me casar com uma judia, ainda no sei lhe dizer." Essa carta foi cair nas mos da noiva e ps fim ao noivado, enquanto, ao mesmo tempo, o 
irmo ficava atnito com as declaraes de amor a ele endereadas. Meuinformante assegurou-me que isto foi um erro, e no um artifcio astuto. Tomei conhecimento 
de outro caso em que uma dama insatisfeita com seu velho mdico, mas sem querer livrar-se dele abertamente, alcanou seu objeto atravs de uma confuso de cartas, 
e ao menos aqui posso garantir que foi um erro, e no uma argcia consciente, que se valeu desse conhecido tema da comdia.
         (8) Brill [1912, 191] fala de uma dama que lhe pediu notcias de uma conhecida de ambos e, ao faz-lo, designou-a erroneamente por seu nome de solteira. 
Chamada sua ateno para o erro, ela teve de admitir que no gostava do marido dessa dama e que aquele casamento a deixara muito insatisfeita.
         (9) Eis um caso de erro que tambm pode ser descrito como um lapso da fala: um jovem pai foi ao registro civil comunicar o nascimento de sua segunda filha. 
Indagado sobre como se chamaria a criana, respondeu "Hanna", ao que o funcionrio teve de lhe dizer que ele j tinha uma filha com esse nome. Podemos concluir que 
essa segunda filha no foi to bem-vinda quanto fora a primeira.
         Quero acrescentar algumas outras observaes de confuso entre nomes; naturalmente, com igual direito poderiam ter sido includas em outros captulos deste 
livro.
         (10) Uma senhora  me de trs filhas, duas das quais esto casadas h muito tempo, enquanto a mais jovem ainda aguarda seu destino. Em ambos os casamentos, 
uma senhora amiga da famlia deu o mesmo presente - um dispendioso aparelho de ch de prata. Todas as vezes que a conversa recai sobre esse servio de ch, a me 
nomeia erroneamente a terceira filha como sua proprietria.  claro que esse erro expressa o desejo da me de ver tambm sua ltima filha casada - pressupondo-se 
que ela receberia o mesmo presente de casamento.
         Os freqentes casos em que uma me confunde o nome de suas filhas, filhos ou genros so igualmente fceis de interpretar.
         (11) Eis um bom exemplo, facilmente explicvel, de uma obstinada troca de nomes; o exemplo foi cedido pelo Sr. J. G., que fez a observao em si mesmo durante 
uma estada num sanatrio:
         
         "Certo dia, durante o jantar (no sanatrio), eu participava de uma conversa pouco interessante e de tom completamente convencional com minha vizinha de 
mesa, quando ento empreguei uma frase de extrema afabilidade. Essa senhorita, j um pouco envelhecida, no pde deixar de comentar que no era do meu feitio habitual 
ser to amvel e galante com ela - um comentrio que continha no s um certo pesar, mas tambm uma bvia alfinetada numa jovem que ambos conhecamos e a quem eu 
costumava conceder uma ateno maior. Naturalmente, compreendi num instante. Ainda no decorrer dessa mesma conversa, minha vizinha teve que chamar-me repetidamente 
a ateno - o que me foi muito penoso - para o fato de eu t-la tratado pelo nome da jovem que, no sem razo, era vista por ela como sua rival mais afortunada."
         (12) Quero tambm relatar como "erro" um episdio de graves antecedentes que me foi narrado por uma testemunha diretamente implicada. Uma dama passara a 
tarde ao ar livre com o marido e dois senhores estranhos. Um desses dois "estranhos" era amigo ntimo dela, mas os outros nada sabiam disso e nem deveriam saber. 
Os amigos acompanharam o casal at a porta de casa e, enquanto esperavam que a porta se abrisse, comearam a se despedir. A dama fez uma mesura diante do estranho, 
ofereceu-lhe a mo e disse algumas palavras de cortesia. Depois, tomou o brao do amante secreto, voltou-se para o marido e comeou a se despedir dele da mesma maneira. 
O marido entrou na situao, ergueu o chapu e disse com polidez exagerada: "Beijo-lhe as mos, prezada senhora!" A esposa, horrorizada, soltou o brao do amante 
e, antes que o mordomo aparecesse, ainda teve tempo de suspirar: "Ora, imagine passar por uma coisa dessas!..." O homem era um desses maridos que querem situar fora 
dos limites do possvel uma infidelidade de sua mulher. Jurara repetidas vezes que, num caso assim, mais de uma vida estaria em perigo. Portanto, os mais fortes 
obstculos internos o impediam de notar o desafio contido nesse erro.
         (13) Eis um erro de um de meus pacientes, que se torna particularmente instrutivo por ter-se repetido para expressar um sentido contrrio: Aps prolongadas 
lutas internas, esse jovem super-hesitante conseguiu decidir-se a propor casamento  jovem que o amava h muito tempo, tal como ele a ela. Acompanhou a noiva at 
a casa, despediu-se e, na mais extrema felicidade, entrou num bonde e pediu duas passagens  cobradora. Cerca de seis mesesdepois, j estava casado, mas ainda no 
conseguira adaptar-se bem a sua felicidade conjugal. Estava em dvida se teria feito bem em se casar, sentia falta das antigas relaes com seus amigos e via toda 
sorte de defeitos em seus sogros. Uma noite, foi buscar sua jovem esposa na casa dos sogros, entrou no bonde com ela e contentou-se em pedir apenas uma passagem.
         (14) Um bom exemplo de Maeder (1908) mostra-nos como um desejo relutantemente sufocado pode ser satisfeito atravs de um "erro". Um colega que tinha um 
dia livre queria desfrut-lo sem ser molestado, mas tinha que fazer uma visita a Lucerna, coisa que no era de seu agrado; depois de uma longa deliberao, resolveu 
ir at l assim mesmo. Para se distrair, passou o trajeto de Zurique a Arth-Goldau lendo os jornais. Nesta estao, trocou de trem e prosseguiu na leitura. E assim 
foi viajando at que o condutor o informou de que ele tomara o trem errado, ou seja, o que voltava de Goldau para Zurique, embora tivesse uma passagem para Lucerna.
         (15) Uma tentativa anlogo, se bem que no inteiramente exitosa, de ajudar um desejo suprimido a se expressar pelo mesmo mecanismo do "erro" foi descrita 
pelo Dr. V. Tausk (1917), sob o ttulo "Viajando na Direo Errada":
         "Eu chegara a Viena em licena da frente de luta. Um antigo paciente soube que eu estava na cidade e pediu que eu fosse visit-lo, pois estava doente e 
de cama. Atendi a seu pedido e passei duas horas com ele. Na despedida, o doente perguntou quanto me devia. 'Estou aqui em licena e no estou dando consultas', 
retruquei. 'Por favor, encare minha visita como a de um amigo.' O paciente hesitou, pois sem dvida sentia que no tinha o direito de requisitar meus servios profissionais 
sob a forma de um ato de amizade gratuito. Mas finalmente aceitou minha resposta, expressando a respeitosa opinio, ditada por seu prazer em poupar dinheiro, de 
que eu, como psicanalista, sem dvida estaria fazendo a coisa certa. Alguns momentos depois, eu mesmo suspeitei da sinceridade de minha nobreza e, repleto de dvidas 
- que dificilmente admitiriam mais de uma soluo -, tomei um bonde da linha X. Depois de uma curta viagem, eu deveria passar para um bonde da linha Y. Enquanto 
aguardava no ponto onde tomaria o outro bonde, esqueci-me da questo dos honorrios e passei a me ocupar dos sintomas patolgicos de meu paciente. Entrementes, chegou 
o bonde que eu aguardavae subi. Mas na parada seguinte tive que descer novamente.  que, por engano e sem me aperceber, eu havia tomado um bonde da linha X, e no 
da linha Y, e seguira na mesma direo de onde acabara de partir - na direo do paciente de quem no quisera aceitar nenhum honorrio. Mas meu inconsciente queria 
fazer a cobrana."
         (16) Certa vez, eu mesmo tive xito num estratagema muito semelhante ao do exemplo 14. Eu havia prometido a meu rigoroso irmo mais velho que nesse vero 
lhe faria a visita devida h muito tempo numa cidade inglesa  beira-mar e, como o tempo era escasso, prometera ainda seguir pela rota mais curta e sem interromper 
a viagem em lugar algum. Pedi um adiantamento de um dia para pass-lo na Holanda, mas ele achou que eu poderia adiar isso para a viagem de volta. Assim, viajei de 
Munique, via Colnia, para Rotterdam - Hook van Holland, de onde o navio partiria  meia-noite para Harwich. Eu tinha que fazer uma baldeao em Colnia; ali deixei 
meu trem para tomar o expresso de Rotterdam, mas no conseguia encontr-lo. Perguntei a diversos funcionrios da estrada de ferro, mandaram-me de uma plataforma 
para outra, entrei num clima de desespero exagerado e logo me apercebi de que, durante essa busca infrutfera eu havia perdido o trem. Depois que isso me foi confirmado, 
considerei se deveria pernoitar em Colnia, depondo em favor disso, entre outras coisas, a devoo filial, pois segundo uma velha tradio de famlia, meu ancestrais 
haviam um dia fugido dessa cidade durante uma perseguio aos judeus. Mas decidi-me por outra coisa, viajei num trem posterior para Rotterdam, onde cheguei tarde 
da noite, e assim me vi obrigado a passar um dia na Holanda. Esse dia trouxe-me a realizao de um desejo acalentado h muito tempo; pude ver as magnficas pinturas 
de Rembrandt em Haia e no Rijksmuseum em Amsterd. S na manh seguinte, quando viajava de trem pela Inglaterra e pude concentrar-me em minhas impresses, foi que 
me ocorreu a lembrana indubitvel de que eu vira na estao de Colnia, a poucos passos do lugar onde eu descera do trem e na mesma plataforma, uma grande placa 
que dizia "Rotterdam-Hook van Holland". Ali, esperando por mim, estivera o trem em que eu deveria ter seguido viagem. Minha pressa em me afastardali, apesar dessa 
indicao clara, e minha busca do trem em outros lugares teriam de ser descritas como uma "cegueira" incompreensvel, a menos que se queira presumir que, ao contrrio 
das instrues de meu irmo, era meu propsito admirar os Rembrandts na viagem de ida. Tudo o mais - minha perplexidade bem encenada, a emergncia da inteno "piedosa" 
de pernoitar em Colnia - no passou de um artifcio para esconder de mim mesmo essa resoluo, at que ela j se tivesse realizado inteiramente.
         (17) A partir de sua prpria experincia pessoal, J. Strcke (1916) fala de um artifcio semelhante produzido por "esquecimento" para realizar um desejo 
a que se havia supostamente renunciado.
         "Certa vez, eu tinha de fazer uma conferncia com diapositivos numa aldeia, mas a conferncia foi adiada por uma semana. Eu havia respondido  carta sobre 
o adiamento e anotara a nova data em minha agenda. Eu teria seguido viagem de bom grado para essa aldeia  tarde, pois assim teria tempo de visitar um escritor conhecido 
meu que ali residia. Lamentavelmente, porm, no dispunha na poca de nenhuma tarde livre. Com certa relutncia, desisti dessa visita.
         "Chegada a noite da conferncia, segui s pressas para a estao, com uma maleta repleta de diapositivos. Tive de tomar um txi para pegar o trem (freqentemente 
me acontece retardar-me tanto que acabo tendo de tomar um txi para conseguir alcanar o trem!). Ao chegar a meu destino, fiquei um pouco surpreso por no haver 
ningum na estao para me receber (como  costume nos pequenos lugarejos ao chegar um conferencista). De repente ocorreu-me que a conferncia fora adiada por uma 
semana e que eu fizera uma viagem intil na data originalmente marcada. Depois de maldizer meu esquecimento de todo corao, ponderei se deveria voltar para casa 
no trem seguinte. Pensando melhor, porm, considerei que tinha agora uma boa oportunidade de fazer a visita desejada, o que ento pus em prtica. S quando j estava 
a caminho foi que me ocorreu que meu desejo irrealizado de ter tempo suficiente para essa visita preparara habilmente a trama. Sobrecarregar-me com a pesada maleta 
repleta de diapositivos e apressar-me para alcanar o trem tinham servido primorosamente para esconder ainda melhor a inteno inconsciente."
         Talvez se possa pensar [1] que a classe de erro que aqui no esclareci no  muito numerosa ou particularmente significava. Mas deixo como umaquesto a 
ser pensada se no haver razo para estender esses mesmos pontos de vista a nossa avaliao dos erros de julgamento, incomparavelmente mais importantes, cometidos 
pelos seres humanos na vida e no trabalho cientfico. S aos espritos mais seletos e equilibrados parece ser possvel preservar a imagem da realidade externa, tal 
como percebida, da distoro a que ela costuma ficar sujeita em sua passagem pela individualidade psquica daquele que a percebe.
         
         
       
       
       
       
       CAPTULO XI - ATOS FALHOS COMBINADOS
         
         
         Dois dos ltimos exemplos mencionados - meu erro ao transferir os Medici para Veneza [em [1]] e o do jovem que conseguiu conversar por telefone com sua 
amada, sabendo que contrariava minha proibio [em [1]] - na verdade no foram descritos de maneira exata. Uma considerao mais cuidadosa revela que eles constituem 
a combinao de um esquecimento com um erro. Posso ilustrar essa combinao com clareza ainda maior atravs de alguns outros exemplos.
         (1) Um amigo me conta a seguinte experincia: "H alguns anos aceitei ser eleito para a diretoria de certa sociedade literria por supor que algum dia essa 
organizao pudesse ajudar-me a fazer com que se encenasse minha pea, e embora sem muito interesse, participei regularmente das reunies que se realizavam todas 
as sextas-feiras. H poucos meses obtive a promessa de uma representao no teatro de F. e, desde ento, passei a me esquecer regularmente das reunies da sociedade. 
Ao ler seu livro sobre essas coisas, senti-me envergonhado de meu esquecimento, repreendi-me por ser uma baixeza eu faltar agora, quando j no estava precisando 
dessas pessoas, e resolvi no me esquecer por nada no mundo da sexta-feira seguinte. Recordei-me repetidamente esse propsito at coloc-lo em prtica e ver-me postado 
diante da porta da sala onde se realizavam as reunies. Para minha surpresa, estava fechada; a reunio havia terminado;  que eu havia errado o dia: j era sbado!"
         (2) O exemplo seguinte combina um ato sintomtico com um extravio; chegou a meu conhecimento por caminhos algo indiretos, mas provm de uma fonte segura.
         Uma dama viajou para Roma com seu cunhado, que era um artista famoso. O visitante foi muito festejado pela comunidade alem de Roma e recebeu, entre outros 
presentes, uma antiga medalha de ouro. A dama ficou mortificada por seu cunhado no saber apreciar suficientemente o valiosoobjeto. J de volta a casa, substituda 
em Roma por sua irm, ela descobriu, ao desfazer as malas, que trouxera consigo a medalha - no sabia como. Remeteu prontamente ao cunhado uma carta com a notcia 
e anunciou que no dia seguinte reenviaria para Roma o objeto carregado. No dia seguinte, porm, a medalha se extraviara com tanta habilidade que no pde ser encontrada 
nem remetida; foi ento que a dama comeou a compreender o sentido de sua "distrao", a saber, ela queria ficar com o objeto.
         (3) H casos em que o ato falho se repete obstinadamente, mudando para isso os meios que emprega:
         Por motivos que lhe eram desconhecidos, Ernest Jones (1911b, 483) deixou certa vez uma carta em sua escrivaninha por vrios dias, sem despach-la. Por fim, 
decidiu remet-la, mas a carta lhe foi devolvida pelo "Dead Letter Office", pois ele se esquecera de sobrescrit-la. Depois de colocar o endereo, tornou a lev-la 
ao correio, mas dessa vez ela estava sem selo. A essas altura, ele no pde mais ignorar sua relutncia em despachar a carta.
         (4) As vs tentativas de realizar uma ao que se ope a uma resistncia interna no expressivamente narradas num breve comunicado do Dr. Karl Weiss (1912), 
de Viena:
         "O episdio que se segue mostrar com que persistncia o inconsciente sabe impor-se quando tem um motivo para impedir que se execute uma inteno, e como 
 difcil tomar precaues contra essa persistncia. Um conhecido pediu-me que lhe emprestasse um livro e o levasse para ele no dia seguinte. Prometi imediatamente 
que o faria, mas ciente de um intenso sentimento de desprazer que a princpio no consegui explicar. Mais tarde, tudo me ficou claro: a pessoa em questo me devia 
h anos uma soma em dinheiro, que no parecia pensar em pagar. No pensei mais no assunto, mas lembrei-me dele na manh seguinte com o mesmo sentimento de desprazer 
e disse prontamente a mim mesmo: 'Seu inconsciente logo se empenhar em fazer com que voc esquea o livro; mas voc no quer ser descorts, e por isso far todo 
o possvel para no esquec-lo.' Chegando em casa, embrulhei o livro e coloquei-o a meu lado da escrivaninha onde redijo minha correspondncia. Passado algum tempo, 
sa; dei alguns passos e me lembrei de que deixara na escrivaninha as cartas que queria remeter. (Uma delas, diga-se de passagem, era uma carta em que fui obrigado 
a escrever algo desagradvela uma pessoa de quem esperava receber apoio em determinado assunto.) Voltei, peguei as cartas e tornei a sair. J no bonde, ocorreu-me 
que eu havia prometido a minha mulher encarregar-me de fazer uma certa compra, e fiquei satisfeito com a idia de que o embrulho seria pequeno. Nesse ponto ocorreu-me 
subitamente a associao 'embrulho-livro', e s ento notei que no estava levando o livro. Portanto eu no s o esquecera ao sair pela primeira vez, como tambm 
continuara a no enxerg-lo ao buscar as cartas ao lado das quais ele estava."
         (5)O mesmo se constata numa observao que Otto Rank (1912) analisou exaustivamente:
         "Um homem escrupulosamente ordeiro e pedantemente preciso narrou a seguinte experincia, totalmente extraordinria para ele. Uma tarde, ia ele pela rua 
quando quis saber as horas, reparando ento que havia deixado seu relgio em casa, coisa que, segundo sua memria, nunca lhe acontecera antes. Como tinha de comparecer 
pontualmente a um compromisso  noite e no lhe restava tempo suficiente para buscar seu relgio, ele aproveitou sua visita a uma dama amiga sua para pedir-lhe um 
relgio emprestado para esse fim. Isso era perfeitamente vivel porque ele j tinha o compromisso prvio de visitar essa dama na manh seguinte, ocasio em que prometeu 
devolver-lhe o relgio. No dia seguinte, porm, quando quis entregar o relgio emprestado a sua proprietria, descobriu com assombro que o esquecera em casa; dessa 
vez, portava seu prprio relgio. Tomou assim a firme resoluo de devolver o relgio da dama nessa mesma tarde, coisa que realmente levou a cabo. Mas quando quis 
ver as horas ao deix-la ficou imensamente aborrecido e atnito ao descobrir que tornara a esquecer seu prprio relgio.
         "A repetio desse alto pareceu to patolgica a esse homem comumente to amante da ordem que ele quis conhecer sua motivao psicolgica; e esta se revelou 
prontamente atravs da indagao psicanaltica a respeito de ter-lhe acontecido alguma coisa desagradvel no dia crucial em que se esqueceu do relgio pela primeira 
vez, e a respeito do contexto em que isso ocorrera. Ele contou de imediato como, depois do almoo, pouco antes de sair esquecendo o relgio, tivera uma conversa 
com sua me, que lhe contara que um parente irresponsvel, que j lhe havia causado muitos aborrecimentos e despesas, penhorara seu prprio relgio, mas, como este 
era necessrio na casa, pedia-lhe [ao narrador] que fornecesse o dinheiro para resgat-lo Essa maneira quase impositiva de tomar um emprstimo causou em nosso homem 
um impacto muito penoso e tornou a evocar-lhe todos os desgostos que esse parente lhe vinha causando h muitos anos. Seu ato sintomtico, portanto, mostra ter tido 
muitos determinantes. Em primeiro lugar, expressouum pensamento que dizia aproximadamente o seguinte: 'No vou permitir que o dinheiro me seja extorquido dessa maneira, 
e se precisam de um relgio, deixarei o meu em casa.' Mas como precisava do relgio para manter um compromisso  noite, essa inteno s pde efetivar-se por um 
caminho inconsciente, sob a forma de um ato sintomtico. Em segundo lugar, o esquecimento dizia mais ou menos o seguinte: 'Sacrificar dinheiro eternamente por esse 
intil vai acabar me arruinando, a ponto de eu ter que abrir mo de tudo.' Embora, no dizer dele, sua indignao diante da notcia tivesse sido apenas momentnea, 
a repetio do mesmo ato sintomtico mostra que ela continuou a atuar intensamente no inconsciente, mais ou menos como se sua conscincia dissesse: 'No consigo 
tirar essa histria da cabea.' Tendo em vista essa atitude do inconsciente, no nos surpreende que o relgio pedido emprestado  dama tivesse o mesmo destino. Mas 
talvez tambm tenha havido motivos especiais favorecendo essa transferncia para o 'inocente' relgio da dama. O motivo mais bvio, provavelmente,  que ele sem 
dvida gostaria de guard-lo para substituir seu prprio relgio sacrificado, e por isso esqueceu de devolv-lo no dia seguinte; talvez tambm lhe agradasse conserv-lo 
como uma lembrana da dama. Alm disso, o esquecimento do relgio forneceu-lhe a oportunidade de visitar pela segunda vez essa dama a quem ele admirava;  certo 
que teria de visit-la pela manh por causa de outro assunto, e com o esquecimento do relgio ele parece indicar que seria uma pena usar essa visita, combinada muito 
tempo antes, para o propsito passageiro de devolver o relgio. Alm disso, o esquecimento do prprio relgio por duas vezes e a restituio assim possibilitada 
do relgio alheio indicam que, inconscientemente, nosso homem estava procurando no andar com os dois relgios ao mesmo tempo.  bvio que estava tentando evitar 
essa aparncia de abundncia excessiva que estaria em flagrante contraste com a penria de seu parente; por outro lado, ele soube com isso fazer frente a sua aparente 
inteno de se casar com a dama, fazendo a si mesmo a advertncia de que tinha obrigaes indissolveis para com sua famlia (sua me). Por fim, outra razo para 
o esquecimento de um relgio de mulher poderia ser buscada no fato de que, na noite anterior, sendo solteiro, ele se sentira embaraado diante dos amigos por ver 
as horas num relgio de mulher, coisa que s fez subrepticiamente; e para evitar que serepetisse essa situao embaraosa, no quis mais usar o relgio. Por outro 
lado, como tinha de devolv-lo, tambm aqui o resultado foi um ato sintomtico inconscientemente realizado, que se revelou como uma formao de compromisso entre 
impulsos emocionais conflitantes e como um triunfo duramente conquistado da instncia inconsciente."
         Aqui esto trs casos observados por J. Strcke (1916, 108-9):
         (6) Extravio, quebra e esquecimento como expresso de uma contavontade repelida. "Dentre uma coleo de ilustraes para um trabalho cientfico, tive um 
dia que emprestar algumas a meu irmo, pois ele queria us-las como diapositivos numa conferncia. Apesar de momentaneamente ciente de minha idia de que eu preferiria 
no ver essas reprodues, colecionadas a to duras penas, exibidas ou publicadas de maneira alguma antes que eu mesmo pudesse faz-lo, prometi-lhe que procuraria 
os negativos das imagens desejadas e com elas confeccionaria diapositivos. Mas no pude achar esses negativos. Procurei por toda a pilha de caixas repletas dos negativos 
pertinentes ao assunto, e bem uns duzentos negativos passaram por minhas mos, um aps outro; mas os negativos que eu procurava no estavam ali. Suspeitei de que, 
na verdade, eu parecia no querer que meu irmo obtivesse essas ilustraes. Depois de me conscientizar desse pensamento invejoso e de combat-lo, percebi que eu 
pusera de lado a primeira caixinha da pilha e que no a havia examinado, e essa caixa continha os negativos procurados. Na tampa da caixinha havia uma pequena anotao 
sobre seu contedo e  provvel que eu lhe tenha dado uma rpida olhadela antes de pr a caixa de lado. O pensamento invejoso, entretanto, parecia ainda no estar 
inteiramente vencido, pois houve ainda toda sorte de incidentes antes que os diapositivos fossem despachados. Parti um deles ao apert-lo demais enquanto o segurava 
na mo para limpar o lado de vidro (nunca costumo quebrar um diapositivo dessa maneira). Quando mandei fazer um novo exemplar dessa chapa, ela caiu da minha mo 
e s no quebrou porque estendi o p e aparei a queda. Quando montava os diapositivos, a pilha inteira tornou a cair no cho, felizmente sem que nenhum se quebrasse. 
E por fim, vrios dias se passaram antes que eu realmente os embalasse e remetesse, pois embora renovasse todos os dias minha inteno de faz-lo, a cada dia tornava 
a esquec-la."
         (7) Esquecimento repetido - ao equivocada na execuo final. "Certo dia eu tinha que enviar um carto-postal a um conhecido, mas fui adiando isso por 
vrios dias, o que me deu a forte suspeita de que a causa eraa seguinte: Ele me informara por carta que no decorrer daquela semana eu seria visitado por algum cuja 
visita eu no estava particularmente ansioso por receber. Terminada a semana e reduzida a perspectiva da visita indesejada, escrevi finalmente o carto-postal onde 
lhe comunicava quando eu disporia de tempo livre. Ao escrever o carto, pensei inicialmente em acrescentar que no pudera escrever antes devido ao druk werk ('trabalho 
em excesso, estafante ou intenso' [em holands]), mas ao final no o fiz, pois no h ser humano razovel que ainda acredite nessa desculpa corriqueira. No sei 
se essa pequena inverdade ainda assim estava fadada a se expressar, mas quando coloquei o carto-postal na caixa do correio, depositei-o erroneamente na abertura 
inferior: Drukwerk ('impressos' [em holands])."
         (8) Esquecimento e erro. "Numa manh de tempo belssimo, uma jovem foi ao Rijksmuseum para ali desenhar alguns moldes de gesso. Embora preferisse passear, 
j que o tempo estava to bom, ela resolveu ser diligente mais uma vez e desenhar um pouco. Primeiro, tinha de comprar papel de desenho. Foi a uma loja (a cerca 
de dez minutos a p do museu) e comprou lpis e outros materiais de desenho, mas esqueceu justamente de comprar o papel. Foi para o museu e, quando estava sentada 
em sua banqueta, pronta para comear, percebeu que no tinha papel e teve de voltar  loja. Feita a compra, ela comeou realmente a desenhar, o trabalho progrediu 
bem e, aps algum tempo, ela ouviu o relgio da torre do museu bater muitas vezes. 'Deve ser meio-dia', pensou, e continuou trabalhando at o relgio da torre bater 
um quarto de hora ('Deve ser meio-dia e quinze', pensou). Em seguida embalou o material de desenho e resolveu ir passeando pelo Vondelpark at a casa da irm para 
ali tomar caf (o que, na Holanda,  equivalente ao almoo). Passando pelo Museu Suasso, ela viu com assombro que era apenas meio-dia, e no meio-dia e meia! O tempo 
tentadoramente bom levara a melhor sobre sua dedicao e, por isso, quando o relgio da torre deu doze badaladas s onze e meia, no lhe ocorreu pensar que os relgios 
dos campanrios tambm marcam as meias horas."
         (9) Como alguns dos exemplos acima j mostraram, a tendncia perturbadora inconsciente tambm pode alcanar seu objetivo atravs da repetio obstinada 
do mesmo tipo de ato falho. Tomo um divertido exemplo disso de um livrinho intitulado Frank Wedekind und das Theater, publicado em Muniquepelo Drei Masken-Verlag, 
mas tenho que deixar ao autor do livro a responsabilidade por essa historieta, narrada  maneira de Mark Twain.
         "Na pea em um ato Die Zensur [A Censura], de Wedekind, declara-se no momento mais solene: 'O medo da morte  um erro de lgica ["Denkfehler"].' O autor, 
que muito valorizava esse trecho, pediu ao ator, durante os ensaios, que fizesse uma pequena pausa antes da palavra 'Denkfehler'. E  noite... compenetrou-se o ator 
integralmente de seu papel e teve o cuidado de observar a pausa, mas, involuntariamente disse no mais solene dos tons: 'O medo da morte  um Druckfehler [um erro 
de imprensa].' Em resposta s perguntas do artista ao final do espetculo, o autor assegurou-lhe que no tinha a menor crtica a fazer, s que o trecho em questo 
no dizia que o medo da morte  um erro de imprensa, mas um erro de lgica. - Quando Die Zensur foi novamente  cena na noite seguinte, o ator, chegando ao mesmo 
trecho, declarou de novo com a mais solene entonao: 'O medo da morte  um... Denkzettel [um lembrete].' Wedekind mais uma vez cumulou o ator de elogios ilimitados, 
apenas comentando de passagem que o texto no dizia que o medo da morte  um lembrete, mas sim que  um erro de lgica. - Na noite seguinte Die Zensur foi novamente 
encenada, e o ator, com quem entrementes o autor fizera amizade e trocara opinies sobre questes artsticas, disse, ao chegar o trecho, com a expresso mais solene 
do mundo: 'O medo da morte  um... Druckzettel [um rtulo impresso].' O artista recebeu os louvores irrestritos do autor e a pea se repetiu muitas outras vezes, 
mas o autor teve que dar por liquidada para sempre a noo de 'erro de lgica'."
         Rank (1912 e 1915b) tambm deu ateno s relaes muito interessantes entre "Ato falho e sonho", mas no se pode apreci-las sem uma anlise minuciosa 
do sonho ligado ao ato falho. Certa vez, dentro de um contexto mais amplo, sonhei que havia perdido minha carteira. Pela manh, enquanto me vestia, realmente notei 
a falta dela. Ao despir-me na noite anterior ao sonho, eu me esquecera de tir-la do bolso da cala e coloc-la no lugar usual. Esse esquecimento, portanto, no 
me era desconhecido, e provavelmente se destinara a expressar um pensamento inconsciente que estava preparado para aflorar no contedo do sonho.
         
         No pretendo afirmar que esses casos de atos falhos combinados possam ensinar-nos algo novo, algo que j no se tivesse podido deduzir dos casos simples, 
mas  certo que essa mudana na forma assumida pelo ato falho enquanto o resultado permanece o mesmo d a vvida impresso de uma vontade que se esfora por atingir 
um alvo determinado, e contradiz de maneira muito mais enrgica a noo de que o ato falho  uma coisa aleatria e no requer interpretao. Tambm  possvel que 
nos cause estranheza, nesses exemplos, o fato de uma inteno consciente ser to radicalmente incapaz de impedir o xito do ato falho. Meu amigo, apesar de tudo, 
deixou de comparecer  reunio da sociedade, e a dama no foi capaz de se separar da medalha. O no-sabido [Unbekannte, "desconhecido", "inconfessado"] que se opunha 
a essas intenes encontrou outra sada depois que lhe foi barrado o primeiro caminho.  que para superar o motivo desconhecido faz-se necessrio algo diverso de 
uma inteno contrria consciente; seria preciso um trabalho psquico capaz de tornar o desconhecido conhecido pela conscincia.
         
         
         
       
       
       CAPTULO XII - DETERMINISMO, CRENA NO ACASO E SUPERSTIO - ALGUNS PONTOS DE VISTA
         
         
         A concluso geral que emerge das diversas consideraes anteriores pode ser formulada nos seguintes termos: Certas insuficincias de nosso funcionamento 
psquico - cujas caractersticas comuns precisaremos logo adiante - e certos desempenhos aparentemente inintencionais, revelam, quando a eles se aplicam os mtodos 
da investigao psicanaltica, ter motivos vlidos e ser determinados por motivos desconhecidos pela conscincia.
         Para ser includo na classe dos fenmenos assim explicveis, o ato falho psquico tem de satisfazer as seguintes condies:
         (a) No pode exceder certas dimenses fixadas por nossa avaliao e caracterizadas pela expresso "dentro dos limites do normal".
         (b) Deve ter o carter de uma perturbao momentnea e temporria.  preciso que tenhamos excetuado antes a mesma funo de maneira mais correta ou que 
nos acreditemos capazes de realiz-la mais corretamente em qualquer ocasio. Ao sermos corrigidos por outra pessoa, devemos reconhecer de imediato a exatido da 
correo e a inexatido de nosso prprio processo psquico.
         (c) Quando chegamos a perceber o ato falho, no devemos sentir em ns mesmos nenhuma motivao para ele, mas antes ficar tentados a explica-lo pela "desateno" 
ou ainda como uma "casualidade".
         Permanecem portanto nesse grupo os casos de esquecimento ["Vergessen"] e os erros cometidos apesar de se ter um conhecimento melhor, os lapsos da fala ["Versprechen"], 
os lapsos de leitura ["Verlesen"], os lapsos de escrita ["Verschreiben"], os equvocos na ao ["Vergreifen"] e os chamados "atos casuais". A prpria lngua [alem] 
indica a identidade interna entre a maioria desses fenmenos, igualmente compostos com o prefixo "ver-''.
         Mas ao esclarecimento dos processos psquicos assim definidos liga-se uma srie de observaes que, em parte, podem despertar um interesse fixo "ver-".
         
         (A) Quando abandonamos parte de nossas funes psquicas como inexplicvel pelas representaes-meta, estamos desconhecendo a extenso do determinismo na 
vida anmica. Tanto aqui quanto em outras esferas, ele tem um alcance maior do que suspeitamos. Num artigo do historiador de literatura R. M. Meyer publicado no 
Die Zeit [jornal de Viena] em 1900, encontrei, exposta e ilustrada com exemplos, a viso de que  impossvel compor um absurdo de maneira intencional e arbitrria. 
Sei h mais tempo que no se pode fazer com que um nmero ocorra por livre escolha, do mesmo modo que no se pode faz-lo com um nome. A investigao de um nmero 
composto de maneira aparentemente arbitrria, digamos, um nmero de vrios algarismos enunciado por algum por brincadeira ou num momento de bom humor, revela que 
ele  estritamente determinado de um modo que realmente no se consideraria possvel. Comearei pela breve discusso de um exemplo de prenome arbitrariamente escolhido, 
e depois analisarei com algum detalhe um exemplo anlogo de um nmero "dito sem pensar".
         (1) Com vistas a preparar para publicao o caso clnico de uma de minhas pacientes, pus-me a considerar o nome que deveria dar-lhe em meu relato. Parecia 
haver uma escolha muito ampla; alguns nomes,  claro, estavam excludos de antemo: o nome verdadeiro, em primeiro lugar, depois os nomes de membros de minha prpria 
famlia, aos quais eu faria objees, e talvez alguns outros nomes femininos de som particularmente singular. Afora esses, porm, eu no teria por que ficar em apuros 
para encontrar um nome. Seria de se esperar - e eu mesmo o esperava - que houvesse uma poro de nomes femininos a meu dispor. Em vez disso, ocorreu-me um s nome 
e nenhum outro - o nome "Dora".
         Perguntei-me como teria sido determinado. Quem mais se chamava Dora? Eu gostaria de rechaar com incredulidade o que me ocorreu a seguir - que esse era 
o nome da bab de minha irm [da casa]. Contudo, tenho tanta autodisciplina, ou tanta prtica em analisar, que me aferrei  idia ocorrida e deixei que o fio seguisse 
dali. Logo me ocorreu um pequeno incidente da noite anterior, que forneceu o determinismo buscado. Eu vira na mesa da sala de jantar de minha irm uma carta endereada 
 "Srta. Rosa W.". Surpreso perguntei quem ali tinha esse nome, e fui informado de que ajovem que eu conhecia por Dora na realidade se chamava Rosa, mas tivera de 
abandonar seu nome ao aceitar o emprego na casa, pois tambm minha irm poderia considerar que "Rosa" se referisse a ela. "Pobre gente", comentei com pena, "nem 
mesmo o prprio nome eles podem conservar!" Depois disso, lembro-me agora, permaneci em silncio por um momento e comecei a pensar em toda sorte de coisas srias 
que se perderam na obscuridade, mas que agora eu poderia facilmente tornar conscientes. Quando, no dia seguinte, procurei um nome para algum que no poderia conservar 
o seu, "Dora" foi o nico a me ocorrer. A exclusividade [do nome] baseou-se aqui numa slida associao de contedo, pois tambm na histria de minha paciente, bem 
como no curso do tratamento, foi uma pessoa empregada numa casa alheia, uma governanta, quem exerceu uma influncia decisiva.
         Anos depois, [1] esse pequeno incidente teve uma continuao inesperada. Certo dia, quando expunha numa conferncia o caso clnico h muito publicado da 
jovem que agora se chamava Dora, ocorreu-me que uma das duas mulheres que estavam no auditrio tinha esse mesmo nome Dora, que eu teria de pronunciar com tanta freqncia 
nos mais diferentes contextos. Voltei-me para minha jovem colega, a quem eu tambm conhecia pessoalmente, com a desculpa de que de fato no me havia lembrado de 
que esse tambm era o nome dela, e acrescentei que estava disposto a substitu-lo por outro em minha conferncia. Defrontei-me ento com a tarefa de escolher outro 
nome rapidamente, e considerei que teria de evitar a todo custo escolher o nome da outra ouvinte, pois assim daria um pssimo exemplo a meus outros colegas, j bem 
instrudos em psicanlise. Fiquei muito satisfeito, portanto, quando me ocorreu o nome "Erna" como substituto para Dora, e usei-o na exposio do caso. Depois da 
conferncia, perguntei a mim mesmo de onde poderia ter surgido o nome Erna, e no pude deixar de rir quando notei que a possibilidade temida quando da escolha do 
nome substituto ainda assim se realizara, ao menos em parte. O sobrenome da outra dama era Lucerna, do qual Erna  um fragmento.
         (2) Numa carta a um amigo, anunciei que havia terminado de corrigir as provas de A Interpretao dos Sonhos e que no pretendia fazer nenhuma outra modificao 
no livro, "mesmo que ele contenha 2 467 erros". Em seguida tentei explicar esse nmero a mim mesmo e acrescentei a pequenaanlise como um ps-escrito  carta. O 
melhor ser cit-la tal como a redigi na poca, logo depois de me apanhar em flagrante:
         "Deixe-me acrescentar depressa uma contribuio  psicopatologia da vida cotidiana. Voc ver que escrevi na carta o nmero 2 467 como uma estimativa arbitrria 
e atrevida do nmero de erros que so encontrados no livro dos sonhos. O que eu pretendia dizer era qualquer nmero muito grande, e ento emergiu esse. Mas no h 
no psquico nada que seja arbitrrio ou indeterminado. Por isso, voc h de esperar, com todo o direito, que o inconsciente tenha-se apressado a determinar o nmero 
que foi franqueado pela conscincia. Ora, eu tinha justamente acabado de ler no jornal que um general E. M. fora reformado como comandante de artilharia. Voc deve 
saber que esse homem me interessa. Quando eu servia como cadete-mdico, ele um dia entrou na enfermaria - era coronel, nessa poca - e disse ao oficial mdico: 'O 
senhor tem oito dias para me fazer sarar, porque tenho um trabalho a fazer pelo qual o Imperador est esperando.' Resolvi ento acompanhar a carreira desse homem 
e, veja s, agora (1899) ele a terminou,  comandante de artilharia e j est na reserva. Eu quis calcular em quanto tempo ele percorrera esse caminho. Supondo que 
eu o tivesse visto no hospital em 1882, seriam dezessete anos. Contei isso a minha mulher e ela disse: 'Mas ento voc tambm j no deveria estar aposentado?' 'Deus 
me livre!' protestei. Depois dessa conversa, sentei-me para lhe escrever. Mas a seqncia anterior de pensamentos prosseguiu, e com boa razo. O clculo estava errado; 
tenho um firme ponto de apoio em minha memria para saber disso. Comemorei minha maioridade, ou seja, meu 24 aniversrio, na priso militar (por ter-me ausentado 
sem permisso). Portanto, isso foi em 1880, ou h dezenove anos. A tem voc o nmero '24' do 2 467! Agora, tome minha idade atual, 43, acrescente 24, e voc ter 
o 67! Em outras palavras, em resposta  pergunta sobre eu pretender tambm me aposentar, concedi-me no desejo mais vinte e quatro anos de trabalho.  bvio que eu 
estava aborrecido por no ter, eu mesmo, progredido muito durante o intervalo em que acompanhei a carreira do Coronel M.; mesmo assim, estava celebrando uma espcie 
de triunfo por ele j estar acabado, enquanto eu ainda tenho tudo diante de mim. Por isso, pode-se dizer comrazo que nem mesmo o nmero 2 467, que proferi sem nenhuma 
inteno, deixou de ter seus determinantes vindos do inconsciente."
         (3) Desde esse primeiro exemplo onde se explica um nmero escolhido de maneira aparentemente arbitrria, repeti muitas vezes essa mesma experincia, e com 
o mesmo resultado, mas o contedo da maioria dos casos  to ntimo que no  possvel comunic-lo.
         Justamente por isso, contudo, aproveito para acrescentar aqui uma anlise muito interessante de uma "ocorrncia de nmero" que o Dr. Adler (1905), de Viena, 
obteve de um informante "perfeitamente sadio". "Ontem  noite", relata esse informante, "lancei-me  Psicopatologia da Vida Cotidiana, e teria lido o livro inteiro 
de uma vez, se no tivesse sido impedido por um incidente notvel. Acontece que, ao ler que todo nmero evocado  conscincia de modo aparentemente arbitrrio tem 
um sentido definido, resolvi fazer uma experincia. Ocorreu-me o nmero 1 734, e ento se precipitaram as seguintes idias: 1 734  17 = 102; 102  17 = 6. Depois 
fracionei o nmero em 17 e 34. Tenho 34 anos. Considero, como creio ter-lhe dito certa vez, que 34  o ltimo ano da juventude, e por isso senti-me muito infeliz 
em meu ltimo aniversrio. Ao final de meus 17 anos, iniciou-se para mim um perodo muito bonito e interessante de meu desenvolvimento. Divido minha vida em fases 
de 17 anos. Que significam essas divises? Ao pensar no nmero 102, ocorreu-me que o n 102 da Biblioteca Universal Reclam  a pea de Kotzebue, Menschenhass und 
Reue [Misantropia e Remorso].
         "Meu estado psquico atual  de misantropia e remorso. O n 6 da B.U. (conheo de cor uma multiplicidade de nmeros da coleo)  Die Schuld [A Culpa], 
de Mllner. Sou constantemente atormentado pela idia de que por minha culpa no cheguei a ser o que minhas aptides teriam permitido. Alm disso, ocorreu-me que 
o n 34 na B.U. contm um conto do mesmo Mllner, intitulado Der Kaliber [O Calibre]. Dividi a palavra em 'Ka' e 'Liber'; ocorreu-me ainda que ela contm as palavras 
'Ali' e 'Kali' ['potssio']. Isso me fez lembrar que certa vez fiz rimas com meu filho Ali (de seis anos). Pedi-lhe que procurasse uma rima para Ali. No lhe ocorreu 
nenhuma, e, como queria que eu a fornecesse, respondi-lhe: 'Ali reinigt den Mund mit hypermangansaurem Kali.' ['Ali limpa a boca com permanganato depotssio.'] Rimos 
muito e Ali estava muito lieb [meigo]. Nos ltimos dias, tive de constatar com desgosto que ele 'ka (kein) lieber Ali sei' ['no  o meigo Ali' (ka lieber' pronuncia-se 
como 'Kaliber')].
         "Perguntei-me ento: o que  o n 17 da B.U.? mas no consegui lembrar. Com toda certeza, porm, eu o soubera antes, donde presumi que eu queria esquecer 
esse nmero. Toda a reflexo foi em vo. Quis continuar lendo, mas fazia-o mecanicamente, sem entender uma nica palavra, porque o 17 estava me atormentando. Apaguei 
a luz e prossegui na busca. Por fim, cheguei  concluso de que o n 17 devia ser uma pea de Shakespeare. Mas qual? Ocorreu-me Hero and Leander - obviamente, uma 
tentativa idiota de minha vontade para me desviar. Finalmente levantei e consultei o catlogo da B.U. - o n 17  Macbeth. Para minha perplexidade, tive de constatar 
que no sabia quase nada da pea, embora no me tenha ocupado menos dela do que de outros dramas de Shakespeare. S me ocorreram: assassino, Lady Macbeth, bruxas, 
'o belo  torpe', e que certa vez achara muito bonita a verso de Schiller para Macbeth. Sem dvida, portanto, eu queria esquecer a pea. Ocorreu-me ainda que 17 
e 34, divididos por 17, do 1 e 2. Os nmeros 1 e 2 da B.U. so o Fausto, de Goethe. Antigamente, eu achava que havia muito de Fausto em mim."
         Lamentamos que a discrio do mdico no nos tenha possibilitado um discernimento do sentido dessa srie de associaes. Adler observa que o homem no chegou 
a uma sntese de suas explicaes. Parece-nos que quase no valeria a pena relat-las, no fosse por ter emergido algo na continuao que nos forneceu a chave para 
entender o nmero 1 734 e toda a srie de associaes.
         "Hoje pela manh sem dvida tive uma experincia que diz muito em favor de justeza da concepo freudiana. Minha mulher, que eu acordara ao levantar da 
cama na noite anterior, perguntou por que eu tinha querido o catlogo da B.U. Contei-lhe a histria. Ela achou que era tudo um palavrrio intil, s aceitando - 
o que  muito interessante - o Macbeth, contra o qual eu resistira tanto. Disse que no lhe ocorria absolutamente nada quando pensava num nmero. Respondi: 'Vamos 
fazer um teste.' Ela deu o nmero 117. Na mesma hora retruquei: '17  uma referncia ao que lhe contei, e alm do mais, ontem eu lhe disse que, quando a mulher tem 
82 anos, e o marido, 35, h uma terrvel desproporo.' Nos ltimos dias, tenho implicado com minha mulher, dizendo que ela  uma velhinha de 82 anos. 82 + 35 = 
117."
         O marido, que no soube encontrar os determinantes de seu prprio nmero, descobriu a soluo de imediato quando sua mulher lhe deu um nmero supostamente 
escolhido por livre-arbtrio. Na realidade, a mulherhavia compreendido muito bem o complexo do qual provinha o nmero do marido, tendo escolhido seu prprio nmero 
a partir do mesmo complexo, que era certamente comum a ambos, pois dizia respeito  relao entre suas respectivas idades. Parra ns, portanto,  fcil traduzir 
o nmero que ocorreu ao marido. Ele expressa, como sugere Adler, um desejo suprimido do homem, que, desdobrado em sua ntegra, diria: "Para um homem como eu, de 
34 anos, s convm uma mulher de 17."
         Para que no se faa demasiado pouco caso dessas "brincadeiras", quero acrescentar que fui recentemente informado pelo Dr. Adler que, um ano depois da publicao 
dessa anlise, o homem se divorciou de sua mulher.
         Adler fornece explicaes semelhantes sobre a origem de nmeros obsessivos.
         (4) Tambm a escolha dos chamados "nmeros favoritos" no deixa de estar relacionada com a vida da pessoa em questo e no deixa de ter um certo interesse 
psicolgico. Um homem que admitiu ter uma predileo especial pelos nmeros 17 e 19 pde indicar, depois de refletir um pouco, que aos 17 anos ingressara na universidade, 
obtendo assim a liberdade acadmica almejada desde longa data, e que aos 19 fizera sua primeira grande viagem e, pouco depois, sua primeira descoberta cientfica. 
Mas a fixao dessa preferncia ocorreu uma dcada depois, quando esses mesmos nmeros adquiriram importncia em sua vida amorosa. - De fato, mesmo os nmeros que 
uma pessoa usa com freqncia especial num dado contexto, de maneira aparentemente arbitrria, deixam-se reconduzir, mediante a anlise, a um sentido inesperado. 
Foi assim que um dia um de meus pacientes notou que, quando ficava aborrecido, tinha o costume de dizer: "J lhe disse isso umas 17 a 36 vezes", e se perguntou se 
haveria uma motivao tambm para isso. Logo lhe ocorreu que ele havia nascido num dia 27 do ms, ao passo que seu irmo mais moo nascera no dia 26, e que ele tinha 
razes para se queixar de que o destino lhe roubara tantas coisas boas da vida para conced-las a esse irmo mais novo. Assim, ele representava essa parcialidade 
do destino deduzindo 10 da data de seu prprio aniversrio e acrescentando-os  data do irmo. "Sou o mais velho, e no entanto fui reduzido dessa maneira."
         
         (5) Ainda me deterei um pouco mais nas anlises da ocorrncia de nmeros, pois no conheo quaisquer outras observaes que possam provar de maneira to 
concludente a existncia de processos de pensamentos altamente complexos, dos quais a conscincia ainda no tem nenhuma notcia, e, por outro lado, tambm no conheo 
melhor exemplo de anlise em que fique excluda com tanta certeza a contribuio que com freqncia  imputada ao mdico (a sugesto). Por isso comunicarei aqui 
a anlise de um nmero que ocorreu a um de meus pacientes (com seu consentimento). S preciso acrescentar que ele  o mais novo de uma srie de filhos e que, ainda 
muito jovem, perdeu o pai, por quem tinha grande admirao. Num estado de esprito particularmente alegre, ocorreu-lhe o nmero 426 718 e ele se perguntou: "Que 
 que me ocorre a respeito disso? Antes de mais nada, uma anedota que ouvi: 'Um resfriado tratado pelo mdico dura 42 dias; no sendo tratado, dura 6 semanas'." 
Isso corresponde aos primeiros algarismos do nmero (42 = 6x7). Na pausa que se seguiu a essa primeira soluo, fiz-lhe notar que o nmero de seis dgitos que ele 
escolhera continha todos os primeiros algarismos, exceto o 3 e o 5. Com isso ele descobriu de imediato o prosseguimento da interpretao. "Somos 7 irmos e eu sou 
o mais moo; pela ordem de nascimento dos filhos, o 3 corresponde a minha irm A. e 5 a meu irmo L., que eram ambos meus inimigos. Quando criana, eu costumava 
rogar a Deus todas as noites que chamasse esses dois espritos que me atormentavam a vida. Agora, parece-me que nessa escolha de nmeros eu mesmo realizei esse desejo; 
3 e 5, o irmo malvado e a irm odiada, foram saltados." - Se o nmero significa a ordem de seus irmos, o que quer dizer o 18 no final? Vocs eram apenas 7. - "Muitas 
vezes pensei que, se meu pai tivesse vivido mais, eu no teria continuado a ser o filho menor. Se chegasse mais 1, teramos sido 8, e haveria depois de mim uma criana 
menor com quem eu brincaria de irmo mais velho."
          Com isso explicava-se o nmero, mas ainda tnhamos de estabelecer a relao entre a primeira parte da interpretao e a segunda. Foi muito fcil deduzi-la 
da precondio necessria dos ltimos algarismos: "se meu pai tivesse vivido mais".  que "42 = 6 x 7" significava o desprezo pelos mdicos que no tinham sido capazes 
de ajudar seu pai, e sob essa forma, portanto, expressava o desejo de que seu pai continuasse vivendo. O nmero inteiro [426 718] correspondia, na verdade,  realizao 
de seus dois desejos infantis a respeito de seu crculo familiar - que o irmo e a irm malvados morressem e que nascesse um irmozinho depois dele, ou, expresso 
de maneira mais sucinta, "Antes esses dois tivessem morrido em vez do meu amado pai!"
         (6) Aqui est um breve exemplo de um correspondente. O diretor de uma agncia de telgrafo em L. escreve que seu filho de dezoito anos e meio, que quer 
estudar medicina, j est se ocupando da psicopatologia do cotidiano e vem tentando convencer seus pais da justeza de minhas afirmaes. Reproduzo a seguir uma das 
experincias realizadas por ele, sem me manifestar sobre a discusso ligada a ela.
         "Meu filho estava conversando com minha mulher sobre o chamado 'acaso' e lhe explicava que ela no conseguiria nomear nenhuma cano ou nmero que lhe ocorresse 
realmente 'por acaso'. Deu-se ento o seguinte dilogo: Filho: 'Diga-me um nmero qualquer'. - Me: '79.' - Filho: 'O que lhe ocorre a respeito disso?' - Me: 'Estou 
pensando no lindo chapu que vi ontem.' - Filho: 'Quanto custava?' - Me: '158 marcos.' - Filho: 'A est: 158  2 = 79. O chapu lhe pareceu caro demais e voc sem 
dvida pensou. 'Se ele custasse a metade, eu o compraria'."
         "Contra essas afirmaes de meu filho levantei, antes de mais nada, a objeo de que as mulheres em geral no so muito boas em clculos, e que a me dele 
certamente no teria percebido com clareza que 79 era a metade de 158. Sua teoria, portanto, estava baseada no fato bastante improvvel de que o subconsciente saberia 
fazer contas melhor do que a conscincia normal. 'De modo algum' foi a resposta que recebi; 'suponho que mame no tenha feito a conta 158  2 = 79, ela pode muito 
bem ter visto essa equao em algum momento; pode at ter-se ocupado do chapu num sonho, e ento percebido com clareza quanto ele custaria se fosse a metade do 
preo'."
         (7) Tomo outra anlise numrica de Jones (1911b, 478). Um senhor conhecido dele deixou que lhe ocorresse o nmero 986 e ento o desafiou a relacionar esse 
nmero com qualquer coisa em que ele pensasse. "Usando o mtodo da associao livre, veio-lhe primeiro a seguinte lembrana, que antes no estivera em sua mente: 
seis anos antes, no dia mais quente de que conseguia lembrar-se, ele vira num vespertino uma anedota que dizia que o termmetro havia marcado 986F., o que era, 
evidentemente, um exagero de 98.6F. Na ocasio, estvamos sentados diante de uma lareira muito quenteda qual ele acabara de se afastar, e ele comentou, provavelmente 
com toda razo, que o calor havia despertado essa lembrana adormecida. Mas fiquei curioso em saber por que essa lembrana teria persistido com tamanha nitidez, 
a ponto de ser to prontamente evocada, j que, na maioria das pessoas, decerto teria sido totalmente esquecida, a menos que se houvesse associado com alguma outra 
experincia psquica mais significativa. Ele me contou que, ao ler a anedota, rira s gargalhadas, e em muitas ocasies posteriores se lembrara dela com grande prazer. 
Como a piada era obviamente muito fraca, isso intensificou minha expectativa de que houvesse mais alguma coisa por trs dela. Seu pensamento seguinte foi a reflexo 
genrica de que a idia do calor sempre o impressionara muito; que o calor era a coisa mais importante do universo, a fonte de toda a vida, e assim por diante. Essa 
atitude notvel num rapaz to prosaico certamente requeria uma explicao, de modo que lhe pedi que prosseguisse em suas associaes. O pensamento seguinte disse 
respeito a uma chamin da fbrica que ele via da janela de seu quarto.  noite, era freqente ele se deixar ficar observando a chama e a fumaa que saam dela e 
refletindo sobre aquele deplorvel desperdcio de energia. O calor, o fogo, a fonte da vida, o desperdcio de energia vital saindo de um tubo ereto e oco - no foi 
difcil adivinhar, por essas associaes, que as idias do calor e do fogo estavam inconscientemente vinculadas em sua mente com a idia do amor, como  to freqente 
no pensamento simblico, e que haveria ali um forte complexo de masturbao, concluso esta que logo foi confirmada por ele."
         Aos que quiserem obter uma boa impresso [1] da maneira como o material dos nmeros  elaborado no pensamento inconsciente, indico os artigos de Jung (1911) 
e Jones (1912).
         Quando conduzo essas anlises em mim mesmo, duas coisas me so particularmente notveis: em primeiro lugar, a certeza francamente sonamblica com que me 
lano em minha meta desconhecida, mergulhando numa seqncia de pensamentos aritmticos que chega de repente ao nmero desejado, e a rapidez com que se completa 
todo o trabalho posterior [Nacharbeit]; em segundo lugar, o fato de os nmeros se colocarem to prontamente  disposio de meu pensamento inconsciente, embora eu 
seja ruim em clculos e tenha enorme dificuldade em gravar conscientemente datas, nmeros de residncias e coisas similares.Alm disso, nessas operaes inconscientes 
de pensamento com nmeros descubro em mim uma tendncia  superstio cuja origem me permaneceu desconhecida por muito tempo. [Cf. em [1].]
         
         No nos surpreender [1] verificar que no s os nmeros, mas tambm as associaes verbais de outro tipo, costumam revelar-se, ante a investigao analtica, 
plenamente determinadas.
         (8)Um bom exemplo de derivao de uma palavra obsessiva - ou seja, persecutria - encontra-se em Jung (1906). "Uma dama contou-me que j h alguns dias 
vinha-lhe constantemente aos lbios a palavra 'Taganrog', sem que ela tivesse nenhuma idia de sua origem. Perguntei-lhe sobre os acontecimentos carregados de afeto 
e os desejos recalcados de seu passado recente. Aps alguma hesitao, ela me contou que gostaria muito de ter um robe [Morgenrock], mas seu marido no tinha nisso 
o interesse que ela desejava. 'Morgenrock', 'Tag-an-rock' [literalmente, 'roupo de dia'] - v-se a semelhana parcial de som e de sentido. A determinao da forma 
russa proveio de que, nessa mesma poca, a dama travara conhecimento com uma personalidade de Taganrog."
         
         (9)Devo ao Dr. E. Hitschmann a soluo de outro caso em que, num certo local, um verso se imps a algum repetidamente como uma livre associao, sem que 
se evidenciassem sua origem ou suas relaes.
         "Relato de E., Doutor em Direito: Seis anos atrs viajei de Biarritz para San Sebastian. A estrada de ferro cruza o rio Bidassoa, que nesse ponto marca 
a fronteira entre a Frana e a Espanha. Da ponte v-se um belo panorama - de um lado, um amplo vale e os Pireneus e, de outro, o mar distante. Era um lindo e radiante 
dia de vero; tudo estava banhado de sol e de luz, eu estava em viagem de frias e me sentia feliz por estar chegando  Espanha... e ento me ocorreram os versos:
         
         Aber frei ist schon die Seele,Schwebet in dem Meer von Licht.
         "Lembro-me que, na poca, pus-me a pensar de onde viriam esses versos e no consegui me recordar. A julgar pelo ritmo, as palavras deviam provir de um poema, 
s que este fugira inteiramente de minha memria. Creio que depois, quando os versos me voltaram muitas vezes  mente, perguntei a vrias pessoas sobre ele, sem 
que conseguisse descobrir coisa alguma.
         "No ano passado, regressando de uma viagem  Espanha, passei pelo mesmo trecho da ferrovia. Era uma noite escura como breu e estava chovendo. Olhei pela 
janela para ver se j havamos chegado  estao da fronteira e notei que estvamos na ponte sobre o Bidassoa. Logo me voltaram  memria os versos citados acima, 
e mais uma vez no consegui recordar sua origem.
         "Vrios meses depois, j em casa, caiu-me nas mos um livro de poemas de Uhland. Abri-o e meus olhos depararam com estes versos: 'Aber frei ist schon die 
Seele, schwebet in dem Meer von Licht', que encerram um poema chamado 'Der Waller'. Li o poema e tive uma lembrana muito vaga de hav-lo conhecido h muitos anos 
atrs. A ao se passa na Espanha, e esse me pareceu ser o nico elo entre os versos citados e o lugar da estrada de ferro descrito por mim. Fiquei apenas parcialmente 
satisfeito com minha descoberta e continuei a virar mecanicamente as pginas do livro. Os versos 'Aber frei ist schon...' etc. ficam no fim de uma pgina. Ao vir-la, 
encontrei do outro lado um poema com o ttulo 'A Ponte sobre o Bidassoa'.
         "Acrescento ainda que o contedo desse poema pareceu-me quase mais estranho que o do anterior, e que seus primeiros versos dizem:
         'Auf der Bidassoabrcke steht ein Heiliger altersgrau,Segnet rechts die span'schen Berge, segnet links denfrnk'schen Gau'."
         (B) Talvez esse discernimento do determinismo dos nomes e nmeros aparentemente escolhidos de modo arbitrrio contribua para o esclarecimento de um outro 
problema. Muitas pessoas, como se sabe, contestam a suposio de um determinismo psquico completo invocando um sentimento especial de convico de que existe um 
livre-arbtrio. Esse sentimento de convico existe, e no cede diante da crena no determinismo. Como todos os sentimentos normais, deve ter algo que o justifique. 
Pelo que posso observar, porm, ele no se manifesta nas grandes e importantes decises da vontade: nessas ocasies, tem-se antes o sentimento de compulso psquica, 
e de bom grado se recorre a ele. ("Aqui me posiciono, no tenho outra escolha.") Em contrapartida,  justamente nas decises indiferentes e insignificantes que se 
prefere asseverar que teria sido igualmente possvel agir de outra maneira, que se agiu por uma vontade livre e no motivada. De acordo com nossas anlises, no 
 necessrio contestar a legitimidade do sentimento de convico de que existe um livre-arbtrio. Quando levamos em conta a distino entre motivao consciente 
e motivao inconsciente, nosso sentimento de convico nos informa que a motivao consciente no se estende a todas as nossas decises motoras. Mnima non curat 
praetor. Mas o que  assim liberado por um lado recebe sua motivao do outro, do inconsciente, e desse modo o determinismo no psquico prossegue ainda sem nenhuma 
lacuna.
         (C)Embora a motivao dos atos falhos descritos nos captulos anteriores seja algo que, pela prpria natureza da situao, est fora do conhecimento do 
pensamento consciente, seria ainda assim desejvel descobrir uma prova psicolgica da existncia dessa motivao; e de fato, por motivos decorrentes de um conhecimento 
mais aprofundado do inconsciente,  provvel que essas provas possam ser descobertas em algum lugar. Existem realmente duas esferas em que  possvel demonstrar 
fenmenos que parecem corresponder a um conhecimento inconsciente, e portanto deslocado, dessa motivao.
         (a) Um trao marcante e universalmente observado do comportamento dos paranicos  que eles conferem extrema importncia aos pequenos detalhes do comportamento 
de outras pessoas, que comumente negligenciamos, interpretam-nos e fazem deles a base para extensas concluses. Por exemplo, o ltimo paranico que examinei concluiu 
que todos os que o cercavam estavam de comum acordo, pois quando seu trem ia saindo da estao as pessoas haviam feito um certo movimento com uma das mos. Outro 
reparava no modo como as pessoas andavam na rua, como manejavam, as bengalas etc.
         A categoria do acidental, do que no requer motivao, na qual as pessoas normais incluem parte de suas prprias operaes psquicas e de seus atos falhos, 
 portanto rejeitada pelo paranico no tocante s manifestaes psquicas de outras pessoas. Tudo o que ele observa no outro  repleto de significao, tudo  interpretvel. 
O que o faz chegar a isso? Aqui, como em tantos casos semelhantes,  provvel que ele projete na vida anmica do outro o que est inconscientemente presente na sua. 
Na parania, impem-se  conscincia muitas coisas cuja presena no inconsciente das pessoas normais e neurticas s  demonstrvel atravs da psicanlise. Em certo 
sentido, portanto, o paranico tem razo nisso, pois reconhece algo que escapa  pessoa normal, v com mais clareza do que algum de capacidade intelectual normal, 
mas o deslocamento para outras pessoas do estado de coisas que ele reconhece invalida seu conhecimento. Espero que no se pretenda de mimque eu justifique as vrias 
interpretaes paranicas. Mas a parcela de justificao que concedemos  parania por essa maneira de encarar os atos casuais nos facilitar uma compreenso psicolgica 
do sentimento de convico que, no paranico, est ligado a todas essas interpretaes.  que h realmente algo de verdadeiro nelas, tambm aqueles dentre nossos 
erros de julgamento que no podem ser considerados patolgicos adquirem o sentimento de convico que lhes  prprio exatamente da mesma maneira. Esse sentimento 
 justificado quanto a uma parte da seqncia errnea de pensamentos, ou quanto a sua fonte de origem, e ento  estendido por ns ao restante do contexto.
         (b) Outra indicao de que possumos um conhecimento inconsciente e deslocado de motivao dos atos casuais e dos atos falhos encontra-se no fenmeno da 
superstio. Esse meu ponto de vista ser esclarecido atravs da discusso da pequena experincia que constituiu meu ponto de partida para estas reflexes.
         Ao voltar das frias, meus pensamentos se voltaram de imediato para os pacientes que iriam requerer minha ateno no novo ano de trabalho que estava comeando. 
Minha primeira visita foi a uma senhora muito idosa a quem eu prestava h muitos anos os mesmos servios profissionais duas vezes por dia (em [1] [e [2]]). Graas 
a essa uniformidade, foram muito freqentes as ocasies em que alguns pensamentos inconscientes conseguiram expressar-se quando eu estava a caminho da casa da enferma 
ou enquanto a atendia. Ela tem mais 90 anos e, portanto,  natural que se pergunte, no comeo de cada ano de tratamento, quanto tempo ainda lhe restar de vida. 
No dia a que me refiro, eu estava com pressa e tomei um coche de aluguel para me levar  casa dela. Todos os cocheiros do ponto decarruagens em frente a minha casa 
sabiam a endereo, pois todos me haviam levado at l freqentemente. Nesse dia, porm, ocorre que o cocheiro no parou diante da casa dela, mas diante de uma casa 
com o mesmo nmero numa rua prxima, paralela  outra, e que de fato tinha uma aparncia muito semelhante. Notei o erro, censurei o cocheiro e ele se desculpou. 
Pois bem, haveria algum significado no fato de eu ter sido conduzido a uma casa onde a velha senhora no seria encontrada? Para mim, certamente que no, mas, se 
fosse supersticioso, eu veria nesse incidente um pressgio, um sinal do destino anunciando que esse seria o ltimo ano da anci. Inmeros pressgios registrados 
pela histria basearam-se num simbolismo que no era melhor do que esse. Evidentemente explico essa ocorrncia como uma casualidade sem nenhum outro sentido.
         O caso teria sido completamente diferente se eu tivesse percorrido o caminho a p e, "imerso em pensamentos" ou "por distrao", tivesse chegado  casa 
da rua paralela em vez da casa certa. Isso eu no explicaria como um acaso, mas como um ato com uma inteno inconsciente e que requereria interpretao.  provvel 
que eu desse a esse "errar o caminho" a interpretao de que no esperava ver a anci por muito mais tempo.
         Portanto, diferencio-me de uma pessoa supersticiosa pelo seguinte:
         No creio que um acontecimento de cuja ocorrncia minha vida anmica no tenha participado possa ensinar-me algo oculto sobre a forma futura da realidade; 
acredito, porm, que uma manifestao inintencional de minha prpria atividade anmica de fato revele alguma coisa oculta, muito embora seja algo que s pertence 
a minha vida anmica [no  realidade externa]; creio no acaso (real) externo, sem dvida, mas no em casualidades (psquicas) internas. Com o supersticioso acontece 
o contrrio: ele nada sabe da motivao de seus atos casuais e seus atos falhos, e acredita que existem casualidades psquicas; por outro lado, ele tende a atribuir 
ao acaso externo um sentido que se manifestar em acontecimentos reais, e a ver no acaso um meio de expresso de algo que se oculta dele no mundo externo. So duas 
as diferenas entre mim e o supersticioso: primeiro, ele projeta para fora uma motivao que eu procuro dentro; segundo, ele interpreta mediante um acontecimento 
o acaso cuja origem atribuo a um pensamento. Mas o oculto para ele corresponde ao que para mim  inconsciente, e  comum a ns dois a compulso a no encarar o acaso 
como acaso, mas a interpret-lo.
         
         Presumo que esse desconhecimento consciente e esse saber inconsciente da motivao das casualidades psquicas sejam uma das razes psquicas da superstio. 
Porque o supersticioso nada sabe da motivao de seus prprios atos casuais, e porque o fato dessa motivao pressiona pela obteno de um lugar no campo de seu 
reconhecimento, ele se v forado a situ-la, por deslocamento, no mundo externo. Se existe tal conexo, ela dificilmente estar limitada a esse caso singular. De 
fato, creio que grande parte da viso mitolgica do mundo, que se estende at as mais modernas religies, nada mais  do que a psicologia projetada no mundo externo. 
O obscuro reconhecimento (a percepo endopsquica por assim dizer) dos fatores psquicos e das relaes do inconsciente espelha-se -  difcil diz-lo de outra 
maneira, e aqui a analogia com a parania tem que vir em nosso auxlio - na construo de uma realidade sobrenatural, que se destina a ser retransformada pela cincia 
na psicologia do inconsciente. Poder-se-ia ousar explicar dessa maneira os mitos do paraso e do pecado original, de Deus, do bem e do mal, da imortalidade etc., 
e transformar a metafsica em metapsicologia. O abismo entre o deslocamento do paranico e o do supersticioso  menos amplo do que parece  primeira vista. Quando 
os seres humanos comearam a pensar, viram-se constrangidos, como se sabe, a explicar o mundo externo antropomorficamente, atravs de uma profuso de personalidades 
concebidas a sua semelhana; as casualidades, supersticiosamente interpretadas, eram portanto atos e manifestaes de pessoas, e eles se comportavam, por conseguinte, 
tal como os paranicos, que tiram concluses dos sinais insignificantes que lhe so fornecidos por outras pessoas, e tal como todas as pessoas normais, que com todo 
o direito baseiam sua estimativa do carter de seus semelhantes nos atos casuais e no deliberados destes.  apenas em nossa cosmoviso [Weltanschauung] moderna 
e cientfica, mas de modo algum acabada, que a superstio parece to fora de lugar; na viso de mundo da poca e povos pr-cientficos, ela era justificada e conseqente.
         O romano que desistia de um empreendimento importante ao ver uma revoada de pssaros agourentos tinha razo, portanto, em termos relativos; seu comportamento 
era compatvel com suas premissas. Mas quando renunciava ao empreendimento por ter tropeado na soleira de sua porta ("un Romain retournerait"), era tambm, num 
sentido absoluto, superior a ns, descrentes; era um melhor conhecedor de alma do que nos empenhamos em ser.  que esse tropeo deve ter-lhe revelado a existncia 
de uma dvida, de uma corrente contrria agindo em seu interior, cuja fora, no momento da execuo, poderia reduzir a fora de sua inteno. De fato s se tem certeza 
do xito completo quando todas as foras anmicas unem-se na luta pela meta desejada. Qual foi a resposta do Guilherme Tell, de Schiller, que hesitou tanto em atirar 
na ma sobre a cabea do filho, quando o governador lhe perguntou por que se munira de uma segunda flecha?
         Mit diesem zweiten Pfeil durchschoss ich - Euch,Wenn ich mein liebes Kind getroffen htte,Und Euer - wahrlich, htt' ich nicht gefehlt.
         
         (D) Quem tiver tido a oportunidade de estudar as moes anmicas ocultas dos seres humanos atravs da psicanlise tambm ter algo de novo a dizer sobre 
a qualidade dos motivos inconscientes que se expressam na superstio. Pode-se reconhecer com extrema clareza, nos neurticos que sofrem de pensamentos obsessivos 
e estados obsessivos - pessoas freqentemente muito inteligentes -, que a superstio deriva de moes cruis e hostis suprimidas. A superstio , em grande parte, 
a expectativa de infortnios, e uma pessoa que tenha freqentemente desejado o mal a outrem, mas tenha sido educada para o bem e por isso recalcado tais desejos 
no inconsciente, ser especialmente propensa a esperar o castigo por sua maldade inconsciente como um infortnio que a ameaa de fora.
         Embora admitamos que estas nossas observaes de maneira alguma esgotam a psicologia da superstio, somos forados pelo menos a tocar numa questo: se 
devemos negar inteiramente as razes reais da superstio, se de fato no existem pressentimentos, sonhos profticos, experincias telepticas, manifestaes de 
foras sobrenaturais e coisas semelhantes. Estou longe de pretender condenar to cabalmente esses fenmenos, dos quais tantas observaes detalhadas tm sido feitas 
inclusive por homens de intelecto destacado, e que melhor seria transformar em objeto de outras investigaes.  at de se esperar que parte dessas observaes venha 
a ser explicada por nosso reconhecimento incipiente dos processos anmicos inconscientes, sem que haja necessidade de modificaes radicais nas concepes que hoje 
sustentamos. Se ficasse provada a existncia de ainda outros fenmenos - por exemplo, os afirmados pelos espritas -, trataramos apenas de modificar nossas "leis" 
da maneira exigida pelo novo saber, sem abalarmos nossa crena na coerncia das coisas no mundo.
         
         No quadro destas discusses, a nica resposta que posso dar s questes aqui levantadas  subjetiva, ou seja, de acordo com minha experincia pessoal. Infelizmente, 
devo confessar que sou um daqueles indivduos indignos diante de quem os espritos suspendem suas atividades e o sobrenatural se evade, de modo que nunca estive 
na situao de experimentar por mim mesmo algo que pudesse despertar uma crena no milagroso. Como todo ser humano, tenho tido pressentimentos e vivenciado infortnios, 
mas os dois no coincidiram entre si, de sorte que nada se seguiu aos pressentimentos e o infortnio se abateu sobre mim sem aviso prvio. Nos tempos em que, jovem 
ainda, morei sozinho numa cidade estranha, muitas vezes ouvia meu nome ser chamado de repente por uma voz inconfundvel e querida; anotava ento o momento exato 
de alucinao e, apreensivo, perguntava s pessoas que haviam ficado em minha terra o que acontecera naquela hora. Nada havia acontecido. Para contrabalanar, houve 
uma ocasio posterior em que continuei trabalhando com meus pacientes, imperturbvel e sem nenhum pressentimento, enquanto um de meus filhos corria perigo de vida 
por causa de uma hemorragia. Alm disso, nunca pude reconhecer como um fenmeno real nenhum dos pressentimentos que me foram relatados pelos pacientes. - Contudo, 
devo confessar que nos ltimos anos tive algumas experincias notveis que poderiam ter sido facilmente explicadas mediante a hiptese da transferncia teleptica 
de pensamentos.
         A crena nos sonhos profticos tem muitos adeptos porque pode invocar em seu apoio o fato de que muitas coisas realmente se realizam no futuro da maneira 
como o desejo as construra no sonho. Mas pouco h de surpreendente nisso, e em geral h tambm entre o sonho e sua realizao uma ampla divergncia que a credulidade 
do sonhador prefere negligenciar. Um bom exemplo de sonho que com justa razo poderia ser chamado de proftico foi-me fornecido certa vez, para uma anlise detalhada, 
por uma paciente inteligente e veraz. Ela me contou que uma vez sonhara ter encontrado um antigo amigo e mdico da famlia diante de certa loja numa certa rua, e 
que na manh seguinte, ao ir ao centro da cidade, de fato o encontrara exatamenteno lugar indicado no sonho. Posso observar que nenhum acontecimento subseqente 
comprovou a importncia dessa milagrosa coincidncia que, portanto, no pde ser justificada pelo que estava reservado no futuro.
         Um exame cuidadoso constatou que no havia nenhuma prova de que essa dama se houvesse recordado do sonho na manh seguinte a ele, ou seja, antes do passeio 
e do encontro. Ela no pde fazer nenhuma objeo a uma exposio dos fatos que retirava do episdio qualquer caracterstica milagrosa e deixava apenas um interessante 
problema psicolgico. Uma manh, ela ia andando pela rua em questo, encontrou o velho mdico da famlia diante de certa loja e, ao v-lo, sentiu-se convencida de 
ter sonhado na noite anterior com esse encontro naquele exato lugar. A anlise pde ento mostrar, com grande probabilidade, de que modo ela chegara a esse sentimento 
de convico, ao qual, segundo regras universais, no se pode negar um certo direito  credibilidade. Uma reunio previamente esperada num lugar especfico equivale, 
de fato, a um encontro [amoroso]. O antigo mdico da famlia despertou nela a lembrana de velhos tempos em que os encontros com uma terceira pessoa, tambm amigo 
do mdico, tinham sido muito significativos para ela. Desde ento ela havia mantido suas relaes com esse cavalheiro e em vo esperava por ele na vspera do pretenso 
sonho. Se eu pudesse relatar mais detalhadamente as circunstncias do caso, ser-me-ia fcil mostrar que a iluso de ter tido um sonho proftico, ao ver o amigo dos 
velhos tempos, equivalera aproximadamente ao seguinte comentrio: "Ah, doutor! agora o senhor me faz lembrar dos tempos antigos em que eu nunca tinha de esperar 
em vo por N. quando marcvamos um encontro."
         Da conhecida "coincidncia notvel" de encontrar uma pessoa em quem se estava pensando justamente naquela hora tenho um exemplo observado em mim mesmo, 
simples e fcil de explicar, que provavelmente constitui um bom modelo para ocorrncias semelhantes. Alguns dias depois de me outorgarem o ttulo de professor, que 
confere considervel autoridade nos Estados de organizao monarquista, ia eu passeando pelo centro da cidade quando, de repente, meus pensamentos se voltaram para 
uma fantasia infantil de vingana dirigida contra determinado casal. Meses antes, eles me haviam chamado para ver sua filhinha, em quem surgira um interessante sintoma 
obsessivo logo depois de um sonho.
         
         Interessei-me muito pelo caso, cuja gnese eu acreditava discernir; entretanto, minha oferta de tratamento foi recusada pelos pais, e eles me deram a entender 
que estavam pensando em consultar uma autoridade estrangeira que realizava curas pelo hipnotismo. Eu fantasiava que, aps o fracasso total dessa tentativa, os pais 
me rogavam que institusse meu tratamento, dizendo que agora tinham plena confiana em mim, etc. Eu, no entanto, respondia: "Ah, sim, agora vocs tm confiana em 
mim, agora que tambm me tornei professor. O ttulo nada fez por alterar minhas aptides; se vocs no puderam usar meus servios enquanto eu era docente, tambm 
podem prescindir como professor." - Nesse ponto, minha fantasia foi interrompida por um sonoro "Bom dia, senhor professor!" e quando ergui os olhos, vi que passava 
por mim exatamente o mesmo casal de quem eu acabara de me vingar mediante a recusa de sua proposta. Uma reflexo imediata destruiu a impresso de algo milagroso. 
Eu estivera andando em direo ao casal por uma rua larga, reta e quase deserta; a cerca de vinte passos deles, erguera o olhar por um momento, vislumbrara de relance 
suas figuras imponentes e os reconhecera, mas afastara essa percepo - seguindo o modelo de uma alucinao negativa - pelas razes emocionais que ento se efetivaram 
na fantasia surgida de modo aparentemente espontneo. [1]
         Eis outra "resoluo de um aparente pressentimento", desta vez de Otto Rank (1912):
         "Faz algum tempo, eu mesmo vivenciei uma curiosa variao da 'coincidncia notvel' de encontrar uma pessoa em quem se estava pensando naquele exato momento. 
Pouco antes do Natal, eu me dirigia ao Banco Austro-Hngaro para trocar papel-moeda por dez coroas novas de prata que eu pretendia oferecer como presentes. Imerso 
em fantasias ambiciosas ligadas ao contraste entre meu pequeno peclio e as pilhas e dinheiro guardadas no edifcio do banco, entrei na estreita ruela onde ficava 
o banco. Vi um automvel estacionado diante da porta e muita gente entrando e saindo. Pensei comigo mesmo: os empregados ho de ter tempo mesmo para minhas escassas 
coroas; em todo caso, serei rpido; vou entregar a nota que quero trocar e dizer 'D-me ouro [Gold], por favor'. Notei meu erro na mesma hora - eu deveria pedir 
prata,  claro - e despertei de minhas fantasias. Estava j a poucos passos da entrada e vi, caminhando em minha direo, um jovem que pensei reconhecer, mas por 
causa de minha miopia ainda no conseguiaidentific-lo com clareza. Quando ele chegou mais perto, reconheci-o como um colega de escola de meu irmo, de nome Gold, 
de cujo irmo, que era um escritor famoso, eu esperara considervel ajuda no comeo de minha carreira literria. Essa ajuda, porm, no se efetivara, e nem tampouco 
o esperado sucesso material que fora o tema de minha fantasia a caminho do banco. Portanto, mergulhado em minhas fantasias, devo ter-me apercebido inconscientemente 
da aproximao do Sr. Gold, o que foi representado em minha conscincia (que estava sonhando com o sucesso material) sob forma de eu resolver pedir ouro ao caixa, 
em vez da prata, de menor valor. Por outro lado, entretanto, o fato paradoxal de meu inconsciente ser capaz de perceber um objeto que meus olhos s conseguem reconhecer 
depois parece explicar-se, em parte pelo que Bleuler (1910) chama de 'prontido do complexo [Complexbereitschaft]'. Este, como vimos, estava orientado para as questes 
materiais e, desde o comeo, contrariando melhores informaes de que eu dispunha, guiara meus passos para o edifcio onde s se trocam ouro e papel-moeda."
         Na [1] categoria do milagroso e do "inslito" devemos tambm incluir a peculiar sensao que se tem, em certos momentos e situaes, de j ter vivenciado 
exatamente aquilo um dia, de j ter estado antes naquele mesmo lugar, sem que se consiga, apesar de todos os esforos, recordar claramente a ocasio anterior que 
assim se manifesta. Sei que estou apenas seguindo o uso lingstico descompromissado ao chamar de "sensao" aquilo que brota na pessoa nesses momentos; trata-se 
sem dvida de um juzo e, mais exatamente, de um juzo perceptivo, mas esses casos tm um carter inteiramente peculiar, e no se deve desconsiderar que aquilo que 
se procura nunca  lembrado. No sei se esse fenmeno do "dj vu" j foi seriamente oferecido como prova de uma existncia psquica anterior do indivduo, mas os 
psiclogos decerto tm voltado seu interesse para ele e tm-se empenhado em resolver o problema pelos mais diversos caminhos especulativos. Nenhum das tentativas 
de explicao por eles apresentadas parece-me correta, pois nenhuma leva em conta outra coisa que no as manifestaes concomitantes e as condies favorecedoras 
do fenmeno. Os processos psquicos que, de acordo com minhas observaes, so os nicos responsveis pela explicao do "dj vu" - a saber, as fantasias inconscientes 
- ainda so geralmente negligenciados pelos psiclogos, mesmo hoje em dia.
         
         No meu entender,  errneo chamar de iluso o sentimento de j ser ter vivenciado alguma coisa antes.  que nesses momentos realmente se toca em algo que 
j se vivenciou antes, s que isso no pode ser lembrado conscientemente porque nunca foi consciente. Dito em termos sucintos, a sensao do "dj vu" corresponde 
 recordao de uma fantasia inconsciente. Existem fantasias (ou devaneios) inconscientes, assim como existem criaes conscientes do mesmo tipo, que todos conhecem 
por experincia prpria.
         Sei que o assunto mereceria o mais exaustivo tratamento, mas aqui apresentarei apenas a anlise de um nico caso de "dj vu" em que a sensao se caracterizou 
por uma intensidade e persistncia especiais. Uma dama que conta agora trinta e sete anos afirmou ter a mais ntida lembrana de, aos doze anos e meio, ter visitado 
pela primeira vez algumas colegas de escola no campo e, ao entrar no jardim, ter experimentado a sensao imediata de j haver estado ali antes. Essa sensao se 
repetiu quando ela entrou nos aposentos da casa, a tal ponto que acreditou saber de antemo qual seria o cmodo seguinte, que vista se teria dele etc. Mas a possibilidade 
de que esse sentimento de familiaridade devesse sua origem a uma visita anterior  casa e ao jardim, talvez na primeira infncia, foi absolutamente excluda e refutada 
pelas indagaes que ela fez a seus pais. A dama que fez esse relato no estava em busca de nenhuma explicao psicolgica, mas via a ocorrncia desse sentimento 
como uma indicao proftica da importncia que essas mesmas amigas adquiririam mais tarde para sua vida emocional. Entretanto, o exame das circunstncias em que 
o fenmeno ocorreu nela mostra-nos o caminho para uma outra concepo. Na poca em que fez essa visita, ela sabia que as meninas tinham um nico irmo, que estava 
gravemente enfermo. Durante a visita, de fato chegou a v-lo, achou-o com uma aparncia muito ruim e disse a si mesma que ele logo morreria. Ora, o prprio irmo 
dela estivera perigosamente enfermo, com difteria, alguns meses antes; durante sua doena, ela fora afastada da casa dos pais por vrias semanas, indo morar com 
um parente. Ela acreditava que o irmo a havia acompanhado nessa visita ao campo; achava inclusive que essa fora a primeira viagem mais longa dele depois da doena; 
mas sua memria era estranhamente imprecisa nesses pontos, ao passo que de todos os outros detalhes, em especial do vestido que estava usando naquele dia, ela guardava 
uma imagem ultraclara. [1] [Cf. nota de rodap, em [1]]. Para o conhecedor, no haver dificuldade em concluir desses indcios que, naquela poca, a expectativa 
de que o irmo morresse desempenhara um papel importante nos pensamentos da menina e nunca se tornara consciente, ou ento, aps o desfecho favorvel da doena, 
sucumbira a um enrgico recalcamento. Se as coisas tivessem terminado de outra maneira, ela teria precisado usar um vestido diferente, ou seja, um traje de luto. 
Ela encontrou uma situao anloga na casa das amigas, cujo nico irmo corria perigo de morte iminente, o que na verdade sucedeu pouco depois. Ela deveria ter-se 
lembrado conscientemente de que ela prpria atravessara essa situao poucos meses antes: em vez de se lembrar - o que foi impedido pelo recalque -, transferiu sua 
sensao de recordar algo para o ambiente que a cercava, o jardim e a casa, e caiu presa da "fausse reconnaissance" de j ter visto tudo aquilo antes, tal como se 
mostrava. Pelo fato de ter ocorrido o recalmento podemos concluir que sua expectativa anterior da morte do irmo no estivera muito afastada do carter de uma fantasia 
desejante. Nesse caso, ela teria ficado como filha nica. Em sua neurose posterior, ela sofria com a mais extrema intensidade a angstia de perder os pais, por trs 
da qual, como de costume, a anlise pde revelar um desejo inconsciente com o mesmo contedo.
         De maneira semelhante, pude derivar da constelao emocional do momento minhas prprias experincias fugazes de "dj vu". "Esta seria de novo uma ocasio 
propcia para despertar a fantasia (inconsciente e desconhecida) que se formou em mim nesta ou naquela poca como um desejo de melhorar a situao." - Essa explicao 
do "dj vu", [1] at o momento s foi levada em considerao por um nico observador. O Dr. Ferenczi, a quem a terceira edio [1910] deste livro deve tantas contribuies 
valiosas, escreve-me o seguinte a respeito do assunto: "Tanto em mim mesmo como em outras pessoas, convenci-me de que o inexplicvel sentimento de familiaridade 
deve ser rastreado a sua origem em fantasias inconscientes, dentre as quais uma  inconscientemente lembrada numa situao atual. Num de meus pacientes aconteceu 
algo aparentemente diferente, mas, na realidade, inteiramente anlogo. Esse sentimento retornava nele com muita freqncia, mas mostrava regularmente ter-se originado 
de um fragmento esquecido (recalcado) de um sonho da noite anterior. Portanto, parece que o 'dj vu' no s pode derivar-se dos sonhos diurnos, como tambm dos 
sonhos noturnos."
         
         Eu soube depois que Grasset (1904) deu a esse fenmeno uma explicao que se aproxima muito da minha.
         Em 1913, [1] descrevi num pequeno ensaio outro fenmeno muito semelhante ao "dj vu" [1914a]. Trata-se do "dj racont", a iluso de j ter contado algo 
particularmente interessante quando ele aflora durante o tratamento psicanaltico. Nessas ocasies, o paciente afirma, com todas as mostras de certeza subjetiva, 
j ter contado h muito tempo uma determinada lembrana. Mas o mdico tem certeza do contrrio e, via de regra, consegue convencer o paciente de seu erro. A explicao 
desse interessante ato falho , provavelmente, que o paciente teve o impulso e o propsito de fazer essa comunicao, mas deixou de faz-lo, e agora toma a lembrana 
do primeiro como substituto do segundo, ou seja, a execuo de seu propsito.
         Um estado de coisas parecido, e provavelmente tambm o mesmo mecanismo podem ser vistos no que Ferenczi (1915) chamou de "atos falhos supostos". Acreditamos 
haver algo - um objeto - que esquecemos, extraviamos ou perdemos, mas podemos convencer-nos de no ter feito nada disso e de que tudo est em ordem. Por exemplo, 
uma paciente volta ao consultrio do mdico com a motivao de buscar o guarda-chuva que deixara ali, mas o mdico observa que esse guarda-chuva est... na mo dela. 
Portanto, houve um impulso para esse ato falho, impulso este que bastou para substituir sua execuo. Salvo por essa diferena, o ato falho suposto equivale ao ato 
falho real. Mas , por assim dizer, mais barato.
         (E) Recentemente, quando tive oportunidade de relatar a um colega de formao filosfica alguns exemplos do esquecimento de nomes, com suas respectivas 
anlises, ele se apressou a responder: "Tudo isso  muito bonito, mas em mim o esquecimento de nomes acontece de outra maneira."  bvio que no se pode tratar a 
questo com tanta facilidade; creio que meu colega nunca havia pensado em analisar o esquecimento de um nome, nem tampouco soube dizer de que outra maneira as coisas 
se passavam com ele. Mas sua observao toca num problema que muitas pessoas talvez se incluem a situarem primeiro plano. Ser que a soluo aqui fornecida para 
os atos falhos e os atos casuais tem aplicao genrica ou apenas em certos casos? E, no caso desta ltima, quais so as condies em que  lcito invoc-la para 
explicar fenmenos que tambm poderiam ter-se produzido de outra maneira? Para responder a essa questo, minhas experincias deixam-me em apuros. Posso apenas advertir 
contra a suposio de que seja raro encontrar uma relao do tipo aqui assinalado, pois todas as vezes que pus isso  prova, em mim mesmo ou em meus pacientes, a 
relao se deixou demonstrar tal como nos exemplos relatados, ou pelo menos houve boas razes para se supor que ela existia. No surpreende que nem sempre se chegue 
a descobrir o sentido oculto de um ato sintomtico, pois a magnitude das resistncias internas que se opem  soluo entra em conta como um fator decisivo. Tampouco 
se pode interpretar cada um dos prprios sonhos ou dos sonhos dos pacientes; para comprovar a validade geral da teoria, basta que se consiga penetrar em parte da 
extenso da trama oculta. Um sonho que se mostrar refratrio  tentativa de resolv-lo no dia seguinte muitas vezes permite que seu segredo seja arrancado uma semana 
ou um ms depois, quando uma mudana real ocorrida no entretempo j tiver reduzido as valncias psquicas em contenda. O mesmo se aplica  soluo dos atos falhos 
e dos atos sintomticos. O exemplo de lapso de leitura da pgina 116 ("Num barril pela Europa") deu-me a oportunidade de mostrar como um sintoma a princpio insolvel 
torna-se acessvel  anlise depois que se relaxa o interesse real pelos pensamentos recalcados. Enquanto persistiu a possibilidade de meu irmo obter o cobiado 
ttulo antes de mim, esse lapso de leitura resistiu a todos os repetidos esforos de anlise; depois que essa precedncia se tornou improvvel, o caminho para a 
soluo esclareceu-se repentinamente. Portanto, seria incorreto afirmar que todos os casos que resistem  anlise tenham-se formado por um mecanismo diferente do 
mecanismo psquico aqui revelado; tal suposioexigiria mais do que algumas provas negativas. Alm disso, a presteza com que se acredita numa explicao diferente 
dos atos falhos e dos atos sintomticos, provavelmente encontrada em todas as pessoas sadias,  inteiramente desprovida de valor comprobatrio; ela , obviamente, 
uma manifestao das mesmas foras anmicas que produziram o segredo e que por isso tambm lutam por preserv-lo e resistem a sua elucidao.
         Por outro lado, no devemos ignorar o fato de que os pensamentos e moes recalcados certamente no criam por si mesmos sua expresso nos atos sintomticos 
e nos atos falhos. A possibilidade tcnica dessa derrapagem das inervaes tem que estar dada independentemente deles, sendo ento prontamente explorada pela inteno 
do recalcado de se impor  conscincia. No caso dos atos falhos lingsticos, as investigaes detalhadas dos filsofos e fillogos tm-se empenhado em determinar 
quais so as relaes estruturais e funcionais que se colocam a servio de tal inteno. Se fizermos uma distino, nos determinantes dos atos falhos e dos atos 
sintomticos, entre o motivo inconsciente, por um lado, e as relaes fisiolgicas e psicofsicas favorveis que vm a seu encontro, por outro, permanecer em aberto 
a questo de saber se, dentro da faixa da normalidade, haver ainda outros fatores capazes de produzir, tal como faz o motivo inconsciente e em lugar dele, atos 
falhos e atos sintomticos por meio dessas relaes. No  minha tarefa responder a essa pergunta.
         Tampouco  meu propsito [1] exagerar as diferenas, que j so suficientemente grandes, entra a viso popular e a viso psicanaltica dos atos falhos. 
Preferiria chamar ateno para os casos em que essas diferenas perdem muito de sua nitidez. No que concerne aos exemplos mais simples e mais inconspcuos de lapsos 
da fala ou da escrita, nos quais talvez haja apenas uma contrao de palavras ou uma omisso de palavras e letras, as interpretaes mais complexas de nada servem. 
Do ponto de vista da psicanlise, cabe afirmar que algum distrbio da inteno revelou-se nesses casos, mas no se pode dizer de onde proveio a perturbao e qual 
era seu objetivo.  que ela no conseguiu outra coisa seno manifestar sua existncia. Nesses casos tambm se pode ver como o ato falho  favorecido por circunstncias 
de valor fontico e por associaes psicolgicas prximas, fato esse jamais contestado por ns. Contudo,  uma justa exigncia cientfica que tais casos rudimentares 
de lapsos da fala ou da escrita sejam julgados com base nos casos mais expressivos, cuja investigao produz concluses to inequvocas sobre a causao dos atos 
falhos.
         
         (F) Desde a discusso dos lapsos da fala [em [1]], vimo-nos contentando em demonstrar que os atos tm uma motivao oculta, e com a ajuda da psicanlise 
abrimos caminho para o conhecimento dessa motivao. At aqui, deixamos quase sem considerao a natureza geral e as peculiaridades dos fatores psquicos que se 
expressam nos atos falhos, ou pelo menos ainda no tentamos defini-los mais de perto nem comprovar sua normatividade. Tampouco tentaremos agora abordar o assunto 
exaustivamente, j que nossos primeiros passos logo nos ensinariam que  melhor explorar esse campo por outro ngulo. Podem-se levantar aqui diversas questes que 
quero pelo menos mencionar e descrever em linhas gerais. (1) Quais so o contedo e a origem dos pensamentos e moes que se insinuam por meio do atos falhos e dos 
atos casuais? (2) Quais so as condies que compelem e habilitam um pensamento ou uma moo a se servirem desses atos como meio de expresso? (3) Haver possibilidade 
de estabelecer relaes constantes e inequvocas entre o tipo de ato falho e as qualidades daquilo que se expressa atravs dele?
         Comearei por reunir algum material para responder  ltima pergunta. Na discusso dos exemplos de lapsos da fala [em [1]], consideramos necessrio ir alm 
do contedo daquilo que se tinha a inteno de dizer, e fomos obrigados a procurar a causa da perturbao do dito em alguma coisa fora da inteno. Essa causa era 
bvia numa srie de casos e era conhecida pela conscincia do falante. Nos exemplos que pareciam mais simples e transparentes, ela era uma outra verso do mesmo 
pensamento, que soava igualmente autorizada [a extern-lo] e perturbava a expresso dele, sem que fosse possvel explicar por que uma verso sucumbira e a outra 
viera  tona (so as "contaminaes" de Meringer e Mayer [em [1]]). Num segundo grupo de casos, o motivo da derrota de uma verso era uma considerao que, no obstante, 
no se revelava suficientemente forte para conseguir uma continncia completa ("para vir [] Vorschwein" [em [1]]). A verso retida era tambm claramente consciente. 
S a respeito do terceiro grupo pode-se afirmar sem restries que o pensamento perturbador diferia do pensamento intencionado, e apenas nesses casos parece possvel 
traar uma distino essencial. Ou o pensamento perturbador relaciona-se com o pensamentoperturbado por associaes de pensamento (perturbao por contradio interna), 
ou ento lhe  essencialmente alheio, e a palavra perturbada s se liga ao pensamento perturbador - que  com freqncia inconsciente - por uma estranha associao 
externa. Nos exemplos que extra de minhas psicanlises, o dito inteiro est sob a influncia de pensamentos que se tornaram ativos mas que, ao mesmo tempo, permaneceram 
inteiramente inconscientes; estes se denunciam pela prpria perturbao ("Kalapperschlange" - "Kleopatra" [em [1]]) ou exercem uma influncia indireta, possibilitando 
s diferentes partes do dito conscientemente intencionado se perturbarem entre si. ("Ase natmen", por trs do qual esto a "rua Hasenauer" e as reminiscncias de 
uma francesa [ver em [1]-[2]].) Os pensamentos retidos ou inconscientes dos quais decorre a perturbao da fala so das mais diversas origens. Esta sinopse, portanto, 
no nos revela nenhuma generalizao.
         O exame comparativo de meus exemplos de lapsos da leitura e da escrita leva s mesmas concluses. Como acontece com os lapsos da fala, certos casos parecem 
originar-se de um trabalho de condensao sem nenhuma outra motivao (p. ex., o "Apfe" [ver em [1]-[2]]). Mas agradaria saber se no  necessrio preencher algumas 
condies especiais para que ocorra essa condensao, que  normal no trabalho do sonho, mas constitui uma falha em nosso pensamento de viglia; e dos prprios exemplos 
no extramos nenhum esclarecimento sobre isso. Eu me recusaria a concluir disso, entretanto, que no existe nenhuma outra condio, seno, por exemplo, o relaxamento 
da ateno consciente, j que sei por outras fontes que so justamente as atividades automticas as que se caracterizam por serem corretas e dignas de confiana. 
Preferiria enfatizar que aqui, como  to freqente na biologia, as circunstncias normais ou prximas do normal so objetos de investigao menos propcios do que 
as patolgicas. Espero que o que permanece obscuro na elucidao dessas perturbaes mais leves seja esclarecido pela explicao das perturbaes graves.
         Tampouco nos lapsos da leitura e da escrita faltam exemplos em que possamos discernir uma motivao mais remota e complicada. "Num barril pela Europa" [ver 
em [1]]  uma perturbao da leitura que se esclarece pela influncia de um pensamento remoto e essencialmente alheio, surgido de uma moo recalcada de inveja e 
ambio, e que utilizou uma "reviravolta" [Wechsel] da palavra "Befrderung" para estabelecer um vnculo com o tema indiferente e inocente que estava sendo lido. 
No caso de "Burckhard" [ver em [1]], o prprio nome constitui uma dessas "reviravoltas".
         
          inegvel que as perturbaes das funes da fala ocorrem com maior facilidade e exigem menos das foras perturbadoras do que as perturbaes em outras 
funes psquicas. [em [1]-[2].]
         Situamo-nos em outro terreno quando de trata de examinar o esquecimento em seu sentido estrito, ou seja, o esquecimento das experincias passadas. (Para 
distingui-los desse esquecimento em sentido estrito, poderamos dizer que o esquecimento de nomes prprios e de palavras estrangeiras, descrito nos Captulo I e 
II,  um "lapso de memria", e que o esquecimento de intenes  uma "omisso".) As condies bsicas do processo normal de esquecimento so desconhecidas. Tambm 
convmlembrar que nem tudo o que se supe esquecido realmente o est. Nossa explicao refere-se aqui apenas aos casos em que o esquecimento provoca estranheza, 
na medida em que infringe a regra de que as coisas sem importncia so esquecidas, mas as importantes so preservadas pela memria. A anlise dos exemplos de esquecimento 
que parecem requerer uma explicao especial revela que o motivo do esquecimento  invariavelmente o desprazer de lembrar algo que pode evocar sentimentos penosos. 
Chegamos  conjectura de que esse motivo aspira a se manifestar universalmente na vida psquica, mas outras foras que agem em sentido contrrio impedem-no de se 
efetivar regularmente. O alcance e a significao desse desprazer em recordar impresses penosas parecem merecer o mais cuidadoso exame psicolgico; alm disso, 
no se pode separar desse contexto mais amplo a questo de saber quais as condies particulares que possibilitam em cada caso esse esquecimento, que  uma aspirao 
universal.
         No esquecimento das intenes outro fator passa ao primeiro plano. O conflito, apenas conjeturado no recalcamento daquilo que era penoso lembrar, torna-se 
aqui palpvel e, na anlise dos exemplos,  possvel reconhecer regularmente uma contravontade que se ope  inteno sem aboli-la. Como nos atos falhos j descritos, 
tambm aqui  possvel reconhecer dois tipos de processos psquicos [ver em [1]-[2]]: ou a contravontade se volta diretamente contra a inteno (nos propsitos de 
alguma importncia), ou  essencialmente alheia  prpria inteno e estabelece um vnculo com ela por meio de uma associao externa (no caso de intenes quase 
indiferentes).
         O mesmo conflito rege o fenmeno dos equvocos na ao. O impulso que se manifesta na perturbao do ato  freqentemente um impulso contrrio, mas, com 
freqncia ainda maior,  um impulso inteiramente alheio, que apenas aproveita a oportunidade para se expressar perturbando a ao enquanto ela  realizada. Os casos 
em que a perturbao resulta de uma contradio interna so os mais significativos e abrangem tambm os atos mais importantes.
         Nos atos casuais ou nos atos sintomticos o conflito interno passa a ser muito menos importante. Essas manifestaes motoras,  quais a conscincia d pouco 
valor ou que ignora por completo, servem assim para expressar uma ampla variedade de moes inconscientes ou contidas; em sua maioria, so representaes simblicas 
de fantasias ou desejos.
         
         Quanto  primeira questo, sobre a origem que teriam os pensamentos e moes que se expressam nos atos falhos [em [1]], pode-se dizer que numa srie de 
casos  fcil mostrar que os pensamentos perturbadores provm de moes suprimidas da vida anmica. Nas pessoas sadias, os sentimentos e impulsos egostas, invejosos 
e hostis, sobre os quais recai o peso da educao moral, no raro se valem dos atos falhos como o caminho para expressarem de algum modo seu poder, que inegavelmente 
existe mas no  reconhecido pelas instncias anmicas superiores. O consentimento nesses atos falhos e atos casuais equivale em boa medida a uma cmoda tolerncia 
do imoral. Entre essas moes suprimidas no  pequeno o papel desempenhado pelas vrias correntes sexuais.  um acidente de meu material que justamente elas apaream 
to raramente entre os pensamentos revelados pela anlise em meus exemplos. Como tive de submeter  anlise exemplos retirados sobretudo da minha prpria vida anmica, 
a escolha foi parcial desde o incio e visou a excluir o sexual. Em outras ocasies, parece que os pensamentos perturbadores brotam de objees e consideraes perfeitamente 
inocentes.
         Chegamos agora ao momento de responder  segunda pergunta, ou seja, que condies psicolgicas vigoram para compelir um pensamento a buscar sua expresso 
no numa forma completa, mas como que parasitariamente, como um modificao e perturbao de outro pensamento [em [1]]. Os exemplos mais destacados de atos falhos 
sugerem que essas condies devem ser buscadas numa relao com a admissibilidade  conscincia, no carter mais ou menos decidido com que trazem a marca do "recalcado". 
No entanto, se seguirmos esse carter ao longo da srie de exemplos, veremos que ele se dissolve em indcios cada vez mais vagos. A inclinao a descartar algo como 
perda de tempo - a ponderao de que um certo pensamento realmente no vem ao caso para o assunto em pauta - parece desempenhar, como motivo para repelir um pensamento 
que ento fica destinado a se expressar atravs da perturbao de outro, o mesmo papel que a condenao moral de um impulso emocional rebelde ou que a provenincia 
de cadeias de pensamentos totalmente inconscientes. O discernimento da natureza genrica do condicionamento dos atos falhos e dos atos casuais no pode ser obtido 
dessa maneira. Um nico fato significativo emerge dessas investigaes: quanto mais inocente  a motivao do ato falho, e quanto menos objetvel, e portanto menos 
inadmissvel  conscincia,  o pensamento que nele se expressa, maior  a facilidade de explicar o fenmeno quando se volta a ateno para ele. Os casos mais leves 
de lapsos da fala so notados de imediato e corrigidos espontaneamente. Quando a motivao provm demoes realmente recalcadas, faz-se necessria para a soluo 
uma anlise cuidadosa, que s vezes pode at tropear em dificuldades ou fracassar.
          inteiramente justificado, portanto, que tomemos o resultado desta ltima investigao como indcio de que a explicao satisfatria das condies psicolgicas 
dos atos falhos e dos atos casuais deve ser buscada por outro caminho e por uma abordagem diferente. Por conseguinte, queira o indulgente leitor ver nestas discusses 
a indicao das linhas de fratura ao longo das quais este tema foi arrancado, de maneira bastante artificial, de um contexto mais amplo.
         (G) Cabe dizer algumas palavras ao menos para indicar a orientao desse contexto mais amplo. O mecanismo dos atos falhos e dos atos casuais, tal como passamos 
a conhec-lo mediante o emprego da anlise, exibe em seus pontos mais essenciais uma conformidade com o mecanismo da formao do sonho, que discuti no captulo intitulado 
"O trabalho do sonho", em meu livro A Interpretao dos Sonhos. Em ambos os casos se encontram condensaes e formaes de compromisso (contaminaes); a situao 
 a mesma: por caminhos incomuns e atravs de associaes externas, os pensamentos inconscientes expressam-se como modificao de outros pensamentos. As incongruncias, 
absurdos e erros do contedo do sonho, em conseqncia dos quais  difcil reconhecer o sonho como um produto da atividade psquica, originam-se da mesma maneira 
- embora, decerto, com uma utilizao mais livre dos recursos existentes - que os erros comuns de nossa vida cotidiana; tanto aqui quanto ali, a aparncia de uma 
funo incorreta explica-se pela peculiar interferncia mtua entre duas ou mais funes corretas.
         Dessa conformidade  possvel extrair uma importante concluso: o modo peculiar de trabalho cuja mais notvel realizao se discerne no contedo dos sonhos 
no pode ser atribudo ao estado de sono da vida anmica, uma vez que temos nos atos falhos provas to abundantes de que ele tambm opera durante a vida de viglia. 
A mesma relao tambm nos probe de presumir que esses processos psquicos que nos parecem anormais e estranhos sejam condicionados por uma desintegrao radical 
da atividade anmica ou por estados patolgicos de funcionamento.
         S poderemos ter uma viso correta do singular trabalho psquico que produz tanto os atos falhos quanto as imagens onricas quando tivermos conhecimento 
de que os sintomas psiconeurticos, e especialmente as formaes psquicas da histeria e da neurose obsessiva, repetem em seu mecanismo todas as caractersticas 
essenciais desse modo de trabalhar. Portanto, este  o ponto de partida para o prosseguimento de nossas investigaes. Para ns, contudo, h ainda outro interesse 
especial em considerar os atos falhos, os atos casuais e os atos sintomticos  luz desta ltima analogia. Se os compararmos aos produtos das psiconeuroses, os sintomas 
neurticos, duas afirmaes freqentemente repetidas - a saber, que a fronteira entre a norma e a anormalidade nervosas  fluida e que todos somos um pouco neurticos 
- adquiriro sentido e fundamento. Antes mesmo de qualquer experincia mdica, podemos construir diversos tipos dessas doenas nervosas meramente insinuadas - de 
formes frustes das neuroses: casos em que os sintomas so poucos, ou ocorrem raramente ou sem gravidade; em outras palavras, casos cuja moderao est no nmero, 
na intensidade e na durao de suas manifestaes patolgicas. Por conjetura, entretanto, talvez nunca se chegasse justamente ao tipo que mais freqentemente parece 
constituir a transio entre a sade e a doena. De fato, o tipo que estamos considerando, cujas manifestaes patolgicas so os atos falhos e sintomticos, caracteriza-se 
pelo fato de os sintomas se localizarem nas funes psquicas menos importantes, ao passo que tudo aquilo que ode reivindicar maior valor psquico permanece livre 
de perturbaes. Uma distribuio dos sintomas contrria a essa - seu aparecimento nas funes individuais e sociais mais importantes, a ponto de serem capazes de 
perturbar a alimentao, as relaes sexuais, o trabalho profissional e a vida social -  prpria dos casos graves de neurose e os caracteriza melhor do que, por 
exemplo, a multiplicidade e o vigor de suas manifestaes patolgicas.
         Mas o carter comum a todos os casos, tanto os mais leves quanto os mais graves, e que  igualmente encontrado nos atos falhos e nos atos casuais,  que 
os fenmenos podem ser rastreados a um material psquico incompletamente suprimido, o qual, apesar de repelido pela conscincia, ainda assim no foi despojado de 
toda a sua capacidade de se expressar.



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  Sobre a psicopatologia da vida cotidiana -  Sigmund Freud
